Populares da semana

Relacionados

Pureza: requisito essencial para adquirir a mentalidade do Sagrado Coração de Jesus

Desde tenra infância, Dr. Plinio percebeu que tudo o que é vil, criminoso e pecaminoso corta o circuito enorme de coesão e de afinidades entre Deus e os homens. Por isso procurou sempre conhecer, admirar e amar a virtude da pureza, lutando para manter a elevação de espírito e adquirir em tudo a mentalidade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Todas as coisas que Deus faz têm uma razão de ser. E eu várias vezes me perguntei: qual seria a razão das miragens?

Uma analogia: as miragens

É fácil entendê-las supondo que Deus favorece com elas os que andam pelo deserto, fazendo-os conhecer uma paisagem maravilhosa à distância, dando-lhes vontade de encontrar logo esse lugar e ajudando-os na caminhada.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1986

Mas, por que Deus dispôs a natureza de tal maneira que a miragem cria no homem – extenuado, torrado de calor durante o dia, enregelado de frio durante a noite, devastado pelo vento simum, que apenas pode conversar com seu camelo a linguagem inevitavelmente muda desse animal –, uma visão errada pela qual ele imagina estar entrando num lugar em que de fato não está, e assim aumentando seus tormentos ao invés de atenuá-los?

A Terra é um vale de lágrimas; seriam lágrimas a mais para serem choradas pelo viandante? É uma explicação válida, mas alguém poderia dizer: “É tão difícil atravessar o deserto a pé, e ainda mais isso!?” Quantas coisas terríveis nos acontecem na vida e nós temos de aguentá-las e ir para frente.

Às vezes eu me pergunto se a miragem, em seu sentido metafórico, não é também uma vantagem, pois certas ilusões que nos levam a admirar são um benefício para nós; devemos respeitá-las.

O caminho para se adquirir uma virtude

O fato de um homem, pelo favor de Nossa Senhora, ter conservado a castidade durante a vida inteira, por um lado é algo admirável, mas por outro não é tão extraordinário.

No começo de minha juventude, a pureza foi para mim uma virtude difícil. Mais tarde Nossa Senhora me ajudou e tornou-se muito mais fácil. Eu não quero criar a ideia de um jovem angélico que nunca teve a baixeza de sentir os estímulos da carne; sei que sentir não é pecar, desde que se rejeite e reaja. Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer que senti e tive de lutar muito.

Gabriel K. / giomodica (CC3.0)

Ora, para lutar é preciso conhecer, admirar e amar. Conhecer significa saber bem no que consiste a virtude pela qual se está batalhando e onde está o bem dessa virtude. A partir de então, admirar, tomar diante dela uma posição contemplativa: “Ó, quão belo é!”; contemplar, analisar e deixar-se influenciar por essa admiração, porque a admiração é filha da análise daquilo que é admirável. Por fim, amá-la, desejá-la para si, querer que os outros a tenham, e reprovar quem não a tem.

Contemplando a alma do Sagrado Coração de Jesus

Por que eu admirei e admiro tanto a virtude da pureza? Eu sabia descrever porque ela era bonita, mas não sabia enunciar o que ela era. Foi apenas mais tarde que descobri o que era.

Por um auxílio da graça, ao ver a imagem do Sagrado Coração de Jesus e outras que conheci quando menino, eu fazia uma abstração do que havia de defeituoso, de artisticamente discutível, para ver o modelo que o escultor ou o pintor não tinha conseguido realizar.

O modelo era de tal maneira acessível aos meus olhos, que eu não chegava a perceber que aquela imagem não O realizava por inteiro. Para o bem de minha alma, eu tinha uma espécie de miragem por onde eu via um Sagrado Coração de Jesus ideal. Até certo ponto era uma miragem, que não estava na imagem ou estava de um modo incompleto, e o que eu via era completo. Não era de nenhum modo uma visão ou uma ilusão dos olhos – eu tinha uma vista esplêndida – era uma espécie de ilusão da mente a propósito de uma imagem vista pelos olhos.

Por algum lado eu fazia ideia de como seria a perfeição da alma humana quando habitada pela graça. Eu ouvira falar da graça, mas não sabia que era uma coisa muito preciosa. E isto dava na seguinte consideração: Nosso Senhor Jesus Cristo, ao lado de sua natureza divina, tem uma alma verdadeiramente humana unida ao corpo. Essa alma, que eu via mais imediatamente quando olhava para a imagem, me parecia que estava num colóquio, num conhecimento, num contato, numa conversa com a natureza divina que Ele conhecia dentro de Si mesmo por experiência própria, o que Lhe conferia uma elevação de vistas, de propósitos e de desejos, uma sabedoria insondável a respeito de todas as coisas.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1924

Ele, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, conhecia a sua própria natureza como cada um de nós se conhece a si próprio; isso fazia com que os mais altos píncaros que se possa imaginar do cogitar humano, as coisas mais belas para admirar, mais excelsas para amar, tudo isso Ele via, admirava e amava de um modo perfeitíssimo, de maneira tal que enchia a sua natureza humana de uma excelência e de um esplendor que eram divinos. Ele estaria para Deus mais ou menos como um espelho para o Sol: quem vê o espelho não vê o Sol, mas quem vê o espelho vê o Sol.

Um amor imensamente capaz de elevar

Isso produzia o efeito que eu notava nas imagens: uma elevação enorme, uma amplitude – mas coisa curiosa, não estranhem o contraditório – não apenas para cima, mas para baixo. Ele estava no píncaro de toda a criação e, pelo fato de ter essa comunicação com Deus, Ele possuía um amor capaz de abarcar tudo o que estava abaixo d’Ele.

Grãozinho de areia por grãozinho de areia, ameba por ameba, corpúsculo por corpúsculo… Ele ama aquilo com uma intensidade que penetra, ilumina por dentro e, de algum modo, eleva a Si aquela coisinha insignificante. Um grão de areia, quem não o calca aos pés? Mas o Sagrado Coração de Jesus o ama.

Assim como a luz do Sol numa praia pode fazer refulgir como brilhante um grão de areia minúsculo, assim o amor de Deus incide em tudo. Ele, que conhece todas as coisas e para quem não há memória – o presente, o passado e o futuro são simultâneos por toda a eternidade –, Se lembra até dos seres transitórios que já tenham deixado de existir.

Flávio Aliança

Isso revela o que eu chamaria de capacidade de ligação, por onde Ele forma um nexo entre as mais elevadas altitudes do Padre Eterno e o último serzinho que se arrasta dentro da terra e nunca vê a luz do Sol, a última partícula de estrelas perdidas na atmosfera de que o homem nunca terá conhecimento. Tudo forma com Ele um nexo e tudo Ele liga, ama e ordena pela imensidade do seu amor. Um amor capaz de elevar, porque o que é amado por Ele sobe. O que indica ser um amor com tal calor, de uma bondade tão penetrante, tão tranquilizante, que nada pode abalar.

Maria Santíssima, criada para perdoar além dos limites

Na fisionomia das imagens do Sagrado Coração de Jesus o que mais me agradava era a atitude de grande elevação, oposta a tudo quanto é vil, oposta ao pecado, ao erro, ao crime e, de algum modo, a tudo o que corta esse circuito enorme de coesão e de afinidades que há entre Deus e a criação. E disso estão excluídos, com o ódio permanente d’Ele – ódio forte como o é seu próprio amor –, os demônios, anjos decaídos, e os precitos, homens condenados por toda a eternidade.

Ele se apresenta meditativo, não só como quem possui um conhecimento profundo de tudo, mas que analisa e qualifica tudo de um modo perfeito e, por isso, ama ou odeia de um modo adequado. Sua vida é um profundo, luminoso, eterno, concentrado, aberto e convidativo meditar. Mas um meditar com uma nota de tristeza. É a maior tristeza que jamais alguém teve; ela enche sua alma de um dolorido que, até quando inspira compaixão, é altaneiro e sobranceiro. Ele não Se sente diminuído, nem humilhado, mas aguenta sua dor, sem sequer pedir que ela seja abreviada.

Flávio Lourenço
Imaculado Coração – Igreja de São Francisco, Porto de Santa Maria, Espanha

Ele olha para os homens convidando-os para um perdão: “Querem continuar? Querem me fazer sofrer? Eu não os odiarei por isso antes de ter chegado a hora da minha cólera. Ainda há para o meu perdão espaço no meu Coração. Meu filho, venha e preencha esse espaço. Entre nele, ame-o, Eu o convido para isso. Ao meu lado está minha Mãe que pede por ti. Minha bondade foi tal que, prevendo que você não a mereceria, eu dispus esse meio maravilhoso: uma Mãe que lhe perdoasse e que Me pedisse perdão por você quando a minha hora de perdoar já se tinha esgotado”.

Para quando não houvesse perdão para nós, Ele criou uma intercessora virginal, Nossa Senhora, que intercede junto a Ele para perdoar além dos limites que Ele próprio traçou. É uma misericórdia levada ao último ponto: “Meu filho, não quer aproveitar? Aqui está o meu Coração”. Uma alma assim, eu teria vontade de passar a vida inteira contemplando-a, convivendo com Ela, ainda que Se esquecesse de minha presença junto a Si.

A suma perfeição

Tudo o que Nosso Senhor fez é tão perfeito que eu não me atrevo a dizer que determinada coisa foi mais perfeita que outra; mas o que mais me toca e impressiona são as orações d’Ele. Quando Ele se dirige ao Padre Eterno com aquela familiaridade, de grandeza a grandeza, e aquela humildade de Filho para Pai, dizendo: “Meu Pai…” Só essa interjeição, “Meu Pai”, eleva nossas almas e as põe em grande humildade, porque se este é Ele, quem somos nós perto d’Ele? Salve Regina, Mater misericordiæ, porque não há outra saída.

Imagine Nosso Senhor durante os quarenta dias em que esteve no deserto orando e jejuando: ajoelhado junto a uma pedra, um lindo luar do Oriente, a noite estrelada, o silêncio do deserto, a poesia da Terra Santa e Ele dizendo: “Meu Pai…” Vendo-O rezar a sós, quem de nós, aproximando-se sem que Ele tivesse percebido, ousaria tocar com a ponta do dedo n’Ele para chamar a atenção sobre um pássaro? Ou para dizer: “Senhor, um fariseu disse contra Vós tal coisa”? Ele está conversando com o Pai e eu venho falar a respeito de tal fariseu, de Herodes, vou contar o último roubo que Judas fez, ou um pecado que cometi? Não é possível! É melhor dizer bem baixinho, invocando a intercessão de Nossa Senhora: Anima Christi, sanctífica me. Se Ele não me santificar, quem me santificará, quando a santidade por essência é Ele?

Ambientes outrora pervadidos pela atmosfera do Sagrado Coração

Parecia-me, e não me enganava, que os velhos ambientes tradicionais de outrora, ainda que afastados da religião, por efeito da graça e da tradição conservavam algo muito pálido dessa elevação do Sagrado Coração de Jesus.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1986

Eu me lembro como eram recolhidos e luxuosos certos solares antigos do bairro dos Campos Elíseos, mas também nobres e serenos. Eles convidavam ao pensamento, à reflexão, às boas maneiras, à ordem, ao amor recíproco, mas um amor cheio de nobreza, onde havia intimidade, é verdade, mas repleta de categoria. Eu compreendia que no passado do Brasil, filho do passado de Portugal que viveu a Idade Média e onde luziu a alma do Condestável, o Bem-aventurado Nuno Álvares Pereira, havia qualquer coisa de espiritual que continuava e que era o reflexo dessa civilização profundamente cristã.

Quando eu voltava do Santuário do Sagrado Coração de Jesus e entrava em alguma dessas casas, eu sentia a consonância daquilo com o Coração de Jesus, embora, na indignação e na tristeza de minha alma eu percebesse – entrava pelos olhos e pelos ouvidos –, o ateísmo, o igualitarismo que já existia. Era tal a tradição que ainda havia, que mesmo as pessoas igualitárias, proclamando a igualdade, o faziam com gestos nobres. Entretanto, eu já entrevia a influência de Hollywood e, nesse bairro onde havia tantos solares antigos, começavam a construir bangalôs e a conspurcar assim a cidade de São Paulo.

Eu frequentei muitos bangalôs, muitas casas em estilo americano, com pessoas já com mentalidade hollywoodiana: risadas, gargalhadas, música jazz-band. Tudo ia desaparecendo, a reflexão, a seriedade, a bondade e o nexo admirável de todas as coisas com Deus, pelo qual é impossível deitarmos a atenção em qualquer coisa sem notar até que ponto ela nos leva até Nosso Senhor Jesus Cristo, até Nossa Senhora. Toda a elevação foi se rompendo e dando nas risadas e nas palhaçadas, na impureza.

Eu conheci antigos casais que pela má índole do marido, muito raramente da mulher, passavam dramas. Tal era o senso de indissolubilidade do matrimônio existente naquela época que não se podia cogitar em divórcio. O casamento tinha soldado os dois um no outro e não pensavam no divórcio. Quando acontecia o caso extremo da separação, esta era dentro de casa, velada; podiam viver em quartos vizinhos, mas nem os criados chegavam a perceber se havia ou não a separação.

Nessas condições eu comecei a ver a Revolução e a impureza em todo o seu horror, e compreendi que, para ter aquele espírito do Sagrado Coração de Jesus, era indispensável ser puro; do contrário, mais cedo ou mais tarde, eu apostatava daquela mentalidade. E como eu desejava tê-la como a luz de meus olhos, então devia amar a pureza. Qualquer olhar ou pensamento impuros em que eu consentisse seriam como uma pedrada que eu jogava nesse mundo de porcelana e de cristal, através do qual filtrava a própria luz de Deus. Então eu firmei esta resolução: Não! Custe o que custar, não! O espírito é pronto, mas a carne é fraca, não importa! Salve Regina, Mater misericordiæ, Auxilium Christianorum, ora pro nobis!

(Extraído de conferência de 9/1/1986)

Artigos populares