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Inferno – O Inferno, a grei maldita dos excomungados

“Ah, tu que eras meu predileto, fizeste isso? Não te quero! Para todo o sempre, fora de minha glória!” Esta terrível sentença Deus a profere sobre os que, até o último momento, recusam as suas graças e o auxílio de Maria Santíssima. E para corresponder aos desígnios divinos, a virtude da seriedade é um poderoso auxílio.

Creio que a incompreensão de algumas pessoas em relação às magníficas descrições de São João Bosco a respeito do Inferno pode dever-se à carência da noção exata do que é o pecado e do porquê Deus o odeia.

Vicente Torres
Moisés com as Tábuas da Lei – Museu Hermitage, São Petersburgo

Modo errado de considerar os Mandamentos

Há pessoas que pensam que Deus prescreveu os Dez Mandamentos, mais ou menos como em pistas de corrida de cavalos se estabelecem obstáculos, os quais são calculados para que o animal salte; e se ele assim o fizer, ganha a corrida. O mérito está em que o cavalo faça o esforço necessário, e que o homem que o monta seja capaz de conduzi-lo a tal.

Ora, não há nada na ordem natural das coisas que estabeleça entre o juiz da corrida e os obstáculos uma aversão ou uma simpatia especial. Ficou combinado que deve ser um obstáculo de um determinado modo, o qual deve ser saltado de tal jeito. É algo convencional, corresponde a regras de equitação, algumas das quais meramente tradicionais, e o juiz dá o prêmio de acordo com isso.

Muitos pensam que Deus pôs os Dez Mandamentos assim, e disse: “Eu vou dar ao homem obstáculos para ver se ele faz o esforço necessário, vence-os e vai para o Céu. Vou pôr Dez Mandamentos, como poderia colocar oito, cinco ou quinze. Poderiam ser estes ou aqueles, isso tudo é convencional. E, se uma pessoa infringiu algum Mandamento, como não merece entrar no Céu, então mando para o Inferno”.

Ora, quem se coloca apenas nesse ponto de vista, não compreende a natureza do pecado e da virtude.

É certo que Deus, enquanto soberano Senhor, tem o direito de ser obedecido. E se Ele permite um obstáculo em nossa santificação, é porque quer de nossa parte o esforço necessário para vencê-lo e nos santificarmos, não tem dúvida. Mas não é apenas isso que está em jogo, é algo muito mais profundo.

Uma forma brutal de recusa

Ainda hoje meditava sobre isso olhando para uma magnífica imagem de Nossa Senhora de Los Reyes, de Sevilha, que me foi mostrada pelo Sr. João, e no momento está em meu escritório. Eu pensava: “O que há nesta imagem? Se alguém me insultasse baixamente, pesadamente, me caluniasse, eu teria uma certa facilidade em perdoar; mas se me dissesse: ‘Eu não gosto dessa imagem, porque a ideia que faço de Nossa Senhora é segundo a arte moderna’”.

Face a isso, eu diria: “Enquanto você pensar assim, eu não posso perdoá-lo. Estou atingido no mais fundo de meu ser, e sua afirmação criou entre nós uma incompatibilidade insanável. E não pode haver meio termo entre uma coisa e outra: ou você muda o modo de pensar, ou eu o tenho na condição de meu inimigo capital e atroz”.

Se esse homem hipotético tivesse querido matar-me, eu teria mais facilidade em perdoá-lo, do que se eu soubesse que ele cometeu um tal pecado de espírito que achou bonita uma imagem horrenda do tipo moderno, e julgou feia uma imagem cheia de harmonia, de dignidade, de beleza, como é aquela. A ideia do que ele, ente humano, se faz da perfeição que deve ter uma dama – é o que está em jogo – é a ideia horrenda de uma imagem de Nossa Senhora esculpida por esses intérpretes da arte moderna; e quando ele vê uma imagem d’Ela régia, doce, forte, perfeita, impressionante, esse miserável diz: “Isso não me atrai. Atrai-me aquilo”.

Por que razão fico atingido? Sem dúvida, porque Ela é a Mãe de Deus, e vejo naquilo um ultraje a Ela. Mas há uma razão que eu não posso esquecer quando dou esta formulação irrepreensível, excelente e que contribui para que eu me sinta ofendido: pela minha natureza de homem, na retidão que eu procuro dar ao uso de minha natureza e à construção de meu ser, por isso, sou o contrário da imagem feia. E eu sou alguém que procura, de um modo ou de outro, parecer-se com a verdadeira imagem d’Ela. Meu próprio “eu” também está empenhado nisso.

E sinto-me recusado brutalmente no que tenho de mais essencial: aquilo que eu gostaria de ser, o ideal para o qual eu tendo está sendo negado. Uma bofetada, um insulto, uma calúnia, um atentado, nada injuria tanto, quanto essa forma de contestar alguém. É a mais brutal recusa que se possa fazer.

Ora, aumentem um ponto e pensem em Deus Nosso Senhor.

A expulsão de Deus da alma pelo pecado de impureza

Deus é puro espírito. Não se pode dizer que Ele seja casto, no sentido de um homem ser casto; Ele não tem corpo. Mas a castidade, enquanto virtude na alma, encontra seu fundamento n’Ele. Ele não é puro, Ele é a Pureza, é a Castidade.

Inclusive Nossa Senhora – até Ela! – não se pode dizer ser Ela a castidade, a pureza. Ela é o modelo criado mais perfeito de castidade e de pureza. É o reflexo mais magnífico e mais adamantino que há na Criação, enquanto sendo a pureza. Mas a Pureza é Deus.

Ora, uma pessoa é tentada contra a pureza. Deus sabe tudo, porque a criou; o corpo foi criado pelas leis da genética, da reprodução, mas o foi por desejo e vontade d’Ele. Está bem, Ele sabe que aquela pessoa, concebida no pecado original, será tentada. Mais ainda, Ele sabe que o demônio, a quem Ele permite, vai agravar a tentação da carne. E sabe também que os maus, a quem Ele permite, vão agravar a tentação do demônio; e que, portanto, o demônio, o mundo e a carne vão lutar contra aquela pessoa.

Quando uma criancinha está deitada no berço – podemos imaginar um berço cor-de-rosa claro, com o característico toldo de rendas e de seda, com a fita pendurada em cima –, ela está deitada, dormindo tranquila, e a mãe vela por ela; já aí Deus sabe tudo quanto aquela criatura vai sofrer para atingir o Céu, e acompanha sua vida. Se ela tiver o curso normal de uma vida, não morrer, por exemplo, antes do uso comum da razão, Deus, a Corte Celeste sabem que ela vai ser tentada.

Arquivo Revista
Quadro de Nossa Senhora de los Reyes – Escritório de Dr. Plinio

E na tentação contra a pureza, aparece claramente uma utopia que a pessoa reconhece como tal: a perspectiva de um deleite que ela sabe ser ilícito, com a agravante de que o deleite em si, quando arrasta o indivíduo para o pecado, é porque é desordenado e pecaminoso.

Uma história em câmara lenta

A pessoa sabe disso e sente dentro de sua alma a pureza, conhece-a e a ama. Mas ela vê o pecado: as delícias, o prosaísmo, a hediondez e o mal. Ela hesita entre frear-se ou não se frear. Nesse momento, ela olha para sua inocência na qual reflete Deus Nosso Senhor; olha para as graças batismais, para tudo quanto ela tem e decide: “Eu prefiro a ti, ó demônio!” E se joga… Essa é a história, passada em câmera lenta, de todo pecado, de toda tentação contra a carne.

Essa história às vezes é mais longa. A pessoa, durante o dia, teve um meio olhar, olhou de soslaio para algo que não devia, com a ideia celerada de que só um pouquinho daquele prazer não lhe faria tanto mal. Mais tarde, na hora de dormir, vem a recordação; aquilo para o que ela olhou de soslaio é inflado pela imaginação, pelo demônio, por tudo mais, e aparece enorme para ela. E ela, que aparentemente está deitada para repousar; começa a batalha da apetência imunda, desordenada, desregrada, de um lado, e da inocência que procura defender-se de outro lado. É a batalha do dia. Deus olha e, em certo momento, vê tudo quanto pôs naquela alma para ser conforme a Ele ser rejeitado por ela para ter aquela delícia.

É ou não é verdade que Deus tem de sentir por aquela alma um horror muito maior do que se víssemos alguém preferir uma imagem estilo moderno e deformado de Nossa Senhora, à magnífica imagem de Nossa Senhora de los Reyes? Por quê? Porque foi rejeitada a pureza. Mas a pureza é Ele! E, no fundo de sua alma, no momento em que o homem consentiu, ele deu uma ordem de expulsão de Deus.

Meia concessão, matéria-prima para novos pecados

Alguém dirá: “Dr. Plinio, isso é verdade, mas as pessoas não veem isso tão claramente”. Eu digo: “Eu bem sei. Não veem porque não querem. E ainda quando estão em estado de graça – estado de graça? … era preciso um confessor saber dizer isso bem – já por uma espécie de fraude, não querem se lembrar disso, de maneira a “não pecarem”. Elas não têm a decisão tão firme para se lembrarem disso sempre e não pecarem. Pelo contrário, pensam: “Eu não estou precisando refletir sobre isso, isso é muito triste. Eu não estou sendo tentado no momento, coloque isso de lado. Deixa-me pensar em outra coisa”. E empurra o pensamento salvador, já com a ideia malévola, mal-intencionada, de encontrar barreira baixa, caso queira ceder à tentação.

Sailko(CC3.0)
Tentação de Santo Antônio – Museu Pushkin, Moscou

Não há nisso uma perversidade especial? Na hora do perigo a pessoa não se lembra, porque quando estava ainda na graça de Deus já fez um cálculo subconsciente: “Eu não quero que o pecado me seja tão penoso, caso eu resolva cometê-lo. Recuso a graça do pensamento do Inferno e do Céu. Eu a recuso para poder cair mais facilmente…” E esse ainda se pretende amigo de Deus?

Imaginem um homem que tenha muita inveja. Cada um ponha o caso em si, como sendo muito invejado por outro. Esse que o inveja tem vontade de matá-lo, mas, de outro lado, receia que a polícia descubra e as consequências sejam funestas; e, ainda tem um restinho de consciência pela qual, independente de recusa, não leva a inveja tão longe. Não quer chegar a matar. Vamos dizer que os dois estejam viajando juntos num ônibus e apareça alguém durante a viagem e diga: “Quer comprar uma Beretta?1 Eu a vendo bem barato, é contrabando, custa tanto”. E o homem, que deseja dar um tiro de Beretta no companheiro quando ele estiver dormindo, não resolve matá-lo ainda, mas compra a Beretta e pensa: “Eu não estou resolvido a matá-lo. Mas quero ter a possibilidade de matá-lo, se eu quiser”. Este já não pecou?

E nós não fazemos coisas dessas, muitas vezes, em matéria de pureza? Nós não queremos pecar, mas olhamos de soslaio uma coisa, temos uma conversa ou um tato imprudente, qualquer coisa assim. E nós sabemos que isso depois pode ser matéria prima para um novo pecado. Entretanto, não queremos nos privar daquele regalo maldito e fugaz. Fazemos. Nós não estamos armando uma Beretta para lançar contra Deus depois? É isso!

Ora, o que acontece? Deus, sendo assim recusado e amando-Se infinitamente – Ele tem o direito de Se amar infinitamente, porque Ele é Ele – vendo-Se recusado, despenca seu furor sobre aquele que O rejeitou! Alguém dirá: “Mas Deus não mata logo o pecador, e às vezes deixa-o viver longamente”. Eu digo: “É bem verdade. Não só o deixa viver, como lhe dá muitas graças ainda. Deus fica enfurecido e, se não o castigar na Terra, o fará no Purgatório, onde o fogo é do gênero do fogo do Inferno. Mas aqueles pecados ele vai ter que pagar! De maneira que é preciso pensar bem no Purgatório…

Flávio Lourenço
Cristo Gladífero – Igreja do Salvador, Ejea de los Caballeros, Espanha

É necessário que se façam muitíssimas penitências na Terra para não ir para o Purgatório. E assim mesmo é duvidoso que consiga não ir. Lá está a fogueira da cólera de Deus acesa para aqueles a quem Ele ama e que O amam, de tal maneira Deus é ofendido pelo pecado.

A cólera divina contra o pecador

Mas, há mais. Nós temos junto a Deus a proteção de Nossa Senhora, dos Anjos, dos Santos, de todas as almas santas que intercedem por nós no Céu; e podem obter que a hora da nossa morte vá sendo adiada para recebermos novas graças, termos novas ocasiões de nos arrepender. Isso pode perfeitamente acontecer. Ora, quanto mais Deus perdoa e o homem recai, tanto mais é difícil obter que Ele dê nova graça. E quanto mais Ele concede novas graças, tanto mais sua cólera se acende se aquele cai de novo. Quando, afinal, a medida estiver cheia, Deus o precipitará no Inferno com o ódio redobrado, pelo fato de aquela pessoa muitas vezes haver recusado o perdão d’Ele. É natural.

Imaginem que um parente meu, alguém muito chegado a mim, me inveje por algum ponto e tente várias vezes matar-me; mas eu o perdoo sucessivamente, reintroduzindo-o em minha amizade. Há um certo momento em que posso decretar: “Não tem mais propósito! Vou denunciá-lo à polícia; em nosso país há pena de morte, você morrerá executado”. E o outro, ao ser levado para a execução, vê o denunciante ali presente, que, de olho seco, com a fisionomia encolerizada, presencia despencar a justiça em cima daquele. É natural.

Flávio Lourenço
Anjos jogando demônios no Inferno – Museu da Catedral de Múrcia, Espanha

Nós acharíamos muito duro ir assistir à execução de alguém que atentou uma vez contra a nossa vida. Mas, se um homem atentou cinco, sete, oito e sempre o perdoamos, não é compreensível que, como vítimas, queiramos assistir à execução?

E nós, que quantas e quantas vezes atentamos contra Deus, pecamos mortalmente contra Ele e não ligamos, não é claro que a cólera de Deus esteja especialmente indignada contra nós? É evidente. Então dá-se o que há de mais penoso, e que não podemos calcular.

Dor dilacerante de se ver apartado de Deus

Certa vez, um padre jesuíta disse na aula algo sobre a morte, que nunca me saiu do espírito: A morte deve ser terrível. Se se tirar do homem um dedo, por exemplo, sem anestesia, causará uma dor tremenda, quanto mais arrancar a alma de dentro do corpo! A composição do homem é alma e corpo. Dissociar essa composição, que coisa medonha! Pois bem, há algo muito pior do que isso, em comparação do qual a morte é um jogo, uma brincadeira.

Quando o pecador morre e as ilusões desta vida passam, ele compreende que o fundamento da existência dele está em Deus; que Ele lhe deu o ser para adorá-Lo, e ele fez essa imensidade de voltar-se contra seu próprio fundamento, capitalmente, de frente, e, portanto, ficou torto, mal imbricado e errado.

Imaginem o tormento de um homem que se conservasse vivo com todo o organismo funcionando ao revés. A transpiração, feita para eliminar os líquidos que não convêm, eliminasse o sangue bom, e dentro ficasse apenas apodrecimento! Os pulmões, que inalam ar puro e expelem ar viciado, ao contrário, absorvessem o ar viciado e ele, desfalecendo de asfixia, inalasse quantidades infinitas de ar asfixiante. Ele respiraria asfixia para todo o sempre; o coração, bomba que distribui o sangue no corpo, fizesse o contrário, e ele tivesse hemoptises contínuas, vivesse em hemorragias eternas. O seu coração o extenua e o liquida; é o inimigo que conspira contra ele.

Imaginem, por exemplo, que esse homem tivesse os dentes do lado de fora das bochechas, de maneira que, na hora de mastigar, tivesse que apertar com a mão. Imaginem horrores de toda ordem: as unhas colocadas por dentro da carne, de modo a crescerem continuamente sem haver como apará-las, e a pele doída e esticada de todos os lados, sem arrebentar. Poderíamos imaginar um corpo todo construído assim; seria menos do que sente o condenado quando se vê jogado contra Deus.

É no próprio pedúnculo do seu ser, o por onde ele é, que está virado pelo avesso. E nele tudo não é senão o avesso, o virado, o torto, o dilacerante. Ele vive numa alucinação permanente; reconhece ser merecedor dos castigos, odeia Aquele que o castigou merecidamente e sabe que para ele não tem remédio nenhum. E ele se encontra naquele estado, às vezes, porque pecou por um só minuto… Porque, não se esqueçam: há almas que pecaram mortalmente uma só vez e caíram no Inferno. Uma só vez!

Alguém poderia objetar: “Mas por que Deus é tão generoso com uns e menos com os outros?” É próprio à misericórdia ser facultativa. Ele não é obrigado a grau maior ou menor de misericórdia. Está na perfeição d’Ele ser justo, está na sua perfeição ser misericordioso. Mas grau de misericórdia, Ele dá como quiser. Desde que Ele dê a cada um a porção de misericórdia adequada, basta.

Quando Ele lança uma alma no Inferno por um só pecado, quantas graças Ele terá dado antes para que aquele pecado não fosse cometido? E que culpa não há naquele único pecado que ofende de tal maneira a Deus, a ponto de Ele determinar: “Ah, tu que eras meu predileto, fizeste isso? Não te quero! Para todo o sempre, fora contigo!”

É uma coisa terrível, tremenda!

Calcado aos pés, excomungado da Igreja

Há uma outra coisa que nos dará uma ideia do horror do Inferno.

As palavras que São João Bosco viu na entrada do Inferno são terríveis: “Onde não há Redenção”. Se houvesse mais estas outras palavras, creio que ainda estremeceria mais: “Aqui não se pertence à Santa Igreja Católica Apostólica Romana!”

Imaginemos um pecador dormindo e que, de repente, acorda – acorda? Não acorda! – nota que compareceu diante de Deus e que Ele o jogou no Inferno, onde não existe a Igreja; é a grei maldita dos excomungados.

E ele, do fundo do Inferno, pode considerar os lugares da Terra onde rezou, as cerimônias religiosas que o enlevaram, os momentos em que na vida teve contato com a história de tal Santo, tal outro, com o enunciado de tal dogma, com tal princípio do Direito Canônico; no estudo de tal fato da história da Igreja, quando sentiu uma palpitação especial e disse: “Ó Santa Igreja, sois verdadeiramente minha Mãe!” Pois bem, ele se vê ejetado da Igreja, excomungado.

A Igreja se divide em militante, na Terra; padecente, no Purgatório; gloriosa, no Céu. Fora da Terra, do Purgatório e do Céu não há Igreja. Não pertencer à Igreja… de repente dar-se conta de que está jogado fora dela! Tenho a impressão de que, se isso me acontecesse, eu me poria a delirar imediatamente. Se eu pudesse deixar de existir, deixaria de existir. Está bem, o condenado ao Inferno se vê fora da Igreja, nela não há mais nada para ele.

A Igreja é a cidadela magnífica, a fortaleza fora da qual ele é o réprobo que não pode entrar. E quando ele a vê, só é atormentado por aquela visão. É o abominado de maneira a não haver ali lugar para ele! E ele vê, pelo alto das ameias da muralha sagrada da Jerusalém Celeste, uma procissão que passa cantando o hino pontifício, ou o que lhe causa maior horror, uma canção com louvores a Nossa Senhora, ele fica apavorado: “Eu podia ser um daqueles…” Passa este, aquele, aquele outro, nimbado de glória, com Anjos voando por cima, protegendo-o. É, por exemplo, um que foi do Grupo, foi dos nossos, e vê seus irmãos passando em cortejo.

Todos caminham para um trono onde está Nossa Senhora, indizivelmente mais majestosa, mais materna e mais bela do que na Imagem de Nossa Senhora de los Reyes. Todos caminham para lá iluminados, contentes, e ele pensa:

Sailko(CC3.0)
Corte celeste glorificando a Cristo – Galeria Nacional de Londres

“Em tal cortejo, eu estive entre esse e aquele. Em tal ocasião, viajei com tal outro. E aqueles que estão naquela ponta constituíram comigo uma caravana… Ei-los que passam, nimbados de alegria, de glória. E eu? Estou fora da fortaleza, fora da Igreja. A cólera de Deus pesa sobre mim. Estou completamente retorcido, revirado, abjeto. Tenho horror a mim mesmo, e, entretanto, não tem mais remédio. Deus me odeia, e o Coração Sapiencial e Imaculado de Maria fechou-Se para mim como uma pedra! Naqueles lábios, cujo sorriso durante tanto tempo me encantou, só encontro uma censura tremenda: ‘Injuriaste meu Filho! Não és meu. Retira-te! Calco-te aos pés, célula maldita da cabeça da serpente que Eu piso eternamente!’” Oh, horror! Oh, horror! Oh, horror!

No despenhadeiro do desespero eterno

E nós, que não gostamos de ouvir falar do tempo que foge, mas ele foge… Diziam os antigos pregadores que no Inferno existe um relógio – em sentido figurado, naturalmente, não há hora, é a eternidade – cujo pêndulo oscila entre o “sempre” e o “nunca”. “Sempre ficarás, nunca sairás. Sempre ficarás, nunca sairás!” Sempre horror, nunca solução, nunca arranjo. Penar, penar, penar, porque “Deus, eterno e perfeito, te odeia. Foste um mole, Deus te queria um firme; foste um inexorável, Ele te queria um misericordioso. Deus te rejeita. E agora, por toda a eternidade, nem sequer te digo ‘arranja-te’, porque para ti não há arranjo. Desconcerta-te, geme e estoura, e depois te recompõe para estourar de novo. Não morrerás nem por um segundo. E aquilo que talvez ambiciones como suprema ventura, que é deixar de ser, aquilo exatamente tu não terás. Tu serás sempre, como Deus será sempre. Deus, teu inimigo irreconciliável”.

Se nos lembrássemos sempre disso, como seríamos diferentes! Como prestaríamos mais atenção em combater as ocasiões de pecado! Como teríamos terror de cair de um momento para outro no Inferno! E como nós compreenderíamos melhor o mal que há no pecado! Como poderíamos adorar a Deus!

Porque um Deus tão puro, tão perfeito, que odeia assim o pecado, só pode ser por nós adorado com transportes de amor. De tal maneira que, se uma alma no Inferno fosse capaz de amor, ela deveria dizer: “Senhor, Vós vedes bem quanto eu estou sofrendo, e eu mereço. Mas, tolerai que eu Vos diga: eu amo e adoro o vosso santo horror ao mal que eu fiz!” Mas a alma não faz isso, ela está no Inferno, se revoltou contra Deus e não mais mudará de atitude. E se revolta contra Ele, blasfema, e recebe pela blasfêmia um novo castigo. É o despenhadeiro do desespero eterno.

A ilusão da imortalidade

Meus caros, daqui para casa, da casa para a cama, até a hora em que começar o sono, para alguns já será a hora da batalha. Notem, São João Bosco só conta ter visto meninos, alunos ou ex-alunos dele. Ele não fala de outros. Por quê? Para fazer ver aos seus duas coisas: primeiro, que se morre em qualquer idade, e que nenhum de nós sabe se vai chegar vivo à casa onde pretende dormir. Nenhum de nós sabe, na hora de dormir, se vai levantar depois ou se, na hora em que imergir no sono, de fato não imerge na morte.

Quem pensa nisso antes de se deitar? Quem tem o cuidado, por exemplo, de oscular o chão e dizer: “Eu sei, ó Deus, eu sei, ó Maria Santíssima, minha Mãe, que posso, esta noite, estar em condições de amanhã estar sepultado na terra. Eu osculo essa terra que talvez seja minha sepultura, e peço que dela eu seja ressuscitado para a glória eterna, quando vierdes julgar os vivos e os mortos!”

Essa ilusão de que moço não morre é responsável pela morte de muitos moços. Quanta correria maluca, quanta imprudência de saúde, quanta imprudência de brigaria e outras coisas que os levam para a morte, pela ideia de que moço não morre. Se os jovens se capacitassem de quanto podem morrer, eles morreriam menos. Mas a própria ilusão da imortalidade os conduz ao fim, a morte já abre a boca para eles.

Flávio Lourenço
Demônios colocando condenados no Inferno – Museu da Catedral de Múrcia, Espanha

Depois há também a ideia: “Eu sou moço, Deus perdoa. Eu tenho tanto tempo para viver!” Quem lhe disse que você tem tanto tempo para viver? É sua ilusão! Veja os alunos de D. Bosco. Quantos já estavam diretamente no Inferno! E vem outra ilusão: “Eu sou membro do Grupo e provavelmente não vou para o Inferno”. Vejam os alunos de D. Bosco. Eram alunos de um dos maiores Santos da História, foram formados por ele. Antes de dormir, ouviam o “Boa Noite”, no qual ele contava os sonhos, as graças que tinha recebido.

Esses depois pecaram e alguns foram para o Inferno. E D. Bosco veio como mensageiro, porque aquilo era um aviso para os outros alunos a fim de não caírem e se condenarem também. E achamos que nós, porque somos membros do Grupo, não vamos cair no Inferno? Que ilusão é essa? Não se pode estar mais inteiramente iludido do que isso.

Lenitivo celeste para a Cruz da seriedade

Daí, meus caros, vem o verdadeiro perfil moral do católico. O verdadeiro católico pode ser sereno, jubiloso, vivo, pode ser o que for, ele tem um fundo de seriedade permanente! Fundo de seriedade que se pode apreciar muito bem, expresso na imagem de Nossa Senhora de los Reyes. Aquela tranquilidade, serenidade, mas sobretudo aquela profunda seriedade. Por quê? Porque tudo é sério. E estamos jogando, de um momento para outro, a mais séria das coisas: o nosso destino eterno. Tudo é sério e tudo tem consequências seríssimas. E, por causa disso, a seriedade é o fundo de nossa alma. É do alto da montanha da seriedade, ou do profundo oratório da seriedade, que o homem vê a vida.

É diferente da alegria abobada, festiva, tonta, que nos ficou por aí, apesar de todos os desmandos e desastres da vida moderna. E daí também o fato de se estabelecer essa convenção estúpida de que o moço deve ser meio ventoinha, meio tonto, meio irrefletido. Quem não aprendeu a refletir em moço, nunca aprenderá em velho, a não ser mediante graças muito especiais. É uma loucura! Devemos ser sérios a vida inteira.

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, uma vida séria assim, quem aguenta?” Eu devolvo a pergunta: “Quem aguenta sua vida não séria? Pensa que eu não sei o que é sua vida não séria? As frustrações, as decepções, os isolamentos, as ânsias e as inutilidades da existência de quem não é sério; pensa que eu não vejo, não espreito? Eu conheço bem o tormento de quem não é sério, e digo: os mil sofrimentos de quem é sério fazem sofrer muito menos do que os tormentos de quem não o é. É fora de dúvida! E depois, sobretudo, para o católico, há um lenitivo celeste para levar a cruz da seriedade, e esse lenitivo se exprime nestas palavras inefáveis: Salve Regina Mater misericordiæ, vita dulcedo et spes nostra, salve. Reze a Nossa Senhora, Ela sorrirá. E um sorriso d’Ela dará forças para cem anos de seriedade!

Aos que invocam o nome de Maria, as portas do Céu se abrem

Nenhuma imagem de Nossa Senhora me causou tão grande efeito como quando eu era pequeno e, num momento de merecida contrição, estava rezando, não desesperado, mas caminhando para o desespero, diante de Nossa Senhora Auxiliadora, na Igreja do Coração de Jesus. Eu não posso me esquecer disso jamais. Ela que me ajude a não me esquecer disso até no meu último alento. Quando eu estiver para morrer, eu ainda desejo me lembrar desse momento! A bem dizer, desse momento eu vivo!

Não houve visão, não houve revelação, houve uma graça pela qual compreendi a pena que Ela tinha de mim, que Ela me perdoava, me convidava a ser outro, a modificar-me, a amá-La; e Ela me fazia ver toda a beleza do caminho que ficava diante de mim, se eu colocasse meu caminho em nexo com as vias d’Ela.

Arquivo Revista
Nossa Senhora Auxiliadora – Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

Eu era uma criança, não sabia nada de Teologia; eu tinha um catecismo estudado com seriedade comum, mas não mais que isso. Pois bem, a partir daquele momento, eu entendi bem que, no meu caso concreto, mais do que em outros, ou eu me agarraria a Ela de um modo único, e Ela teria a condescendência de me proteger de um modo único, ou não havia caminho para mim. Compreendi também que, no meio de mil dificuldades que aparecessem, haveria um frescor de alma, uma serenidade, uma tranquilidade naquela promessa, que me acompanharia até o fim dos meus dias.

De maneira tal que, quando eu, nas mil ocasiões de minha vida, tive graças de devoção a Nossa Senhora, eu sempre me lembrava e punha em nexo com essa graça de devoção primeira, na Igreja do Coração de Jesus. Por isso é que muitas vezes, na aridez inteira, volto lá, em última análise, para ver Aquela que uma vez me sorriu sem ter sorrido. Eu volto a dizer, não houve milagre, visão ou revelação. Houve uma graça.

Lembro-me, por exemplo, de que quando entrei como congregado mariano em Santa Cecília, eu tinha então uns 20 anos mais ou menos, escutava o coro da Congregação cantar, atrás da Igreja, uma cançãozinha depois dos Salmos de Maria. Eu ia me habituando às palavras em latim, e interpretando. E até hoje me lembro dessa canção. E a cançãozinha me fazia recordar a graça da Igreja do Coração de Jesus: “Si quæris cœlum, anima, Mariæ nomen invoca. Mariam invocantibus cælestis patet ianua – Se tu queres o Céu, ó alma, invoca o Nome de Maria. Aos que invocam esse Nome, as portas do Céu se abrem”. E eu pensava: “Que bonito! Naquele momento as portas do Céu se abriram para mim”.

Depois continuava o canto dos congregados: “Ad Mariæ nome cælites lætantur, tremunt inferi. Cœlum tellus et æquora totiusque mundus iubilat – Pela menção do Nome de Maria Santíssima, os que estão no Céu se alegram, e tremem os Infernos!” Cada vez que alguém pronuncia o Nome de Maria, mesmo na Terra, há alegria no Céu, e o Inferno estremece. Lembrando aqui com piedade, emoção, veneração comovida esta cançãozinha latina de minha remota juventude e de minha querida Congregação Mariana, sei que Nossa Senhora sorri com indulgência, e Satanás espuma.

A canção continua: “Culpæ fugantor tenebræ, morbi, dolores, ulcere, vincis solvuntur compedes; nautis mitescunt æquora – As culpas fogem, as trevas se dissipam, as doenças, as dores, as úlceras – entende-se no sentido físico, mas sobretudo no sentido moral, as provações infligidas pelo demônio –, os vínculos são arrebentados; para os navegantes, as águas se tornam suaves”.

Depois retoma o conselho inicial, como se fosse a tese e a conclusão: “Si quæris Cœlum, anima, Mariæ nomen invoca. Mariam invocantibus cælestis patet ianua”.

Eu ouvia cantar isso na Igreja de Santa Cecília e tinha diante de meus olhos uma imagem piedosa de Nossa Senhora, mas sem nada de extraordinário, que ainda está lá. Eu a fitava muito. No entanto, em meu espírito, pensava na imagem da Igreja do Coração de Jesus, que ficou indelevelmente no meu íntimo, a tal ponto que, apesar de o valor artístico dela ser tão inferior à de Nossa Senhora de los Reyes, por exemplo, a não poder ter comparação, ela me comove mais. É o momento em que eu fui perdoado!

(Extraído de conferência de 13/8/1983)

1) Famosa marca de armas de fogo de origem italiana.

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