Populares da semana

Relacionados

VII – O improvável se realiza!

Após a “graça de Genazzano”, em muitas circunstâncias da vida, Dr. Plinio esbarrou com o impossível que caminhava em sua direção como um dragão hiante. Entretanto, mesmo na aridez dessa graça, a promessa havia sido feita: tudo se realizará e, no caos do mundo hodierno, Nossa Senhora intervirá de um modo maravilhoso.

A “graça de Genazzano” comunicou-me uma misericordiosa certeza de que Nossa Senhora não me tiraria a vida sem que eu cumprisse a minha missão. Em termos mais precisos e um pouco mais modestos, Ela me garantiria as condições de saúde, de longevidade, para realizar a minha vocação. Assim, todo o resto ficava leve, secundário. Podia até ser que os caminhos intermediários fossem difíceis, mas não tinham o caráter de aflição e de estraçalhamento que poderiam ter se não houvesse essa promessa.

Era um convite, entre outras coisas, para que eu praticasse a virtude da confiança, tendo em vista a devoção a Ela. Ou seja, rezando a Ela sob a invocação de Nossa Senhora de Genazzano, eu receberia graças especialmente abundantes no sentido do cumprimento de minha vocação.

Flávio Lourenço
Jesus resgata São Pedro das águas – Igreja de São Pedro, Piacenza, Itália

Nesses últimos vinte e dois anos, minha vida tem sido dura, mas, apesar disso, é uma brincadeira em comparação com o que foi antes. A partir daquele momento, comecei a confiar em Nossa Senhora de Genaz­zano, certo de que as coisas mais difíceis se desembrulhariam, se resolveriam contra toda expectativa. Foi fundamentalmente a virtude da confiança que aumentou por causa da “graça de Genazzano”.

Confiança provada

Essa graça, entretanto, tinha algo de curioso, que é próprio à confiança. Ela, antes de tudo, nos diz o que é conforme à razão. Às vezes, há coisas que não podemos deduzir, mas percebemos ser plausível que aconteçam. Por exemplo, é razoável que, pela misericórdia de Nossa Senhora, eu cumpra a minha missão. No entanto, não posso provar que a cumprirei, é preciso que Ela faça conhecer isso ao meu espírito por uma comunicação, já que não é uma demonstração matemática.

Essa comunicação é acompanhada de uma espécie de certeza interior, suave, esclarecedora, distensiva, vigorosa; é como se fosse uma palavra de Deus, interna, e que nos dá essa certeza. Mas, às vezes, a Providência quer que caminhemos no escuro.

Ela tem o direito de pedir esse ato de confiança: “Eu te prometi, inúmeras vezes, dei provas de que aconteceriam coisas pouco comuns para que você cumprisse sua missão; agora caminhe na escuridão”. E a graça sensível se retira. Temos de confiar andando às apalpadelas, com muita dificuldade. Nessas circunstâncias é necessário agir de acordo com a razão, a qual dá a certeza de que o que foi sentido naquela ocasião foi uma palavra da graça e não uma imaginação.

Alguém dirá: “Mas, como o senhor tem essa certeza?” Por dois modos: primeiro, porque é um movimento interior. Eu estou num quarto e ouço a voz de uma pessoa amiga minha do outro lado. Se é a voz dela, não vou duvidar, é ela que está falando. Assim devo crer na palavra de Deus. Vou andar tranquilo no meio da tempestade e ainda que ela vá ficando cada vez mais aguda, tenho de me manter na mesma tranquilidade, lembrando-me das palavras outrora ditas.

Há um salmo que diz: “Lætatus sum in his quæ dicta sunt mihi: in domum Domini ibimus – Eu me alegrei com isto que me foi dito: iremos à casa do Senhor” (Sl 121, 1). Seria apenas alterar um pouco o Salmo e pensar: “Lætatus sum in his quæ dicta sunt mihi: vinte anos atrás foi-me prometido ir à casa do Senhor”.

Recordo-me como se tivesse sido hoje, meticulosamente, posso até garantir pela memória que tenho das circunstâncias, que se tratou de algo inteiramente extra e sobrenatural. Foi-me dito que eu irei à casa de meu Senhor cumprir a minha missão. Essa graça reconheço rationabiliter1 como verdadeira, portanto, tenho certeza dela e de que cumprirei minha missão.

Ora, não é fácil, porque vem o demônio e levanta um problema: “É verdade, Ela lhe prometeu; mas será que depois disso você correspondeu à graça? E tão perfeitamente quanto a graça queria ser correspondida? Essa promessa que lhe foi feita por Nossa Senhora é bilateral, supõe um cumprimento de sua parte. Que certeza você tem da inteira realização dessa promessa?”

Arquivo Revista
Sede da Rua Martim Francisco, detalhe da explosão ocorrida em 20 de junho de 1969

Assim começa a discussão e temos que dizer: “Cala-te Satanás!” Ou as palavras de São Bento ao demônio: “Vade retro, Satana… sunt mala quæ libas ipse venena bibas — Vai-te para trás, Satanás, as coisas que tu me ofereces são más, bebe tu o teu próprio veneno!”2 Toca embora! Mas é preciso ter força e, pedindo a Nossa Senhora essa força, nós a conseguimos e temos a paz, tranquilidade dentro da tempestade, às vezes muito forte.

Como São Pedro sobre as águas

Não quero comparar uma coisa pequena com outra enormemente grande, mas há algo de parecido com São Pedro andando sobre as ondas (Cf. Mt 14, 22-36), no seguinte sentido: Nosso Senhor o chamou, ele pôs-se a andar sobre as ondas. Em certo momento, começou a afundar. Pode-se conjeturar a situação assim: ele não duvidava que Nosso Senhor era Deus e pudesse mantê-lo sobre as águas, mas a impressão das ondas sobre as quais ele andava atuou, por uma associação de imagens, sobre o espírito dele, e criou um medo que não era uma dúvida de Nosso Senhor, mas uma pressão das impressões como são na natureza humana.

Assim, há momentos de aridez dessa graça que não importam em nenhuma dúvida, mas nos quais o jogo da impressão das ondas vem e aperta a parte sensível, no sentido de proceder como se houvesse só o risco.

E eu, em muitas circunstâncias vivo isso; convicção tenho inteira, mas as “ondas” muitas vezes me cercam de todos os lados.

É uma impressão sensível que, graças a Nossa Senhora, nunca influencia o meu procedimento externo, mas internamente supõe uma reação contínua de minha parte e, portanto, penosa. É uma batalha interna como a que eu creio que São Pedro devesse ter desferido para andar sobre as águas.

Há certas situações que eu não sei como resolver, em que tudo faz pensar que não se conseguirá aquilo que se quer… Peço e obtenho. Muitos e muitos casos em minha vida foram assim.

Certeza “genazzaniana”

Durante a doença mesmo, começam a operar-se fatos que outrora me deixariam lanhado, como infidelidades dentro do Grupo. Recordo-me de que, quando estava já na fase de convalescença, uma pessoa se aproximou de mim e disse: “Eu queria dizer, com muita tristeza, que não aguento mais, vou sair do Grupo”.

Antigamente me saltaria logo o pensamento: “O culpado é você, analise sua consciência, veja direito, bata no peito, severidade consigo antes de ter com os outros”. Lembro-me que pensei: “A missão se realizará apesar de tudo, e pela palavra de Genazzano devo confiar que todas as coisas desencontradas e trocadas que acontecem no Grupo são provações para a virtude da confiança, mas que, de fato, Nossa Senhora impedirá isso e o sustentará”. Ele permaneceu no Grupo e melhorou muito.

Pouco depois de eu ter me restabelecido, estava à noite deitado, quando recebo um telefonema: “Dr. Plinio, explodiu uma bomba colocada por terroristas, na Sede da Rua Martim Francisco. Mandamos chamar a polícia, e se o senhor quiser ver como as coisas estão correndo, venha”.3

Desde a “graça de Genazzano”, quantos e quantos fatos desse gênero, impossíveis, inverossímeis, perigos de estrondejar, de arrebentar que se deram. Uma série de provações de toda ordem mais uma vez cortou o caminho de minha vida, uma sucessão de coisas que dava para naufragar, mas o barco foi atravessando, avançando para a frente, tranquilo. Navegando contra todas as marés, contra todos os improváveis, sempre amparado por essa certeza “genazzaniana” é que eu tenho conseguido levar até aqui a luta terrível que estava diante de mim, e cheguei até agora.

Tive tantos, tantos aborrecimentos que, se não fosse a confiança em Nossa Senhora de Genazzano, eu teria morrido. Mas, com a confiança n’Ela, me foi dado aguentar os piores, os mais graves, com serenidade, certo de que Nossa Senhora ajudaria e me faria sair do apuro por causa daquela promessa que Ela me fez e que, portanto, eu, continuando para frente – com calma! – mereceria que essa situação se resolvesse. Assim atravessei uma quantidade inimaginável de apuros e, graças a Ela, com as condições físicas compatíveis com a minha idade, mantendo uma produtividade bastante grande.

Nossa Senhora faz os impossíveis acontecerem, mas depois de meu peito esbarrar com toda a força no impossível e de ele se colocar diante de mim como um dragão hiante, pronto a me devorar. E a “graça de Genazzano” foi exatamente a celeste solução, a seguinte resposta: “Eu farei. Vá para frente, porque Eu farei!”

Depois dessa graça, sobrepaira em minha alma a convicção – que resiste a todas as impressões e a todas as apreensões em sentido contrário – de que, apesar do vaivém mais terrível, mais embaralhado e mais complicado que possa haver, prevalecerá o desígnio de Nossa Senhora, que é a vitória da Contra-Revolução. Ela poderá ter todos os contornos de um “rio chinês”, mas no ponto em que as águas do mar virem as águas do rio, tudo se transforma em canal e as águas do rio cairão no mar inevitavelmente. Eu tenho certeza de que Nossa Senhora não mentirá em sua promessa e que tudo sairá de acordo com a maior glória d’Ela. E a mim, me basta saber que a obra d’Ela não se desmerecerá nas minhas mãos!

Ponha-se a coisa como se puser, minha primeira obrigação é a da tranquilidade absoluta: não me permitir a mim mesmo nenhuma dúvida a esse respeito, porque tenho uma promessa, a qual não duvido nem um pouco que tenha sido de Nossa Senhora.

Uma promessa que se estende a todos

Creio que essa promessa de algum modo não é só para mim, mas se estende também a todos os meus filhos, tendo comigo a vinculação que têm. Nossa Senhora, tendo-os chamado sem mérito algum e dado tantas graças, Ela os fez ver que há uma vinculação entre cada um e mim, que faz com que a promessa de que a “Bagarre”4 se dará e o Reino de Maria virá, acompanhada da certeza de que nós vamos participar do triunfo e da glória do Reino de Maria, estenda-se também a todos. E daí a minha contínua oração a Nossa Senhora de Genazzano para nos ajudar.  Notem que não digo “para me ajudar”, mas “para nos ajudar”.

E, portanto, a confiança nessa vinculação e a esperança de obter isso deve levá-los a uma tranquilidade não idêntica talvez, mas análoga à minha. Ou seja, por paus e por pedras, seja de que modo for, nós chegaremos ao nosso destino e Nossa Senhora nos fará ver isto, aquilo, aquilo outro, mas Ela não nos abandonará. Devemos, então, com muita confiança, enfrentar tudo o que aparecer.

Arquivo Revista
Conferência realizada por Dr. Plinio em 1991

Agora, eis-nos chegados ao caos, portanto, à “Bagarre”, porque nós sempre entendemos que a “Bagarre” seria um caos sangrento, cruento, a agitação e a perturbação de toda a ordem e de todas as coisas. Essa perturbação invadiu o mundo. Mais ainda: o caos se levantou na vida cultural, social e política dos povos como se fosse um novo valor intelectual que aparece. Do caos se espera, por uma estranha gênese, a ordem; dele se espera que nasça o bom e o verdadeiro, quando ele é o mal e o desordenado.

Por isso, estranhos apóstolos do mal percorrem todos os distritos políticos, sociais, étnicos e religiosos da Terra anunciando que o caos se fará e que nele está a vitória, quando nós proclamamos que o caos é a derrota, é o advento do reino do demônio. E esse reino só não se dará porque nós, com a certeza de nossa fé, com a certeza de nossa axiologia, afirmamos: “Não se dará! Do caos não nascerá a ordem, mas do esmagamento dele ela nascerá. E nisso nós confiamos firmemente, porque cremos na vitória de Maria”. Aí está o mesmo esquema: algo que parece improvável, mas que por uma intervenção de Nossa Senhora se realizará sempre de modo maravilhoso. Essa realização assim é própria à imagem e à devoção a Nossa Senhora de Genazzano.

Eu não hesito em dizer que a expressão invocativa de Nossa Senhora do Bom Conselho se confundirá, talvez, algum dia, com a de Nossa Senhora da “Bagarre”.

1) Do latim: racional, com base na razão.

2) Fórmula medieval de exorcismo, atribuída a São Bento de Núrsia, que consta na medalha que leva seu nome.

3) Em 20 de junho de 1969.

4) Do francês: conflito desordenado e profundo. Palavra usada por Dr. Plinio para se referir ao grande castigo de Deus à humanidade, se esta não se voltar para Ele, profetizado por Nossa Senhora em Fátima.

Artigos populares