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A Mãe e Senhora, esplendor do Carmelo, e sua ação sobre a humanidade pecadora

A lacrimação de Nossa Senhora em Nova Orleans é o eco dolorido do aviso dado por Ela na Cova da Iria em 1917. O que espera o mundo de hoje, que não se emenda de seus pecados?

Há um pequeno fato da vida corrente, muitas vezes notado e que parece sem maior significação: conversa-se com uma pessoa e, de repente, falta a ela o termo adequado para exprimir seu pensamento. Ela tartamudeia, hesita e alguém que está ao lado lhe propõe a palavra. A pessoa tem um alívio, toma a palavra com certa ênfase, veemência e continua.

Para ela o pensamento estava encalhado na mente, não se definia, não se exprimia enquanto aquele vocábulo não aparecia, e a ejeção brilhante do pensamento que encontra a expressão adequada é como que uma respiração para a alma que estava em suspenso em todo o seu funcionamento.

As saudades que gemem na alma dos contrarrevolucionários

Ora, para o homem de hoje em dia acontece isso. Há em sua alma um contrarrevolucionário que dorme – às vezes de um sono profundo, terrível, mas real –, que teria vontade de objetar algo à Revolução que fala, que estadeia as suas pompas, se afirma, proclama; contudo, diante dela ele não sabe o que dizer… Faltam-lhe não só as palavras que proclamem a verdade, mas os símbolos, as cerimônias, os ritos que a representem.

Chairman (CC3.0)
Trooping the Colour de 2019 – Londres

Não só isso – oh, quanta dor! – faltam, no seu integral esplendor, na sua incondicional ortodoxia, os ritos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Essa é a falta suprema, irremediável enquanto eles não forem restaurados!

Mas também à vida civil, reduzida a uma tediosa banalidade e a uma trivial vulgaridade, faltam-lhe as cerimônias, os estilos, aqueles reluzimentos das pompas de outrora, nas quais os grandes encontravam a expressão de sua grandeza e os pequenos a grandeza da nação. Isso tudo desapareceu quase completamente.

Há, pois, na alma do homem contemporâneo algo que geme à procura de expressão. É o contrarrevolucionário que gostaria de se manifestar. Prova disso – e quão eloquente – tivemos com o casamento do Príncipe Charles.1 Calcularam-se em dezenas de milhões de pessoas do mundo inteiro que acordaram ou se mantiveram despertas em horas incômodas, para assistir à cerimônia do início ao fim.

Por que um cerimonial na longínqua Inglaterra – respeitável enquanto escrínio de tradições – atraiu os olhos do mundo inteiro? É única e exclusivamente porque o mundo tinha saudades deles.

Tinham saudades os homens de idade madura que ouviram falar delas como algo que ainda palpitava nas recordações de há pouco, mas que não chegaram a vê-la; tinham saudades os jovens, para os quais elas faziam parte de uma mitologia. Todos queriam contemplar alguém que andasse numa carruagem dourada, com pajens, com lacaios; desejavam ver corcéis magníficos que cavalgam, queriam os desdobramentos de pompas de outrora porque algo lhes dizia: “Temos saudades do cerimonial!”

Quanto é verdade que essas saudades são mais intensas, não na alma do homem comum que anda pela rua, no qual dorme um contrarrevolucionário, mas na alma do contrarrevolucionário que tem saudades das pompas nas quais ele se exprimia inteiramente. Saudades de um passado que lhe falava de sobrenatural, de fé, de grandeza, de combatividade, de harmonia, de arte, de bom gosto, de desfiles que davam a impressão de fabulosos exércitos que andavam nas nuvens. Disso tem saudades, no fundo de sua alma, o contrarrevolucionário, porque tem vontade de exprimir aquilo que deseja, mas que não encontra as formas externas que deem respiração e expressão ao que está em seu interior.

Nossa Senhora, a profética beleza do gênero humano

Essa foi a alegria que experimentamos nesta cerimônia2 em que festejamos Nossa Senhora do Carmo, a título especial Rainha dos Profetas, Mãe e esplendor do Carmelo – Mater et decor Carmeli.

Divulgação (CC3.0)
Imagem de Nossa Senhora de Fátima que verteu lágrimas em Nova Orleans, em 1972

Do alto do Monte Carmelo, a montanha profética por excelência, Nossa Senhora reina e sorri para o universo, governa a História e infunde terror aos demônios.

Ela é a Mãe, porque protege todos aqueles que lutam sob seu estandarte. E o melhor da proteção é acalentar a alma deles com a esperança da vitória.

O que significa decor? No português corrente diz-se de algo que mantém ou ressalta, viola, transgride ou comprime o decoro. O que é o decoro? É propriamente a beleza da dignidade. É o pulcro majestoso, distinto e diferenciador da grandeza, que na medida em que se ergue e se manifesta superior, rejeita a banalidade e atrai a si as almas verdadeiramente capazes de compreendê-lo. Essa é a velha acepção do vocábulo.

Do cimo do Carmelo Nossa Senhora reina maternal, mas decorosamente. Ela é a profética beleza do gênero humano.

Embora voltar-se para o passado seja uma das atitudes nobres da alma humana – feita de riquezas que não se esgotam nessa atitude –, ela pede algo a mais, pois tem vontade de produzir o futuro. O bem-estar da alma existe quando o homem nota uma continuidade entre o passado e o futuro. O sentido do presente é de ser um hífen e não uma gota sem nexo atirada à margem do tempo.

Nesta cerimônia não houve apenas a rememoração saudosa do passado, mas uma afirmação de que esse passado, no que ele tem de perene, quer e vai renascer. Muito mais que um pressentimento, ela foi a prelibação do Reino de Maria que nasce, porque, neste presente de ruína e de miséria, o que há de mais verdadeiro é que Maria vencerá! Eis a promessa de vitória e de êxito que paira sobre o pantanal do mundo moderno.

As lágrimas de Nossa Senhora em Granada

Neste ano, a festa de Nossa Senhora do Carmo coincide com o décimo aniversário da lacrimação da Sagrada Imagem em Nova Orleans.3 E ao cabo desses dez anos, Nossa Senhora chorou sangue, em Granada.4

Qual é a relação entre um pranto de lágrimas e um pranto de sangue? Os símbolos falam por si. Lágrimas, chora a mãe quando chega ao extremo de sua dor. Durante vinte séculos a Igreja venerou Nossa Senhora lacrimosa aos pés da Cruz, donde esta frase de um belíssimo cântico: “Stabat Mater dolorosa, iuxta crucem lacrimosa – Junto à Cruz, cheia de dor, estava a Mãe lacrimejando”. A piedade comum imaginou Nossa Senhora no auge da dor, vertendo lágrimas indizivelmente preciosas que lhe ensopam a túnica e o manto sagrado… Também escorre o Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, misturando-se, quiçá, com essas lágrimas, como a primeira água a misturar-se com o vinho para a primeira Missa.

O amor materno é tão nobre, venerável e sensível, que facilmente atinge o extremo da dor, pelo sofrimento causado pelo mau filho. Entretanto, não se ousa afirmar que uma mãe chegou a chorar sangue.

Consideremos uma mãe muito infeliz que diz: “Passei a noite chorando”, dir-se-á: “Coitada!”, olha-se para ela com compaixão. Mas se ela disser: “Eu chorei sangue”, pensa-se: “Que impostora!”, porque mesmo as maiores aflições do amor materno não levam correntemente a chorar sangue.

Isso é tão incomum na História, que o homem tem arrepio quando imagina que um sofrimento moral levou alguém a esse extremo.

Samuel Holanda
Nossa Senhora das Dores – Semana Santa em Sevilha

Nossa Senhora, em Granada, chora sangue para dizer que a dor que durante tantos anos A entristeceu – dez anos –, foi aumentando; o castigo que Ela receia para os homens foi aumentando também, e não há palavras que exprimam a punição que se aproxima…

O mundo contemporâneo impenitente provoca a ira de Deus

Nós vivemos no século do dinheiro, portanto, na era dos juros. Não nos damos conta de que nos “bancos” de Deus o castigo dá juros tremendos. E quando um homem que tem espírito de fé vê impune o pecado, o que ele deve pensar é: “Pobre miserável… que juros tremendos estão se acumulando sobre ele!”

Quando ouvimos falar de uma cidade qualquer sobre a qual em certo momento tenha baixado a punição de Deus, se nos dissessem que um ano antes do castigo seus habitantes tinham sido avisados por sinais, nós diríamos: “Que terrível! Quanto mais antiga a ameaça, mais dá mostras de quão irado está Aquele que vai castigar!”

Como será um castigo que fez chorar Nossa Senhora há dez anos? Que terror, que portento, que tormentos! Mas se fossem apenas dez anos! A lacrimação de Nova Orleans é o eco dolorido do aviso dado por Ela na Cova da Iria em 1917. Mais ainda: o aviso feito por Nossa Senhora de Fátima é, ele mesmo, eco daqueles dados por Ela no século anterior em La Salette, ou quando apareceu a Santa Catarina Labouré. Na Rue du Bac Ela previu as devastações da Comuna em Paris. Ela alertou em 1830, e em 1870 caiu o terrível castigo, como quem diz: “Eu aviso uma vez e logo se cumpre o que eu disse”.

E, apesar do afeto e da veneração que tenho pela França, é preciso dizer: depois que ela foi invadida pelos prussianos,5 ela nunca mais foi a mesma. Ela se recompôs em parte, mas nela algo ficou como uma vergastada na face. Nem sequer os louros da guerra que ela ganhou com o apoio de quase todas as nações da Terra recompuseram as tristezas desse gilvaz que no rosto lhe ficou marcado.

Se por pecados tão menores o terrível precônio se cumpriu, o que espera o mundo de hoje que não se emenda de pecados universais imensamente mais graves, repetidos em condições históricas mais impressionantes? Oh, que castigo!

Nós, e sobretudo aqueles que estão sob a ameaça do castigo deveriam chorar sangue para se penitenciar, porque quando se provocam lágrimas de sangue à própria Mãe, o único modo proporcionado de pedir perdão é chorar lágrimas semelhantes às d’Ela. Sangue com sangue se paga. E como está longe disso o mundo contemporâneo!

Cantaremos eternamente as misericórdias de Nossa Senhora

Mas, vede como é Nossa Senhora: Misericordia Domini in æternum cantabo6 – do mesmo modo nós cantaremos eternamente as misericórdias d’Ela, porque irada assim e manifestando aos homens essas ameaças, Ela quer dar graças especialíssimas a alguns, atraí-los de modo particular e dizer-lhes:

“Vós, filhos do meu amor materno, do vínculo com o gênero humano que não se rompeu inteiramente; vós sois aqueles sobre os quais a misericórdia incidirá antes mesmo dos terríveis castigos da justiça. Eu vos escolhi do meio de tantas nações, de diversas partes do corpo social, de diferentes idades e de tantas condições, Eu vos escolhi e vos reuni para serdes o ponto luminoso que deve brilhar nas trevas deste mundo, para glorificar o passado que, se morre, deve morrer com honra e prenunciar um futuro que, se nasce, deve nascer pequeno e desprezado para depois prostrar por terra os grandes homens que disseram a esse pugilo: ‘Tu não gerarás o futuro!’”

Na sua misericórdia imensa, no seu poder ilimitado, Nossa Senhora dispõe as coisas de maneira a ter em vários lugares quem A ame na fidelidade ao passado e na esperança do futuro. Esses são a continuidade histórica disposta por Ela. Entre esses, estamos nós e, por isso, podemos dizer:

Arquivo Revista
Dr. Plinio em julho de 1982

“Ó Mãe e Senhora, esplendor do Carmelo, na vossa sabedoria profética Vós previstes o futuro da Igreja, que resultaria de vossas preces e lágrimas unidas ao sacrifício infinitamente precioso de vosso Filho. Em determinado momento de vossa previsão, foi-Vos revelado que nós existiríamos. E Vós, para quem o futuro não tinha véus, pois sois a Rainha dos Profetas, Mãe do único Profeta por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pensastes nesta cerimônia realizada em vossa honra, Vós sorristes e dissestes: ‘Eis meu desígnio que continua’”.

Permiti que a seriedade me sugira uma reflexão: será só o sorriso de Nossa Senhora que encontraríamos se Ela olhasse para nós?

Necessidade de um Confiteor

Adentremos no interior de nossas almas e analisemos até que ponto estamos contentes conosco, até que ponto damos a Nossa Senhora toda glória correspondente ao convite incomparável que recebemos. Se formos sinceros, devemos nos lembrar daquelas palavras do Salmo: “Si iniquitates observaveris, Domine, Domine quis sustinebit? – Se observardes as iniquidades, Senhor, Senhor, quem se sustentará em vossa presença?” (Sl 129, 3).

Há apenas uma voz que pode responder afirmativamente a essa pergunta. Essa voz enche a História: a da Virgem Mãe. Ela não teve uma falta sequer, nunca deixou de corresponder perfeitissimamente às graças mais superlativas e sofreu dores como não estamos em condições de imaginar. Nós pensamos que, imaginando-A chorando sangue, concebemos tudo; mas não compreendemos o que é a alma d’Aquela que é filha do Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado, Esposa do Divino Espírito Santo e que vê morrer o seu próprio Filho que é Deus.

Se a natureza toda entrou em convulsões com a morte do Homem-Deus, muito mais sensível que as montanhas que estremeceram e do que o céu que se toldou era o Coração transpassado d’Aquela que conhecia tudo, media tudo e amava a Deus como Ele merece ser amado.

Então, para nós é necessário também um Confiteor. Não creio que haja festa, comemoração ou alegria católica que, na seriedade da alma, possa ser desacompanhada de um Confiteor, porque o homem deve estar sempre à procura de uma oblação mais completa, de uma pureza maior, mais íntegra e mais intransigente. Assim deve ser a alma verdadeiramente católica.

Tenhamos isto em vista: quando Nossa Senhora chora sangue por filhos que lhe foram indiferentes, que A ultrajaram e perseguiram, filhos que A esbofetearam com as mãos nas quais reluz a unção sagrada, para consolá-La é imprescindível chorarmos as nossas próprias faltas!

“Sede amigos da minha dor, do meu pranto, da minha seriedade”

Nessa festa de Maria, Mater et decor Carmeli, foram oferecidos a Ela o ouro, simbolizado pelo esplendor desta cerimônia; o incenso, das preces e louvores que subiam dos corações; e eu venho com o terceiro presente: a mirra amarga, mas preciosa, da seriedade e da severidade. Nisso o meu coração fala por inteiro.

Luis C.R. Abreu
Imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima

Com as lágrimas de sangue vertidas em Granada, Nossa Senhora parece querer nos dizer: “Sede amigos da minha dor, do meu pranto, da minha seriedade, da minha severidade”.

Essas são lágrimas de severidade, da Mãe que quer converter os filhos, mas é solidária com o castigo que vem. Ela quer que a punição se afaste, desde que os homens se convertam. Nossa Senhora não pede: “Senhor, afastai o castigo”; Ela diz: “Senhor, dai-me meios de fazer com que eles fujam do castigo, fugindo da culpa. Se eles ficarem abraçados à culpa eu choro sangue, mas não tenho o que fazer”. Deus põe uma condição: caso se arrependam, o castigo será afastado; do contrário ele virá.

Nesta quadra da História em que estamos, onde vivemos uma espécie de segunda Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que está sendo crucificado no seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, amemos, portanto, a seriedade, amemos a severidade, amemos a contrição, amemos a dor.

(Extraído de conferência de 16/7/1982)

1) Celebrado em 29/7/1981.

2) Cerimônia em louvor a Nossa Senhora do Carmo, após a qual Dr. Plinio pronunciou as palavras aqui transcritas.

3) Em julho de 1972, na cidade de Nova Orleans, EUA, uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima verteu lágrimas humanas por 14 vezes.

4) Em 1982, na Basílica San Juan de Dios, em Granada.

5) Guerra Franco-Prussiana (1870-1871).

6) Do latim: Cantarei eternamente a misericórdia do Senhor.

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