Para Dr. Plinio, o dia 15 de agosto revestia-se de especial significado, antes de tudo por ser festa da gloriosa Assunção da Rainha do Céu e da Terra ao trono a Ela destinado; mas também por se comemorar o aniversário natalício do mais eminente de seus filhos, suscitado para ser, segundo as próprias palavras de Dr. Plinio, seu “alter ego”, cuja assombrosa fecundidade do apostolado deveu-se à aceitação incondicional das grandes e sucessivas cruzes a ele impostas pela Providência.
A Cruz!… considerada uma ignomínia na Antiguidade, foi, entretanto, o instrumento escolhido e sublimado por Nosso Senhor Jesus Cristo para operar a Redenção, indicando-a, até, como verdadeiro caminho a ser palmilhado por aqueles que querem ser verdadeiramente seus discípulos (cf. Lc 14, 27).
Viver à sombra desse Lábaro, aceitar com a alma transida de amor e o espírito decidido de um guerreiro todos os sofrimentos enviados por Deus, foi para Dr. Plinio uma regra de vida. “Ser católico e ter medo de sofrer por Deus é fazer deste um mero banqueiro que nos fornece prazer ao sabor de nossos caprichos, ou lacaio a quem se encomenda felicidade, como se lhe pede um copo de água. É amizade o ter medo de sofrer por um amigo? Não. Logo, não é Cristianismo o ter medo de nos sacrificar por Jesus, nosso maior amigo. Não cometamos a atrocidade de abandonar Jesus no Calvário”.1
É por isso que a descrição paradigmática da vida de Jó sempre o encantou, pois nela ele via não apenas a prefiguração dos sofrimentos que o Padre Eterno havia reservado para seu próprio Filho, o Homem-Deus, como também uma parábola do modo como a Providência trata aqueles filhos aos quais Ela ama com especial predileção e a quem reserva a altíssima missão de “fazer recuar ou avançar o plano de Deus na História”.2
O ano de 1995, o último da vida de Dr. Plinio, foi para ele particularmente repleto de sofrimentos. E a Providência pediu-lhe, ademais, que carregasse as cruzes que Ela lhe enviava sem que pudesse ter junto a si aquele que sempre fora seu Cireneu… Acometido por grave doença, a sarcoidose, ficou o Sr. João Clá obrigado a convalescer longe de seu pai espiritual por longos meses. Esse distanciamento favoreceu uma correspondência assídua e deixou registrados para a História os sublimes motivos que aumentaram ainda mais o grande amor que Dr. Plinio devotava a seu discípulo fiel:
“João meu, meu filho diletíssimo…
“Um dos ensinamentos que com maior continuidade me deu NOSSA mãe3 consistiu em que, quanto mais uma pessoa sofre, tanto mais é digna de amor.
“Diante de tantos e tantíssimos de seus feitos, eu me perguntei mais de uma vez: restará ainda alguma coisa para o João fazer por nossa Causa e por mim, de modo que eu o queira ainda mais? A resposta tendia a ser pela negativa: na pluralidade estonteante de vias e de feitos que se abrem ante nós para servir à Santa Igreja, tanta coisa já está feita… e tantas – das que restam por fazer – prometem ser apenas magníficos desdobramentos do já feito, que eu me sentia perplexo. Porém, vendo-o sofrer tanto e tanto, sem desfalecimento, sem inconformidade, sem torcidas frenéticas e coisas do gênero, ainda o quis mais! Quão menos bem eu teria querido mamãe se não a tivesse visto sofrer tanto!
“Foram esses os pensamentos que me subiram à tona d’alma, ao ler seu último e magnífico ‘tubonema’.4
“Peço à Virgem Imaculada que, sendo Ela nossa legítima Soberana, a um título incomparavelmente mais forte e excelso do que qualquer outro na Terra, continue a difundir sobre você, sobre todos nós e especialmente sobre os que Ela mais ama, graças impressionantes, que nos preparem para o grande dia d’Ela.
“Peço a Ela igualmente que conceda a você, e a todos nós, as graças necessárias para uma resistência arqui-heroica no grande dia d’Ela. E, em particular, para você, meu querido João, os mil favores inerentes à cura urgente, brilhante e decisiva que tanto lhe desejamos”.5
Na presente edição, o leitor poderá contemplar mais alguns dos belíssimos ensinamentos de Dr. Plinio e constatar o quanto foi ele um verdadeiro apóstolo da Cruz.
1) Discurso pronunciado na Academia Jackson de Figueiredo, em 11/1/1931.
2) Conferência de 30/4/1995.
3) Dr. Plinio se refere a Dona Lucilia.
4) Termo jocoso utilizado por Dr. Plinio, no âmbito interno do Grupo, para se referir ao fax, o qual se lhe afigurava como uma mensagem transmitida por meio de um tubo.
5) Correspondência de 13/3/1995.



