Desde a mais tenra infância, Dr. Plinio recebeu de sua mãe um afeto muito ordenado, fruto da prática da Religião. Desse modo, por analogia, ele teve os primeiros lampejos de vida interior que o levariam a compreender a maternalidade da própria Igreja para com os fiéis.
A mais antiga recordação que tenho de mamãe é de quando eu era muito menino.
No naufrágio da noite, socorrido por mamãe
Eu devia ter uns três anos, talvez menos, e naquele tempo eu era sujeito a insônias. Então ela punha minha cama junto à dela para eu poder acordá-la durante a noite, caso me despertasse. Não é qualquer mãe que faz isso! Morávamos numa dessas casas antigas, altas, com duas portas no quarto, uma das quais dava para um corredor que ficava com a luz acesa a noite inteira; por cima da porta tinha um vidro – chamava-se “bandeira da porta”, comum nas casas antigas – por onde entrava uma luz fraca, discreta.
Eu acordava e me deparava com ela dormindo. Mamãe tinha um sono profundo, muito bom e regular; tinha uma respiração forte, boa, dormia profundamente, e eu ficava com medo de acordá-la; de outro lado, eu me sentia no naufrágio de uma criança nessa idade, que acorda e quer tomar contato com alguém, e, naquela solidão escura, se sente afundar. Eu me sentia perdido naquele naufrágio…
Naturalmente, eu não aguentava muito tempo; começava a pegá-la pelo braço e, como podia, tentava acordá-la. Mas, em geral, eu não conseguia… Então eu passava da minha cama para a dela e começava: “Mãezinha, mãezinha!” E ela não acordava. Afinal, o seu sono, às vezes, era tão profundo, que eu me sentava em cima de seu peito e abria-lhe os olhos com minhas mãos.
Pelo jeito de ela acordar, de abrir os olhos, de fazer a luta para se despertar, eu percebia que ela vinha do fundo de um sono intenso; mas, ela percebia o que estava acontecendo. Imediatamente se sentava para cortar o sono de uma vez, me carregava debaixo dos braços, me punha junto a ela e dizia: “Filhinho, filhão! Como vai você? O que que há?” Eu dizia que não estava conseguindo dormir, e ela me contava alguma história, fazia as brincadeiras que se fazem com crianças dessa idade, até ela perceber que meu sono estava voltando. Só então ela me dizia: “Agora, chegou a hora de você se deitar”. E ajudava-me a passar para minha cama, deitava-me direito e me cobria. Ela dormia e eu também, tranquilo.
Abismo de afeto envolvente
Em meio à sensação de naufrágio em que eu estava, tinha a impressão de uma salvação que se voltava para mim e de um afeto que nunca me faltaria, qualquer que fosse a ocasião, as circunstâncias, o caso; e, por causa disso, ela me olhava e me envolvia com o olhar e com o afeto dela, profundamente.
Eu olhava meu pai dormindo. Ele tinha um sono mais leve que o dela; percebia que ela falava comigo e resmungava qualquer coisa muito plácida – ele era homem de um gênio ideal – como um homem que está atrapalhado nos seus hábitos, e virava-se de lado. Eu pensava: “Aquele se vira de lado, esta se vira para o meu lado! Com esta eu poderei contar até o fim da vida, porque é um abismo de afeto reto, de afeto completamente envolvente, que me quer bem a mim inteiro e não me deixará sem proteção em nenhum caso; mãe é isto!”
O resultado foi eu ter tido um afeto por ela, uma confiança, que quando ela cerrou os olhos aos 92 anos, estava como quando eu tinha dois.
O que tinha isso de vida interior? É que eu compreendi, na aula de catecismo, que as mães deviam ser assim porque a Igreja Católica o ensinava. E, comparando-a com outras mães menos católicas que ela, ou não católicas, via ser esse afeto graduado de acordo com a fé e com a prática da Religião, e era nela muito mais do que em outras, por ser ela muito mais religiosa. E compreendi que a Igreja é a nascente de todas as coisas boas.
Quando fiquei um pouco mais velho, entendi ser aquilo um reflexo em mim de sua devoção ao Coração de Jesus, e que Ele é infinitamente mais perfeito nesse ponto do que ela. Posteriormente, quando Nossa Senhora me socorreu numa emergência, entendi bem: “Essa é a Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança… Ah! Olha lá, preste atenção! Recorrer a Jesus está muito bem, mas maltrapilho como você é, ou você se aproxima por meio d’Ela, ou não é recebido, e merece isso. De maneira que se agarre a Maria senão você está perdido, vai para o Inferno”.
E vendo que a Igreja se chamava a si mesma “Mãe” e como tratava os fiéis, eu pensava: “Está vendo? Tudo isso tem analogia com mamãe”. Era um comecinho de vida interior que se iniciava aos dois anos e que continuou depois.

Afetuoso duelo entre mãe e filho
Mamãe tinha um espírito muito admirativo, amigo do maravilhoso. Por causa disso, não considerava apenas as linhas gerais das coisas, mas também os pormenores. Muitas vezes saíamos a pé – eu ainda não tinha sofrido o desastre de automóvel1 e me locomovia normalmente. No último período, ela já estava bem velha e saía apoiada no meu braço. E o costume aqui no Brasil – acho que é universal – é que a senhora vá do lado de dentro da calçada e os homens do lado da rua, por onde passam os automóveis. Então, eu dava o meu lado esquerdo para ela e saíamos.
Lembro-me de muito poucas vezes irmos à Praça Buenos Aires. Em geral, porque o trânsito começou a se tornar mais intenso e eu ficava com medo de fazê-la atravessar aquilo, porque, de repente, vinha um automóvel com uma brutalidade qualquer. Então saíamos pelo quarteirão, chegávamos até quase a esquina e depois voltávamos. Naquele tempo não havia os prédios de apartamentos de hoje; eram boas residências particulares, bons solares, grandes, com jardins.
Ela se locomovia com cuidado, devagar, porque tinha dificuldade de andar, mas prestava muita atenção nas coisas menores; sobretudo ela gostava muito de plantas. Então, deitava muita atenção nas plantas dos jardins, parava e dizia: “Olha tal coisa e tal outra!” E como ela era inteiramente conhecida na região, quando gostava de alguma florzinha, uma coisa pequena, ela colhia. Naturalmente, todo mundo aceitava perfeitamente bem. E ela comentava a flor comigo, ali na rua mesmo: “Veja a flor, tem isso, aquilo. Como é engraçadinha!”
No fim – talvez porque o coração já estivesse debilitado – ela se cansava, e eu via que ela gostaria de parar um pouquinho para tomar respiração e voltar. Mas ela não dizia, eu propunha a ela de pararmos, ou às vezes me detinha com pretexto de mostrar-lhe uma coisa e outra, e parávamos os dois. Mas eu tinha a intenção de deixá-la respirar para voltar à vontade. E comentávamos algumas coisas. Pessoas ela não comentava, porque tinha medo de ser ouvida e com isso desfavorecer alguém.
Ela gostava muito de ver passar as crianças e de fazer-lhes um agrado. E como é natural, as mães ou as governantas ficavam contentes em vê-la agradar, parar etc. Mas ela fazia tudo isso muito rapidamente – dentro das rapidezes lentíssimas dela –, porque ela sabia que eu tinha o tempo muito contado e que, portanto, não podia dispensar muito tempo a ela. Eu é que forçava a me dar mais tempo, porque ela tinha medo de tomar o meu. E era assim um afetuoso duelo: eu querendo dar tempo a ela; ela não querendo tomar o meu.
O grande problema dela era quando chegava à escadinha que dá para o elevador de nossa residência. Porque ali não tem corrimão e ela subia com dificuldade. Então, subíamos bem devagarzinho. São uns quatro ou cinco degraus. Parávamos, ela parava um pouquinho. Afinal, eu a deixava em cima, em geral no meu escritório. Aí ela começava as orações e eu ia para a luta!
Durante anos, uma surpresa para o filhão
Daqueles objetos que ela deixou – eu tomo a palavra relíquia no sentido etimológico da palavra: reliquiæ, restos – quando eu toco aquelas relíquias, me comovo muito especialmente, porque me lembro bem de uma cena.
Ela e meu pai eram muito mais velhos do que eu. Ela tinha trinta anos quando se casou e meu pai tinha mais. De maneira que entre a geração deles e a minha havia uma grande diferença, e eles tinham uma concepção das coisas que já não eram as minhas em alguns assuntos.
A cada aniversário meu ou fim de ano, Natal, Ano Bom, meu pai saía para comprar uma gravata para mim, como se fazia naqueles tempos antigos, e combinava com minha mãe antes como seria a gravata, quais as roupas que eu tinha, com o que ficava bem, com o que ficava mal etc. Ele comprava a que achava bonita, segundo os padrões da época dele, depois confabulavam entre si se estava boa ou não; às vezes voltava à loja para trocar, era todo um caso. Eles não faziam isso diante de mim, porque era reputado ser uma surpresa, mas eu percebia e já sabia: uma surpresa durante cinquenta anos já não era mais surpresa.
Numa ocasião, eles compraram uma gravata, eu vi; tinha acabado de almoçar, saí de casa. Mamãe foi para meu escritório, sentou-se à minha mesa e começou a escrever aquelas palavras de dedicatória para mim. Ora, eu precisei voltar à casa por algum motivo, passei pelo escritório e a vi escrevendo. E, pela caixa, percebi ser a dedicatória da gravata. Ela já estava com a vista muito ruim, sofria de catarata já muito adiantada, e, muito idosa, tinha a mão trêmula. Ela estava fazendo um esforço hercúleo para redigir, com uma letra bonita, um oferecimento curto, mas que tivesse expressão, tivesse alma. E eu vi que ela estava à mesa muito ereta, mesmo depois de velha.
Não me lembro se era aniversário ou Natal, mas, quando eles me deram a gravata, agradeci muito; no entanto, dei muito mais valor à caixa, não tem nem comparação. E guardei-a, porque via que um dia Deus chamaria mamãe, e aquela recordação ficaria em meu espírito, aquele afeto carinhoso dela, esforçado e empenhado em fazer a coisa mais perfeita para eu gostar inteiramente. Isso me ficou na alma até hoje.
Mesmo neste momento em que lhes conto, ainda me comovo lembrando disso.
(Extraído de conferências de 30/7/1983 e 17/2/1990)
1) Ocorrido em 3 de fevereiro de 1975.








