Os desígnios da Providência sobre certas famílias parecem ser transmitidos por um lumen de geração em geração. No caso de Dona Lucilia, ela soube dar novo alento ao que recebeu e, com graças especiais que lhe foram concedidas pela Providência, irradiou a outros, fora do âmbito familiar.
No fim da vida de Dona Lucilia, o João e, em alguma medida, outros que o acompanhavam num convívio maior com mamãe, começaram a entrever quem ela era.
O lumen das dinastias
Quando eles me faziam alguma referência a ela ou eu via que lhe levavam flores, agradavam-na etc., eu ficava contente, mas pensava: “Ou algo de novo aconteceu na história do espírito humano ou isso é fogo de palha. Porque, em relação a ela, os olhos estão totalmente fechados”.
Estou certo de que todos a consideraram uma senhora muito respeitável, dentro dos padrões convencionais. Mas, não se tratava disso e sim de terem percebido o lumen da alma dela, o que é uma coisa inteiramente diferente.
Há famílias de várias categorias sociais que conservam um certo lumen, mesmo quando os membros não são bons. Se caem no pecado, esse lumen ainda persiste neles, e acho que só desaparece quando morrem. As dinastias são isso de modo eminente.
Há uma espécie de depósito acumulado de todas as virtudes de alguns parentes anteriores, como também de desígnios da Providência aos quais alguns, não extraordinariamente, mas comumente virtuosos, corresponderam. De maneira que há algo que se acumula sobre um membro da dinastia, e ele tem uma noção disso apenas confusa.
Um lumen sobrenatural
Eu tenho uma série de pequenos indícios de que, por razões que ignoro do modo mais completo, na família de mamãe entrou um certo veio, um lumen sobrenatural, por meio de sua avó paterna. É, de longe, a pessoa menos decorativa do conjunto,1 mas era a melhor em relação a todas as outras. Ela traz no olhar uma seriedade, uma resolução que é um pouquinho do que tinham meu avô e mamãe. E esses predicados não estão ligados necessariamente ao nome de família.

Em meu avô, vê-se que algo havia em continuidade da mãe dele, donde o mito que Dona Lucilia fez do pai, o qual era necessário para que ela mesma desenvolvesse em si aquilo que tinha recebido.
De maneira que, se eu tivesse começado a demolir o mito quando ela era moça, eu lhe teria feito mal. Eu talvez tenha começado a fazê-lo na hora certa.
É certo que o espírito nela renasceu e que é uma velha tradição de família haurida, com certeza, do ambiente português – eu não tenho outro sangue, talvez um pouquinho de espanhol – e que se enredou e se constituiu dessa forma, provavelmente várias gerações antes.
Uma ponte vivificante e restauradora
Vê-se que é uma tradição à qual coube a mamãe dar novo alento, com graças especiais que ela recebeu e depois transmitiu. Aliás, um dos traços mais bonitos de toda a nossa obra é ser uma continuação disso.
Mas Dona Lucilia não foi apenas uma ponte, ela foi mais do que isso: uma ponte vivificante, altamente restauradora desse lumen. Porque o ponto a que isso tinha caído é inenarrável.
Entretanto, em mamãe havia a concepção, nessa tradição, de um feitio individual, de uma família e da vida de família, bem como a noção de que o mundo vai mal, por onde a necessidade da ruptura com ele. Mas a ideia de reformar o mundo não estava presente. Ficava numa tal fímbria, que estava contida em todas as premissas, mas não era em nada uma conclusão explícita.
Nela notava-se muito a união do espiritual com o temporal. Sem nada de freira, era uma senhora da sociedade temporal.
Essa tradição que mamãe tinha em si, naquela fotografia dela em Paris está de um modo que, por assim dizer, é preciso pôr óculos escuros para ver, tão clara e esplendorosa é; essa tradição se desenvolveu fora do âmbito da família, contra a família e não mais em benefício desta.
Traços da alma de Dona Lucilia
Nessa fotografia nota-se, por exemplo, a decisão, sem nada de nervosismo nem ansiedade. Severidade e decisão, ao lado de uma doçura insondável. Ademais, é uma pessoa que vive muito mais para o mundo interno do que para o externo, acompanhando o externo apenas na medida do indispensável.
Aliás, totalmente uma brasileira. Se uma atriz tivesse que representar um papel de moça brasileira desse tempo, poderia tirar alguns traços dessa fotografia para se apresentar, porque mamãe está brasileiríssima ali.
Dir-se-ia serem as sobrancelhas fortes demais para uma senhora. Entretanto, isso nem passa pela cabeça, de tal maneira é pura a expressão do olhar. Nota-se muita pureza e candura. É propriamente uma moça de família.
Um comentário filial
Faço um comentário que só se compreende quando feito por um filho e por conveniência de apostolado. Poder-se-ia imaginá-la de cabelo curto? Jamais, não poderia ser. Ela perderia qualquer coisa que não sei como definir. Se essa pergunta não fosse levantada por mim, nem seria respeitoso fazê-la. Mas estou dizendo isso para se compreender como o cabelo cortado desdoura.
Depois, o penteado está feito com muito cuidado, é um cabelo equilibrado na cabeça, muito direito. Notem que naquele tempo não havia salões, era a própria pessoa que se cuidava, fazia o penteado. Como era um cabelo muito abundante, fazia quase o papel de um chapéu, porém, sem faceirice como quem dissesse: “O que vocês estão pensando de mim?” Nada disso.
Não é nem um pouco petulante, mas ela sabe quem ela é e não permitiria que se lhe faltassem com o respeito. Não toleraria que viessem com atitudes de igualitarismo para com ela, porque mamãe, com jeito, poria o pingo em cima do “i”.
Ela não faz a menor questão de ser mais, não pensa em promoção social nem nada disso. O que ela é, é.
Por outro lado, quem não a conheceu não pode imaginar o que era o convívio com ela, a ação de presença, a afabilidade, com uma inocência completa. Não se pode ter ideia!
(Extraído de conferência de 21/4/1979)
1) Dr. Plinio se refere aos quadros com retratos de familiares que possuía em seu apartamento.



