Diz-se que as viagens alargam os horizontes. Mas, se o espírito se habitua a meditar sobre os Novíssimos, ele cresce de envergadura, de tamanho, de dimensão intelectual. Nada melhor como reação ao espírito revolucionário.
No que diz respeito ao Juízo Particular, como a todos os Novíssimos, há uma lamentável dificuldade do homem em focalizar bem a matéria, porque ele está muito em cena no assunto. Então, é preciso introduzir o tema com as retificações necessárias à nossa psicologia.
Reflexo criado da justiça de Deus
De que modo podemos conceber facilmente como será o Juízo? Antes de tudo, procurando realizar como somos nos momentos em que nós julgamos com justiça. O que significa isso mais precisamente?
Imaginem-se lesados gravemente em seus direitos mais fundamentais por uma pessoa muito próxima e, por uma razão qualquer, fosse justo dizer: “Este esgotou a medida e agora vou cobrar as contas!”
Cada um, no papel de juiz, o que diria? Que distância poria entre si e o miserável? Qual seria a increpação, com que grandeza a faria, do alto de que princípio, de que queixas, de que fatos, com que acabrunhamento? E por fim diria: “E, por causa disso, descarrego sobre você, em virtude dos direitos em mim lesados, tal e tal punição! Comece!”
Isso que faríamos com justiça é um pequeno reflexo criado – basta dizer isso: criado! – daquilo que existe infinitamente em Deus.
Um modo de julgar severo…
Imaginem um pai, por exemplo, Adão, se tivesse que julgar Caim. Ele gerou Caim, ele o entreteve, brincou com ele, nutriu-o e fez de tudo por ele.

Caim mata Abel, o filho da esperança de Adão. Suponhamos que Deus não tivesse punido tão espetacularmente Caim e que fosse preciso julgá-lo. E, então, Adão chamasse Caim para o julgamento e executasse uma sentença: “Eu te condeno a ser, daqui por diante, um homem afastado de todos; que não descanses uma só vez na vida; que a todos proclames, antes de aproximar-te de cabeça inclinada e de olhos baixos: ‘Eu sou o infame Caim’. Eu te condeno a, em cada noite que durmas, sentir o horror do chão que tens debaixo dos pés. E que procures fugir de tua sombra, indo dormir mais adiante.
“Vagabundo, eu te condeno a não ter lugar estável e, portanto, a não ter ocupação nem trabalho fixo; tu vais vagabundear dentro de tua própria alma, de tormento em tormento, de remorso em remorso. Eu te rejeito! Longe de mim! Começa a fugir! Foge!”
No fundo, Adão condenaria tudo isso, descarregando sua cólera sobre Caim. Entretanto, ele é pai e não o condenou ao Inferno. Adão sabe que para Caim ainda há salvação, ele a deseja para o filho. Mal o vê adentrar no mato como um desesperado, Adão se prostra e reza, pedindo a Deus pelo filho.
…mas, de outro lado, o julgamento de um pai
Outro modo seria se, durante o julgamento, ele dissesse para Caim: “Eu que te gerei, eu que brinquei contigo e te fiz tal carinho, tal agrado, tal coisa, te curei de tal moléstia, de tal outra, logo tu, que eras tão próximo de mim… tu fazes isso?”
Quando Caim fosse embora, Adão diria: “Meu Deus, eu o gerei, eu brinquei com ele, eu fiz isso…”
Essas duas posturas de alma dele seriam, no que elas têm de extremo, enormemente respeitáveis. Se Adão tivesse julgado assim Caim e nós tivéssemos assistido ao juízo, Adão sairia engrandecido diante dos nossos olhos.
Ele diria a Caim: “Eu sou um degredado, estou fora do Paraíso. Tu és um filho de degredado e carregas minha maldição. Mas, tu me viste fazer penitência e eu te vi cometer um pecado. Geme! Começa a soluçar e some daqui!”
Depois Adão se voltaria para Deus e diria: “Meu Deus, eu pecador, gerei um pecador. Tende pena de mim. Mais uma vez, tende misericórdia de nós dois!”
Aqui, de passagem, entende-se bem o que a “heresia branca”1 tem de errado. Não que ela minta quando glorifica a misericórdia de Deus – não pode ser – mas ela vê um só lado. E ela nos dá de Deus uma ideia menos excelente, menos sublime do que compete a Ele, porque precisamos ver a misericórdia e a justiça.

Para os condenados ao Inferno, um julgamento sem volta atrás
Entretanto, Deus não vai ser assim conosco no dia do Juízo porque, na hora de nos condenar, Ele o faz para todo o sempre, nós ficamos atolados no ódio eterno a Ele e nunca mais mudaremos.
E, por todas as eternidades, das eternidades, das eternidades, vamos estar em relação a Deus numa atitude de blasfêmia eterna. E Ele, com seus bem-aventurados, do alto do Céu, vai ter gáudio ouvindo nosso gemido. Ele, que criou o Inferno com todos os tormentos – porque Deus é criador do Céu e da Terra, criador do Inferno! E quando, no Credo, está dito visibilium omnium et invisibilium, refere-se não somente aos Anjos do Céu, mas também aos demônios.
Deus mantém na vida tudo quanto existe. Nós estamos vivendo porque somos mantidos por Ele. Se Ele tirasse a mão, nós cairíamos no chão e nos desfaríamos. Deus mantém na vida os demônios e mantém no ser os tormentos do Inferno para atormentar o demônio. E, como nada há na Criação que Ele não conheça e de que não tenha sido o motor primeiro, não há um tormento de um demônio cuja causa última não seja Deus. E é para lá que Ele condena os malditos.
Então, a atitude de Deus não é mais como a que Adão teria tido com Caim, mas é a da descarga imediata e completa da cólera d’Ele.
“Presta tuas contas!”
Não me espanta que um homem de setenta e dois anos morra de repente. Mas não é impossível morrer igualmente um jovem de vinte. Seria surpreendente, não seria impossível. Há casos desses e todos sabemos perfeitamente. Ou seja, nenhum de nós sabe, na hora de encostar a cabeça no travesseiro, à noite, se de fato não será nosso cadáver que encostará…
Em outros termos: pôs a cabeça no travesseiro, adormeceu, morreu. E ali começa ou o Purgatório; de que tamanho? Com que sofrimentos? Com que dores? Ou o Inferno.
E, quando menos se pensa, antes de eu ter acabado de levar esta xícara aos lábios, morte súbita! Presença de Deus!
Diante d’Ele, todas as ilusões do mundo se desfazem como se fossem uma figura. O Apocalipse diz que, quando o mundo acabar, o céu se enrolará como um pergaminho (cf. Ap 6, 14). Assim também, quando nós morrermos, a nossa vida se enrolará como um pergaminho. Não veremos mais nada, todas as ilusões passaram e veremos que só teve valor real, para o bem ou para o mal, o que nós fizemos a favor ou contra a Causa Católica. E, aparecerá diante de nós Deus, Nosso Senhor, em seu poder e majestade. E, com aquela ordem de juiz que já julgou: “Rede rationem tuam” – “Presta tuas contas”.
Há pessoas que passam por perigos de vida gravíssimos – são casos excepcionais, eu li num livro alguns deles – e, em certo momento, a vida inteira lhes passa diante da memória.
Entretanto, diante de Deus, nem é isso. Nossa vida está toda parada e projetada na eternidade. E nós ali.
Nessa hora, Nossa Senhora não reza mais por nós, Ela reza até nós morrermos. O resto é instantâneo: morreu, entrou imediatamente o Juízo. Nessa hora, veremos o erro, o desatino da nossa vida, ou – por que não dizer? – o êxito, o gáudio, a alegria!
O julgamento da virtude
Se Deus é tão terrível no julgar o pecado, Ele não seria justo se não fosse simetricamente afável e bondoso no julgar a virtude.
Para calcular o afeto de Deus por nós, basta lembrar que Ele enviou seu Filho a esta Terra para sofrer tudo quanto sofreu, porque deseja nossa salvação – e o faria para salvar um só de nós! – e quer que compreendamos o gáudio inefável, penetrante, envolvente com que Ele nos considera. Diz-nos uma só vez: “Meu filho”, e aquilo dura por toda a eternidade…
Lembrar-nos-emos de todos os nossos atos de virtude e teremos um gáudio do qual não podemos ter ideia, vendo-nos, de repente, e para sempre, na presença de Deus, que nos sorri e nos ama.
Há uma história de um Santo que subiu ao Céu e entrou no gozo da eterna bem-aventurança. Lá, Deus deu ordem para ele voltar à Terra, e ele desceu chorando. Viveu mais tempo aqui, prestou serviços a Deus e depois voltou para o Céu.2
O Santo deixou uma narração do fato em mãos de São Gregório de Tours, famoso analista da história francesa dos primeiros tempos. É, porém, um caso excepcional, porque o normal das almas é ficarem no Céu para sempre. Nos homens penetrados pela civilização moderna, só estas palavras “para sempre” podem produzir um certo desespero; em outros, ao contrário, elas produzem um gáudio: “Inteiramente, eternamente, absolutamente, sem dúvida, nem sombra nem nada. Agora eu comecei a viver!”

Pensar no Juízo
E, assim como nesta terra se celebra o aniversário de alguém no dia em que nasceu, mais belamente no dia em que foi batizado, assim também no Céu é concebível – lá não há dias, mas por alguma adaptação – que no dia em que um morreu, no Céu se faça a festa dele, pois ele nasceu para a vida eterna, para a vida verdadeira.
Então, diante de nós temos destinos imensos, perspectivas colossais. E eu tenho a impressão de que todas as almas seriam muito maiores se se habituassem a considerar isso. Cresceriam de envergadura, de tamanho, de dimensão intelectual. Digo mais, creio que seriam muito mais inteligentes.
Diz-se habitualmente que as viagens alargam os horizontes e os espíritos. Eu não discuto a questão. Mas, se o espírito viajasse desse extremo que é o Inferno para aquele outro extremo que é o Céu, ele faria a maior viagem que há.
Alguém, sentado em uma cadeira, numa sala, próximo a uma mesa, pode, com o espírito, fazer uma viagem de um tamanho que não tem fim, uma coisa fenomenal. Assim o espírito se alarga, toma proporções.
Então eu quereria que, como reação ao espírito revolucionário, as nossas almas se tornassem muito familiares a essas meditações e, de vez em quando, as repetíssemos. Há uma infinidade de aspectos e não há perigo de repetição; pode-se falar um ano sobre este tema que ele não se esgotaria.
(Extraído de conferência de 13/7/1981)
1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na cultura, na arte etc. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.
2) Trata-se de São Sálvio, monge. Depois que retornou do Céu, Sálvio tornou-se Bispo de Albi, em 574 e viveu até o ano de 584. São Gregório de Tours conta esse fato em seu livro Historia Francorum, L. VII, col. 329-333.



