Populares da semana

Relacionados

Afeto e conformidade diante da cruz

Ao longo de sua vida, Dona Lucilia padeceu pela falta de reciprocidade da maioria daqueles que foram objeto de sua bondade e afeto. Entretanto, ela tudo sofreu de forma harmoniosa, a ponto de o sofrimento tornar-se um dos ornatos de sua alma.

Dona Lucilia sofria muito, mas compreendia bem toda a elevação que o sofrimento dá e, quando bem aceito, toda a oportunidade de união que ele proporciona com o Coração sofredor de Jesus e Maria.

Beleza de uma alma que aceita sofrer

Via-se que o sofrimento a fazia sofrer de fato, mas ela entendia ser isso a missão de sua vida e carregava a cruz com muita conformidade, muito afeto, muita dor.

Nunca a vi, por exemplo, ter a menor inconformidade, revolta ou queixa. Sempre com a alma muito harmoniosa, muito grave, muito cândida.

É uma grande lição para compreendermos como podemos vencer na vida lutando, sofrendo. O sofrimento é, nesse ponto, de uma importância fundamental.

Uma pergunta que eu me fazia a respeito de mamãe era a seguinte: se do ponto de vista humano, terreno, ela se tornasse de repente muito feliz, a alma dela não perderia alguma coisa do lastro? Porque uma das belezas da alma dela era a tristeza.

Ademais, para que o pensamento humano tenha não só substância, mas suficiente vagar para poder se aprofundar, ele precisa ter um fundo de tristeza. Porque sem ele o homem não se aprofundaria, por uma razão muito simples: é que o homem segue habitualmente a lei do menor esforço e, quando ele está feliz, não pensa nas dificuldades.

É preciso uma pessoa ter problemas que a façam sofrer para ter aquela vontade de resolver os problemas e ser bastante ativa para resolvê-los de fato.

Falta de reciprocidade na sua dileção

Com Dona Lucilia há uma diferença entre a dor sofrida por ela no período da velhice e no período anterior. Em parte, tenho a impressão de que essa diferença vem do modo de considerar o casamento.

Arquivo Revista
Fotografia do passaporte de Dona Lucilia

Em certa fase de sua existência, a pessoa calcula que obter reciprocidade é uma alegria, uma felicidade. Depois de um certo período compreende que essa reciprocidade, quando existe – e é uma coisa rara –, é de um conteúdo diferente do que imaginava na mocidade.

Quando minha mãe se casou, tinha muita abertura para o sentimento. Ela continuou assim até o fim da vida, mas compreendendo que se deve contar muito menos com a reciprocidade do que ela contou no começo de sua vida.

Por outro lado, ela procurava amparar as pessoas em suas fraquezas e o fazia de um modo magnífico, porém com muito pouco êxito, porque o homem contemporâneo tem a alma fechada para essas coisas.

Não tenhamos ilusão: diante das formas delicadas de bondade de alma, de concessão, de apoio, de auxílio, de misericórdia, o homem contemporâneo é duro e ruim. Ele pergunta: “Que dinheiro você tem para me dar? Que poder você tem que me dar? Que vantagens você me dá? Se você não me der essa vantagem, todo esse seu agrado não adianta nada. Diga logo!” É assim.

E mamãe não tinha. Ela estava como os Apóstolos a quem o mendigo pediu dinheiro e São Pedro disse: “Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho, eu te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!” (At 3, 6).

Ela podia dizer isto à pessoa: “Se você se abrir à minha dileção, sua alma poderá andar”.

Mas esta é a resposta do homem contemporâneo: “O que é alma? Eu quero o automóvel novo de tal marca, aquele que eu cobicei enquanto andava na rua, vendo-o passar na praça atrás de mim! Não me tome tempo com essa sua alma, porque eu não me incomodo com alma”.

De maneira que houve muito pouca gente sensível ao atrativo, à bondade dela.

Isso não nos deve espantar, porque à bondade infinitamente maior de Nosso Senhor Jesus Cristo, qual foi a resposta dos homens? E inclusive dos Apóstolos?… Quer dizer, o homem é ruim e nós não devemos pensar tolamente que, à força de sermos bons, nós arrastamos os outros. Isso não é verdade. Nós devemos ser bons não pelo cálculo de arrastar, mas porque Deus, nosso Pai Celeste, é bom; porque Nossa Senhora, nossa Mãe Celeste, é boa.

Quanto à retribuição, esperemos: é uma bofetada ou uma traição. É isso, não tem conversa. Então, devemos fazer o bem já contando que isso virá. Porque, mais cedo ou mais tarde, vem.

Catadupas de bondade

Em sua vida, Dona Lucilia colheu isso e colheu fartamente, sem amargura e com essa bondade que está no “Quadrinho”.1

Gabriel K.
São Pedro curando o paralítico Museu Metropolitano de Nova Iorque

Mas não tenhamos ilusão: quando fizermos um benefício a alguém, digamos: “Esta é a véspera da ingratidão”. Porque ela vem. Não será sempre a traição, mas é o esquecer, pouco se incomodar, retribuir com uma grosseria, com uma indiferença, com displicência, aquilo que foi feito às catadupas de bondade. Esta é a vida, e foi o que Dona Lucilia colheu.

No fim da vida, ela teve contato com o João e com os “enjolras”.2 Então começou algo que se prolongaria depois de sua morte. Mesmo assim, entre aqueles que vão ao túmulo dela, há os que, de repente, deixam de ir e até somem do Grupo. Até que ponto guardam a recordação dela? Não sei.

Eu a vi passar por inúmeras circunstâncias dessas e presenciei, uma ou outra vez, a reação dela. Porque, em geral, ela ficava quietinha. Mas uma ou outra vez a reação dela era um suspiro e dizer: “Coitado – ou coitada – vai ter que sofrer muito”. Mais nada. Eu já tenho visto gente assim sofrer de se fritar. Claro! Quem semeia vento, colhe tempestade.

(Extraído de conferências de 22/4/1986 e 5/1/1994)

1) Quadro a óleo que muito agradou a Dr. Plinio, pintado por um de seus discípulos com base nas últimas fotografias de Dona Lucilia. Cf. Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

2) Palavra afetuosa utilizada por Dr. Plinio para designar seus discípulos mais jovens, os quais surgiram aproximadamente a partir de 1970. Havia neles acentuado grau de debilidade, se comparados com aqueles que os antecederam, os da “geração nova” (cf. Dr. Plinio n. 81, p. 17). Entretanto, a Providência concedeu aos “enjolras” uma maior capacidade de se entusiasmar pelo aspecto simbólico das coisas.

Artigos populares