Por filial iniciativa, Dr. Plinio recebeu, em ação de graças por seu octogésimo aniversário, uma viagem a Genazzano, prolongando-a depois por outras partes da Europa. O ponto auge, entretanto, foi suplicar à Santíssima Virgem graças para si e para os seus, e também para toda a Igreja.
Por uma especial atenção arranjada entre amigos pelo João Clá, eu fiz um rápido giro pela Europa por ocasião de meu octogésimo aniversário. Na ocasião estive em Genazzano.
Principal objetivo da viagem
Eu já tinha informações sobre essa cidade, que representa para nós algo de fundamental, através de uma esplêndida reportagem do João, abundantemente fotográfica. Do afresco de Nossa Senhora eu já conhecia magníficas reproduções, além da estampa, modestíssima e comum que, em certo momento de minha vida, me disse tacitamente uma palavra que até agora ecoa aos ouvidos de meu coração.
Eu não excluía por inteiro a ideia de passar por Roma e visitar alguns locais da Cidade Eterna, mas de modo muito rápido, sem ter o menor intuito de fazer uma parada longa; depois, voltaria para São Paulo. Pois, por mais que eu tivesse empenho em estar com os diversos Grupos na Europa, conhecer alguns lugares, venerar Nossa Senhora e adorar a Deus em vários santuários, não deixava de ser verdade que Genazzano ocupava a posição número um nas minhas preocupações e no meu espírito.
Diante da Mãe do Bom Conselho, pedir tudo
Assim sendo, quais foram os meus verdadeiros propósitos, as verdadeiras razões dessa visita a Genazzano? Esta é a pergunta mestra a se pôr ao começar estas minhas rápidas recordações da viagem, mas eu a ponho assim tão crua porque está claro que eu quero responder de uma maneira inteiramente franca.
Essa viagem nasceu do meu desejo de fazer uma peregrinação para agradecer a Nossa Senhora vários favores – de forma especial a “graça de Genazzano” –, apresentar reparação por faltas e pedir-Lhe graças. O que pedi a Nossa Senhora do Bom Conselho? Tudo! Tudo quanto alguém possa imaginar que se peça.
Nossa Senhora toca cada alma a seu modo, e eu acho que a união de almas existente entre nós não impede que cada um seja levado por Nossa Senhora de uma determinada maneira.
Por exemplo, Santa Teresa, a Grande, foi favorecida maravilhosamente com uma via mística extraordinária, enquanto Santa Teresinha do Menino Jesus não teve visões nem revelações, viveu na aridez a “pequena via”, que todos conhecem. Santa Teresinha era filha espiritual de Santa Teresa e não cometia uma infidelidade passando por uma vereda diferente da fundadora, porque era o caminho que Deus lhe indicava. Ela vivia isso num espírito carmelitano.
Portanto, o que eu vou dizer não constitui para ninguém uma obrigação de ser assim. Cada filho meu se mova segundo seu próprio ímpeto de alma, pois Nossa Senhora quer de cada um a oração que este deve fazer. No meu modo de ser, há uma forma de reverência para com Ela, de maneira que eu fico sempre com um certo receio de estar pedindo algo não inteiramente desejado por Ela e, portanto, ponho sempre uma condicional.
Contudo, se uma oração é necessária para fazer andar as coisas, para mover a Contra-Revolução, de maneira que a convivência dela com a Revolução se torne insuportável; se um desfecho dessa situação depende de uma oração, então, façamo-la! Na minha condição de Fundador, eu me sinto mandatário para fazer essa oração, porque está na natureza mesma das coisas.
Eu não quero dizer que foi essa a razão mais premente, a que imediatamente me levou a Genazzano, mas eu me limito a estabelecê-la como ponto de referência, por tratar-se de uma questão que me toca no fundo da alma.
Que Ela queime etapas!
Supliquei, pois, que, se fosse o desígnio d’Ela, condescendesse em mandar a “Bagarre” e o “Grand Retour”,1 condições que as circunstâncias tornam óbvias para que seja implantado o Reino de Maria. O “Grand Retour”, entretanto, pedi sem condições, porque isso é tão da glória e tão da graça d’Ela que eu fico sem saber o que dizer.

Mas por que fazer essa oração à Mãe do Bom Conselho e não a Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou a qualquer outra invocação?
Porque aquela comunicação sobrenatural de Nossa Senhora, aquela palavra inefável – sobre a qual eu não tenho nenhuma dúvida –, tranquilizou-me sobre o ponto central que tinha sido a causa de minha enfermidade: a minha vocação se realizaria!
E tranquilizado dessa maneira pela Santíssima Virgem, é natural que eu fosse a Genazzano para dizer: “Minha Mãe, os anos se passaram. Eu continuo na certeza de que minha vocação se realizará. Mas quando?” Por isso, eu pedi a Ela, avidamente, que queimasse as etapas!
Além disso, pedi empenhada e insistentemente algumas coisas difíceis de obter, de forma especial uma graça de caráter espiritual e interior para mim. Foi com esse espírito que eu me dirigi a Genazzano, ponto principal da minha peregrinação.
Perdoai, Senhora, os nossos pecados
Como eu ia em visita de desagravo, era natural que eu também fizesse um pedido de perdão.
Tendo Nossa Senhora me conservado a vida até os oitenta anos – sessenta dedicados ao apostolado –, e tendo em vista o vale profundo onde as coisas chegaram no mundo e as circunstâncias em que nos encontramos dentro do Brasil especificamente, eu tomei a ousadia de falar um pouco com Nossa Senhora a respeito de prazos e recitei-Lhe uma frase que se canta numa das horas do Ofício: “Veni Domine, noli tardare, relaxa scelera plebis tuæ Israel”.2 Transposto para Ela seria: “Vinde Senhora, não tardeis, e perdoai os delitos do vosso povo, Israel”.
Eu sei bem que o povo de Nossa Senhora no Novo Testamento é a Santa Igreja Católica. Então, como membro dela, não mais do que isso, eu pedi perdão pelas inumeráveis ingratidões da Esposa Mística de Cristo; e se, em algum sentido da palavra, o Grupo pode chamar-se o povo de Nossa Senhora dentro da Igreja de hoje, que Ela perdoasse todos os defeitos, pecados, desobediências, omissões etc., minhas e de todos os outros. E que isso não seja razão para adiar ainda mais uma situação que chega a um paroxismo verdadeiramente inimaginável.
Nenhuma manifestação especial do afresco
Eu não quero dizer que se passou algo entre Ela e mim, mas é evidente que há coisas que se passam entre a alma e a Santíssima Virgem, porque no católico piedoso há sempre uma relação de ordem sobrenatural que se estabelece com Ela, com Deus, sempre por uma ação da graça. E muitas vezes é uma ação intensiva, sensível, por meio da qual Nossa Senhora dispensa muitos favores.
Entretanto, apesar de eu ter recebido aquela graça sensível, tão importante e que todos já conhecem, devo dizer as coisas como são, com toda franqueza, porque o que Nossa Senhora faz é sempre o melhor e, portanto, não há razão para esconder o que Ela faz, muito menos para mentir: em Genazzano – eu estive longamente lá, quatro dias, e nós ficamos rezando horas no Santuário –, em nenhum momento da minha oração eu notei mudança de fisionomia no afresco. Tive a impressão de que estava absolutamente comum, sem manifestação especial, nem mesmo as de rotina – porque é quase de rotina a pessoa chegar lá e o quadro exprimir-se. Ele esteve tão imóvel e tão inexpressivo quanto costuma estar o que eu tenho no meu quarto, o qual, entretanto, foi instrumento de uma tão esplêndida manifestação de Nossa Senhora para comigo.
Como me seria agradável e alegre dizer que Ela sorriu para mim, que Se manifestou desse ou daquele modo, ou que Ela me tivesse dito: “Quando estiver com Fulano, diga-lhe que Eu o quero muito especialmente…” Então, logo que eu descesse do avião no aeroporto, telefonaria para lhe dizer: “Venha encontrar-me a tal hora, porque eu tenho uma mensagem de Nossa Senhora de Genazzano para você”. Não é verdade! Não foi o que se deu, nem foi o que Ela julgou bom fazer. Foi uma aridez completa.
Eu esperava uma graça mais sensível, mais reluzente, como a que tive no Hospital Sírio-Libanês, mas esta não veio. Também esperava que isso se desse por ocasião da visita ao Bem-aventurado Stefano Bellesini… Nada! São as disposições d’Ela.
É preciso dizer que coisas dessas não são raras em minha vida. Durante o período do meu desastre, a Sagrada Imagem de Nossa Senhora de Fátima estava aqui em São Paulo, e tiveram o belo gesto de pô-la no quarto de mamãe, onde eu estava todo metido em aparelhos, tendo-A sempre diante dos olhos. Naturalmente, eu rezei tomando a imagem em conta, mas ela foi insensível para mim durante todo esse tempo, como se fosse uma boneca de pau.

Entretanto, a Santíssima Virgem nos ajudou poderosamente em muitas circunstâncias decisivas, donde se deduz que a não manifestação de sinais externos é uma provação a que Ela nos quer sujeitar e à qual está sujeito o comum dos fiéis. Isso não quer dizer nem um pouco que Nossa Senhora não nos atenda.
Uma visita que me deixou com a alma plena!
Em Genazzano, o meu intuito era prestar culto a Nossa Senhora, como também venerar e pedir graças diante dos restos mortais do Bem-aventurado Stefano Bellesini – que não estão propriamente na igreja, mas numa capela ou salão contíguo, anexo – e rezar no lugar onde está sepultada a Bem-aventurada Petruccia.
O nosso João já deixou em Genazzano a marca de cem passagens dele por lá, de maneira que é muito bem visto pelos padres. Nós tivemos toda facilidade de entrar e permanecer no Santuário, e estivemos várias vezes rezando ali longamente diante de Nossa Senhora.
Eu tive conhecimento de que, ao contrário do que temia, em São Paulo a notícia de minha viagem tinha sido acompanhada de uma onda de graças, e isso me tranquilizava e alegrava muito. Fui, portanto, agradecido a Nossa Senhora e com o espírito desanuviado quanto a esse ponto capital.
Uma noite eu consagrei a percorrer a cidadezinha de Genazzano, que é um verdadeiro encanto. Passando por aquelas ruelas e olhando ao redor, nota-se que algo de sociedade orgânica e daquele modo de viver italiano, da Itália autêntica, ainda se impregna naquilo. As graças ligadas ao antigo estado de espírito ficam, por assim dizer, como um resto de fumaça aderente às velhas paredes, aos velhos muros, de maneira que ainda se pode sentir que houve alguma coisa nesse sentido.
Por fim, minha estadia em Genazzano estava encerrada. Mas eu devo dizer que saí de lá na paz de minha alma, muito animado, muito encorajado. Animado, vem do latim anima, ou seja, com a alma plena!
Uma coisa é positiva: essa viagem trouxe muitas graças para os membros do Grupo em São Paulo e no mundo inteiro, o que eu interpreto como um sinal de que Nossa Senhora queria a viagem e de que Ela me ouviria.
Minha visita à Mãe do Bom Conselho atingiu a sua meta
Eu seria atendido no que eu pedi em Genazzano ou não? Qual seria o resultado da prece que fiz? Eu teria que deduzir isso em seco do seguinte: a Doutrina Católica nos ensina que Nossa Senhora é Mãe de misericórdia e ouve todas as preces que Lhe são dirigidas. Nessas circunstâncias, Ela ouve a minha também. E o que for para o meu maior bem e para o maior bem da Causa d’Ela, sem dúvida ouvirá. Evidentemente não rezei só por mim, mas por todos os membros do Grupo: os que foram, os que são e os que serão chamados; pedi muito por essas três categorias.
No decurso da viagem, algo com relação ao Segredo de Maria3 que eu queria saber e sobre o que eu tinha refletido muitas vezes sem conseguir elucidar, se tornou mais claro para mim.
Inesperadamente, no decorrer do tempo, eu fui recebendo e continuo a receber algumas das graças que pedi, e tenho com isso a fundada esperança de que receba todas. Portanto, minha visita atingiu sua meta! Deixemos o tempo dizer.4
1) Do francês, literalmente: “grande retorno”. No início da década de 1940, houve na França extraordinário incremento do espírito religioso, quando das peregrinações de quatro imagens de Nossa Senhora de Boulogne. Tal movimento foi denominado de “Grand Retour”, para indicar o imenso retorno daquele país a seu antigo e autêntico fervor, então esmaecido. Ao tomar conhecimento desses fatos, Dr. Plinio começou a empregar a expressão “Grand Retour” no sentido não só de “grande retorno”, mas de uma vinda de uma torrente avassaladora de graças que, através da Virgem Santíssima, Deus concederá ao mundo para a implantação do Reino de Maria.
2) Hora tercia: Responsorium. Quare tardas, Deus? Veni: et libera populum tuum; te enim expectat omnis Israel. V/. Veni, Domine, noli tardare: relaxa facinora plebis tuæ.
3) Misteriosa forma de aliança de Nossa Senhora com as almas, descrita por São Luís Grignion de Montfort, pela qual Maria atua de modo especialíssimo, tornando mais fácil e frutuosa a vida espiritual. Cf. Dr. Plinio n. 156, p. 27.
4) Cf. Conferências de 26/4/1966, 14/6/1967, 16/12/1975, 16/12/1985, 19/7/1988, 22/8/1988, 21/9/1988, 8/10/1988, 5/11/1988, 6/11/1988, 6/1/1989, 8/4/1989, 26/4/1995.




