Deus nos acompanha com sua graça e um dia nos pedirá contas de todos os tesouros concedidos. Por isso, adquirir o hábito de ter uma atenção crítica sobre si mesmo é tomar uma atitude séria e forte perante a vida. Se todos nós prestássemos atenção em nossas almas como prestamos em nossos corpos, que almas primorosas teríamos!
No Evangelho, Nosso Senhor criou uma parábola para instruir e formar as pessoas que O ouviam.
A parábola dos talentos
Era a história de um homem que tinha dinheiro para empregar e foi viajar. Ele chamou os seus servos e deu-lhes o dinheiro para que aplicassem na sua ausência. A um entregou cinco talentos, a outro dois e ao terceiro, um (cf. Mt 25, 14-30).

O senhor viajou e os três começaram a se perguntar o que fariam. O que recebeu cinco moedas fez render o dinheiro. Ao cabo de algum tempo, ele tinha cinco talentos a mais. O de dois talentos fez render mais dois. O terceiro, que tinha um talento só, pensou: “Esse senhor é um homem severo e vingativo. Se eu aplicar esse dinheiro e perder, posso sofrer uma punição muito grande. É melhor enterrar o talento no chão, num lugar que só eu conheça. Quando ele vier, desenterro-o e o devolvo. Não serei passível de punição porque, afinal, o dinheiro dele está aqui. Naturalmente, também não serei passível de prêmio, porque não fiz nada por ele. Mas ficam elas por elas, eu fico sem a recompensa e sem o castigo. Vou vivendo. Acho que é a melhor solução”.
Ele foi e enterrou o talento. Ao cabo de algum tempo, o senhor desses três servos voltou, chamou-os e disse-lhes:
— Agora prestem as suas contas!
Um disse:
— Vós me destes cinco talentos, eu ganhei mais cinco. Aqui estão.
O senhor chamou-o de servo bom e fiel e manifestou o seu agrado.
O que recebera dois talentos apresentou-lhe dois a mais. Foi chamado de servo bom e fiel e também recebeu uma manifestação de agrado do senhor.
Chegou o último e disse ao dono:
— Vós sois um homem severo. Por causa disso, eu enterrei o talento e, agora que chegastes, aqui está.
O senhor castigou esse servo, porque ele deveria ter feito render as moedas e não o fez. Portou-se como um homem preguiçoso.

O modo pelo qual muitas pessoas antigas guardavam o seu dinheiro contra roubos era enterrá-lo num lugar que ninguém saberia. De vez em quando, ainda se encontram na Europa, no subsolo, caixas com moedas que foram enterradas por antigos que depois morreram e não tiveram tempo ou não quiseram contar onde estava o dinheiro. Então, esse foi castigado.
Esse ato pelo qual um senhor entrega um, dois ou cinco talentos a seus servos para que os façam render e depois volta e pede contas, é uma síntese do que se passará no Juízo Final.
Deus nos criou com a alma que Ele insuflou em nós, com o corpo, com as condições em que nascemos e em que vivemos, e nos deu um mundo de circunstâncias favoráveis. Pôs também junto a nós muitos obstáculos, que constituem em torno de nós um como que jogo. Trata-se de utilizar as circunstâncias favoráveis, de remover os obstáculos, e tirar daí um bom resultado para Deus.
A graça de Deus nos acompanha até a hora da morte
Ao longo da vida, Deus faz muito mais do que isso por nós. Com a ação inapreciável da graça, Ele penetra em nossa alma pelo Batismo, tornando-nos membros do Corpo Místico de Cristo, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, e com isso faz viver em nós a graça, que é uma participação criada na própria vida incriada d’Ele. Portanto, Ele vive em nós, de algum modo.
Por outro lado, nós temos os Sacramentos da Confissão e da Eucaristia, temos o Rosário, temos a devoção a Nossa Senhora; tantos e tantos recursos a Igreja põe à nossa disposição. Até a última hora da morte temos a Unção dos enfermos, que era tão mais belo e correto chamá-la de Extrema-unção, pois era dada in extremis;1 quando um indivíduo estava em perigo de vida sério, real – não precisava de ser extremo –, recebia essa unção, a qual tonifica as forças físicas e prepara a alma para enfrentar a morte.
Tudo isso Deus nos dá. E nos acompanha com a sua graça e com seus auxílios até o fim, até o último instante. Antes da alma se separar do corpo, a graça está agindo em nós. O Anjo da Guarda está rezando por nós, está afastando de junto de nós os demônios, Nossa Senhora está pedindo por nós, na corte celeste Santos e Anjos, de cuja existência nem temos conhecimento, interessam-se e rezam por nós.
Presta as tuas contas!
Contudo, ao morrermos, ouviremos: “Presta as tuas contas!”, e num relance nós veremos tudo o que recebemos, tudo o que rendemos e o que não rendemos. E Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santíssima Trindade, exigirá as contas.
No Juízo Final, isso se repetirá de maneira solene; será feito um julgamento de todos os homens em conjunto. Portanto, não é o juízo individual, em que cada um é julgado e toma o rumo que a justiça divina decretou. Mas cada um será julgado diante de todos, aos olhos de todos se fará justiça e cada um seguirá o caminho que mereceu.
Na Idade Média era usado um modo de injuriar limpo, forte e belo. Quando alguém queria lançar um desaforo para outro, dizia: “Palha para o Inferno!” Ou seja, os réprobos serão palhas do Inferno quando Nosso Senhor os mandar embora. Os outros irão para o Céu.

Há uma verdade de Fé, absolutamente certa: nenhum homem escapa desse julgamento. Elias e Enoch, que estão à espera do Juízo de Deus, devem primeiro vir à Terra e enfrentar o Anticristo, pelo qual serão mortos, e depois, sim, ressuscitarão. Ou seja, Elias e Enoch, com muito mais de dois mil anos de existência – ninguém sabe o dia da morte deles quando será, ninguém sabe o fim do mundo quando será –, depois de uma vida tão venerável, tão admirável, tão extraordinária, morrendo, serão julgados e terão que prestar contas: “Redde rationem tuam: Presta as tuas contas!”
Isso vai acontecer com cada um de nós. O Juízo Particular é terrível, e o Juízo Final também.
A espanto ante a iminência da morte
Lembro-me de que o primeiro homem que eu vi morrer em minha vida era um funcionário da Faculdade de Medicina Veterinária onde eu era bibliotecário, ainda em meu tempo de estudante. Era um homem de aspecto comum. Eu o encontrava quando entrava e saía, dizia-lhe “Bom dia” ou “Até logo”, mas nunca prestei atenção nele. Eu trabalhava na biblioteca e ele no almoxarifado. Acho que ele também nunca prestou atenção em mim.
De repente, ouvi um corre-corre lá e alguém me disse: “No almoxarifado, o Fulano de tal está morrendo”. Eu fiquei impressionado e pensei logo na alma dele. Mas havia o perigo de ser um engano. Os funcionários administrativos estavam lá, mas os médicos já tinham ido embora. Estaria morrendo mesmo ou não?
Era um homem de meia altura, não muito gordo nem muito magro; lembro-me de que tinha muito cabelo castanho, uma expressão esquisita, o que devia ser sinal de má saúde. Ele era de raça branca, mas era muito amarelo, de um amarelo sem sangue, como a cor de cera de vela amarela.
Entrei no almoxarifado e encontrei o sujeito com o avental de trabalho, deitado no chão – ele tinha tido um ataque cardíaco – com os dois braços abertos em forma de cruz, mas se via que não tinha uma intenção religiosa, era algo casual; os olhos vidrados, não vendo mais nada, mas respirando.
Tomei depressa um táxi que estava passando pela rua e fui pegar um padre agostiniano da igreja da Aclimação.2 O sacerdote veio com boa vontade, pegou o pobre coitado ainda com vida e lhe deu a absolvição. Tudo isso ocorreu muito rápido, mas eu percebi que ele já tinha adiantado muito os passos rumo à eternidade naquele pequeno instante ou naqueles poucos minutos em que nós não nos vimos. Ele já estava com o olhar mais vidrado, com o amarelo mais amarelado, com o rosto mais inchado, mais alheio à Terra, e parecia estar a meio caminho entre o Céu e a Terra.
Aí eu tive a mesma impressão pungente que tive depois, quando vi outras pessoas morrerem, por exemplo, meu pai. Aquele que não morre de imediato fica muitas vezes no isolamento.

A pessoa tem um ataque ou um problema qualquer, perde o contato com a Terra e fica só, sem que possa mostrar ter conhecimento de que outros estão mexendo com ele, olhando para um ponto fixo, como que chupado pela morte que o vai arrancando da vida. E naturalmente, pensando, pensando, pensando… Pensando no quê? No juízo que vai vir. É uma coisa tremenda!
Últimos assaltos do demônio na hora da morte
Eu li em livros de leitura espiritual que esse isolamento é muito perigoso, porque nessa hora o indivíduo percebe que vem a morte e o demônio o tenta com a tentação que parece ser a mais frequente, porque quer ver, num último assalto, se leva o sujeito para o Inferno.
Há vários casos de pessoas que, quando passam por um desastre ou por uma situação inesperada, com iminência de morte, sofrem um trauma muito forte, a vida inteira se passa diante delas como uma fita rapidíssima, lembram-se de tudo. Com senso crítico, elas se lembram de todas as coisas que fizeram, e aí analisam tudo o que não tinham analisado: pecados que cometeram, mas não perceberam que eram pecados; atos de virtude que praticaram e não sabiam que eram atos de virtude; ações neutras – nem pecado nem virtude diretamente –, praticadas na despreocupação, sem pensar em Deus, como se fossem uns ateus.
Tudo isso forma um dilúvio de setenta, oitenta anos de existência, pelos quais o homem, de repente, tem obrigação de dar contas.
Talvez poderá vir a seguinte tentação: “Para você não existe mais solução! Tal ponto assim você não confessou para o padre, não por má vontade, mas porque se esqueceu. E agora, se o padre não vem lhe dar a absolvição, você está perdido, porque não foi perdoado”.
Na realidade, esses pecados estão incluídos nas confissões que a pessoa fez, mas o demônio mente. Na hora da morte, o sujeito está com a cabeça atarantada e a tendência é desesperar, ou, muitas vezes, blasfemar.
Como é perigoso e terrível o juízo! De quantos tesouros Deus vai nos pedir contas?
“Se eu soubesse, não teria pecado…”
Em nós existem muitos tesouros, mas há um – em função do juízo – que é especial. Por causa da torpeza do mundo de hoje, pelo fato de se ter entregue à Revolução no grau em que sabemos, esse tesouro quase todos os homens ou não usam ou destroem. E daí decorre uma série de males que não têm conta.
Muitas vezes, um homem que está para comparecer diante do juízo de Deus lembra-se de tal mau pensamento, tal mau olhar, tal coisa que ele fez de repente, irrefletidamente. Quantas ações más o homem comete sem reflexão? Às vezes, não chega a se dar conta de que são ações más, ou, se chega a perceber, não o faz por inteiro. Então, dir-se-ia: “Se ele não percebeu, coitado, que culpa ele tem de ter feito aquilo?”
A pessoa tem, então, vontade de dizer a Deus: “Senhor, eu não percebi. Eu não sabia”, para dar a entender o seguinte, como se Deus pudesse ser enganado: “Se eu soubesse, não o teria feito! Logo, não tenho culpa. Não me julgueis por causa disso”.
O homem perdeu o hábito de prestar atenção em si
Deus poderia dar a seguinte resposta, e aqui nós tocamos no ponto: “Ah, você não percebeu? Não sabia? Eu não lhe dei um entendimento, um senso capaz de notar o que se está passando no seu corpo? Você protegeu-o, consciente ou inconscientemente, contra a morte e a doença, cem mil vezes na vida.

“Ao se aproximar um mosquitinho de sua mão, você percebeu logo que estava se passando alguma coisa. Esse mosquito levava um veneno e você o espantou quase automaticamente, e ainda limpou a mão com um pouco de cuidado. Mais adiante, dirigindo um automóvel, você desviou-se depressa de um outro que vinha desvairado, e não foi morto. Em outra ocasião, havia uma comida estragada no restaurante, você desconfiou e mandou vir outro prato. Você é capaz de perceber isso ou aquilo que se passa em si. Por exemplo, você conta direitinho para o médico o que está sentindo. Às vezes inferniza o médico de tanto contar sintomas dos quais alguns vêm ao caso e outros não vêm ao caso contar. O doutor está impaciente e você ainda lhe diz que sentiu uma pontada no pavilhão da orelha durante a noite. A tudo o que se passou com o seu corpo, que atenção você prestou!
“Mas se você era capaz de prestar atenção e de conhecer aquilo que se passava no seu corpo, você não era capaz de conhecer o que se passava na sua alma? Então lhe foi dada a capacidade de observação, de conhecimento, portanto, para aquilo que era secundário, para proteger a vida terrena, e não lhe foi dada essa capacidade para proteger o capital, que é a vida eterna?
“Minha obra é perfeita e não comportaria essa desordem. Você teve essa capacidade, mas, por preguiça, por indolência, para não ver a realidade de frente, você não se habituou a prestar atenção no que se passava no seu interior. De repente, sente-se assaltado por uma tentação – a qual você pensa que pulou no seu pescoço na última hora –, mas, de fato, havia alguns dias que estava com aquela inclinação má corroendo-o por dentro, sem que tivesse tomado providências. Você não quis prestar atenção, porque, se prestasse, era obrigado a combater. E você achou mais gostoso ir brincando com a tentação, ir utilizando um pouco da apetência deleitável que ela dava, e achou melhor, por causa disso, não prestar atenção.
“Você perdeu o hábito de prestar atenção em si. Donde, do fundo de sua alma, o pecado original, lançando toda espécie de vermes a toda a hora, conduziu-lhe a toda espécie de perigos e você não se deu conta.
“Às vezes, você tropeçou nesses perigos e caiu repetidamente. Depois você se arrependeu, confessou-se. Mas, para emendar-se e não cair de novo, você deveria ter tomado o hábito de prestar atenção no que se passa no seu interior. Como você não o fez, o resultado é que a situação se repetiu duas, cinco, cinquenta vezes, e ainda assim você não tomou esse hábito”.
Desconfiar do sobrenatural e sucumbir em novos assaltos do demônio
Qual o resultado? A pessoa acaba perdendo a confiança em Deus e pensa: “Pedi a Nossa Senhora e Ela não me ajudou. O Memorare que Dr. Plinio insiste tanto para nós rezarmos e garante com a ênfase que lhe é própria que “nunca se ouviu dizer…” eu recorri quantas vezes a Nossa Senhora e, entretanto, não recebi ajuda! Eu não confio no Memorare, não confio na oração. Eu já estou de pé, pronto a blasfemar. Ou já estou entregue a mim mesmo, pronto a desistir da vida espiritual, pronto a não mais lutar. Não adiantou! Eu fiz o possível, o auxílio não veio, eu me deixei levar pela maciota”.
Quantas vezes isso se passa? De tantos e tantos rapazes que se aproximam de nós, quantos se afastam logo no primeiro mês, no segundo ou no terceiro? Por que saem? Em última análise, por causa disso.
Eles deveriam tomar o hábito de prestar atenção continuamente no que se passa dentro deles. Como não tomam esse hábito, são assaltados pelo demônio de qualquer jeito. É tentação de preguiça, de ira, de gula, de inveja, e daí para fora. Todos os vícios capitais assaltam e tomam conta do homem.

Eu lhes garanto que se agora, enquanto falo, eu não prestar atenção no que se está passando em mim, alguns trechos desta conferência ficariam menos bons do que estão, porque deixei de exigir de mim o necessário, e me deixei levar pela preguiça. Ou, de vez em quando, a conferência sairia dos trilhos e perderia sua ordem, pois eu começaria a falar daquilo que tenho vontade e não daquilo que devo dizer, de acordo com o esquema que devo seguir. Inclusive seria capaz de não fazer esquema, mas falar ao léu, porque é mais agradável ir falando como um doido que anda pela rua.
Portanto, devemos prestar atenção em nós nas menores coisas, dia e noite, e uma atenção crítica; discernir o que é bom e o que é ruim, observar de qual defeito meu procedeu tal inclinação, quais são as principais inclinações más que há em mim, pois fui concebido no pecado original, sou atormentado pelos demônios e cometi pecados atuais que deixaram em mim ainda mais tendências ruins. Todo mundo vive hoje num ambiente mau, porque o mundo hoje é péssimo. Então, o ambiente também me solicitou, e essas solicitações podem ter deixado marcas em minha alma.
Se eu não tenho noção disso e não me vigio a todo o momento – não digo a maior parte dos momentos, mas é a cada instante sem exceção – acabarei fazendo o que não posso fazer, quererei o que não devo querer, tenderei ao que não devo tender.
Ora, isso é o mais difícil, na aparência, para quem não tem esse hábito. E vou dizer mais: parece impossível. Mas eu pergunto: se não se fizer isso, como vencer os próprios defeitos?
Se todos nós prestássemos atenção em nossas almas como prestamos em nossos corpos, que almas primorosas nós teríamos! Ora, se prestássemos ao nosso corpo a atenção que prestamos às nossas almas, que corpos esmolambados teríamos!
O homem não presta atenção no seu destino eterno
Alguém me dirá: “Dr. Plinio, um homem pensa num só assunto. Ele não deve pensar em mais de um assunto de uma vez, porque ele pensa mal pensado. Então, se o senhor está falando aqui a respeito do juízo, o senhor não pode, ao mesmo tempo, estar prestando atenção em si, porque a atenção se divide e fará mal uma coisa e outra. Em certas horas, o senhor precisa se esquecer de si mesmo e de sua vida interior, para prestar atenção unicamente no que está fazendo, é até um dever. Do contrário, fará mal a sua conferência, a qual tem obrigação de fazer bem, ao menos tanto quanto possa!”
Qual seria minha resposta? “Sofista, cale-se! Você está dizendo isso apenas para criar-me um embaraço, porque é um pouco difícil demonstrar o contrário. Mas eu vou provar que você está continuamente pensando em mais de um assunto.
“Basta fazer uma pequena referência capaz de lisonjear ou de contrariar o seu amor-próprio, que seu sismógrafo imediatamente registra aquilo com uma vibratilidade extraordinária. Você está sempre com a atenção posta no que lhe é humilhante ou no que lhe é elogioso. De tal maneira que você pode estar tratando do que quiser, se alguém tocar um pontinho no seu amor-próprio, você sente de imediato. Você está ou não está prestando atenção em dois assuntos? Responda!

“E não é só consigo, mas numa série de pontos. Por exemplo, se o elogio ou a crítica diz respeito aos senhores seus pais, aos seus irmãos; ou se fizer um elogio a uma pessoa com quem você tenha rivalidade, seu amor-próprio percebe e a inveja ferve. Não pode negá-lo, porque eu sou homem como você e sei como é a criatura humana.
“Você tem um verdadeiro caleidoscópio de coisas nas quais continuamente presta uma atenção viva, de lança em riste, pronta a entrar em ação caso se toque na questão. Você presta atenção em vinte assuntos, cinquenta, ao mesmo tempo. O que você não faz é prestar atenção no destino eterno de sua alma, nem nos direitos de Deus; também não gosta de se lembrar que Deus existe, e que um dia você será julgado. Não é tema que agrade as pessoas”.
Horror de lembrar as verdades incontestáveis
Quantas vezes acontece isso numa roda social? Hoje em dia é a época das doenças, todo mundo vive no médico, acometido por uma mazela qualquer; é uma intoxicação, uma alergia… as pessoas usam caixinhas de remédio com três, quatro, cinco pastilhas. Umas são cor-de-rosa, outras verde-claras, outras azulzinhas, para dar a entender que tomar remédio é quase como comer um bombom… São as cores da mentira. O mundo vive mentindo.
Imaginem que numa roda está se conversando sobre doenças, médicos bons e maus e, em certo momento, quando a conversa morre um pouco, uma pessoa se levanta e diz:
— Minhas senhoras, meus senhores! Todos estão conversando sobre um tema tão interessante, tão importante: a saúde de seu próprio corpo. Estão todos se ajudando. Pelo que contam, cada um vai tomando um pouco mais de experiência sobre esses assuntos, vão sabendo quem são os médicos de boa ou de má fama, quais são os remédios bons, quais os maus. Numa hora de doença, todas essas informações podem ser interessantes.
Todos concordam.
— Está bem, tudo isso os senhores fazem para evitar a morte, mas, às vezes, o homem não consegue evitá-la. Todos havemos de morrer.
Pronunciada a palavra “morte”, uma névoa entra na sala. O homem de hoje gosta de qualquer tema menos deste, e se ele fala da doença é para fugir da morte. O homem é um inimigo da morte. De repente as fisionomias mudam. Na mesma roda, um começa a conversar com a outra, outro boceja, outro abre um jornal dando a entender o seguinte: “Cale-se! Por que você veio nos lembrar essas verdades, entretanto, incontestáveis?”
O indivíduo vai mais longe e diz:
— Enquanto falo sobre isso, vocês já perceberam o que está se passando no seu interior?
Por mais liberal que seja o ambiente que se está visitando, onde se tolerem as maiores imoralidades, os maiores desatinos, diante do qual se podem dizer as coisas mais banais, mais fúteis – porque a educação manda tolerar o que dizem os visitantes – se falarem deste ponto: “Vivam prestando atenção no seu interior para saber o que é pecado ou não, e assim vocês terão o Céu”, a visita acaba e em cinco minutos a pessoa tem de sair da casa. Nenhum de nós tem a menor dúvida a esse respeito.
São pessoas que não querem prestar atenção no seu interior e que vivem com outros que agem da mesma forma. Não querem saber, porque uma das coisas que a Revolução mais calcou no homem foi o horror de prestar atenção em si mesmo.
Do morto, ninguém mais quer se lembrar
Vejam como é o mundo. Quando morre alguém, os parentes e conhecidos vão fazer a visita de pêsames no dia seguinte depois da morte, pois no próprio dia do falecimento do indivíduo a família está acachapada de dor. É uma convenção. Entrando lá, procurem conversar a respeito do morto. Ninguém quer. Morreu, não falam mais dele, foi-se embora. Vão dividir as coisas do defunto certamente, não tem a menor dúvida, mas só se fala dele para fazer a divisão. Às vezes, por cerimônia, põem na sala de visitas uma fotografia dele; se a família tem dinheiro, colocam-na numa bonita moldura, mas se a família é pobre, põem uma moldurinha de matéria plástica. Depois não se fala mais, porque o indivíduo transpôs o limiar da morte.

Há três ou quatro dias essa pessoa era a vida e a animação da família. Morreu, os parentes têm terror de falar a respeito dela. Desapareceu, foi-se embora, a eternidade está longe, então todo mudo procura recompor a vida sem aquele que morreu; nem se lembram dele.
Quando prestam atenção em si mesmos, porque se sentem tristes, fazem uma espécie de exame de consciência: “Por que estou triste? Ah, estou me lembrando de fulano de tal que morreu. Não vou mais pensar!” E mudam de assunto: “Agora estou me lembrando de tal doença que talvez eu tenha. Enquanto não chega o resultado do exame, vai fazer mal para a saúde eu pensar nele”.
Aí sim eles se controlam, fazem exame interior e sabem o que se passa dentro deles. Fora disso, não.
Ou seja, para tornar a vida agradável, eles fazem exame. Para servir a Deus, para evitar que a alma se lance nas mãos do demônio, não o fazem. Quantos por cento de possibilidade de salvação tem uma pessoa que procede assim?
Diferença entre dois tipos humanos
Entretanto, quando uma pessoa tem o hábito de prestar atenção em si, ela fica com uma fisionomia especial, adquire uma outra dimensão psicológica, interna. O olhar fica consecutivo, ordenado, não borboleteia de um lugar para o outro, seus gestos em geral são ordenados, suas atitudes têm propósito, tudo se segue de acordo com certa lógica, certa reflexão, com certa calma.
Se pusessem cinco, quinze ou vinte pessoas, obrigadas a ficar quietas sem poder falar, sem poder ler, numa sala razoavelmente confortável, durante dez horas, por exemplo, como não estão habituadas a prestar atenção em si, começariam todas a prestar atenção umas nas outras. Ao cabo da primeira hora, já se teriam conhecido e não mais prestariam atenção recíproca. Aí apareceriam as recordações e as fantasias.
Ao cabo da segunda e terceira hora, as recordações e as fantasias desapareceriam. As pessoas estariam agitadas, infernizadas. Consultariam o relógio, fariam sinal para outro para perguntar se o relógio está certo; por quê? Porque estão sós, e sós podem prestar atenção em si. Não querem, porque o seu interior lhes contará coisas desagradáveis.
Soltem essas pessoas na rua. Elas olham para todos os lados, conversam inconsideradamente, andam de um modo descompassado, têm toda a espécie de gestos, de atitudes, de fisionomias que indicam a frivolidade, a irreflexão, a mudança contínua de estados de espírito interiores.
Se alguém filmasse essas fisionomias através de um pequeno buraco feito no teto, numa posição estratégica, ou olhasse essas caras, poderia facilmente dizer qual deles tem o hábito de prestar atenção em si e de governar-se a si próprio e quem não tem esse hábito.
Quem está habituado a se governar, senta-se calmamente numa poltrona, reza, põe em dia as suas orações. Terminadas as orações, fica numa certa tranquilidade e bem-estar, tem vida interior, vive dentro de si mesmo.
Quando a pessoa não é assim, esvoaça para todos os lados, agita-se, bate o pé; se tem um cigarro ao alcance, fuma um pouquinho e o apaga logo, porque fica enjoado; depois pega outro cigarro, e assim enche os cinzeiros. É a imagem da desordem dentro da casa: quem tem desordem dentro, tem fora.
Prestar atenção em si, mas sem vaidade
Devo confessar que não é a maioria – exprimamo-nos assim – que tem o hábito de prestar atenção em si mesmo. E eu estava ardendo de desejo de um dia poder tratar disso. Hoje se apresentou essa oportunidade de um modo muito natural, e eu aproveitei a ocasião.

Mas do que adiantará dizer isso se as pessoas não têm o hábito de prestar atenção em si mesmas? É um círculo vicioso: elas vão esquecer. Saindo daqui vão dizer que a conferência foi fenomenal e depois vão pensar em outra coisa. Porque como isso não é agradável, não volta à memória. O homem que, na aparência, não presta atenção em si mesmo, presta bastante atenção para afastar da atenção o que lhe possa incomodar.
Então nós deveríamos sair daqui com uma resolução prática. Todavia, não será a seguinte: “Passar o dia inteiro prestando atenção em si”.
Vamos falar com franqueza: todos nós fomos concebidos no pecado original, e do nosso interior sai tudo quanto é ruim. Acontece que muitas vezes o homem se habitua a prestar atenção em si próprio com vaidade. Ele olha para as qualidades que tem e encontra até as que não tem, formando um panorama completamente equivocado das coisas e de si próprio, e fica com o que nós chamamos de “espiritualite”, ou seja, uma visão vaidosa de si e um gosto doentio de se coçar a si próprio, e imaginar dentro de si problemas espirituais que não existem, para poder fazer uma consulta e chamar a atenção do diretor espiritual durante algum tempo.
A complexidade é tal, que nós devemos prestar atenção sobre o modo de prestar atenção.
Uma forma excelente de curar o defeito
Como podemos vencer isso e tomar uma atitude séria e forte perante a vida, se não somos sérios nem fortes perante nós mesmos?
Eu proponho um primeiro passo muito simples: começar a rezar a Nossa Senhora para Ela nos dar o desejo de prestar atenção em nós retamente, não para nos admirarmos, mas para encontrarmos os nossos defeitos.

Um homem nunca deve prestar atenção nas suas qualidades. O ideal é ignorá-las e conhecer os seus defeitos. As qualidades ele as encontrará no Céu, maravilhosamente contabilizadas, com os melhores juros que jamais ninguém pagou: juros mariais!
Portanto, pratiquem uma ação boa, interior ou exterior, e não pensem mais. Ela entrará nas balanças do Céu ainda mais carregada de ouro. Como nós fizemos a Consagração a Nossa Senhora segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, tornando-nos escravos de Maria Santíssima, Ela toma essas nossas pobres ações e as oferece a Nosso Senhor:
— Meu Filho, aqui estão!
E Ele responderá:
— Minha Mãe, que pobre frutinha sem sabor é esta, mas veio de vossas mãos, Vós sorristes para este fruto e ele para mim ficou saboroso.
Então, peçam todos os dias, a qualquer momento, mas também em ocasiões fixas, determinadas do dia. Por exemplo, por ocasião da Comunhão, ou ao rezar um dos terços do Rosário, destiná-lo a isso; na hora de dormir e de acordar. Já são quatro ocasiões.
Tomem um dos mistérios que estão rezando, os gozosos, os dolorosos ou os gloriosos, e peçam simplesmente isto, digam a Nossa Senhora: “Minha Mãe, durante todas as contas deste terço que vou rezar, ainda que eu me esqueça dessa intenção, eu quero Vos pedir: primeiro, chegar ao píncaro da devoção a Vós”. Porque esse sempre deve ser o primeiro pedido; tendo isso, se tem todo o resto, pois traz consigo a devoção a Nosso Senhor. “Segundo, que Vós me deis a força, uma disposição tal, que eu esteja sempre prestando atenção em mim e me guiando adequadamente”.


Peçam, peçam! Porque aquilo que pode lhes parecer impossível se tornará possível. As próprias palavras que eu estou dizendo aqui podem servir de oração. É uma oração a mais simples possível.
Também é muito bom, é inapreciável, quando assistimos à Missa, na hora da Consagração, em que Nosso Senhor Jesus Cristo renova de um modo incruento o Sacrifício do Calvário, os senhores pedirem, por meio de Nossa Senhora, que Ele ofereça o seu Sacrifício por essa intenção.
É tão simples, por que não o fazer metodicamente? Se levarem daqui essa resolução, eu poderei dizer que esta terá sido uma noite bendita!
Ter a própria alma nas mãos
Uma vez eu estava rezando na Igreja de Nossa Senhora da Luz e meus olhos caíram naturalmente sobre a lápide funerária, na capela-mor, onde está enterrado o famoso Frei Galvão, um frade franciscano fundador daquele convento de freiras concepcionistas, que é um ramo das franciscanas.
No epitáfio está escrito: “Aqui jaz Frei Antônio de Santana Galvão”, e depois vem o elogio: “Qui animam suam in manibus suis semper tenens, placide obdormivit in Domino”, “que tendo sempre nas suas mãos a sua própria alma, adormeceu placidamente no Senhor”.
Eu fiquei empolgado com a sobriedade e a riqueza desse elogio. Era um homem que tinha nas próprias mãos a sua alma, porque prestava atenção nela constantemente e tinha bastante virtude para fazer dela o que queria. Que elogio, que magnificência!
Querer-lhes muito bem é desejar-lhes este grande bem.
(Extraído de conferência de 29/9/1984)
1) Do latim: nos últimos instantes da existência ou de uma situação perigosa ou comprometida.
2) Igreja Santo Agostinho, localizada no Bairro Aclimação, na Zona Central da capital paulista.




