Sejamos do número dos que constituem o filão de almas iniciado por Verônica, de adoradores da Divina Face desfigurada, humilhada, isolada e sofredora, de maneira a ela se gravar em nossas almas como no véu e, sobretudo, na alma de Verônica.

Nós temos que admitir, como pressuposto, que todas as ações praticadas pelos homens na Terra – relacionadas com a glória de Deus, de Nossa Senhora, com o bem da Igreja –, são positivas ou negativas. Todas são inscritas no Livro da Vida e repercutem, de algum modo, no que chamamos a “transesfera”.1
Repercussão das ações dos homens na “transesfera”
Essa posição nos mostra, entretanto, pela própria História Sagrada, que, em si mesmas, algumas ações determinam de um modo mais eficaz as grandes intervenções do Céu na Terra, pela relação intrínseca que têm com a ordem do universo, com aquilo em que ele é a imagem e semelhança de Deus; as ações que particularmente reforçam essa semelhança ou a defendem, ou a desfiguram e a comprometem, têm uma relação especial com o Céu.
Clausewitz2 dizia que a guerra é uma continuação da política e a política uma continuação da guerra; ele tinha toda razão. O nervo dessa política é nós não deixarmos passar nenhuma das ocasiões que de nosso lado possa levar o Céu a intervir.
Alguém poderia dizer: “Sim, na oração!” Claro. A oração, mas não só. É reconhecer as horas em que Deus passa pela História, a bem dizer, implorando – e às vezes implorando de fato, como Nossa Senhora em Fátima –, que defendamos a Causa d’Ele; as horas em que algo se passa por onde o Céu faz uma maravilha que seja pelo menos um sintoma de que muitas outras serão feitas.
Nosso Senhor Jesus Cristo na Paixão: “Meu filho, tu pelo menos, me queres?”
A Igreja apresenta-se a nós, hoje, como Nosso Senhor Jesus Cristo em sua Paixão, quando chegou ao Calvário, gotejando sangue e cambaleando debaixo da Cruz. Foi um longo trajeto no qual Ele tinha sofrido tudo, inclusive o sofrimento-consolação tão pungente – pungente enquanto sofrimento – de encontrar Nossa Senhora, de perceber a dor d’Ela, de receber o consolo d’Ela e de A consolar. Ele ia cambaleando coberto do desprezo de todos os homens.
Imaginem que nós estivéssemos ajoelhados, quando Ele chegou ao alto do Gólgota com uma multidão ululante, com o coração estraçalhado, com o peito ofegante, com a face divinamente bela cheia de marcas de bofetadas, arranhões, escarros; com todo o desprezo do mundo baixando sobre Ele, tal como uma cascata pudesse baixar sobre um sol de glória, ou uma nuvem temporária o obscurecesse – que nuvem para poder obscurecer um tal sol! –, nesse momento, Ele nos dissesse:
— Meu filho, tu pelo menos, me queres?…
Um de nós diria:
— Mas, Senhor, que pergunta! Para que existo senão para isso? Que crime cometi diante de Vós, Senhor, para que me formuleis esta pergunta? Não sou porventura o “sim” constante, o “sim” contínuo, o “sim” ininterrupto de todas as horas do dia e da noite, pronto a receber tudo quanto quereis dar? Senhor, eu adoro a vossa humilhação, o vosso abandono, o vosso isolamento; adoro cada uma das chagas que desfiguram vossa face. Senhor, eu sou inteiramente vosso!
Nós teremos contemplado a face sanguinolenta, maltratada, deformada de Nosso Senhor Jesus Cristo, coroada de irrisão e de desprezo. Nós vemos e nos horrorizamos com isso, nos compadecemos até o fim, e quereríamos de todo modo possível que isso não acontecesse.
O auge do desfiguramento
Os judeus que mataram Nosso Senhor fizeram da Sagrada Face d’Ele o que se vê no Sudário de Turim: desfiguraram-na de todos os modos, sem lhe ter tirado um ceitil de majestade. E quando olhamos para aquela figura “horrificada”, um dos impulsos é exclamar: “Mas que formosura!” de tal maneira Ele era Ele.
Ana Catarina Emmerich conta que, a alturas tantas, quando Nosso Senhor estava na Cruz prestes a morrer, o demônio quis infligir-Lhe um tormento especial: fazer a Cruz cair ao chão de maneira a que o rosto d’Ele se partisse em pedaços. Quando Nossa Senhora discerniu isso, proibiu-o, acabou-se! À mais ligeira proibição d’Ela, o Inferno some!
Ora, de algum modo, isso é feito agora. Ao longo de seu cambaleio de dois mil anos – dois mil anos de glória e de martírio – a Igreja chega a nós no auge do desfiguramento.
O que o adversário faz com a Face Sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo, com toda a Igreja Católica, de alto a baixo, não só, portanto, com a Face, mas com o Corpo inteiro?
Imaginem que, no vinagre dado a Nosso Senhor, houvesse um líquido qualquer que fizesse com que sua Face divina tivesse contorções ridículas e horrendas, e parecesse uma caricatura. A meu ver, algo que provocasse o riso seria mais cruel do que se fosse quebrado. Ora, instilar-se o mal na Igreja e caricaturizar a face de Nosso Senhor é pior que quebrá-la.
A princesa tornou-se como viúva abandonada
Há um texto das lamentações de Jeremias (Lm 1, 1-2): “Como está solitária esta cidade, antes cheia de povo!” É a cidade de Jerusalém que foi destruída. “Tornou-se como viúva a senhora das nações, a princesa das províncias ficou sujeita a tributos”.
Jerusalém dominava várias províncias e agora, aquela que fora soberana, está sujeita a pagar tributo ao poder estrangeiro. Ela perdeu a soberania que a adornava, perdeu, portanto, o melhor de sua glória, e está numa situação de humilhação. E continua:
“A princesa das províncias chorou sem cessar durante a noite e suas lágrimas correm pelas suas faces. Não há quem a console entre todos os seus amados. Todos os seus amigos a desprezaram e tornaram-se inimigos”.
Essa princesa está prostrada completamente. Aqueles que a amavam deixaram-na de lado, aqueles que eram seus amigos a desprezaram. E ela, durante a noite, chora na escuridão e no isolamento. Esse pranto refere-se à cidade de Jerusalém abandonada, porque os adversários entraram e reduziram o povo ao cativeiro; a cidade está quase completamente abandonada, ninguém mais a procura, não há sacrifícios, não há lei, não há comércio, não há vida. A cidade é um monte de ruínas.
Esse pranto sobre a cidade de Jerusalém, evidentemente, se aplica também ao sofrimento da Igreja Católica ao longo dos séculos. E, sobretudo, ao mais pungente de todos os sofrimentos dela desde Pentecostes até nossos dias, que é a dor tremenda pela qual ela está passando – e vai se acentuar cada vez mais –, de tal maneira tenebræ factæ sunt, as trevas encheram o santuário. É bem conhecida a expressão de Paulo VI, num documento oficial da Igreja: “A fumaça de Satanás penetrou dentro da Igreja!”3 E penetrou a tal ponto que não sabemos mais o que é altar, o que é banco, o que é venerável e o que é censurável… anda-se às apalpadelas dentro da Igreja.
Assim, poderíamos aplicar, palavra por palavra, à dor da Santa Igreja. “Como está solitária esta cidade, antes cheia de povo”.
Realmente a Igreja Católica fora antes frequentada por todos os povos, todo mundo a adotava, a reverenciava, a homenageava. Hoje as igrejas continuam cheias, mas a Igreja está vazia. O edifício material do templo está com cada vez mais gente e o número de Comunhões cada vez maior. Chega o momento da Comunhão, em alguns locais, quase todos se aproximam da Eucaristia. Dir-se-ia um florescimento religioso, admirável; mas quanto esse florescimento é vão e como são poucos dentro da Igreja os seus verdadeiros filhos.
Quantos são os verdadeiros católicos?
O que é um verdadeiro filho da Igreja Católica? É aquele que ama tudo aquilo que ela ama, crê em tudo quanto ela crê, e, portanto, detesta tudo o que é oposto a ela. É um indivíduo que não dá seu coração a nada daquilo onde não esteja o Coração da Igreja Católica. Este é o verdadeiro católico.
Eu pergunto: nessas igrejas cheias, quantos são os verdadeiros católicos? Não digo em cada caso, mas quantos são aqueles que, em geral, antes mesmo de saber qual é o pensamento da Igreja, já pensam como ela e já estão cheios do espírito dela?

Numa cidade populosa como São Paulo, procurem quantos são assim e verão quão poucos o são. Outrora as igrejas regurgitavam de católicos autênticos; outrora a Igreja tinha seus templos materiais cheios de verdadeiros filhos, dos quais cada um era um real templo do Espírito Santo. Ela vivia na alma dos fiéis que as frequentavam. Agora a Igreja perdeu esse domínio, está abandonada pelos povos, pelas nações. Os pastores levam o povo numa direção oposta a ela.
Ela está completamente solitária; ela, a “senhora das nações”, porque dominara sobre todo o mundo! Ela que era a “princesa das províncias”, porque cada grande nação da Terra era como uma província que estava sujeita, deslumbrada e amorosamente, ao domínio dela. Pois bem, essa “princesa das províncias” está abandonada.
Lembro-me de uma iluminura da Idade Média que vi, representando uma Missa celebrada por um Papa. Os acólitos eram o Imperador do Sacro Império Romano e o Rei da França. O Rei da Espanha e o Rei da Inglaterra faziam alguma outra coisa. Assim era a Igreja como “senhora das províncias”. O Sacro Império, a França, a Espanha, a Inglaterra, as nações nórdicas, todas confluíam para junto dela a fim de venerá-la e servi-la.
Como tudo isso está diferente! Quem haveria de ver nela a instituição que São Luís amou tanto, pela qual São Fernando lutou e os cruzados fizeram o que fizeram, pela qual os mártires morreram… Quem haveria de ver nela, desfigurada, um véu ignóbil tapando-lhe a face aos olhos dos homens?
O pranto da Santa Igreja
Diz o profeta Jeremias: “A princesa das províncias chorou sem cessar durante a noite e suas lágrimas correm pelas suas faces. Não há quem a console entre todos os seus amados. Todos os seus amigos a desprezaram e tornaram-se os inimigos”.

A Igreja chora durante a noite, só. É a noite da incompreensão, ninguém a entende. E qual é o pranto dela? É o pranto de Nossa Senhora que chora em Siracusa,4 de Nossa Senhora que chora em Rocca Corneta,5 de Nossa Senhora que aparece desde La Salette até hoje, em várias manifestações, ou chorando ou manifestando de outra maneira a sua tristeza. É o mesmo pranto da Igreja Católica: “chora sozinha na noite”.
Pois bem, ela está como Jesus Cristo no alto da Cruz. Falta a crucifixão! Ela se põe perto de nós nessa soledade, nesse horror e nesse esplendor. E é nesse horroroso esplendor, nesse esplendoroso horror, que ela se apresenta diante de nós, desejosa de que a conheçamos, saibamos como é sua alma, a amemos como verdadeiramente ela é.
Para usar uma linda expressão de um homem que não presta, que foi Chateaubriand: “Sou um cortesão do infortúnio”.6 Nós devemos ser os cortesãos do infortúnio. Nesta noite em que ninguém entende a Igreja Católica, em que ela chora só e abandonada, em que, na incompreensão, está relegada – apesar de aparências humanas de prestígio, que nada dizem –, nós devemos ser essas almas que procurem na sua tristeza, a princesa das nações, que se acheguem a ela, passo a passo, com veneração, ternura e enlevo, e que, então, olhando para sua face desfigurada, olhando-a no estado em que ela está, se lembrem de sua beleza e lhe digam o que ela quereria ouvir.
Antes de tudo, manifestar toda a nossa fé: que cremos nela até o fundo de nossas almas, total e completamente, e não queremos senão pensar como ela pensa, sentir como ela sente, querer o que ela quer e embriagarmo-nos – a expressão literal é essa – de amor por ela, com a casta embriaguez do Espírito Santo. Os Apóstolos, depois de receberem o Espírito Santo em Pentecostes, saíram do recinto onde estavam, e as pessoas diziam que estavam como bêbados. Era o entusiasmo do Divino Espírito Santo.

Assim, devemos nos embriagar com o espírito da Igreja, nos empolgar ao mais alto grau e exclamar no interior de nossa alma: “A Igreja Católica não é apenas a coisa mais verdadeira, mais bela e mais santa que há na Terra; de fato, na Terra, veraz, só a Igreja; santa, só a Igreja; bela, só a Igreja. E todas as formas de veracidade, de bondade e de beleza só o são na medida em que participem, ou na ordem da graça ou na ordem da natureza, dos predicados com que Deus cumulou a Santa Igreja”.
E dizer à Igreja Católica que ao menos nós lhe somos fiéis; que conservamos a doutrina que não muda, o apego às realidades perenes em que se reflete o espírito dela com uma autenticidade inteira; que conservamos a certeza de que ela está viva e que vencerá; que nós temos os olhos postos nela, nos seus triunfos do dia de amanhã, no Reino de Maria que deve ser implantado; que vai tão longe o nosso enlevo, veneração e ternura por ela, que lhe fazemos este ato de suprema obediência.
No momento em que todos parecem abandoná-la, nós queremos nos curvar diante dela e dizer que obedecemos inclusive à sua hierarquia e a seus pastores, em toda medida do razoável, do necessário, do conforme à instituição divina dela.
Nosso Senhor também Se volta para nós e nos diz, nesse estado em que estão as cidades hoje: “Do alto da cabeça à planta dos pés não há em Mim o que seja são” (Is 1, 6). E acrescenta: “Verme sou, e não homem; o opróbrio dos homens e o objeto de indiferença ou de ódio da Terra inteira” (Sl 22, 6). E Ele tem a condescendência de dizer: “Meus filhos, por vosso protesto, salvai a minha honra. Porque se ninguém protestar, Eu poderia dizer que chegou o fim do mundo e que a Terra perece”.
É isso que devemos fazer, esse é o trabalho, essa é a atitude, essa é a ação que tem de ser feita neste momento.

A sublimidade que há em defender a honra da Igreja
Qual é a sublimidade do que estamos fazendo, ou do que somos chamados a fazer em determinados momentos? Essa sublimidade precisa ser analisada de frente. Ela é o gesto, a deliberação que tomam pessoas diante de uma situação inaceitável.
Para terem uma ideia da conjuntura, imaginem um rei poderoso sentado em seu trono e, de repente, irrompe uma revolução. Ele tem numerosos filhos; seus parentes, seus cortesões enchem a sala. Os revolucionários entram e esbofeteiam-no do pior modo possível, os filhos fogem, mas um se levanta e luta sozinho contra todos e lhes inflige uma réplica tal, que o rei diz: “Meu filho, tu salvaste a honra desta casa e o nome da dinastia”. Essa ação foi ou não foi sublime? Se não foi sublime, ou estou louco eu, ou o está quem julga não ser sublime.

Como se trata de um pecado único, um pecado conjunto da Civilização Cristã e das outras civilizações que a cristã leva na rabeira, pode-se dizer que a reparação de tão poucos terá uma sublimidade única; é um pecado como maior só foi o deicídio, e a nós é dada uma glória diferente da que tocou aos Apóstolos no Horto das Oliveiras: eles fugiram. Nós, pelo contrário, ficamos de pé e declaramos: “Ainda que todos O abandonem, nós ficaremos com Ele, e para melhor ficarmos com Ele, nós O seguiremos. Fiquem para lá”.
Digo mais: eu dificilmente poderia conceber uma coisa mais sublime do que essa. Alguns dirão: “E se uma pessoa tivesse salvado Nosso Senhor na Agonia ou durante a Paixão, ou no momento da morte?” Certamente, tudo quanto diz respeito a Ele tem uma sublimidade incomparável. No entanto, até que ponto Nosso Senhor Jesus Cristo não está presente nesta Agonia? Ele não sofre uma outra Paixão, uma outra Morte, já que a Igreja Católica é o Corpo Místico, do qual Ele é a cabeça?
É pela vida sobrenatural que circula em todos nós – e que é a graça obtida pela Paixão d’Ele –, que estamos reunidos aqui e dizendo palavras inspiradas na fé, porque sem a graça ninguém é capaz disso. Se nós cumprimos os Mandamentos, é porque Ele morreu por nós; sem isso nós não somos absolutamente nada nesta ordem. Se assim é, estraçalhar dessa forma a Santa Igreja, no que consiste? E sair do meio disso em ordem e celebrando a glória dela, numa atitude de rejeição à ignomínia, não é algo pelo menos francamente comparável ao que teria feito um Apóstolo por Nosso Senhor durante a Paixão? É evidente.

Almas fiéis em meio às trevas
Eu tenho certeza de que Nosso Senhor, do alto da Cruz, viu essa cena e profetizou de Si para Si que, no momento desse cambaleio, Ele nos teria a nós, falando e ouvindo a respeito da Igreja, e querendo dar-lhe continuidade custasse o que custasse, fazendo com que essa continuação fosse a confirmação da promessa de que as portas do Inferno não prevaleceriam contra ela (cf. Mt 16, 18), porque existiriam fiéis que haveriam de continuá-la até o fim do mundo; nós, hífen no meio da Revolução, no meio da “Bagarre” e da vergonha; hífen entre o que resta de medieval, de católico no mundo e o que do Reino de Maria começa a transluzir para além de todas essas dores…
Neste sentido, gostaria de acentuar o seguinte: quando as trevas tiverem caído, a fumaça de Satanás tiver saído de dentro da Igreja, perguntar-se-á quem foi a Igreja durante esse período. A Igreja reconhecerá com emoção aqueles que, mesmo nas trevas, souberam procurá-la e osculá-la, apesar da fumaça de Satanás!
Se morrêssemos nesse momento, veríamos algo maravilhoso: no raiar da outra vida, ao considerar Deus face a face e ao ver Nossa Senhora, sermos recebidos com uma ternura inefável, com um amor sem nome, e nos seriam ditas aquelas palavras que Nosso Senhor dirá no Juízo Final: “Eu estava nu e Me cobristes, Eu estava preso e Me visitastes, Eu estava faminto e Me destes o que comer” (cf. Mt 25, 35-36).
A Santa Igreja Católica, que é o Corpo Místico de Cristo, em certo sentido está nua. Nós a cobrimos com o nosso amor, hipotecando a favor dela todo o nosso prestígio, comprometendo todos os valores terrenos que possamos representar para exaltar a glória dela aos olhos dos homens. Ela estava com fome e nós a alimentamos conservando e trazendo para ela filhos de uma fidelidade perfeita. Ela estava presa, sua voz já não se fazia levantar, nós rompemos o silêncio fazendo ouvir a verdadeira doutrina.
E se de um modo tão magnífico Deus paga no Juízo Final qualquer esmola feita a qualquer mendigo, como não pagará Ele a esmola feita a essa sublime, régia, maravilhosa e incomparável mendiga, nossa mãe, cheia de dores, cheia de golpes, mas rainha, e mais bela do que nunca, a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana?
O prêmio dos que participam do opróbrio
Nós devemos nos lembrar de que, quando a Igreja é mais perseguida e alguém se aproxima dela para, na sua soledade maravilhosa, participar de seu opróbrio, de sua solidão, do abandono em que ela está, cobrir-se da vergonha de que ela está coberta, quando alguém faz isso, os milagres, as graças esfuziam de todos os lados.

Nosso Senhor estava na última agonia, Ele estava no fim, no auge da derrota e começaram os milagres. Dimas se converte e, de ladrão culpado e sentenciado, passa a ser um santo, e Nosso Senhor, do alto da Cruz, enuncia a sua primeira canonização: “Tu hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Quer dizer, o primeiro santo canonizado, o foi do alto da Cruz.
Quem pode ter ideia de todas as graças derramadas do alto da Cruz? Narra o Evangelho que, quando a Terra começou a tremer, muitos batiam no peito e diziam: “Verdadeiramente, este Homem era Filho de Deus” (Mt 27, 54). Eram as graças que começavam a brotar do alto da Cruz. E quando Longinus meteu no flanco de Nosso Senhor a sua lança mortífera, – que haveria de matá-Lo, se morto ainda não estivesse –, também ele se curou, porque a linfa caiu sobre seus olhos e ele, catacego, tornou-se instantaneamente bom.
Há uma figura que constitui para mim um dos exemplos profundamente comovedores, que cabe em quatro palavras: o lenço de Verônica.

Verônica era uma alma sumamente condoída, a única cuja compaixão é bastante ativa para aproximar-se de Nosso Senhor, limpar e consolar a Divina Face e adorá-la, naquele universo de infâmia, de covardia e de ódio efervescente em torno d’Ele.
Essa ação, por ser única e praticada de um modo tão assinalado por uma mulher que, a este título, representa o que o gênero humano tem de menos apto ao combate –, foi uma mulher que O encontrou e teve essa coragem – é uma ação de tal maneira insigne, que restabelece nesse ponto a glória de Deus ultrajada.
Então, do alto do Céu baixou, como se fosse um Anjo, uma força de Deus que realizou o milagre estupendo: quando Verônica limpou a Face de Nosso Senhor Jesus Cristo, cheia de escarros, de pancadas, de poeira, a Sagrada Face impregnou-se no pano usado por ela. E todos temos como certo que Verônica ficou santa, porque não foi apenas naquele pano que Ele imprimiu a sua semelhança, mas foi na própria alma dela. Foi o prêmio indizível de Verônica; não há coisa igual!
Quer dizer, a alma que tivesse consolado Nosso Senhor, que pela compaixão tivesse desagravado a Ele, O teria reproduzido em si, o que é o mais faustoso e magnífico dos prêmios que se possa imaginar.

Nosso Senhor deve ter olhado para ela com gratidão e com afago, e se o olhar d’Ele tanto comoveu São Pedro, como terá comovido Verônica! Eu me comprazo em imaginá-la, ao morrer, olhando para o olhar d’Ele, olhando, olhando, até o momento de ter a impressão de haver entrado nos olhos d’Ele; aí cessou de viver. É como eu me comprazo em imaginar a morte de Verônica. E esse episódio, para toda alma católica, é um episódio ultraculminante.
Um filão de almas sensíveis à Sagrada Face ao longo da História
Trata-se de uma ação feita por uma simples particular na Terra, mas na hora em que a ela competia realizá-la, por uma relação insigne dessa ação com o acontecimento insigne, determinou da parte do Céu essa maravilha.
É uma hipótese minha, mas tenho a impressão de que esse episódio contém muito mais do que simplesmente está dito. Em atenção ao que Verônica fez, abre-se na História um filão das almas sensíveis à Sagrada Face, sensíveis a Nosso Senhor com sua Divina Face desfigurada, humilhada, isolada e sofredora, e que se abre daí um veio de salvação que vai até o fim do mundo; e terá facilitado enormemente a expansão da Igreja, terá confirmado inúmeras almas na virtude.

Foi uma ação eminente feita por uma qualquer e que teve uma repercussão, abriu um rio de graça ao longo da História até o fim do mundo.
Solidariedade com a Santa Igreja
Considero ter a ação de Verônica uma substância profética, salvo afirmação dos teólogos em sentido contrário.
Ela fez o que nós devemos fazer. Olhou, considerou, se condoeu, e sozinha teve um gesto que ninguém teve. A nós compete nos condoermos e termos o gesto que ninguém teve. É o que devemos pedir a Nossa Senhora: que essa nossa solidariedade com a Igreja Católica obtenha o milagre da conversão individual de cada um de nós para ser um Apóstolo dos Últimos Tempos, como São Luís Maria Grignion de Montfort descreve em sua Oração Abrasada. Que cada um de nós passe a ser inteiramente aquilo para o que foi criado, aquele santo que deveria e quereria ser e, entretanto, por sua própria fraqueza não é.
Pratiquem este hábito, tenham o espírito voltado para esta disposição, procurem ser assim. Que este sudário moral com o qual nos aproximamos de Nosso Senhor para enxugar-Lhe a face sirva para que a verdadeira Face divina de Nosso Senhor Jesus Cristo se grave em nós, como no véu de Verônica. Que tenhamos em nós a Face sacrossanta d’Ele; quer dizer, o espírito d’Ele, porque a face é o símbolo do espírito, e quem tem a face tem o espírito. E assim teremos todos juntos, com outras almas esparsas pelo mundo – graças a Deus o privilégio não é só nosso – o pontilhado de luz dentro dessa época escura, na qual se dirá: “A Santa Igreja sempre viveu! Ela não deixou de existir!”

Santa inveja dos que virão no futuro
Assim como hoje lemos o martírio deste ou daquele Santo e, apesar do horror daqueles tormentos, nós temos um pesar: por que eu não tenho força para tal ato e não sou chamado a isso? Que beleza ser um São Vicente no último alento, quando entrega a alma como Nosso Senhor, quando diz consummatum est! Que maravilha! Assim também haverá no futuro aqueles que, sabendo de nossa história e de nossa fidelidade, terão de nós uma santa inveja: “Por que não vivemos naquele tempo horrendo, e por que não nos foi dado ser fiéis nesse tempo de infidelidade?”
Há uma palavra de Nosso Senhor em que Ele diz: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé no mundo?” (Cf. Lc 18,8). Tudo vai ser tão cheio de trevas e tão confuso que, para quem vê – para Ele não há mistério, é um modo de dizer –, se perguntará se a Igreja estará viva. Ela estará, mas a pessoa se perguntará. Não é distante do que vemos em nossos dias… Se não tivéssemos sido chamados por Nossa Senhora, não sei se teríamos muito a certeza de que a Igreja está viva.
1) Com frequência, Dr. Plinio utilizava o termo “transesfera” como expressão figurativa, a qual designaria uma região superior à esfera do mundo visível, mas em conexão com esta. Na verdade, referia-se ele a uma realidade teológica muito definida: a repercussão dos acontecimentos terrenos em Deus e sua influência em certas resoluções d’Ele no governo do universo.
2) Karl von Clausewitz (*1780 – †1831), general e teórico militar prussiano, exerceu grande influência no pensamento militar contemporâneo.
3) Alocução de 29 de junho de 1972.
4) Em 1953, na cidade de Siracusa, Itália, uma imagem de Maria Santíssima verteu lágrimas milagrosamente durante 75 horas. As análises bioquímicas comprovaram serem lágrimas de origem humana. Os bispos da Sicília reconheceram o milagre e autorizaram o culto à “Virgem das Lágrimas”.
5) De 13 de maio de 1957 a 15 de setembro de 1972, na igreja de Rocca Corneta, em Bologna, na Itália, a imagem de Nossa Senhora teria chorado em inúmeras ocasiões, às vezes profusamente, diante de várias testemunhas. No entanto, a Cúria de Bologna não reconheceu valor sobrenatural no acontecimento.
6) François-René, Visconde de Chateaubriand (*1768 – †1848), escritor e político francês. Em Moïse, tragédie. Ato III, cena II, fala de Nadab.






