Numa civilização onde todos fossem católicos, tudo deveria ser admirável, bem arranjado, fino e simpático, mesmo quando muito popular, porque o católico perfeito deve procurar levar todas as suas qualidades ao mais alto grau. Atingindo essa perfeição, ele terá os gestos, a amabilidade, a cortesia e o modo de agir, perfeitos também.
Deus não é propriamente perfeito, Ele é a perfeição; são coisas diferentes. Um homem que é perfeito, se deixa de sê-lo, continua a ser homem e pode viver assim. O mundo está cheio de imperfeitos por aí, enchendo as cidades, os montes, os vales e tudo o mais. Deus, entretanto, não pode deixar de ser perfeito. A onipotência d’Ele consiste em ser perfeito, e nessa impossibilidade suprema e divina de ser imperfeito, Deus é a perfeição.
O desejo de perfeição na vida espiritual
Como todo católico deve tender a Deus, ele deve aspirar à perfeição em todas as coisas. Antes de tudo, na vida espiritual deve ter um amor o mais perfeito possível em relação a Deus e, por isso, como é um ideal altíssimo e que não está ao alcance dos homens, é preciso pedir por meio de Nossa Senhora, Filha do Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado, Esposa do Divino Espírito Santo, que foi concebida sem pecado original e colocada numa altura incalculável, e é amada pela Santíssima Trindade com um amor que não temos possibilidade de calcular.

Devemos pedir a Maria Santíssima que é, entretanto, uma mera criatura humana como nós, que tenha pena de nós e nos dê, antes de tudo, o desejo da perfeição da vida espiritual, ou seja, a santidade.
O santo é aquele que obteve a perfeição na vida espiritual, e todos nós devemos querer e esperar ser santos, e tender para a santidade. Essa é a nossa meta, a nossa razão de ser. E esse desejo que devemos ter da santidade tem um reflexo na nossa atitude na Terra ao querermos que todas as coisas sejam perfeitas.
A perfeição da Santa Casa de Loreto
Por exemplo, a mais simples das casas que se pode imaginar é a casa que a Sagrada Família teve na Terra Santa e que os Anjos, séculos depois, transportaram pelos céus para Loreto, na Itália, onde é venerada. Tal milagre fez com que Nossa Senhora de Loreto fosse proclamada por Bento XV como padroeira da aeronáutica.1
Na Santa Casa de Loreto, vamos imaginar uma mesinha no centro de uma sala, junto à qual há três banquinhos – naquele tempo não usavam propriamente cadeiras como nós – onde a Sagrada Família tomava as refeições.
No meio da mesa há um vasinho de vidro muito simples onde se pode colocar com muita arte uma flor, caso tenha nascido no jardinzinho. Depois, eles não tinham armário como nós temos hoje, mas era uma caixa deitada no chão – às vezes eram duas ou três – para guardar algumas roupas e objetos que uma família precisava.
Tudo era simplicíssimo, mas não podemos imaginar que na Santa Casa de Nossa Senhora o vasinho estivesse colocado no lado errado da mesa; tinha que estar no centro e calculado com um olhar tão perfeito que todos os instrumentos de precisão não seriam capazes de medir tão bem o centro da mesa como esse olhar. Os banquinhos, todos feitos por São José, são pedaços de madeira juntados com tanta distinção, com tanta arte, com tanto gosto, que seriam verdadeiras obras primas, embora simplicíssimos!

Nós não poderíamos imaginar, jogado pelo meio da sala, um sapato, ainda que fosse um celestial sapato do Menino Jesus. Não é verdade que na Sagrada Casa de Loreto deveria reinar a mais perfeita ordem? Por quê? Por causa da tendência dos três para a perfeição: Nosso Senhor Jesus Cristo sendo a perfeição em essência, Nossa Senhora já possuindo a perfeição, mas num grau que ainda não foi o que Ela teve na morte; e provavelmente se deu o mesmo com São José. Os três eram perfeitos e na casa deles tudo só poderia ser perfeito.
Para o homem perfeito, cabe a perfeição em tudo
Numa civilização onde todos fossem católicos e, sobretudo, onde todos fossem santos, ou tendessem à santidade, execrando o vício, tudo deveria ser admirável, bem arranjado, fino e até simpático, embora muito popular. Ninguém tem obrigação de ser rico, mas todos têm obrigação de ser perfeitos.
Isso deve levar a que um homem que queira a perfeição, deseje ser perfeito em todos os lances da sua alma. E se ele atingir essa perfeição terá os gestos, a amabilidade, a cortesia, o modo de agir, perfeitos também.
Se pensássemos na Sagrada Família comendo, não poderíamos imaginar São José apoiado na mesa de um modo vulgar. Eu nem ouso imaginar Nossa Senhora de um modo que não seja celestial; e quanto ao Menino, é superior a todo elogio, a toda concepção, evidentemente.

Então, o homem perfeito deve querer ser uma pessoa esplêndida. Tanto quanto a sua natureza o permita, deve levar todas as suas qualidades, inclusive as humanas, ao mais alto grau. Quem consegue fazer isso, esse é um nobre.
A virtude favorece a aquisição da distinção e das boas maneiras
Ora, é duro levar até o mais alto grau as qualidades humanas. Em geral é mais fácil fazê-lo quando o homem tem uma tradição familiar que o modela, e por isso a nobreza é hereditária.
Luís XVI, o Rei da França que foi decapitado, por exemplo, tinha uma irmã que agora é bem-aventurada e pode ser venerada nos altares; isso ninguém conta, não gostam de contar. Ela é Clotilde,2 casada com um pequeno soberano de Saboia, região que limita a França com o norte da Itália. Ela levava numa alma perfeita toda a distinção, a nobreza e a elegância de Versailles. Era uma nobre santa.
O ter boas maneiras e distinção facilita a aquisição da virtude; mas, sobretudo, o ter virtude facilita ter boas maneiras e distinção.
(Extraído de conferência de 17/2/1992)
1) A 24 de março de 1920.
2) Maria Adelaide Clotilde Xaviera de França (*1759 – †1802), Rainha Consorte da Sardenha. O Papa Pio VII a declarou venerável em 10 de abril de 1808.



