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Beleza com virtude

Deus quis que os homens se preparassem para o Céu admirando as belezas criadas por Ele. Por isso a alma que quer amá-Lo deve ter o espírito sensível à beleza, rejeitando o materialismo, que faz com que a pessoa não saiba explicitar o significado espiritual das coisas.

Se perguntarmos a qualquer pessoa que passa pela rua qual é a razão de ser do traje que porta, eu não sei se me engano considerando que a grande maioria das pessoas não saberá responder com precisão. Ficará meio espantada com a pergunta, hesitará e dará uma resposta mais ou menos vaga, imprecisa.

A civilização materialista diminui o conhecimento das realidades espirituais

Em matéria de traje, nós estamos neste paradoxo: se pergunto a uma pessoa qualquer da rua para que serve um microfone, ela diz imediatamente: “Para ampliação do som, para uma eventual gravação”. Se perguntar qual a razão de ser de uma cadeira, a pessoa responderá: “Serve para sentar”. Ou qual a razão de ser de um automóvel: “É óbvio, é um meio de transporte”. Contudo, quando se trata de perguntar sobre a razão de ser do traje, há uma hesitação. O indivíduo tem a sensação de que não está respondendo por completo, não consegue se dar conta exatamente de tudo; de onde, então, vem uma certa vacilação.

Como se explica esse fenômeno?

Donatas Dabravolskas(CC3.0)
Praia Vermelha, tendo ao fundo o Pão de Açúcar

Divulgação (CC3.0)

Se formos examinar a fundo, encontramos a causa disso no seguinte. Sempre que o homem contemporâneo é convidado a dar a razão de ser de algo dotado de uma utilidade evidente, com facilidade ele explica pelo prisma de sua utilidade: serve para tal coisa, é útil para tal outra.

Quando se trata de algo que não possui propriamente o que se pode chamar uma utilidade material, mas sim espiritual, o homem de nossos dias, por causa de um defeito que analisaremos daqui a pouco, não sabe explicar.

Se perguntarmos a um homem moderno para que serve um garfo, ele dirá que é para comer e até ficará agastado com essa pergunta tão estúpida. Se lhe questionarmos sobre a razão de ser de um quadro colocado, por exemplo, numa casa de comércio ou num restaurante de luxo, ele responderá: “É para atrair os fregueses”. Porque o lado utilitário do quadro ele compreende, mas não entende a finalidade superior daquele objeto.

Por quê? Porque o quadro tem uma finalidade espiritual, uma utilidade para a alma humana; e o homem de hoje, ainda quando acredite na existência de uma alma imortal, ainda quando creia em Deus, está encharcado de materialismo e só sabe explicar as coisas pela sua utilidade material, prescindindo de seu significado espiritual.

Donde nós vemos que a civilização materialista diminui, apequena os horizontes e tira aos homens o conhecimento de uma série de realidades importantes do lado espiritual.

Repouso do espírito

Vamos dizer, por exemplo, um quadro que represente o Pão de Açúcar numa perspectiva bonita, na qual a forma, ao mesmo tempo grandiosa e graciosa, se torne bem evidente e, por outro lado, a beleza do reflexo do enorme rochedo sobre a água possa ser vista adequadamente. Qual é a razão de ser desse quadro?

Alguém dirá: “Eu não vejo razão… é só para descansar o espírito, para distrair”.

Se fosse só para descansar o espírito já teria muita razão de ser. Porque se uma cama tem razão de ser porque descansa o corpo, dado que o espírito vale mais do que o corpo, aquilo que descansa o espírito deve valer mais do que aquilo que descansa o corpo. Logo, um quadro é mais altamente necessário do que uma cama.

Se ninguém negaria a necessidade de uma cama numa casa, como negar a utilidade da existência de um quadro? É o repouso do espírito, e mais do que isso, ele existe para ser visto só porque é bonito.

Na Terra preparamo-nos para conviver com Deus no Céu

Deus criou uma quantidade enorme de seres porque são bonitos e existem para serem assim. Por que Deus os criou? A pergunta última é: qual é a razão de ser da beleza do universo? Por que Deus criou coisas bonitas? Deus não poderia ter criado o universo apenas útil, prático e sem beleza alguma? Por que Ele criou criaturas tão numerosas e belas que muitas vezes os homens ficam extasiados com elas?

Uma borboleta, por exemplo. É possível que um indivíduo especializado em história natural nos afirme que ela possui uma série de utilidades. O fato concreto é que se as borboletas deixassem de existir não acabaria o mundo. Por que Deus as criou? Foi somente por causa de uma eventual utilidade material ou por sua beleza?

Imaginem uma borboleta com asas azul-esverdeadas, como as existentes nas florestas brasileiras, e que vem com aquele esvoaçar bonito e caprichoso, mudando de rumo, passa por debaixo de uma árvore, brinca sob um raio de sol, depois some, passa pelo sol de novo e brilha como uma joia e depois vai embora, leve, delicada. Por que Deus fez isso?

Flávio Lourenço
Catedral de Notre-Dame de Reims, França

A Doutrina Católica tem uma resposta para esse ponto: Deus quis que nós preparássemos nossas almas para o Céu – no qual O vamos contemplar por toda a eternidade –, conhecendo e amando na Terra seres que remetem a Ele. Assim nos preparamos para tratar com Ele.

Imaginem que um de nós deva ser apresentado daqui a dois dias para um rei imponentíssimo, homem inteligentíssimo, capacíssimo, educadíssimo; mas é de repente. Não gostaríamos de passar esses dois dias olhando para um manequim que representasse o rei e assim nos preparássemos para esse encontro?

Ora, não há rei na Terra que, nem de longe, seja igual a Deus. Ele é infinito, perfeitíssimo. Olhá-Lo face a face supõe uma preparação, a qual se adquire, em grande parte, considerando na Terra as coisas boas, virtuosas ou então as coisas belas.

Conhecendo pessoas virtuosas, preparamos nossas almas para amar a Deus quando O virmos face a face, porque Ele é um abismo de virtudes, é a própria Virtude.

Como todas as coisas belas são reflexos de Deus, conhecendo-as, preparamo-nos para conhecer e amar a Deus que é infinitamente belo. Para isso existem as coisas belas na Terra.

Razão de ser da beleza

O belo que não tem uma utilidade para o corpo – não mata a fome, não ajuda a proteger contra tempestade, não aquece… – Deus o criou para a vida da alma. Como a alma vale mais do que o corpo, o belo é até mais útil do que as coisas cuja utilidade se restringe à matéria. Em uma cidade sem pão todos morrem, mas num mundo sem beleza, do que adianta querer viver?

Quando houve a revolta dos Macabeus contra a dominação estrangeira e pagã que se exercia sobre a pátria deles, o primeiro dos Macabeus iniciou-a com este brado: “É melhor morrer a viver numa terra devastada e sem honra” (cf. 1Mac 3, 59). Nós poderíamos dizer: “Mais vale a pena morrer do que viver numa terra devastada e sem beleza”. A beleza das criaturas é uma das razões para as quais elas existem e tornam a vida digna de ser vivida.

Por causa disso, o homem que quer amar a Deus deve ter o espírito sensível à beleza. Normalmente, um homem insensível à arte – haverá exceções – é insensível a Deus. E nas civilizações católicas se cultiva a arte tanto quanto possível.

É por isso que toda igreja é bela, ou ao menos tem a intenção de o ser. Até nas catacumbas, nas entranhas da terra, se formos ver, as capelas eram pintadas e decoradas pelos primitivos católicos – entre duas perseguições, entre o perigo de hoje e o de amanhã – exprimindo essa ideia de que o belo aproxima de Deus e que o culto divino deve realizar-se em circunstâncias belas para que, por ele, a alma seja verdadeiramente conduzida a Deus. Eis a razão de ser da beleza.

Supressão da beleza nas igrejas com a Revolução Protestante

Passemos dessa consideração geral à análise da relação entre a beleza, a Revolução e a Contra-Revolução.

Gabriel K.
Abadia de Westminster, Londres

Posto que como tudo quanto é belo conduz a Deus, desde que não seja o belo imoral, que é um abuso da beleza a serviço da imoralidade – mas disso nem falemos, pois é claro que afasta de Deus, não por ser belo, mas por ser imoral –, é natural que a Revolução queira diminuir até eliminar o belo do mundo, e que ela proceda aos poucos, por meio de um processo como descrevi na RCR, ou seja, primeira Revolução: Protestantismo, Humanismo e Renascença; segunda: Revolução Francesa; terceira: Revolução Comunista; e a quarta, da qual eu não tratei nesse meu livro porque o escrevi antes de ela explodir, e que é a Revolução hyppie, estruturalista.

Em cada uma dessas Revoluções, notamos que a beleza da arte vai diminuindo, vai se perdendo. Não há quem não tenha notado a diferença de beleza entre uma igreja católica e um templo protestante. As igrejas católicas tradicionais são ornadas, pintadas, têm mármores, esculturas, pinturas, bonitos móveis, tudo é lindo, pois não há o que baste para a glória de Deus.

Os templos protestantes são frios, secos, tristonhos, melancólicos e sem beleza. Na primeira Revolução, sob o pretexto de combater o luxo, o esbanjamento do dinheiro, a complicação da vida, em favor de uma vida barata, simples e igualitária, os protestantes suprimiram o luxo das igrejas. Resultado: eles tiraram do culto, do rito, da religiosidade, a beleza que havia nos antigos tempos.

Alguém objetará:

— Mas, Dr. Plinio, a Catedral de Westminster não é protestante?

— Sim, é protestante.

— E ela não é linda?

— Lindíssima! Ela foi construída no tempo em que a Inglaterra era católica. Dentro dela, tudo quanto se pôs no tempo de protestantismo é medonho.

Flávio Lourenço

E assim nós poderíamos multiplicar os exemplos. Quer dizer, a primeira Revolução trouxe uma diminuição na beleza.

A Revolução Francesa aboliu a beleza no trato e nos trajes

A tragédia da Revolução Francesa de 1789 arrebentou como um trovão em céu sereno. Terá ela trazido uma diminuição de beleza também? Trouxe, em todos os aspectos da vida.

Qualquer pessoa que não tenha um espírito faccioso levado até ao delírio, reconhece que as maneiras, os palácios, os objetos de arte, todas as coisas de antes da Revolução Francesa eram muito mais bonitas do que depois.

As carruagens… Que carruagens lindas, que liteiras maravilhosas! As maneiras! Não há quem não pense que o auge das belas maneiras, da arte no trato, se definiu na Europa do século XVIII, especialmente com os três dons que o francês, mais do que ninguém, sabia cultivar e que exprimia da seguinte maneira: savoir dire, savoir faire, savoir plaire: saber dizer, saber fazer, saber agradar. Que bonito!

Divulgação (CC3.0)

Os trajes anteriores à Revolução Francesa eram lindíssimos, com sedas maravilhosas, veludos magníficos, joias esplêndidas, belíssimos desenhos das formas.

Antes de desaparecer, o traje amolece

Cem anos depois dessa Revolução, portanto em 1889, quando a Monarquia foi abolida no Brasil, tudo era mais feio. Para não falar senão do traje masculino, que é mais especialmente objeto das presentes considerações, comparemos a indumentária dos estadistas, dos homens públicos do Império brasileiro ou do começo da República – de D. Pedro II ou do Presidente Prudente de Morais, por exemplo –, com a dos homens de cem anos antes, e notaremos como a diferença é fantástica.

Para não alongar muito a descrição, eu me refiro apenas ao chapéu. Antes da Revolução Francesa usava-se um chapéu de três bicos, com a aba levantada dos três lados, com plumas bonitas colocadas entre a aba e a copa do chapéu, às vezes com bordados e até com pedras preciosas. Comparemos isso com os chapéus do tempo de D. Pedro II ou da época do Presidente Prudente de Morais: a cartola.

Como era a cartola? Hoje ela parece uma cobertura de luxo para a cabeça, mas, afinal de contas, é um tubo preto, um pedaço de chaminé. Não tem dúvida, feito muitas vezes com uma matéria-prima muito lustrosa. Entretanto, comparada com o chapéu de três bicos, não dá sequer para um agente funerário.

René-Antoine Houasse (CC3.0)
Luís XIV – Galeria do Palácio de Versailles

A veste que acompanhava a cartola era a camisa de peito duro com um colarinho também duro e aberto e uma gravata com uma pérola, além do tubo em cima da cabeça… assim o homem estava vestido. Sem dúvida, houve uma diminuição de beleza.

A Primeira Guerra Mundial arrebentou em 1914, e o Tratado de Versailles, que consagrou o fim da guerra, se fez em 1918. Naquele ano houve uma mudança enorme nas modas e tudo amoleceu. Primeiro, a cartola praticamente desapareceu, ficou sendo usada apenas para as grandes cerimônias. Antigamente era uma cobertura diária para a cabeça, mas foi substituída por esse chapéu mole, não de seda, mas de um feltro qualquer, com o qual me veem muitas vezes. O chapéu de feltro é muito inferior à cartola. Ele é baixo, tira algo da imponência do homem. E, sobretudo, mole como ele é, a sua beleza está em ser amassado.

Há um dado curioso na história da arte: antes de um traje desaparecer, ele amolece. Dir-se-ia que é um processo mortal ao qual está sujeito.

As camisas deixaram de ser engomadas e passaram a ser essas comuns que vemos por aí. Depois, o colarinho deixou de ser alto – o que obrigava a cabeça a permanecer numa posição de sobranceria – para ser o colarinho dobrado usado atualmente.

O paletó deixou de ter aquela distinção preta de outrora, para ter uma cor qualquer, sem distinção nenhuma, como cor de papel de embrulho. Não há, por exemplo, cor de traje em relação ao qual eu tenha mais objeções do que esse cinzento com o qual eu estou vestido. Qualquer papel de embrulho, qualquer pano de lavar chão pode ter essa cor. Comparem isso com a roupa de um varão de antes da Revolução de 1789; nem o criado dele se vestia como um de nós se veste, de tal maneira houve decadência.

Próximo passo da Revolução: o nudismo

A Revolução é terrível, não para um momento. Depois desse traje que eu uso ter ficado comum até para os moços, ela começou a exigir novas modificações, como o uso de uns paletozinhos muito cortadinhos, muito apertadinhos. Em seguida, suprimiu o paletó, o qual se usa menos hoje, ficando-se apenas em manga de camisa. Também o tecido das camisas começou a ficar tão leve que, às vezes, se a pessoa tem na pele uma cicatriz, uma pinta, ou qualquer coisa assim, olha-se e através do pano se percebe aquilo. Portanto, a camisa cobre mal o indivíduo. O tecido não é feito para ocultar o corpo, mas quase para deixar transparecer algo dele.

Joaquim José Insley Pacheco (CC3.0)
D. Pedro II

É claro que o próximo passo tem que ser o nudismo.

O mesmo se diria das calças. No meu tempo de moço, elas encolheram muito. O cano da calça na extremidade inferior era tão apertado que não era muito fácil de passar o pé através dele. Depois alargaram muito e se usaram umas calças “boca de sino”. Anos mais tarde, estreitaram de novo. De tanto mexer, elas começaram a se encolher. E após a Segunda Guerra Mundial, começou o uso das bermudas.

Primeiro, havia apenas o uso militar de bermudas na África quentíssima. Posteriormente começou-se a usar para esportes também. E não está muito longe de se usar para todos os dias. É claro que no dia em que o homem não usar camisa, a calça vai ser tão estreita que vai ser uma tanga. E haverá um momento em que o homem não usará mais nem sequer a calça. Quer dizer, nós caminhamos de todos os modos para o nudismo.

Os agentes da Revolução acham que aí o homem será feliz. Eles se reputam ultramodernos porque querem voltar para a época da pedra lascada, e reputam-nos muito anacrônicos porque queremos voltar para a Idade Média, como se a época da pedra lascada não fosse incomparavelmente mais velha do que a Idade Média.

O traje, velando o corpo, realça-lhe a beleza

O nudismo para o qual a Revolução caminha é ruim, evidentemente, porque convida a um atentado contra o pudor, mas também por outra razão: o homem foi feito para ser considerado na sua beleza. Deus deu à criatura humana – homem ou mulher – uma grande beleza. E esta deve ser ocultada no que ela tem de contrário ao pudor, mas deve ser realçada no que tem de espiritual.

Arquivo Revista
Arquivo Revista
Arquivo Revista

Por exemplo, uma senhora que tenha traços fisionômicos muito bonitos, muito distinta, deve cuidar-se, deve arranjar-se para se apresentar de maneira a realçar a beleza de seu rosto. Entretanto, ela deve atrair para o lado espiritual e não para a concupiscência. Há rostos que são tão ordinários que despertam a concupiscência; isso é mau. Há rostos que são tão espirituais que não despertam para a concupiscência, mas para a virtude.

Para dar dois casos extremos, ninguém houve na Terra tão belo como Nosso Senhor Jesus Cristo e logo abaixo d’Ele, Nossa Senhora; ambos concebidos sem pecado original, lindíssimos, perfeitíssimos. Mas a consideração d’Eles não despertava sensualidade. Vendo Nosso Senhor, nenhuma mulher era tentada e, vendo Nossa Senhora, nenhum homem era tentado, porque eram tão puros que a beleza do rosto era reflexo dessa pureza. A compostura dos trajes era muito grande e servia para realçar a beleza da alma. E o traje era, portanto, um modo de apresentar a beleza do espírito, como também de velar o corpo, mas lhe realçar a beleza. E, por essa forma, o traje é um instrumento de santificação.

É claro que a Revolução, odiando toda forma de beleza e desfigurando cada vez mais a vida dos homens – porque a beleza é um reflexo de Deus –, a Revolução não podia deixar de querer o nudismo, porque é um modo de eliminar as manifestações da beleza da criatura humana.

Então, são essas as razões pelas quais a Revolução quer o nudismo. Razões pelas quais também é preciso, de nossa parte, lutar. E é por causa disso, por exemplo, que a Sede do Reino de Maria é conservada em toda a sua beleza, para despertar o gosto estético, artístico, para fazer compreender o que é uma vida dentro da beleza com virtude, com seriedade, com compenetração, com dignidade.

(Extraído de conferência de 9/8/1975)

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