Eco fidelíssimo da Santa Igreja, Dr. Plinio deixou-se de tal maneira empossar por ela que pôde dizer, parafraseando São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana que vive em mim”.
Nós não temos como pátria apenas esta Terra. A verdadeira e grande pátria de nossas almas é o Céu, no qual somos chamados a morar eternamente. E o Céu nos dá em ponto grande, eterno, magnífico, incomparável, aquilo que, em ponto menor, amorável – mas quão menor, quão incerto, quão cheio de complicações –, a vida terrena é imagem. Mas uma imagem com apagares e acenderes de luzes, com desastres etc.
Ora, é só o Céu essa pátria? Não sentimos haver algo a mais, que também é nossa pátria, mais que a própria pátria terrena? Sim! É a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
A Igreja é nossa pátria verdadeira
Se não houvesse Igreja Católica e ela não nos ensinasse o que ensina, a vida não seria digna de ser vivida. Porque é tanto aborrecimento, tanta ingratidão, tanta dureza… Sobretudo nesta época em que vivemos, de atos de banditismo de toda ordem. O número de monstros não está se multiplicando? A Terra está se “monstrificando!” Se não fosse a Igreja Católica, para que viver?
Que classe de católicos, de brasileiros, somos? Que classe de paulistas ou de paranaenses, ou de mineiros, cariocas, de onde seja, que classe somos nós? Nós amamos mais nossa pátria do que a nós mesmos? Temos interesse em que o Brasil venha a ser a grandíssima potência católica no século XXI, que é o nosso ideal?
Se temos esse interesse, seremos almas superiores, que veem mais do que simplesmente a cavidade dos nossos olhos, que ouvem e sentem longe. Seremos homens grandes cuja mente sobe ao alto. Com filhos assim, um país dura muito. Sem filhos assim, ele decai. Ora, isso se dá também com a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Quando ela – que é mais que tudo no mundo, mais do que a própria pátria –, tem filhos assim, esses são filhos de almas grandes como o Céu. Porque quando estiverem nas vastidões celestes, eles se regalarão com todas as maravilhas que virem, cantarão as glórias de Deus eternamente e serão feitos para a felicidade absoluta e eterna, porque verão a Deus face a face.

Isso vale mais do que tudo, e é para isso que vivemos, para a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
As duas cidades de Santo Agostinho
Na Terra tudo quanto se faz de bom provém, em última análise, de uma inspiração da Igreja. Tudo o que se faz de ruim procede do fato de não se pertencer à Igreja ou de, se pertencer, ser um mau filho.
Santo Agostinho dá disso uma prova convincente ao discorrer sobre as duas cidades na Terra. “Cidades” é um modo poético de referir-se às duas categorias de almas: das que levam o amor a Deus a ponto de não pensarem em si mesmas, e das que se amam a si mesmas a ponto de não pensarem em Deus.
Está muito bem formulado, é a verdade. Ele imagina como seria uma cidade na qual todos amassem a Deus e cumprissem os Mandamentos: um chefe de Estado bom, ou um rei que faz para o Estado e para todos os seus súditos tudo quanto os Mandamentos ordenam; e os súditos que também fazem para seu rei tudo quanto os Mandamentos indicam.
Ele imagina uma família onde os pais e os filhos agem uns para com os outros conforme os Mandamentos. Escolas onde professores e alunos; exércitos onde oficiais e soldados; lugares de trabalho onde patrões e trabalhadores, todos se tratam idealmente como os Mandamentos ordenam. Qual o nome que se pode dar a essa cidade? A cidade da perfeição. Porque, cumprindo os Mandamentos, tudo anda bem, tudo é perfeito.
Entretanto, Santo Agostinho imagina outra cidade onde todos se odeiam, cada qual procura só o seu próprio interesse, e agem em tudo contra o que os Mandamentos determinam. Essa cidade vai dar no quê?
Pergunto: o mundo moderno não se assemelha a essa cidade que cada vez mais viola os Mandamentos? E na qual cada um só se preocupa consigo e não com os outros, e em que os homens se agridem, não se conhecem, não se estimam nem se ajudam, mas se odeiam mutuamente e vivem em luta uns com os outros?
O resultado é esse mundo de hoje. Lê-se os jornais, só sai disparate, loucura.
Um grãozinho da Santa Igreja
Ora, nosso Movimento existe com o intuito de despertar, de acender e de promover o amor à Igreja Católica, pela compreensão dela enquanto reflexo do Céu na Terra; de servi-la a qualquer preço, sob todos os modos possíveis, porque ela é digna de toda nossa dedicação, de todo nosso amor.
E eu quisera que nosso amor ao Grupo tivesse como razão nosso amor à Igreja.
A Santa Igreja Católica Apostólica Romana, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo direta e pessoalmente, é uma entidade, por assim dizer, infinitamente maior do que o Grupo, anterior incontavelmente a ele, e superior, porque ela é a causa e nós somos o efeito. E a causa, evidente, é superior ao efeito.
O que é o Grupo? É uma obra a serviço da Igreja. O bom, o santo, o verdadeiro está na Igreja, e o valor do Grupo é o de ser um corpúsculo, um grãozinho cheio de suco da Igreja, da qual lhe vem a seiva, a vitalidade, a santidade que o torna estimável.
A Igreja é a cidade do Grupo, é a muralha, o baluarte, o escrínio que guarda essa joia chamada cultura católica, civilização católica, autenticidade da Santa Igreja Católica. Esse é o nosso movimento.
Ora, a cidade vale mais que a muralha – a razão de ser da muralha é a cidade – e a joia vale mais do que o escrínio. E nós valemos na medida em que vale o tesouro que defendemos, que é esta Igreja Católica total, cuja visão global nós devemos ter em vista. Se o Grupo não fosse católico, ele não valeria absolutamente nada.
Essa é a visão que devemos ter.
Escola de cristão atrevimento
De maneira que o bom membro do Grupo deve ser uma pessoa penetrada, até o fundo de sua alma, de intelecção, de compreensão no sentido superior da palavra, de amor, veneração, ternura para com a Santa Igreja. E deve ter uma compreensão admirativa por tudo quanto fizeram os Santos, por mais diferentes que tenham sido. É só estando compenetrados e percebendo que tesouro é tudo isso, que compreenderemos o Grupo.


Vejam as coisas bonitas da vida dentro do Grupo. Ele é feito exatamente de todas as figuras de piedade tradicionais, de todos os arrojos, das iniciativas, dos desembaraços, de todas as audácias que caracterizaram a piedade corrente nos tempos em que a Religião Católica era bem entendida, na época em que Camões cantava o espírito de empreendimento dos primeiros navegantes portugueses, que iam, em boa parte, levar a Fé aos países pagãos: “cristãos atrevimentos”.1
Atrevimento não se aplica ao sentido de hoje, que designa o sujeito insolente. Não são “cristãs insolências”, não é isso. Atrevimento é o homem atrever-se, é ter as audácias, o desafio ao perigo, o arcar com esforço enorme; é o heroísmo em todos os seus aspectos. Corresponde a “cristãos heroísmos”.
É propriamente o que exprime o Grupo e, se alguma definição se devesse fazer dele, diríamos: “Uma escola de cristão atrevimento, sob as bênçãos de Maria”. É o equilíbrio de que é feito nosso movimento, de desnortear o mundo, porque não nos compreende.
Por exemplo, não sei se nós mesmos percebemos bem tudo quanto de belo tem uma campanha. Rapazes que saem à rua, vão ao Viaduto do Chá – onde se crê campear Mamon, o deus do dinheiro, onde as modas imorais se estadeiam à vontade –, e ali afirmam audaciosamente o contrário, diante do trono de fumaça do demônio, que ruge e não pode fazer nada.
Isso é um atrevimento cristão, e muito mais bonito do que abater cem touros numa tourada. O belo não é confrontar-se com um touro, mas enfrentar um outro homem, uma gargalhada, uma opinião pública.
De onde vem isso? De onde esse atrevimento é belo? É pelo fato de ser cristão. Quer dizer, a substância de tudo quanto é belo aqui é que reedita valores que a Igreja engendrou, dando-lhes um fulgor e uma forma talvez ainda mais audaciosa para alguns aspectos e que às vezes, eu creio, nós mesmos não percebemos bem tudo quanto tem de belo.


A beleza de nossa Causa, exatamente, é que defendemos a ortodoxia e, defendendo a Igreja, amparamos todas essas outras realidades, recolhendo em nós o espírito de todas elas. Tudo quanto há no Grupo é uma beleza porque a Igreja suscitou, deu a doutrina, concedeu as graças para realizar e continua a dar, de maneira que tudo quanto ele tem de valor são valores da Igreja; tudo quanto há de bom lhe vem do fato de ter a glória – a única glória séria e que vale nesta Terra – de ser um fragmento, uma pedra viva da Igreja Católica.
Obra suscitada pela Santa Igreja
Em que sentido a Igreja suscitou o Grupo? Em que sentido ela ensina e lhe dá vitalidade?
A Igreja suscitou o Grupo porque todas as ideias que estão em minha mente decorreram de minha fidelidade a ela. Decorreram de eu ter sido educado numa família católica, onde aprendi muito da Religião Católica; de ter sido aluno dos padres jesuítas e ter recebido também muito do espírito de Santo Inácio; de eu, em certa idade, ter verificado que tudo quanto eu amava e tudo aquilo para o que eu queria viver só tinha sentido em função da Religião Católica, que sem a Santa Igreja nada prestava, nada era compreensível sequer, e nada era digno de apoio, não havendo razão alguma para me privar dos prazeres dessa vida a não ser em função do sobrenatural; porque todas as outras razões de decoro, de moralidade, concebidas laicamente, não resistem à menor análise. E com isso ter me decidido pela Igreja, porque ela existe, porque ela é ela, e porque Nossa Senhora me ajudou a compreender que a Santa Igreja é verdadeira. Daí veio o itinerário que resolvi seguir.
A prova da veracidade da Igreja
Eu me lembro de que, no tempo em que eu estudava apologética no Colégio São Luís, o padre dava uma série de argumentos para provar ser a Igreja Católica verdadeira. Eu ouvia aqueles argumentos, alguns eram muito bem expressos e eu me entusiasmava. Outros eram tão mal expressos que eu pensava: “Se eu devesse ser católico por esse argumento que me está sendo dado, eu não o seria. Mais ainda: eu nem vou objetar, porque fará mal para os meus companheiros de aula, que são capazes de entender minha objeção e não a resposta dada. O melhor é ficar quieto; mas vejo não ser assim”.
Mas, sobretudo eu pensava: “O que não compreendo é por que se precisa provar com tanto trabalho que a Igreja Católica é verdadeira. Não basta olhar para uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, para compreender que aquela fisionomia nenhum homem tem, que aquela é a face de um Deus? Considere-se qualquer um, a rua está cheia de fisionomias, é só olhar na janela. Vamos analisar quem tem fisionomia de Deus; não há nem de longe, nem nada que se pareça. Analise um álbum de História, considere um César, um Platão, os grandes homens de qualquer era; quem tem aquela face? Quem tem aquele olhar, aquele porte? É preciso provar que é Deus?”

Alguém poderia objetar: “Mas, afinal de contas, também não se sabe se isso não foi inventado. Que provas temos de que realmente Nosso Senhor Jesus Cristo era daquele modo?”
Hoje tem-se o Santo Sudário de Turim. É uma coisa fantástica. Fotografa-se o pano e sai a imagem do homem que todas as imagens sempre representavam tendo aquele semblante. Portanto, houve uma tradição seguríssima que manteve aquela face para nós até hoje. Mas antes do Santo Sudário? Sim! E eu diria que um homem tão santo que fosse capaz de compor aquela fisionomia só poderia ter a mesma santidade que ela.
A causa da perseverança
A perseverança me veio, e me vem hoje ainda, da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Eu posso dar disso testemunho: se não fossem as orações, os Sacramentos, o exemplo da vida dos Santos, eu nunca teria conseguido perseverar.
Se eu parasse de comungar – Deus me livre! – se eu parasse de rezar o Rosário – Deus me livre! – se a minha devoção a Nossa Senhora diminuísse – que Deus mil vezes me livre! – imediatamente, todo o tônus do que eu faço abaixaria.
Quer dizer, é a Igreja Católica que misericordiosamente me tem em sua grei e alimenta em mim o por onde eu faço aquilo que sei ser o desejo de Nossa Senhora em relação a mim.
A única perspectiva para entender o Grupo
Os que comigo constituíram o primeiro núcleo do Grupo, todos eles, tiveram um itinerário mais ou menos semelhante. Foram trazidos ao Grupo e aderiram pela convicção de ser Doutrina Católica o que eu dizia. E eu nunca procurei persuadir, a não ser em nome da Doutrina Católica.
A própria substância de tudo quanto se faz no Grupo é a Igreja Católica, é a Doutrina e a Religião Católica. E por causa disso, só de vermos esse esboroar tristíssimo das coisas da Igreja, nós devemos amá-la, e amá-la, por exemplo, no Grupo, vendo nele um fruto dela. Amando, portanto, no Grupo, a Igreja. E amando também na Igreja tudo quanto não seja o Grupo, mas que foram os grandes Santos, os grandes doutores, os varões providenciais de todas as épocas, constituídos de acordo com o desígnio da Providência, para ser a Igreja Católica Apostólica Romana. O Grupo só é compreensível a partir dessa perspectiva.
Já tenho dito isto algumas vezes, mas creio não ser mau martelar, martelar e martelar, para nós nos entendermos bem.
À medida que se vai prolongando a crise dentro da Igreja, vai aparecendo mais um como que resíduo rutilante do que ela é; o Grupo é, portanto, uma obra que conserva a Fé como dentro de um vaso aromático, para que todos quantos queiram possam respirá-la e com isso se tonifiquem.
Esta é uma obra, portanto, que, nas atuais condições, não se identifica inteiramente com a Igreja, porque vemos existir muitas almas católicas – graças a Deus – que não pertencem ao Grupo, mas para as quais o Grupo faz o papel de sal da terra.
É uma obra, de outro lado, que luta contra um adversário que deglutiria tudo, e que é o comunismo, fazendo com isso uma dupla tarefa de salvação: preservando os bons, combatendo os maus, destruindo os inimigos.
De onde decorre que esta Obra tem em si as cintilações vivíssimas do heroísmo, da grandeza, da beleza de todas as épocas passadas na Igreja. Isto é verdade. Mas ela não é a Igreja. A Igreja Católica é distinta dela. Ela é algo que a Igreja engendrou para seu serviço.
Um varão que se deixou empossar pelo espírito da Igreja
O que se exigiu de mim foi uma renúncia em holocausto à Igreja Católica, uma aceitação, um deixar-me empossar do espírito dela, um amor a este espírito, um pensar exclusivo na Igreja, com a Igreja e pela Igreja, o tempo inteiro.
Numa ocasião, encontrei-me com um bispo polonês que morava em Santa Catarina e viera de Roma, recém-sagrado bispo. Conversávamos sobre diversos assuntos e, a certa altura da conversa, ele disse, dando risada:
— Olhe que os senhores são firmes na Doutrina Católica, hein!

Eu respondi:
— Sr. Bispo, estou convicto disso. Mas, de onde V. Ex.ª, que conhece pouco o Brasil, tem essa convicção?
— Porque tenho conversado com vários bispos que se empenham em procurar nos seus escritos algum erro doutrinário, mas não encontram. É preciso ser muito firme para passar por esse crivo.
Essa é a prova de que o homem que a Providência quis que fundasse e presidisse essa obra é, de fato, fiel ao espírito da Igreja, às normas dela e, portanto, merece a confiança daquela em quem ele se sustenta, a Igreja Católica Apostólica Romana.
Nunca uma doutrina inventada
Se querem me conhecer e me seguir, procurem ver de que maneira existe em minha alma o espírito da Igreja, considerando-me com duas perspectivas: olhem a Igreja e o homem, e se perguntem:
“Esse homem tem um certo feitio de espírito, um estilo de vontade, um ritmo de sensibilidade que são pessoais. Ele quer difundir que os outros adquiram o que ele tem de característico ou o que a Igreja tem de característico? Ele procura apenas aproximá-los da Igreja e torná-los parecidos com ela?”
Eu nunca quis obrigar ninguém a mudar de temperamento, mas sim ajudar a corrigir os defeitos temperamentais para perder o que há de revolucionário e assumir o temperamento contrarrevolucionário. Nunca faço a menor pressão ou insinuação nem dou o menor conselho no sentido de se despojar de sua personalidade para tomar a minha.
Não se trata, portanto, de culto da personalidade: “Dr. Plinio, que homem extraordinário! Inventou tal doutrina”. Nunca ouviram falar de uma doutrina inventada por mim. Eu não sou um criador, sou o representante da Tradição, sou um continuador. O problema é saber se continuo com fidelidade.
Eu ouço elogios – às vezes, entusiasmados –, ouço perguntas e pedidos de descrição a meu respeito. Vejo também esquecimentos, ingratidões, vejo toda espécie de atitudes. No entanto, para mim, uma só coisa é o desejo fundamental: que, em mim, procurem ver o que tenho de católico, o que é a Santa Igreja em mim. E o Batismo recebido há tantas décadas, que marca deixou em mim, como foi desenvolvido ao longo da vida; que vejam o por onde eu pertenço à Igreja e a reflito, e o quanto a amo.
“Já não sou eu que vivo, é a Santa Igreja que vive em mim”
Dessa pertencença se pode dizer, de algum modo, o que São Paulo afirmou a respeito de si mesmo: “Já não sou eu que vivo; é Jesus Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Nós somos chamados a que isso se realize desta maneira: “Já não sou eu que vivo, mas é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana que vive em mim”, como vive em cada um daqueles que queiram se abrir a ela inteiramente.
E quando eu digo que já não sou eu que vivo, mas é a Igreja Católica que vive em mim, eu digo implicitamente que são Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo que vivem em mim. Nossa Senhora é a Mãe da Igreja, é o Templo do Espírito Santo, e se eu quiser que Ela viva em mim, devo fazer o espírito da Igreja viver em mim.
Há um certo modo de ver, de fazer luzir e de fazer entender as coisas, um certo modo de ser católico pelo qual a Igreja se expande e se comunica a nós. Procurem, na medida do possível, ver isso em mim.

Devo dizer que seria uma “humildosa” contrária ao espírito da Igreja eu afirmar que sou um homem apagado, porque há qualquer coisa que rutila aos olhos de todos. Essa qualquer coisa, eu quereria que identificassem inteiramente com a Igreja e compreendessem que não é o valor de um homem, senão na medida em que o sol da Igreja incidiu nele e fez brilhar algo dentro dele. Mas que o brilho, a virtude, tudo aquilo que nele se possa querer admirar vem da Igreja Católica Apostólica Romana.
De maneira que no momento em que simplesmente declinasse um pouco essa minha união com a Igreja, as pessoas estranhariam e diriam: “Algo está mudado! E algo está mudado naquilo que não deveria mudar. Eu não entendo mais nada!”
Muitos têm me pedido que eu fale de mim mesmo. Um modo de atendê-los é dizer: pensem na Igreja e procurem nessa pessoa que querem admirar os reflexos, as analogias com a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Amor extremado e eco fidelíssimo a serviço da Santa Igreja
Eu cheguei à idade em que eu estou, o Grupo chegou ao tempo de vida que tem. E eu me pergunto: até que ponto, neste longo trajeto, logrei ser instrumento de Nossa Senhora para servir a Igreja? Até que ponto consegui que, pelo menos olhando para a gota de água, vissem o Sol, e não se pusessem a fazer elogios da água, mas do Sol? Até que ponto transmiti essa ideia de ter a Igreja uma alma enorme, fabulosa, que é o Espírito Santo – e, portanto, a Santíssima Trindade, a pericórese trinitária – que está pairando sobre tudo isso e se refletindo ali?
Já que me têm tantas vezes perguntado pelo meu processo intelectual, um ou outro tem dito o seguinte: “Espanta-me que se fazem ao senhor as perguntas mais inesperadas sobre diversos temas e o senhor tem a resposta pronta”.
Isso é porque, no primeiro momento, eu vi tudo e ininterruptamente amei tudo, querendo cada vez amar mais, amar mais, amar mais… De maneira tal que só morrerei feliz se souber ter amado tanto quanto era possível à minha alma amar. Se não for isso, morro triste e com um Confiteor nos lábios. Porque eu não me contentarei de ter amado muito, eu quero ter amado até os últimos limites que a minha alma poderia amar. É isso que eu quereria mesmo!

Um dia serei julgado por Deus e confio que Nossa Senhora obterá para mim misericórdia. O fato concreto é o seguinte: o suficiente de fidelidade para servir de guia seguro para meus seguidores, minha vida e obras provam que tive; e os frutos de tal fidelidade bastam para se compreender que ela não poderia vir senão de uma graça raríssima, especialíssima, neste século de infidelidade.
Essa fidelidade é tal que, mesmo quando os sinos de que ela deveria ser eco tocam falseado, ainda o eco desse sino soa verdadeiro. É a acrobacia da fidelidade: ser fiel contra aqueles mesmos aos quais ela deve ser fiel. É o sumum da fidelidade.
Um único bimbalhar, um só concerto
Se o Batismo bimbalhasse de alegria dentro de cada um, mais ou menos como o sino de uma igreja bimbalha quando até lá chega o toque de sino da catedral…
Na igreja de São Pedro em Roma há isso: quando o carrilhão da igreja toca em certas solenidades, os sinos das quatrocentas igrejas de Roma se põem a tocar depois. Como eu quereria que fosse assim a minha obra.
Até que ponto bimbalhamos nós? Esta é a pergunta que lhes faço, não como quem cobra contas ou recrimina, mas como quem encontra um modo de abrir-se mais a fundo, sem se vangloriar… Porque, afinal de contas, tudo quanto estou dizendo é uma ação de graças a Nossa Senhora pela Igreja Católica Apostólica Romana. Se eu me afastasse dela, num instante eu seria como um leproso moral. Esta é a verdade. Ela é o foco, é o centro, ela é tudo!
Pois bem, depois de ter dito isso dela, até que ponto os nossos ponteiros acertam? E até que ponto nós somos isso?
Quando rezarmos a Nossa Senhora “Salve Regina, Mater Misericordiæ, vita dulcedo et spes nostra, salve”, seja um pedido para que Ela conserve íntegro e num contínuo desenvolvimento o que eu recebi no meu Batismo. E que Ela lhes dê essa plenitude, de maneira a, quando este “sino” aqui tocar, os mil “sinos” dessas nobres “paróquias”, que são os meus filhos, bimbalhem também e sejamos um concerto só, no alto das torres de nossas almas, em louvor da Santíssima Virgem.
1) Em Os Lusíadas, Canto VII, 14.



