Em Maria Santíssima, a plenitude da virgindade coincidiu com a perfeição da maternidade. Eis um predicado odiado pelos adeptos da gnose, cujas teses são diametralmente opostas à Doutrina Católica e, por isso também, à Contra-Revolução.
Pediram-me para fazer um comentário sobre as invocações contrarrevolucionárias da Ladainha Lauretana. Evidentemente, todas as invocações ali contidas são contrarrevolucionárias. Portanto, haveria muita vantagem em esclarecer, debaixo de certo ponto de vista, o que é uma coisa contrarrevolucionária.
Doutrina Católica e Contra-Revolução
Contra-Revolução, em última análise, é um fervor ou uma devoção especial a determinadas verdades-chave da Doutrina Católica, em oposição à gnose.
No mundo só há, de fato, duas doutrinas e opostas entre si. Uma é a Doutrina Católica, considerada na sua integridade e autenticidade; outra é a doutrina gnóstica. Todas as demais são intermediárias, são apenas pontos de transição pouco consistentes entre essas duas.

Há alguns pontos que são salientes na doutrina gnóstica, como por exemplo, o igualitarismo. Este e outros pontos que nela mais se sobressaem constituem erros que correspondem às verdades mais excelentes da ordem de coisas posta por Deus. Como a gnose é a caricatura e a negação da ordem profunda de tudo o que é verdadeiro, tudo o que ela afirma é contrário a uma verdade capital, a uma verdade-chave da Doutrina Católica.
A Contra-Revolução é, portanto, um estado de espírito de guerra, de luta, de execração da gnose e que ama na Doutrina Católica, com fervor especial, as verdades que essa heresia quereria tornar esquecidas ou negar. O contrarrevolucionário é quem tem esse estado de espírito de combate, por isso recebe como prêmio uma visão mais nítida e um amor mais zeloso, mais ardoroso às verdades que a gnose combate.
A verdade católica é uma verdade total, como a ordem posta por Deus no universo também é total. E tudo quanto é verdade religiosa faz parte desse tesouro de verdades da Doutrina Católica. Portanto, na Doutrina Católica tudo é contrarrevolucionário. Não há nela algo que não seja contrarrevolucionário.
Eu ouvi dizer que certas pessoas achavam que algumas invocações de Nossa Senhora não são contrarrevolucionárias por serem muito sentimentais. Afirmar isso é o que há de mais disparatado! Tudo quanto é aprovado pela Igreja é contrarrevolucionário, é bom. Assim, repito, todas as invocações de Nossa Senhora são contrarrevolucionárias e toda a Doutrina Católica é contrarrevolucionária também.
Entretanto, há uma Contra-Revolução lato sensu que é simplesmente ser católico apostólico romano; e uma Contra-Revolução stricto sensu que é o mesmo ser católico apostólico romano, mas com uma nota central mais aguda, que é o zelo por certas verdades que a gnose mais especialmente quer negar.
Invocações de Nossa Senhora mais especialmente detestadas pelo espírito gnóstico
Podemos nos perguntar: quais são as invocações de Nossa Senhora, presentes em sua Ladainha, que mais especialmente o espírito gnóstico detestaria e às quais devemos ter uma veneração maior?
A primeira invocação da Ladainha Lauretana é genérica: Sancta Maria. Duas outras invocações, que vêm logo depois, Sancta Dei Genitrix e Sancta Virgo virginum, a meu ver, são frisantemente antignósticas.
Sancta Virgo virginum: Santa que foi Virgem entre todas as virgens. Nossa Senhora é de tal maneira Virgem, que é superior às outras virgens, como uma virgem é superior a quem não o é. Quer dizer, tem uma virgindade tal que, em comparação a Ela, nada é virgindade. Isso é muito próprio do espírito contrarrevolucionário e faz um gnóstico encolerizar-se. E como o indivíduo de espírito moderno não é senão a periferia da gnose, nós podemos dizer que ele também bufa com isso. Por quê? Porque a virgindade tem uma porção de aspectos que causam implicância a ele.

O primeiro desses aspectos – no sentido de chamar mais a atenção e não de ser mais importante – é algo de segregacionista que existe na virgindade. A virgindade não se mistura, não se envolve; ela se mantém a uma certa distância, não é promíscua; ela foge às intimidades de qualquer pessoa, é muito recatada. Se há uma virtude que cria em torno da pessoa que a possui uma atmosfera de recato, de ambiente privado, uma esfera reservada, é precisamente a virgindade.
A impureza, pelo contrário, tende para a promiscuidade, para a banalidade, para ser um só com todo mundo, para se misturar com tudo, para se apresentar em trajes despojados diante de todos. A impureza é fundamentalmente coletivista, enquanto a virgindade inclina-se para o aristocrático. O puro está para o impuro numa posição que lembra, até certo ponto, não a do nobre em relação ao plebeu, mas em relação ao facínora, ao condenado às galeras.
Há uma transcendência, uma superioridade vertical absoluta do puro sobre o impuro, que tem em si contidas o padrão de todas as desigualdades, de todas as diferenciações legítimas que se poderiam imaginar, e que a gnose e o igualitarismo moderno detestam. De maneira que, já por essa razão, a pureza é execrável para eles. Sobre pureza e igualitarismo eu poderia fazer uma conferência inteira.
Felicidade e bem-estar da alma pura
Na pureza há outra coisa execrável para o igualitarismo moderno. Ela supõe a afirmação da seguinte tese: quando se fala de uma virgem, tem-se a impressão de uma pessoa que goza de certa dose de felicidade e de bem-estar interno. Enquanto a virgindade conduz ao equilíbrio e harmonia internos, contentamento consigo mesmo, felicidade que vem de dentro para fora, de cima para baixo e enche aquele que é puro, a impureza, pelo contrário, promove agitação, instintos desvairados, necessidade de encontrar a fonte de prazer fora de si para se alimentar e, portanto, uma espécie de permanente insatisfação.

Então na ideia de pureza está envolvida a seguinte noção: quem não concede aos seus sentidos o que eles pedem; quem governa o corpo e não lhe dá aquilo que ele solicita; quem leva uma vida relativamente pobre de prazeres, encontra uma felicidade que não é a do corpo, mas do espírito, um bem-estar que não é o físico, mas é o da alma. Trata-se de uma harmonia interna, que não tem nada a ver com os problemas terrenos, mas se relaciona exclusivamente com os bens do espírito e da alma.
É uma afirmação primeiro de existência e depois de domínio do espiritual sobre o material; de uma plenitude da ordem pela qual o espírito existe como uma coisa fundamentalmente diversa e superior à matéria. Isso faz urrar os homens modernos, porque eles vivem para a matéria e para a carne, não compreendem prazer nem felicidade que não sejam os do corpo.
A pureza e os valores do espírito
Há um pontinho mais fino, difícil e delicado, que irrita ainda mais os gnósticos no que diz respeito à pureza e aos valores do espírito: o puro encontra felicidade numa situação interna que não é a espontaneidade. A pureza não é espontânea, ela é algo que nós estamos sempre defendendo contra alguma investida do adversário, ao contrário do mundo moderno, que adora a espontaneidade sob pretexto de naturalidade e sob o aspecto de horror a um artificialismo. O espírito hollywoodiano sobretudo é assim; todo ator e toda atriz têm uma fisionomia de quem não possui censuras mentais, é aquela gargalhada, uma atitude de alma espontânea, tudo é uma criançada.

O puro encontra a sua felicidade no controle e na direção de si mesmo, que é a mais plena afirmação da dignidade da pessoa humana. Porque esta consiste em saber ver, saber o que quer e o que deve ser, e saber guiar-se para ser o que se deve ser.
O mais curioso é que, quando se sobe ao alto dessa montanha, é fácil ficar em cima. É preciso adquirir essa pureza e, adquirindo-a, vem a harmonia interna, o bem-estar, aquela satisfação.
O ódio da gnose à pureza
Em nenhum lugar essa harmonia é apresentada tão bem como nas pinturas de Fra Angelico. Aqueles Anjos que ladeiam a imagem de Nossa Senhora, por exemplo, são de uma pureza que simboliza toda a felicidade interior do puro. Ora, a grande mentira do demônio para os homens de hoje é: “Sede impuros para serdes felizes” e, na verdade, aquilo que o demônio promete é precisamente o que vai tirar. Então, se ele promete a felicidade, o impuro tenha certeza: é isso que ele não vai ter.
O demônio vai lançar aquela alma no inferno, no horror de degradação e de sujeira. Ele vai embrutecer aquela alma, enquanto se trata de afirmar exatamente a superioridade do espírito: nós temos na castidade o domínio do material pelo espiritual; o domínio da alma do homem sobre si mesma e, em terceiro lugar, ainda na ordem espiritual, o domínio do sobrenatural sobre o natural, da graça sobre a matéria.

Ora, se isso é inteiramente o que o espírito moderno rejeita, o que o filho da gnose detesta, como ele deve ter ódio de haver uma criatura excelsa, maior que todas as outras, que acima de Si tem só Deus: Nossa Senhora, em cuja ladainha há dois títulos se completando e constituindo para a pureza uma glorificação sem par!
Maria Santíssima, Virgem e Mãe: para a pureza, uma glorificação sem par!
A virgindade tem tudo, ela só não tem a glória da maternidade. Mas Aquela que foi a Virgem das virgens, e que, portanto, deveria, pela natureza das coisas, ser privada da glória da maternidade, foi, por outro lado, a Mãe por excelência porque foi Mãe de Deus. N’Ela, para a glória da virgindade, até esses opostos coexistiram: ser a Mãe de Deus – mãe por obra e graça do Espírito Santo, mas mãe inteiramente verdadeira –, conservando intacta a virgindade. É uma espécie de cúmulo de glória insondável e que ofusca, quer pela perfeição natural que apresenta, quer sobretudo pela obra da graça, que nos deixa completamente desnorteados.
E aqui está outro ponto de conflito com a gnose, e, portanto, outro aspecto contrarrevolucionário dessas invocações: isso constitui uma ordem de desigualdade em toda outra espécie de bens criados! É o anti-igualitarismo levado a uma plenitude inimaginável. Essa é a Rainha de todas as criaturas, Rainha dos Anjos, como Rainha dos Santos, é a nossa Rainha! A plenitude da virgindade coincidiu com a perfeição da maternidade. Mas uma perfeição tal que não é a da natureza, é a da graça.
Compreendemos facilmente como isso deve nos encher de admiração e fazer-nos avaliar melhor qual é a santidade de Nossa Senhora e que obra-prima insondável Deus realizou criando-A. Mas isso deve fazer-nos sentir também o aspecto revolucionário e gnóstico dos erros que são calcados aos pés cada vez que católicos recitam essa ladainha ou olham para a imagem de uma Virgem que é Virgem-Mãe, de uma Mãe que é Mãe de Deus.
“Sancta Virgo virginum, ora pro nobis”. Para nós isso é tão banal e às vezes cantado pela “heresia branca”1 fica tão abobado, tão vazio de sentido, que até se perde a noção da grandeza que essa invocação contém. Mas, quando cantado com a voz e os instrumentos da Igreja, com a piedade dos verdadeiros fiéis, compreendendo o que isso quer dizer, é um brado de tributo e é o esmagamento de toda espécie de heresia!
(Extraído de conferência sem registro de data)
1) Expressão empregada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental e adocicada que se manifesta na piedade, na cultura, na arte etc.



