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Grandeza e sofrimento

É próprio à grandeza ser um pouco inexplicável sob determinados ângulos. Quanto maior ela é, tanto maiores serão os sofrimentos, os abandonos de quem a possui.

Numa primeira consideração, a grandeza dá a impressão de proporcionar somente felicidade. Na realidade, o sofrimento que ela produz em ser admitida, admirada pelos outros, propicia penosas dificuldades para quem a alcança.

Sofrimento inerente à grandeza

Qual o sofrimento trazido pela grandeza?

Vamos proceder conforme São Tomás: primeiro, ele formula questões levantando objeções contra a tese a ser defendida; em seguida, dá as razões pelas quais se diria que tais objeções estão corretas; por fim, em sentido contrário, analisa cada afirmação, definindo a resposta verdadeira.

Então, nós deveríamos pôr a questão da seguinte maneira: Dir-se-ia que a grandeza não traz sofrimento. Primeiro, é próprio à natureza do homem procurar a sua plenitude. Ora, a grandeza é uma plenitude; logo, quando o homem se encontra com a plenitude, não pode sofrer, ele fica contente. É lógico!

Segundo, a grandeza traz consigo uma série de vantagens que o homem aprecia altamente, como por exemplo, a consideração, o respeito, certas facilidades para a vida, às vezes a riqueza. Logo, a grandeza não pode trazer sofrimentos. Ela é uma fonte de alegria.

Terceiro, a experiência comum dos homens indica que a grandeza não traz sofrimentos. Porque todos se sujeitam a muita coisa para conseguir a grandeza e ninguém faz um grande esforço para perder a grandeza que tem. Logo, a grandeza não pode trazer sofrimentos. Ela é uma fonte de alegria para os homens.

Sed contra, em sentido contrário, há uma experiência comum da vida que indica que nada é fonte de mera alegria para o homem neste vale de lágrimas. Ora, a grandeza está neste vale de lágrimas; logo, ela não pode ser fonte de mera alegria. Se ela não traz mera alegria, traz algo de oposto que se deve chamar tristeza. Então, pergunta-se no que consiste a tristeza que a grandeza traz.

Por outro lado, vê-se, às vezes, ao longo da História, pessoas sábias, prudentes, até insignes pela sua maturidade, recusarem a grandeza e dizerem que viviam mais felizes sem ela. Logo, as pessoas sábias e prudentes podem encontrar na grandeza uma fonte de dor, que a não-posse da grandeza não lhes dá.

E, por fim, tudo o que o homem tem lhe traz deveres. E quanto mais ele tem, mais numerosos são os seus deveres. Por exemplo, os deveres de um homem que tem grande fortuna não pesam sobre o homem que tem uma pequena fortuna ou não a tem. Logo, quanto mais alta a grandeza, maiores os deveres. Como o cumprimento do dever pesa sobre o homem tal qual uma cruz! A grandeza traz grandes cruzes!

Temos aí o pró e o contra da grandeza.

A grandeza foi dada aos homens para servir à Causa da Igreja

Então, o que dizer disso, a que conclusão chegar? Primeiro é preciso definir de que grandeza se fala, se a honesta ou a ladra. Porque a grandeza foi dada aos homens para que sirvam à Causa da Igreja, a Nossa Senhora, a Nosso Senhor Jesus Cristo. Os homens a merecem, não só na medida em que tenham certos predicados, mas em que coloquem esses predicados a serviço dela.

Divulgação (CC3.0)
Parábola dos talentos

Por exemplo, um homem merece uma especial reverência por ser muito inteligente. Dir-se-ia que a inteligência é uma excelência, e isso lhe dá ocasião de receber um certo respeito. Mas, se ele não a usa para aquilo que deve, não merece nada! Aquela inteligência torna-se uma razão para ser desprezado.

Portanto, a grandeza traz ou não sofrimento? A resposta se encontra na parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14-30).

É uma felicidade receber muitos talentos para fazer render? Pode ser, porque se todos os talentos renderem, chegando o dono daquele servo, ficará contente e o premiará. E para o servo é uma satisfação ter aumentado expressivamente o patrimônio de seu senhor. Mas traz a dificuldade, a dor de uma gestão muito maior, muito mais difícil, que uma só moedinha não traz. Debaixo desse ponto de vista, causa muito mais sofrimento do que alegria.

Isso que se diz de uma moeda, diz-se também de algum grande predicado. Ser uma pessoa muito atraente é muito agradável. Contudo, que vontade tem ela de prestar contas por isso e qual é o trabalho que tem para dar toda a renda que é devida à Causa de Deus?

Ainda mais quando se trata de alguém revestido de uma eminente grandeza do ponto de vista terreno como, por exemplo, o presidente dos Estados Unidos. A pessoa batalhou para ser eleita e ocupa, indiscutivelmente, o cargo de maior influência e poder temporal da Terra.

Ora, por quantas coisas esse homem precisa dar contas a Deus em consequência desse cargo? Nós, quando fazemos o exame de consciência à noite, devemos dar conta de nós mesmos e dos outros com quem convivemos. Ele tem que prestar conta de nações, do futuro do mundo por séculos! Entretanto, como é esse exame de consciência à noite, se ele tem consciência disso tudo? E se ele não a tiver, que dentadas sente no fundo de sua consciência de vez em quando? Porque, embora não tenha noção do peso de seu cargo, sabe estar brincando com os povos, nações e situações importantes. É ou não é algo terrível?

Distância e vazio impostos pela grandeza pessoal

Há uma outra grandeza que não é a dos cargos nem a das honras. É a grandeza que pode provir ao homem do feitio de sua alma, do estilo, de sua personalidade, do modo de sua projeção, enfim, daquilo que é a sua impostação. Pode-se dizer isso, a seu modo, de uma senhora ou de um homem. Debaixo de certo ponto de vista, é mais honrosa do que a grandeza dos cargos.

Para exemplificar, vou fazer uso de uma bagatela. O que é mais eminente para uma pessoa: ter a mão muito benfeita ou usar uma luva muito bonita? A luva é um objeto que se adquire. Alguém pode não ter dinheiro para comprá-la e um outro pode ter dinheiro para comprar uma luva muito mais bonita, mais fina, de muito maior categoria. É melhor ter uma luva do que um trapo na mão, compreendo bem. Mas, a mão benfeita é própria ao indivíduo.

A grandeza de um cargo que o indivíduo cavou – o termo é um pouco vulgar – é uma coisa. Outra, é aquilo que ele é. Porque o cargo adquirido pode-se perder. Um rei pode perder o posto, um presidente tem o mandato terminado etc.; porém, uma grandeza pessoal não se tira. De maneira que essa grandeza é muito significativa.

Mas, vista assim, necessariamente – notem bem a palavra necessariamente – é condição própria dessa grandeza fazer em torno de si um vazio e uma distância que serão tanto maiores quanto maior a grandeza. Isso gera duas situações: uma certa incompreensão e uma certa desajuda da parte dos outros. Se um homem se põe só, onde ele está não tem quem o ajude. E se ele está longe, em alguns ângulos não o compreendem e não há quem o explique.

É próprio à grandeza possuir aspectos inexplicáveis

Inclusive é próprio à grandeza ser um pouco, pelo menos um pouco, inexplicável por alguns lados. Porque aquilo que é inteiramente explicável não tem grandeza. É evidente.

Ocorre-me uma comparação um pouco extravagante, mas é assim. As catacumbas, nos subterrâneos de Roma, são um lugar venerável, antes de tudo por quanto ali se passou. Incontáveis vezes nelas foi celebrada a Santa Missa em honra dos mártires, mas os que ali estavam seriam, eles mesmos, as próximas vítimas em união com o Cordeiro de Deus. Não há veneração que baste para as catacumbas.

Vicente Torres
Catacumba de Domitila, Roma

Entretanto, há um lado das catacumbas que eu senti muito nas poucas vezes que estive lá, e é o seguinte: elas são insondáveis. Quando se entra nelas sente-se um vento frio que circula e percebe-se que esse vento vem dos fundos obscuros da História, que não foram decifrados, não foram explicados e valeria a pena conhecer.

Isso concorre ou não para aumentar o prestígio das catacumbas? Imaginem que um homem trouxesse os planos das catacumbas e dissesse: “Visitei tudo e o mapa está aqui!” Não as diminuiria um pouco? Não é bonito saber que aquilo é meio insondável?

Essas coisas, de si, dão um peso a quem é grande, porque criam circunstâncias de vida que não são fáceis. Por exemplo, uma torre que se eleva sozinha numa praça é uma construção bonita, élancée,1 elegante. Vi, andando por aqui, numa importante rua da cidade, uma casinha à qual nunca tinha prestado atenção; ela está afundada tão embaixo no chão, que a calçada recua um pouco, e há uma escadinha para o sujeito entrar nela. Essa casinha dá a impressão de um buraco. Deve ser um tugúrio. Morar ali dentro deve ser horroroso. Mas é verdade que dá uma certa ideia de aconchego, que quem está no alto da torre não sente.

Quanto maior a grandeza, tanto maior o ódio recebido

No tempo em que havia repartições públicas no edifício Martinelli,2 certa vez fui tratar de um assunto em um dos mais altos andares do prédio. Não havia quase arranha-céus em São Paulo naquele tempo e vendo aquela vastidão, pensei: “Que agradável, não é? Mas, falta alguma coisa. Falta aquele contato com o chão, que é o nosso habitat”.

O problema se agrava muito quando o indivíduo põe a grandeza a serviço do bem. O que é estar a serviço do bem? É estar em contato com todos e a todos pedir um sacrifício. Fazer o bem é pedir sacrifício. Bem entendido, não é pedir sacrifício para si, para sua vontade própria. Mas é pedir um sacrifício de alguém para Nosso Senhor, para Nossa Senhora, para a Igreja Católica: “Faça mais isto, faça mais aquilo; olhe, você poderia dar mais tal coisa!”

O resultado é que, quanto maior é a grandeza, maior é a força do golpe que damos na porta, e tanto maiores são as revoltas, as indignações, as conspiratas, os ódios, as ciladas, as invejas, os abandonos. A grandeza está posta no alto como um alvo para tomar tiro!

Renunciar às ilusões e aceitar os sacrifícios

Esta exposição, por exemplo, eu tentei, tanto quanto possível, torná-la atraente. Alegra-me ver que todos se sentem atraídos com coisas boas. E como amo o bem, amo a Nosso Senhor Jesus Cristo, alegra-me ver isto. Mas fiz esta conferência também para amortecer algo pelo qual estou lhes pedindo um sacrifício. Qual é o sacrifício do fundo de alma que estou pedindo?

Não quero ser ladrão e por isso vou contar o que fiz tentando entrar na alma de cada um. Conto depois de ter feito, mas conto. Eu quis mostrar-lhes quanto é ilusório todo caminho que se encontre fora da vocação católica, e, com isso, determinar a seguinte reflexão: “Por amor à verdade, eu não vou ter ilusões. Sei que uma série de caminhos que eu poderia imaginar agradáveis não o são. Várias ilusões que eu poderia ter dão em desilusões”.

Eu quis, assim, desinflar nas almas diversas ilusões para, com isso, aceitarem potencialmente uma série de sacrifícios. Fiz bem, cumpri meu dever.

Imaginem que neste momento ouvissem um barulho de automóvel, toca uma buzina prestigiosa e para aqui. De repente, desce alguém com intenções desonestas. Nós devemos estar prontos para dizer: “Não! Eu sei que isso é uma ilusão! Sei que seguindo minha vocação, vivendo para ser puro e para obedecer, eu sofrerei, porque a pureza e a obediência exigem toda espécie de renúncias e, portanto, trazem toda espécie de sofrimentos. Mas eu os quero, porque esta é a minha finalidade! E sei que aqui eu encontrei o que esse automóvel não me dará: a paz da minha alma!”

Marcus Ramos

Eu os estou preparando para isso. Parece-me prudente e oportuno.

Imensa grandeza de Jesus crucificado

Uma pessoa, com uma observação corrente das coisas, diria que, ao encontrar a grandeza, nós exclamamos: “Ó grandeza!” Mas esta não é, talvez, necessariamente a verdadeira grandeza. Muitas vezes nós a encontramos, convivemos com ela e não percebemos quanto ela é grande! Não é como a grandeza material, por exemplo, das pirâmides do Egito, por onde, de longe, vê-se aquele maço de pedra. Não é isso. As realidades espirituais, nós podemos conviver longamente com elas sem percebê-las! Mas, de repente, num certo aspecto desvenda-se aquilo para o nosso olhar e ficamos surpresos: “Mas que grandeza!”

Tanto quanto eu possa me lembrar – portanto é dubitativo o que estou dizendo –, eu desde pequeno estava habituado a ver no Crucifixo Nosso Senhor sofrendo por nós, com reverência, com admiração, mas um pouco achando normal Ele estar no Crucifixo, como é normal eu estar na cadeira de rodas.3 E que, no fundo, Ele acaba convivendo com aquilo como eu acabo convivendo com isto, o que não é uma coisa tão terrível assim.

É a tendência que todo homem tem de banalizar tanto as coisas, que no primeiro encontro que tem com a grandeza, ele põe um olhar meio admirativo e meio toldado pela poeira da banalidade. Banalização involuntária, mas está nele. Como ele é banal, ele vê as coisas banalmente.

Lembro-me de que, em determinado momento – deve ter sido uma graça – veio-me ao mesmo tempo a noção da imensidade da dor de Nosso Senhor e da enorme elevação que havia em ser Ele tão maior do que a sua própria dor, que sem nenhuma dúvida Ele ofereceu a dor por uma intenção mais alta! Então concluí: “Mas que enorme! Imenso! Que bom! Que misericordioso! Que grandeza! Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi, quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum!

(Extraído de conferência de 3/6/1985)

1) Do francês: esguia.

2) Primeiro arranha-céu da cidade de São Paulo, inaugurado em 1929. Tornou-se símbolo do progresso econômico e da modernização da cidade.

3) Devido a uma sequela do desastre de automóvel ocorrido em 1975.

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