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I – Esplendores, glórias e magnificências da Santa Igreja

A Igreja Católica é como uma imensa alma vivificada pelo Divino Espírito Santo. Tudo o que é inspirado por ela tem sacralidade, nobreza, respeito, paz. Se formos plenamente fiéis, ela realizará sua vida dentro de nós e nos fará comunicarmos mutuamente o que vemos dela. O que há de mais belo na Terra é contemplar as diversas manifestações do espírito da Igreja nas almas e nas mil realizações levadas a cabo por ela.

Imagine que alguém tivesse o intuito de ser um grande pintor. Como aprenderia pintura? Indo aos grandes museus, vendo quadros de grandes mestres e aprendendo ali a técnica da pintura, o espírito de arte do pintor. E, vendo, amar, ficar entusiasmado por aquilo e depois começar a pintar. Antes é preciso prestar atenção, querer bem, para depois realizar.

A mesma coisa se passa conosco. O que devemos fazer para ter amor à Igreja Católica? Devemos desejar ardentemente essa graça. Para aproveitá-la, é preciso estarmos muito atentos à Santa Igreja, analisar o que ela faz, o que ensina, como reza, como é toda a sua vida, sua história, querê-la bem – ambas as coisas por ação da graça –, admirar e, depois então, nos dedicarmos a ela.

Quanto mais um ser é elevado, tanto mais deseja a união

Vou dar uma regra sobre a qual não tive tempo de raciocinar mais profundamente, mas creio ser verdadeira. Quanto mais um ser é alto na ordem do ser, tanto mais a sua união com os seus semelhantes é profunda, e tanto mais ele a deseja.

De maneira que os tais orgulhosos solitários, do tipo Prometeu1 isolado, amarrado numa rocha, acompanhado apenas daquela águia infatigável que lhe comia o fígado com uma exuberância dramática, e o qual se recompunha sempre, estes, o século XIX glorificou muito: o homem misterioso que mora sozinho na mansarda de uma casa, onde nunca ninguém entra. Todo dia pontualmente, às cinco da tarde, ele sai e dá um giro ao longo de um rio, com passo cadenciado e de cartola.

Às sete da noite, ele termina o seu exercício, volta para cima, até que não se ouve mais falar dele, a não ser um dia no qual a criada vai buscar uns jornais velhos que estavam guardados com ele e pertenciam ao condomínio, e o vê dentro chorar… Em pouco tempo, morre tuberculoso…

Esse isolamento o século passado apresentou como sendo a expressão da sublimidade do espírito. Ora, isso é precisamente o contrário, é uma expressão de vulgaridade do espírito, porque não mostra aquela atitude por onde o indivíduo é capaz de se unir a outros que lhe são semelhantes.

Gleb Simonov (CC3.0)
Juízo Final – Museu de São Marcos, Veneza

E assim se poderia perguntar se os Anjos, de coro em coro, não são cada vez mais “unientes” entre si. E se o amor dos Serafins, por exemplo, não é também uma grande capacidade e um grande pedido de união com Aquele que é o Supremo entre os supremos.

Essa regra, aliás, tem, em vários planos, consequências as mais belas, as mais ricas, as mais excelentes.

Por que isso é assim? Porque uma pessoa, mesmo muito alcandorada, não é capaz de conter e espelhar em si todo o esplendor que há em Deus; e ela, por estar muito penetrada de seu próprio alcandor, tem o desejo da complementação do conhecimento de outros alcandores, porque o alcandor dela, por ser muito alto e muito penetrado de Deus, é ávido de outras expressões d’Ele. No fundo é isso.

Donde, conhecendo outro alcandor em alguém, voa para ele, porque conhecerá mais um aspecto e complementará o seu próprio alcandor. Essencialmente, é um aspecto de espelhamento de Deus que ela não conhecia antes.

Assim, dois aspectos de Deus que se consideram enquanto separados d’Ele têm fome de unir-se, e a única matriz concebível é a união das três Pessoas da Santíssima Trindade.

Como conhecer a Igreja

Ora, o mesmo existe na Igreja Católica.

A Igreja, que é a face de Deus na Terra, não é vista do mesmo modo por todos os seus filhos, nem natural, nem sobrenaturalmente. Nela pode-se fazer uma distinção de aspectos naturais e sobrenaturais. Os naturais, a Igreja os têm em grande quantidade e de toute beauté.2 Mas, além disso, ela tem os seus aspectos sobrenaturais que excedem incalculavelmente os naturais e que, aliás, se interpenetram. Não formam duas zonas cortadas, mas duas luzes que brilham juntas aos mesmos olhos.

Os espíritos celestes, os Santos que estão no Céu veem a Deus totus sed non totaliter: eles O veem no seu vulto total, mas não veem todos os aspectos d’Ele.3 Assim, cada um de nós vê a Igreja tota sed non totaliter: vê a figura geral dela, mas não vê cada detalhe dentro d’Ela com igual clareza com que o outro vê.

Por exemplo, uma Santa que passa a vida cuidando de criancinhas com idade entre um a sete anos, e vê passar pela rua um tropel de cruzados em direção à Guerra Santa; ela olha e fica com a alma transbordando por tê-los visto passar. Por quê? É um alcandor complementar ao dela.

De outro lado, o verdadeiro cruzado que passa e vê a Santa com as criancinhas, olha com encanto e diz: “Ah, há aqui um lampejo da Cristandade para eu admirar! Como é bela a Igreja Católica que inspira tal virtude; como eu me sinto complementado nisto!” Se não der neste desejo de complementaridade, o amor de Deus não está presente, porque não há esta regra de união.

Aliás, volto a dizer, nas aulas de Catecismo não se ensina isso, os pregadores não mencionam e nem levantam o problema, o que torna quase impossível o indivíduo compreender a Igreja.

Assim, se nós formos plenamente fiéis à Igreja, somos chamados a propriamente olhá-la, a realizar a vida dela dentro de nós e a comunicarmos mutuamente o que vemos dela, de maneira que cada um ajude o outro a vê-la, a percebê-la e a entendê-la melhor, e a se modelar de acordo com ela.

Flávio Lourenço
A Virgem comungando pelas mãos de São João Evangelista – Mosteiro de São José, Málaga

Eu, a cada dia que passa, compreendo melhor que meu amor à Igreja vem desta omnia in omnibus4 (1Cor 15, 28) dela, e que se eu, de dentro do olhar de uma Santa que cuida de criancinhas, não fosse capaz de ver com enlevo a cavalaria que passa e se dirige para a Cruzada – e recíproca – haveria uma tal disjunção que seria não tomar a sério nem a Cruzada nem a Santa. Mas é preciso ver tudo enquanto a alma da Igreja gerando essas coisas todas, alcandoradas, maravilhosas, sublimes, sacrais; a Igreja estando desse modo inteira na alma de cada um; assim é que o flos sanctorum5 para mim tem um perfume inebriante. Eu seria incapaz de olhar qualquer aspecto de um Santo a não ser desse modo, e um Santo deve ser assim.

Daí uma hierarquia de sensos católicos, mas também de graças. Porque ver a Igreja nos seus aspectos sobrenaturais é uma operação sobrenatural que não se consegue sem a graça, e esta é desigual para todos. De maneira que todos têm de se dar mutuamente na ordem da graça.

Intimidade sacral em Éfeso

Por exemplo, Nossa Senhora, que era santíssima, recebia alegria e incentivo vendo a santidade de um São João Evangelista, um Santo diante do qual qualquer um de nós é uma poeira, mas que diante d’Ela era menos que uma poeira, porque, em comparação com Ela, a mais alta criatura que tenha existido é quase nada.

Podemos imaginá-La conversando com São João Evangelista em Éfeso, numa tardinha; o dia caindo e os dois com saudades de Nosso Senhor. Ambos comungaram, e Ela, com a presença eucarística em Si, mas com saudades de ver, falar, com saudades da presença física que Ela tinha com tanta assiduidade, mas provavelmente não continuamente. São João com saudades também, e quantas! E a conversa começaria: “Lembra-se disto… e assim…” E estrelas se acendiam no céu.

Nossa Senhora contava um fato a São João, ele narrava algum outro que Ela tinha sabido à distância, mas que fingia não saber, e comentava celestialmente com ele, e ele se embevecia; Ela sorria e se enchia com o embevecimento dele. Então ia uma noitada entre Mãe e filho, uma noite de intimidade sacral em Éfeso!

Quer dizer, até Nossa Senhora tinha o que receber de São João.

Graça de magistério e graça de discipulado

Apesar de que todos tenham que receber de todos, nem todos recebem na mesma porção, uns recebem muito mais. Cada homem tem uma certa graça própria para ver na Igreja o que ninguém veria, para aprender do outro o que ele mesmo não vê. Seria uma espécie de graça de magistério e uma graça de discipulado: uma para ensinar, outra para aprender.

Ai do homem que despreza a graça de aprender! Porque todos somos discípulos uns dos outros em alguma coisa. Ai do homem que despreza a graça por onde ele ensina! Porque ambas são caminhos para chegarmos a Deus; ai do homem que despreza os caminhos que levam a Deus!

Chegamos à conclusão de como as obras de Deus são muito ordenadas e como até entre os Anjos há coros que são imagens das famílias; nesse imenso conjunto de almas que é a Igreja Católica há famílias de almas.

O que é uma família de almas? É um conjunto de almas que, segundo o plano de Deus, devem ser tocadas por um mesmo filão da graça, dentro do qual são especialmente chamadas para um discipulado e para um magistério, de maneira que todas aprendem umas das outras e todas se ensinam mutuamente. São as ordens religiosas, as paróquias, as dioceses; são as famílias, as províncias, os municípios, as nações, os impérios; tudo isso, por vários aspectos, constitui famílias de almas.

Luis C. R. Abreu

Aos olhos de Deus, quem ousaria negar que a França é uma família de almas? Ou que os jesuítas, os beneditinos ou os carmelitas são uma família de almas? São até famílias que se entrecruzam harmonicamente, como num dia de muito sol os cristais de um vitral resplandecem juntos e suas luzes se cruzam pelo ar, sem fazer desordem. Formam uma espécie de espectro de conjunto, feito da conjunção e da mistura harmônica de tudo isso, que o homem olha e diz: “Luz”.

Amar e admirar a Igreja total

Assim nós devemos amar a Igreja total, em todos os seus aspectos, em todos os seus Santos, em todas as suas ordens religiosas, em todas as suas obras, em todas as suas instituições; devemos prestar atenção, procurar compreender e amar. E, mais do que isso, admirar. Porque da admiração pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana nasce a união com ela.

O que me importa é fixar a atenção para a imagem de uma Igreja perfeita – realmente difícil de reconstituir, porque só o é a Igreja Triunfante – mas uma Igreja onde a perfeição fosse frequente de se encontrar, para compreender a beleza de tudo isso.

Dou um exemplo. Quando se entra durante o dia numa igreja para rezar, às vezes nota-se um contraste: fora uma barulheira, ônibus, correcorre, automóveis, cansaço, frenesi, corrupção, tudo junto. Entra-se na igreja, tão tranquila, o sol penetra pelos vitrais bonitos, fazendo belos reflexos no chão, parecidos com rubis, esmeraldas; as imagens dos Santos estão ali, impávidas, como que rezando. O Santíssimo Sacramento está numa capela ao lado, é Nosso Senhor Jesus Cristo em Pessoa que está lá, assim como estava na Judeia, em sua vida terrena. Sente-se envolvido de um certo espírito, de uma certa impressão e, enquanto a sentimos, devemos fazê-la durar, pensando nela.

O incenso do turíbulo, expressão do coração santo

Uma pessoa vai a uma cerimônia religiosa e vê, por exemplo, o uso do incenso. O sacerdote está expondo o Santíssimo Sacramento, o coroinha lhe estende o turíbulo para que coloque o incenso sobre as brasas, desprendendo-se daí um bom odor e uma certa névoa, uma fumaça bonita, nobre, discreta; o ministro ergue o turíbulo três vezes e, ao finalizar, faz a vênia…

Gabriel K.

Algo do espírito da Igreja transparece nesse gesto, por onde se compreende e se ama a Igreja. O que entrevemos do espírito dela? O turíbulo com o incenso exprime o coração humano, que em impulsos sucessivos se eleva a Deus dizendo: “Eu vos amo, ó Senhor sacramentado!” Essa é a reação do coração humano nobre, do coração humano santo; essa é a alma do varão santo.

O sacerdote que incensa por três vezes é como a alma humana que tem movimentos de elevação para com Deus. E antes de ele ter prestado essa adoração – ele se sente indigno, porque ninguém é digno de Deus – se inclina profundamente; depois mais uma vez… Estão aí expressos sentimentos de adoração, respeito e veneração, os quais nos fazem como que tocar com a mão a santidade da Igreja.

Manifestações do espírito da Igreja

Daí a pouco o órgão toca. A melodia do órgão é muito mais bela e nobre do que a do piano, da harpa; são instrumentos que têm sua beleza; um cravo, mais bonito do que o piano, tem sua beleza, mas não tem a do órgão. Cada nota de um órgão é como se uma orquestra a estivesse tocando. E é uma nota marcada de respeito, de dignidade; entretanto, tão interessante! Tantos sons estão postos ali!

Toca o órgão e se canta o Tantum ergo Sacramentum veneremur cernui…, o que quer dizer em português: “A um tão admirável Sacramento veneremos profundamente”. O padre se inclina, todos os fiéis também… “et antiquum documentum novo cedat ritui…”, o Antigo Testamento – dos patriarcas etc. – deve ceder ao rito do Novo Testamento, de Nosso Senhor Jesus Cristo… Há nisso um espírito, uma psicologia, uma mentalidade da Igreja.

O que há de mais belo na Terra é contemplar assim as manifestações do espírito da Igreja através da arte sacra e, muitas vezes, também por meio da palavra de oradores sacros. Por exemplo, os sermões dos grandes pregadores antigos: São João Crisóstomo, Santo Agostinho, têm elementos maravilhosos! Ler isso… Ah, quem os inspirou foi a Igreja! Se não pertencessem a ela, por mais talentosos que fossem, isso não saía.

E assim adquirimos o espírito da Igreja.

As primeiras perplexidades admirativas

Se quiserem saber das perplexidades sacrais, admirativas e primeiras que eu tive com a Igreja Católica, primeiras e que nunca mais acabaram… Ao longo do tempo a doutrina a foi explicando gradualmente, mas desde os primeiros momentos em que eu conheci a Igreja, em que me dei conta dela, isso começou a existir em mim. Eu era uma criança de talvez três, quatro, cinco anos… Conhecem minha má memória e sabem bem até que ponto essas datas se diluem em minha lembrança.

Uma criança naquela idade não estava absolutamente em condições de saber qual é a verdade sobre o Corpo Místico de Cristo. Eu não tinha a menor ideia, só vim tomar conhecimento por volta dos meus trinta anos; a expressão começou a me chamar a atenção e passei a estudar, a me aprofundar no assunto. Compreende-se, portanto, como eu estava longe disso quando essas primeiras impressões sobre a Igreja me vinham.

Mas elas se punham para mim, assim, por exemplo: vejo-me a mim mesmo, pequenino, saindo fortuitamente da sacristia do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, entrando numa das naves e olhando não o vitral, mas um daqueles vidros transparentes, ordinários, que existem na capela-mor do Coração de Jesus, nos dois lados, com algumas cores – vermelho, verde, amarelo – e que não coincidem com a boa qualidade do resto do material com o qual é construída a igreja.

Luis C. R. Abreu
São Pedro – Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

Vendo aquilo, eu tinha, tanto quanto uma criança podia ter, a seguinte impressão: “Como vou bem com isso, como sinto dizer algo até o fundo de minha alma e sob a forma de uma harmonia! São várias cores harmônicas entre si, e sou harmônico com essa harmonia. Há algo no fundo de mim que canta, musica, se distende e se alegra em confronto com isso, como não sei explicar. No contato com ninguém, nem mesmo com mamãe – e era dizer tudo! – eu sinto o que sinto aqui”.

Analisando a imagem de São Pedro e de Nossa Senhora

Dali a pouco olhava, vamos dizer, para a imagem de bronze de São Pedro, a reprodução daquela do Pescador, em Roma, que tem a chave na mão e um dos pés inclinado para frente. Eu pequenininho olhava: “Como ele é severo! Como ele é sério! Essa barba dele posta num caracol tão ordenado, parece uma imagem das ideias dele, como vão, vão e vão! Olha as mãos dele e como ele segura esta chave aqui. Isto é para segurar e para valer! E esta é uma ‘chavona’ que a abrir, abre mesmo! E a fechar, fecha mesmo! E como ele a segura, um pouco estendendo para os outros, um pouco dizendo: ‘Para vocês é um pouco, para mim é o tudo’!

“E o pé, discretamente posto para frente, de maneira que, não sabendo que é para beijar, não se desconfia disso. Entretanto, sabendo, acha-se tão natural o ósculo”.

Depois pensava: “Mas que curioso!… Como há algo nesta imagem e naquele vitral que forma um todo. Não sei o que é, mas é um todo dentro de mim também. Como fico contente de ver a maneira com que se emendam um no outro”. Eu vagueava um pouco pela igreja, parava diante da imagem de Nossa Senhora e pensava: “Mas Àquele ter uma mãe, podia ser outra? Como isso está bem achado, bem arranjado! A Mãe d’Ele tinha de ser esta! Quer que diga uma coisa? Eu me sinto melhor e mais próximo d’Ele aqui junto a Ela; meu arranjo é aqui! Lá é o ponto terminal, a entrada é aqui. Eu não entro a não ser por aqui. Chegar-me a Ela como eu me achegaria a mamãe. O caminho é esse, assim é que se deve ser!” E, de repente, tocava o órgão…

Uma instituição que parece ter uma alma imensa

Analisando todas essas realidades da Igreja, vinha-me uma impressão curiosa: “A Igreja parece uma pessoa. Não parece uma instituição, mas uma alma imensa, que se exprime através de mil coisas, que tem movimentos, grandezas, santidades, perfeições, como se fosse uma só alma, que se exprime através de todas as igrejas católicas do mundo, de todas as imagens, de todas as liturgias, de todos os toques de órgão, de todos os dobrares de sino. Em algo aquilo se exprimiu.

Essa alma chorou com os réquiens, ela se alegrou com os bimbalhares dos sábados de aleluia e das noites de Natal, ela chora comigo, se alegra comigo. É curioso, mas parece uma só alma imensa. Eu mais vejo na Igreja uma alma do que uma instituição. Como eu gosto dessa alma!

E eu me situo de tal modo em relação a ela, que minha alma é uma pequena ressonância, uma pequena repetição dela. Algo no qual essa alma entra e vive inteira, como dentro de um templo material. De maneira tal, que tudo de que eu gosto é como ela, e ela é como tudo de que gosto; o resto não me agrada, porque não me vale nada. Mas essa alma é o ideal de minha vida. Para ela quero viver, assim quero ser.

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Gabriel K.

E há algo curioso que faz com que toda minha consonância seja inteiramente com aquilo e senão com aquilo. E que eu me sinta naquilo um pouco como um sol se espelhando numa gota d’água. Eu sou a gota d’água, ela é o Sol; na gota d’água pode-se ver inteiro o astro-rei se espelhando. Aquela como que alma, eu a contenho inteira, à maneira de miniatura e de reflexo, não substancialmente”.

O Espírito Santo, a alma da Igreja!

O que é, pois, o espírito da Igreja? Depois eu vim saber que era o Divino Espírito Santo, a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. O espírito de amor como que soprado simultaneamente pelo Pai e pelo Filho. Eles Se amam num amor tal, que daí procede uma outra Pessoa divina, o Divino Espírito Santo.

A alma da Igreja Católica é o Espírito Santo, e é Ele quem está presente em todas essas manifestações dela. Que beleza há dentro de tudo isso, que sacralidade, que nobreza, que respeito, que paz, que afago para nossa alma, que dignidade, que maravilha! Vamos prestando atenção neste ponto, naquele, naquele outro, e nos alegramos com isso e começamos a compreender: “Só a Igreja é a fonte de todo bem, porque nela está o Espírito Santo, alma dela!”

Ele foi quem sugeriu aos homens, ao longo dos séculos, que dessem origem àquilo, daquela forma; Ele é quem fez nascer na Igreja essas obras todas, que são o reflexo d’Ele. E sabemos, pela Doutrina Católica, que Ele atua em minha alma – que é um templo d’Ele em razão do Batismo – de maneira a ela ser tão receptiva a tudo quanto surgiu por inspiração da Igreja.

Ele é um cantor magnífico que canta e me dá o senso artístico para apreciar o canto d’Ele; quando eu O louvo, louvo as obras d’Ele pela luz que Ele pôs em mim.

E tudo, em última análise, se reduz a Ele, enquanto vivificando a Igreja, enquanto tendo me criado e enquanto dando-me a mim o lumen de alma para vê-Lo e amá-Lo.

O louvor do católico à Santa Igreja é como o amor d’Ele a Si próprio; é Ele como que debruçado sobre Si mesmo, olhando-Se, amando-Se e cantando a sua própria glória, é cada um de nós enquanto diz palavras de amor e de louvor a Ele.

A Igreja antes e depois de Pentecostes

E aí compreendemos como em Pentecostes houve a constituição definitiva da Igreja e como os Apóstolos eram antes incapazes de conhecer e compreender bem o que Nosso Senhor lhes dizia. Incapacidade culposa, é verdade, mas efetivamente existente, a qual foi quebrada pela vinda do Espírito Santo, primeiro sobre Nossa Senhora e depois sobre todos os Apóstolos. Como, a partir desse momento, a Igreja viveu neles de outro modo!

Poder-se-ia fazer uma comparação: apesar de tudo quanto Nosso Senhor até então havia feito pela Igreja, de algum modo – não quero fazer uma comparação exata – se poderia dizer que a Igreja era antes de Pentecostes o boneco de barro, e que o sopro de vida que recebeu de Deus foi em Pentecostes, com a descida do Divino Espírito Santo. Ali tudo mudou, tudo passou a viver, a pegar fogo no mundo, a contagiá-lo, até o apogeu dos dias de hoje, em que a Igreja é mencionada a todo o orbe, o Evangelho é pregado a todos os povos.

Era propriamente isso que eu quereria que todos sentissem em suas almas a respeito da Igreja. Era esse o ideal de vida espiritual, intelectual, apostólica, o arrière fond,6 que é tão idêntico à verdadeira Igreja, que nos embevecemos; olhando, não nos cansamos de considerar, de querer ser como ela. E exclamamos: “Enquanto existir a Igreja na Terra, a minha vida tem razão de ser. Se algum dia ela tivesse de morrer, eu morreria amando-a, de um amor com laivos de adoração. Mas, quando eu a visse morrendo, eu me poria a morrer, porque a vida já não seria mais nada. Os meus ossos se desfariam, toda a minha vida se desarticularia, o sol dela não está mais presente: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana”.

Dois mil anos de História

No tempo da Igreja constantiniana, em que São Paulo já era bem grande, de um, dois, três milhões de habitantes, quantas e quantas vezes assisti, por exemplo, a cerimônias de Semana Santa, de Quinta-feira Santa, em que havia a bênção dos santos óleos; vinham os padres seculares das mais variadas paróquias da cidade, bem como membros de ordens religiosas, vinham trazendo seus vasos sagrados. Na cerimônia cantava-se aquela liturgia, os fiéis se ajoelhavam, levantavam… Um Bispo dava uma bênção, tudo transcorria…

Flávio Lourenço
Pentecostes – Museu Palácio Corsini, Roma

Eu olhava para o povinho de uma douta ignorância, o poviléu mais rasteiro de São Paulo, porque as pessoas que eu conhecia não compareciam. Entre os meus, eu era como Robinson Crusoé… e sem ter sequer o Sexta-Feira.7 Era eu só!

Mas eu olhava para aquele povinho que chegava no começo e ficava até o fim, sem ter alguém que lhes explicasse a cerimônia. E me recordava de um elogio escrito no teto da igreja de São Bento, elogiando-o: “Doctor indoctus”, o doutor não douto. Eu dizia: “Doctores indocti são estes aqui, que sabem ficar horas sem entender, entendendo o porquê ficam…” E se deixando embalar pelo imponderável, sabendo terem na cabeça algo maior do que entender, e que tal degustação era melhor do que poderia ter um antigo doutor em Teologia.

E refletia: “Mas como isto tudo forma uma coisa só! Há praticamente dois mil anos os católicos fazem isso, em todos os lugares, em todos os pontos. Neste momento, no mundo inteiro, está se desenrolando esta cerimônia aqui. E quando, pela defasagem das horas, não for isso, é porque o mundo não girou bastante. Quando o mundo tiver girado o suficiente, aquela liturgia idêntica começará. São essas multidões nascidas da Cruz que vão por toda parte fazendo isso. Oh! Igreja Católica!

Sóbrias delícias de sua alma! Ela está por dentro vendo, sentindo, pondo no horizonte coisas que são as que minha alma tem. Essa alma tem consonância com a minha. O resto é nada!

Era a pura verdade! Dois mil anos de vida, dois mil anos de História, que começaram no momento em que Nosso Senhor disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).

Daí em diante, para frente! A Igreja Católica Apostólica Romana vem avançando através de mil esplendores, mil glórias, mil magnificências, mil misérias que não fizeram senão lhe realçar a glória; mil humilhações que não fizeram senão torná-la maior!

1) Titã da mitologia grega.

2) Do francês: de toda beleza.

3) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica I, q.12, a.7.

4) Do latim: “Tudo em todos”.

5) Do latim: flor dos Santos. Dr. Plinio utiliza a expressão no sentido de contemplação dos diversos alcandores da Igreja expressos no conjunto de todas as almas santas e em cada uma individualmente.

6) Do francês: o que está no fundo de algo; a parte mais oculta de algo.

7) A famosa obra de Daniel Defoe (*1660 – †1731), Robinson Crusoé, a qual narra as aventuras de um náufrago refugiado numa ilha deserta, cujo único companheiro era um jovem selvagem, a quem dera o nome de “Sexta-Feira”, por havê-lo encontrado nesse dia da semana.

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