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O verdadeiro jeitinho brasileiro – II

Uma das qualidades do jeitinho é saber irradiá-lo no momento certo e de acordo com o que pedem as circunstâncias. Ele, à maneira do beija-flor, pode mudar de repente, ora será um ato de carinho e de bondade, ora poderá parecer um passo de capoeira ou de caratê, ora uma driblada, mas sempre trará consigo uma nota de tranquilidade.

No início do Grupo, quando fizemos uma Semana de Estudos e participaram pessoas de vários Estados, um bom número era de novatos que nunca tinham estado conosco. Havia uma sala na Sede da Rua Vieira de Carvalho que servia de biblioteca e na qual eu atendia aqueles que queriam falar comigo em particular.

Uma atitude da qual o jeitinho esteve ausente

Certa ocasião entrou um jovem de quem me lembro até agora: bem magro, uma estatura entre média e pequena, muito moreno, os cabelos bem escassos, mas que ele encheu com um cosmético qualquer e parecia um espelho reluzente. Ele todo pouco banhado. Olhos pequenos, pretos e que se deslocavam de um lado para outro sem que ele movesse a cabeça, percebendo tudo, espertíssimo!

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1964

Ele sentou-se e me disse mais ou menos isto:

— O senhor quereria me expor o que tem a dizer a meu respeito?

— Você diga o que quer dizer-me.

— Não, eu preferia que o senhor dissesse…

Era a primeira vez que eu o estava vendo e não sabia bem como resolver o caso…

Olhei para ele e disse:

— Olhe, você tem tais qualidades e tais defeitos. Este é você.

Julguei que ele ficasse satisfeito, mas verifiquei que, de fato, ele não queria que eu dissesse a verdade a seu respeito. Ele esperava de minha parte um diagnóstico errado que lhe desse a alegria de me ter driblado. Como ele viu que eu disse exatamente o que ele era, não fez outra coisa senão levantar-se, estender-me a mão e dizer:

— Dr. Plinio, até logo.

— Mas, você não continua essa conversa?

— Não, senhor.

— Mas por quê?

— Porque não tem propósito o senhor me dizer o que disse…

— Por quê? Eu errei?

— Não, porque o senhor acertou. Se o senhor é capaz de ver tão bem o que se passa em mim, eu prefiro não ter trato com o senhor.

É um horror! A atitude dele é um gênero de coisa em que o jeitinho está ausente. Esse não compreendeu o jeitinho.

Arquivo Revista
Dona Gabriela, mãe de Dona Lucilia

Os jeitinhos como são? Há tantos, a todo o momento nós os vemos, e são tantas aplicações diferentes, que nem sei o que dizer…

Os jeitinhos de Dona Lucilia…

Eu, por exemplo, tinha Dona Lucilia na consideração de muito jeitosa. Analisando-a bem, via que ela o era sobretudo num ponto: consolar as pessoas que estavam sofrendo. A esse respeito não havia igual a ela. Desde aqueles que padeciam fisicamente até os que sofriam moralmente.

Um sobrinho de mamãe – portanto, primo-irmão meu – fez sair das brumas de minha memória um fato do qual eu me lembrava muito confusamente.

A mãe de Dona Lucilia era a dona da casa onde nós morávamos; ela era uma senhora já idosa, mas muito bonita, dominadora e imponente. Com o olhar subjugava as coisas, não tinha conversa.

Um dos meus tios viajou com a esposa para o Rio de Janeiro e deixou os filhos hospedados com ela. Vovó, naturalmente, aceitou e mandou instalar as crianças. Certo dia o mais velho dos três quis dar umas voltas de bicicleta; chegou a hora do almoço e, ou ele não quis voltar porque estava gostando do passeio e perdeu a hora, ou ele se esqueceu e não chegou pontualmente à refeição. A matriarca estava sentada, como é natural, na ponta da mesa. O almoço transcorria, quando em certo momento minha avó disse:

— Por que X não está presente?

Só aí me dei conta que ele não estava…

E perguntou a mamãe:

— Lucilia, X não está presente?

— A senhora está vendo, ele não está…

— Espere ele chegar que vai ver o que lhe custa isso.

Algum tempo depois chega o menino. Antes de ele se sentar minha avó disse:

— Fulano, onde é que você andou?

— Eu fui dar um passeio de bicicleta.

— Mas você foi aonde com essa bicicleta?

— Eu estive em tais ruas – ele de pé esperando licença para sentar.

— Mas você se dá conta de que você está em casa de sua avó, um lugar de sumo respeito e que você não tem o direito de chegar atrasado?

Ele ficou esmagado e respondeu:

— A senhora me desculpe.

— Não, senhor, não se trata de desculpa! É como dizer que eu fique quieta porque você já pediu desculpa. Não, esse negócio não acabou! Vai ter uma punição e depois do almoço você verá o que é. Agora sente-se e coma depressa sem conversar, para não atrasar o serviço da mesa.

O rapaz saiu chorando. Era um menino de uns doze anos.

Isso produziu na mesa em geral um certo movimento brasileiro de compaixão. Mas a dona da casa estava vigiando os olhares e todos ficaram quietos.

Olhei para mamãe: ela estava inteiramente tranquila. Era o modo de ser dela. O normal é que ela estivesse com muita pena do rapaz, sobrinho dela, mas não disse nada. Tomou um ar o mais neutro possível e, quando a conversa já tinha mudado de rumo, ela disse:

— Com licença, eu vou entrar um pouco.

Levantou-se e eu percebi que ela tinha saído para o corredor contíguo à sala de jantar para consolar o rapazinho que chorava debandadamente. Ela disse a ele uma série de coisas:

— Você não se incomode, sua avó é assim, todos nós sabemos. Ela é uma senhora muito boa…

Ela era, por exemplo, muito esmoler e tinha muita pena dos pobres, mas os netos, não estavam nessa lista. Diga-se entre parênteses que às vezes minha irmã e eu enfrentávamos discussões tempestuosas com vovó. Conosco a coisa não ia no choro, ia no duelo.

Arquivo Revista
Dona Lucilia

Esse meu primo, pouco tempo atrás, conversando com alguém que se interessava pela vida de mamãe, disse o seguinte:

— Se eu me lembro de tia Lucilia? Tia Lucilia era uma santa! O calor de um afeto assim eu nunca mais senti na minha vida e até hoje eu me lembro disso.

O fato é o seguinte: ele parou de chorar, entrou com ela na sala de jantar, sentou-se e começou a comer ativamente sem falar, o ambiente da mesa se recompôs, minha avó tinha-se acalmado, o jeitinho de Dona Lucilia tinha resolvido tudo.

…irradiados na tranquilidade e no momento certo

No que consistiu o jeitinho dela neste caso?

Foi em compreender que não adiantava dizer nada a vovó naquela ocasião, mas que também não adiantava consolar o sobrinho diante de todos, porque minha avó não permitiria. Ele estava sendo castigado e não podia ter consolo. Então o que ela fez? Ela se conservou numa neutralidade tranquila, que irradiava tranquilidade em torno de si.

Um lado do jeitinho é ter essa tranquilidade e saber irradiá-la no momento certo. Outro lado é que ela percebeu qual era a ocasião em que podia levantar-se para atender o menino. Logo que houve ocasião, ela levantou-se tão calma, tão tranquila, dizendo “Eu preciso ir ver uma coisa lá dentro” – o que não era mentira, ela tinha que ver esse menino –, que todo mundo tomou como natural. Eu acho que nem se lembraram que ela ia tranquilizar o menino.

Ela fez isso de modo muito rápido, sem ficar muito tempo do lado de fora da sala a fim de não dar desconfiança em minha avó de que ela andava acalmando o rapaz. Depois voltou com ele para a mesa, mas já prestando a atenção no que se conversava a fim de evitar que os olhos se voltassem novamente para ele. É uma série de jeitinhos para resolver uma situação.

Um famoso jeitinho político

Há outros jeitinhos, há outros modos de fazer as coisas que não são carinho nem bondade. O embaixador venezuelano parece ter concentrado a sua atenção nesses dois aspectos; mas existem rasteiras políticas.

Um, por exemplo, de que eu me lembro aqui: o Barão do Rio Branco foi o maior Ministro do Exterior que teve o Brasil. Ele conhecia a geografia da América do Sul como talvez ninguém de seu tempo. Por outro lado, ele sabia dos tratados entre a Espanha e Portugal sobre as fronteiras que as colônias de ambos os reinos tinham na América do Sul, os tratados para retificar bem as fronteiras que os países independentes fizeram com o Brasil quando este também se tornou independente.

Ele possuía uma mapoteca – quer dizer, uma coleção de mapas – extraordinária; tinha uma memória admirável e, sobretudo, tinha um jeitinho incomparável.

Arquivo Nacional (CC3.0)
Barão do Rio Branco

Ele era alto, de rosto cheio, um grande bigode branco, porque ele já estava velho nessa ocasião, abdômen proeminente, usava colete de casimira, colarinho duro e, como se usava naquele tempo, o colete tinha um bolso de cada lado. Num dos bolsos ia um relógio de ouro, com uma corrente também de ouro que abotoava no penúltimo botão do colete. No outro bolso havia uma malha de ouro para pôr moedas. Ele era um gastrônomo único, comia como poucos e entendia de comida muito bem.

Ele foi quem negociou todas as fronteiras do Brasil, desde a Guiana, passando pelos Andes, até chegar ao extremo sul da nossa linha continental, e teve êxitos diplomáticos brilhantes. Por causa disso ele era famoso em todo o continente sul-americano. Estava habituado, portanto, a ser tratado por todos na palma da mão, porque o Brasil tinha um entusiasmo emocionado para com ele.

Para tudo ele dava jeitos. Um caso que pode parecer sem graça, mas onde o jeitinho é evidente, foi este: ele chamava-se José Maria da Silva Paranhos Júnior. Rio Branco era o nome do pai dele como visconde. Como os títulos nobiliárquicos do Império não eram hereditários, ele não podia usá-lo, mas ele não queria deixar de ter um título como o pai. Então, antes de se fazer a República, o pai e ele conseguiram que o imperador lhe outorgasse o título de Barão do Rio Branco, não por hereditariedade, mas por méritos de sua carreira. Ele era mocinho ainda, não tinha obtido esses êxitos todos, mas como o pai era quem era, conseguiu-lhe isso.

Proclamou-se a República e, muitos anos depois, ele já homem feito, com toda a sua cultura armazenada e ordenada, começava a ser consultado largamente pelo Itamaraty. O Presidente da República estava satisfeito com o trabalho dele, mas lhe disse:

— Vossa Excelência não pode assinar com este título porque a República não reconhece barões. De maneira que nos decretos que assinar tem que ser como José Maria da Silva Paranhos.

— Senhor Presidente, nesse caso eu renuncio ao meu cargo de ministro, porque a República não foi bastante flexível para aceitar um título que lhe dê fronteiras maiores para o Brasil…

É tal o jeitinho dele, que até parece um passo de capoeira ou de caratê.

— Mas, Vossa Excelência não oferece uma solução?

Arquivo Nacional (CC3.0)
Ruy Barbosa

— Vossa Excelência acaba de dizer que a República não reconhece o título de barão. Então eu assino só Rio Branco. Este era o nome do meu pai e é o meu também. Vossa Excelência finge que não percebe que a República não o aceita porque é nome de nobre; Vossa Excelência fica contente e eu também.

O Presidente deu risada e disse:

— Assine aqui seu primeiro decreto e coloque barão – passou…

Certo tempo depois, houve um congresso de Direito Internacional na cidade de Haia, na Holanda, e foram convidadas todas as nações do mundo. Como era sobre Direito e não geografia ou fronteiras, o governo brasileiro convidou o Ruy Barbosa – conhecido como muito grande orador –, para representar o Brasil.

Os jornais tinham verdadeira idolatria por ele e publicaram que ele havia feito um sucesso prodigioso e que na Europa, quando se falava dele, chamavam-no “Águia de Haia”, porque havia voado nos céus culturais de Haia como uma águia no céu azul. Quando o Ruy Barbosa retornou ao Brasil, prepararam manifestações colossais. O Presidente, sabendo como o Rio Branco era cheio de caprichos e voluntarioso, chamou-o e disse:

Mdf (CC3.0)

— Senhor ministro, eu devo dizer que Vossa Excelência amanhã deve ir representar o meu governo na casa do Sr. Ruy Barbosa.

Assim as pessoas se tratavam naquele tempo.

— A tal hora chega o navio, e os amigos dele devem recebê-lo em casa dele. Eu sei que Vossa Excelência não vai querer estar presente, porque conheço sua animadversão em relação ao Ruy Barbosa, mas eu quero que esteja presente como Ministro do Exterior.

— Senhor Presidente, deixe por minha conta que eu resolvo tudo.

O Presidente ficou desconfiado que ia entrar um jeitinho, mas deixou, porque não podia perder aquele ministro. É um desses casos em que o ministro manda mais do que o Presidente.

Quando chegou a hora, o Rio Branco se informou; a casa do Ruy Barbosa estava bastante cheia, e até num pequeno jardim em frente havia convidados esperando que saíssem uns para outros poderem entrar. O Rio Branco foi até lá e ficou horas nesse jardim, em pé e conversando com os que entravam e saíam. Não foi cumprimentar o Ruy Barbosa e quando quis, saiu sem ter falado com ele.

Quando o Presidente o interpelou:

— Vossa Excelência me prometeu que estaria em casa do Conselheiro Ruy Barbosa, e não foi?

— Senhor Presidente, eu fui à casa dele.

— Mas como foi?

Arquivo Revista
Dr. Plinio em outubro de 1994

— Fiquei o tempo inteiro no jardim. Ele faz parte da residência; logo, eu fui à casa dele.

É um jeitinho, uma driblada… O outro, brasileiro também, achava graça, e como ele precisava do Rio Branco – e a lei da necessidade é uma lei brutal – o fato passou.

São exemplos de jeitinho.

Uma imagem do pensamento brasileiro

Quando vemos o bater de asas do colibri, quase não conseguimos fixar com o olhar o momento em que as asas dele passam de um ponto a outro. Ele fica parado no ar com o bico dentro de uma flor, como se fosse um gancho para mantê-lo suspenso; mas, na realidade, é pelo movimento das asas que ele se mantém nessa posição. E quando ele acaba de sugar, de repente voa para outro lugar. Em geral é para uma direção que não imaginamos…

Já tem acontecido de eu ficar olhando o beija-flor e me perguntar: “Para onde ele vai?”, com a evidente vontade de pegá-lo, mas não pegando, pois é impossível; basta nos movermos que ele já intui.

Ele para de repente, não tem momento em que ele diminui um pouco a sucção. Quando ele está sugando aquele néctar da flor com mais afinco e temos a impressão de que ele está gostando especialmente, de repente ele vai para um lado que ninguém imagina, a toda a pressa e sem nenhuma dúvida.

O beija-flor parece ser o símbolo do pensamento brasileiro. Muda de repente, voa de um lado para outro, arranja uma rasteira, dá um jeito ou então um jeitinho, e daqui a pouco ele está pensando em outra coisa.

(Extraído de conferência de 19/10/1994)

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