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A Salve-Rainha: um tratado de teologia marial

Oração de sentido profundo, precioso e admirável, a Salve-Rainha constitui uma base firme para nossa piedade, mesmo quando a aridez e as dificuldades da vida toldam nossos horizontes. Nela Nossa Senhora nos é apresentada como a Mãe por excelência, a exemplificação da misericórdia, nossa vida verdadeira, a doçura de nossa existência, a única razão de nossa esperança, a aliança entre o Céu e a Terra.

Nossa Senhora tem uma peculiar forma de reinar, que é a extrema misericórdia. E para compreender bem o significado da invocação “Mãe de Misericórdia”, é preciso considerar duas coisas: primeiro, o conteúdo dessa expressão; segundo, o valor desse conteúdo na realidade dos fatos.

Mãe por excelência

A palavra mãe já traz consigo a ideia de misericórdia, porque uma mãe se diferencia de um pai pelo mesmo título mediante o qual Nossa Senhora se diferencia de Deus. Enquanto o pai representa a bondade com uma forte nota de justiça, a mãe representa a acentuação muito maior da misericórdia e a justiça reduzida a um limite mínimo. A mãe é a benignidade, a indulgência, a distensão, o perdão, tudo isso levado até pontos inimagináveis; ela dá equilíbrio ao lar. Um lar só com pai, órfão de mãe, é muito mais vazio do que um lar só com mãe, sem pai, exatamente por causa da presença desses fatores que têm uma influência tão imensa na educação da prole, na formação dos sentimentos etc.

Arquivo Revista
São Bernardo (coleção particular)

Chamando Nossa Senhora de “Mãe” na Salve Regina, tem-se a impressão de que São Bernardo considerou o vocábulo insuficiente e, para frisar a presença da nota de misericórdia, quis requintar e A chamou “Mãe de Misericórdia”. Mãe que é toda misericórdia; Mãe que não é feita senão de misericórdia; Mãe que é a exemplificação, quase a personificação da misericórdia. Todas as outras misericórdias de todas as outras mães não são senão graus pequenos da maternidade d’Aquela que é Mãe por excelência e a misericordiosa por excelência. Misericórdia como a de Nossa Senhora não se encontra em nenhuma mera criatura. Ela é o último limite, o mais extremado e categórico que se possa conceber da virtude da misericórdia.

Por que essa misericórdia? É ela necessária? Que papel ela desenvolve na ordem concreta dos fatos e na situação do universo? Para se compreender isso bem é preciso ter em mente a condição do homem.

A dispensadora da graça

Em consequência do pecado original, o homem ficou com um fundo de maldade, pelo qual, sem a graça de Deus, ele viveria habitualmente em estado de pecado mortal e iria para o Inferno. A misericórdia divina leva a imensa maioria dos homens a procurar reerguer-se da posição em que está, e sem isso não se sabe qual o número de pessoas que se perderiam. Na face da terra todos os homens vivos estão continuamente recebendo graças: os que estão em pecado, para se converterem; os que estão se convertendo, para se santificarem; os santos para subirem a graus ainda mais excelentes de santidade. E, assim como estamos envoltos pelo ar, estamos banhados nessa graça de Deus que nos convida a todo instante e de todos os modos, a progredir no bom caminho.

Essa graça não é sensível, exceto em algumas circunstâncias; é pela fé que sabemos de sua existência. Pela nossa aceitação, ela nos transforma de entes abjetos, cheios de defeitos, repugnantes e indignos da presença de Deus, em entes bons, sobre os quais pode pousar a graça de Deus, e obtêm-nos, assim, o agrado d’Ele e a salvação eterna.

Toda forma de bem que se faz no mundo se deve à graça e, se ela cessasse, isso desapareceria. Ora, essa graça não nos é devida nem temos direito a ela, mas nos é dada por misericórdia, porque Deus a quer dar. É um dom gratuito – o dom dos dons! – que nós recebemos e continuamente o desmerecemos. Isso não é literatura, é a realidade. Segundo os teólogos, só houve uma criatura que em todos os instantes de sua vida deu uma correspondência completa e a mais perfeita à graça de Deus: Nossa Senhora. Nenhuma outra, mesmo entre os Santos que estão no Céu, correspondeu contínua e perfeitamente. Isso significa que, correspondendo em grau maior ou menor à graça, com uma gratidão maior ou menor – ou, às vezes, com ingratidão –, não há quem corresponda sempre como a lógica o exige.

Assim, os homens continuamente estão convidando a Providência a retrair suas graças. Ora, por que razão Ela continua a nos favorecer? É porque Nossa Senhora reza por nós. Ela, que obteve graça diante de Deus e foi o vaso de eleição perfeito, sem nenhum defeito, sem o menor desprimor, de uma qualidade excelsa, em que o agrado de Deus incidiu em cheio, Ela pode tudo quanto quer. Costuma-se dizer a respeito da oração dos Anjos e Santos: aquilo que todos eles pedem, sem a intercessão de Nossa Senhora não o obtêm; e aquilo que Ela pede sem eles, obtém, de tal maneira sua oração é decisiva.

Luis C.R. Abreu
Paixão de Cristo – Museu de Arte Sacra, Roma

Nesse sentido, compreende-se melhor a saudação angélica: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre todas as mulheres”. Nossa Senhora está cheia de graça. Com ela, a medida se encheu, a perfeição chegou ao seu auge, nada há que censurar. Por isso, entre todas as mulheres que houve, há e haverá, a bendita é Ela, apesar de existirem tantas Santas. Deus está com Ela inteiramente, pois Ela é o tabernáculo da Santíssima Trindade.

Através da misericórdia, Ela nos obtém cada vez mais graças

Nunca deixemos de recorrer a Nossa Senhora, contínua e incansavelmente, mesmo nas piores circunstâncias de nossa vida, porque é a Mãe de Misericórdia, que resolve e arranja tudo, perdoa todos os pecados e salva um número incontável de almas. Para nos salvar, Ela exige apenas que aceitemos sua graça, acreditemos e encaremos com seriedade o que a Igreja Católica ensina sobre sua misericórdia.

Note-se, entretanto, que não é nem de longe o perdão relaxado e imoral de um pai liberal, o qual perdoa e quer bem seu filho que não vale nada e se mantém obstinadamente em todos os seus erros. O perdão de Nossa Senhora não consiste em aprovar os nossos defeitos; Ela os abomina. Oxalá tivéssemos em relação a eles uma centelha do braseiro da abominação que Ela tem! Sua misericórdia consiste em obter para nós sempre mais graças e, com nosso esforço, pelas vias que a Providência traça na variedade da vida espiritual de cada um, Ela nos levar para o Céu. É a grande realidade da misericórdia de Nossa Senhora!

Estou eliminando aqui a misericórdia de Nossa Senhora no campo temporal? De modo algum. Sabemos que torrentes de graças temporais Nossa Senhora espalha sobre os homens. Mas, embora Ela tenha intenção de favorecer-nos no campo temporal, quer, sobretudo, o nosso benefício espiritual, porque, através desses fatos, compreendemos o bem que Ela é capaz de fazer a nossas almas.

O mais precioso fruto da Redenção

Um aspecto maravilhoso da misericórdia de Nossa Senhora é a presença d’Ela ao pé da Cruz. Ela foi concebida sem pecado original na previsão dos méritos do Salvador, e quando ouviu seu Filho divino dizer: “Consummatum est” (Jo 19, 30), e se operou a Redenção do gênero humano num dilúvio de dores para Ele e para Ela, Maria Santíssima sabia que naquele momento a graça estava sendo comprada também para Ela; e aquele benefício feito por Nosso Senhor a São João de lhe dar Nossa Senhora como Mãe, Ele o dava para toda a humanidade, pelo sacrifício d’Ele.

Luis C.R. Abreu
Nosso Senhor Jesus Cristo aparece a Nossa Senhora Igreja da Ressurreição, Portugal

O fruto arquiprecioso da Redenção, dentro dessa perspectiva, foi colocado numa Medianeira, de maneira que os efeitos do Sangue de Cristo, por nós derramado, que nossos pecados houvessem de inutilizar, Nossa Senhora, por suas orações, haveria de obter que fossem aproveitados. Há aí uma espécie de instituição da mediação magnífica com um jogo de anacronismo admirável da própria Imaculada Conceição, e que faz daquela doação a São João uma verdadeira maravilha.

Outra consideração que me parece importante no âmbito das intercessões é compreendermos Nossa Senhora enquanto derrotando sozinha todas as heresias. A Igreja diz isso d’Ela na liturgia: “Tu só esmagaste todas as heresias no mundo inteiro”.1

Como Ela esmagou as heresias? Por mil modos, entre eles, sempre rezando para que aqueles que combatem a heresia sejam fortes, enérgicos, intransigentes, destemidos, para que não caiam nos seus laços, mas, pelo contrário, desfiram contra ela os piores golpes. E é por isso que todos os grandes lutadores contra a heresia foram grandes devotos de Nossa Senhora. De outro modo também, rezando para que os hereges fossem confundidos nas suas artimanhas, se liquidassem a si próprios em muitas de suas tramas e para que, aqueles dentre eles que correspondessem à graça, de fato, pudessem ser salvos. Essa dupla visão parte, exatamente, da noção da Mãe de Misericórdia.

Confiar sempre na misericórdia de Maria

Há um Santo que tem esse pensamento o qual jamais deixarei de repetir e comentar, embora possa me tornar enfadonho: o pior do pecado não é o pecado, é a falta de confiança em Deus na qual a alma cai depois do pecado e que a leva ao desespero. Por mais que possamos estar preocupados com nossa vida espiritual, aborrecidos, com receio, talvez, de incorrer na cólera de Deus, devemos pensar: “Não desesperarei nunca, porque continuarei a rezar”. Bastará invocar Nossa Senhora com muito empenho e não deixar de fazê-lo todos os dias, que Ela acabará dando um jeito nessa situação.

Eu conheço o caso de uma alma em graves dificuldades espirituais que se salvou durante meses, ou talvez anos, visitando todo dia uma imagem de Nossa Senhora, numa igreja, e rezando três Ave-Marias. Isso não é um talismã. Rezar três Ave-Marias não obriga Nossa Senhora; é a misericórdia d’Ela que toma essa ninharia, a multiplica e faz disso uma razão para nos salvar. Então, devemos recorrer sempre a Nossa Senhora, em todas as situações, porque Ela é nossa Mãe de Misericórdia.

Há certos recuos ou retardamentos da providência de Nossa Senhora: Ela nos dá as graças, mas não logo, porque, se Ela atendesse todos os nossos pedidos imediatamente, os sofrimentos desapareceriam e a Terra se transformaria num paraíso.

Ora, uma das maiores graças que Maria Santíssima nos concede são as cruzes, e muitas vezes Ela tarda em nos dar a graça de sofrer, a graça e o mérito do sofrimento. É preciso também acrescentar que, em algumas ocasiões, Nossa Senhora demora a nos atender para provar a nossa fé, isto é, para progredirmos na fé e na confiança, e depois Ela nos dá as graças de modo supereminente.

De maneira que, se algum de nós esteja tardando em receber uma graça, não deve considerar isso como uma recusa de Nossa Senhora, mas como uma promessa de que, se pedir muito, obterá a graça com uma abundância extraordinária. Nossa Senhora é dadivosa, é distribuidora de graças. Devemos então pedir que, assim como Ela tem pena das almas do Purgatório e abrevia os seus tormentos, na medida em que convenha às nossas almas Ela condescenda em abreviar também essas grandes demoras e nos dê aquilo que desejamos, sobretudo se for para nossa vida espiritual.

Flávio Lourenço
A Virgem com o Menino – Galeria Estense, Módena, Itália

Em geral, toda alma está precisando receber alguma graça que fica um pouco “encalhada” por uma razão ou por outra, e às vezes há vidas espirituais que estão encalhadas. Peçamos, então, a Nossa Senhora uma graça de desencalhe da vida espiritual.

Devemos considerar agora as três invocações sucessivas da Salve Regina: “Vida, doçura e esperança nossa”. Que relação essas três invocações têm com as duas anteriores? São a aplicação delas.

Vida…

Qual é o sentido de se afirmar ser Nossa Senhora nossa vida?

Dizer que algo é vida, significa que nossa vida não seria vida se esse algo viesse a nos faltar. Por exemplo, uma mãe poderá alegar de seu filho: “Meu filho é minha vida, pois sofro tanto, tenho tantos aborrecimentos e contrariedades, que aquilo que torna minha vida respirável é meu filho!” Ou, então, pode-se afirmar que nossa vocação é nossa vida, porque, se não fosse ela, a vida seria infeliz, miserável, com uns prazeres tão frustros, que não seria vida para nós.

Nesse sentido, Nossa Senhora é verdadeiramente nossa vida. Se não houvesse Nossa Senhora, não teríamos nenhuma razão para esperar na misericórdia divina; sem Ela não teríamos esperança do Céu, ou algo que justificasse qualquer alegria na Terra.

O que torna nossa vida “vivível” é o conjunto de esperanças que a intercessão de Nossa Senhora nos autoriza a ter. E por isso Ela é nossa vida. Nós vivemos por Ela! Se não fosse Ela, cairíamos no desalento…

Doçura…

O que é doçura? É exatamente o que torna doce aquilo que não seria doce. Nossa Senhora é doçura porque é inteiramente doce, afável, agradável e condescendente para com aqueles que A invocam. E porque Ela é assim, existe doçura em nossa vida.

Ela obtém para nós e para os outros a graça, portanto, a virtude, o que há de doce na vida. Esta seria a mais amarga e sinistra possível se não fosse a doçura da virtude. Nossa Senhora é, assim, nossa doçura.

Nobel Foundation(CC3.0)
Anatole France

Um cético do século passado, Anatole France,2 dizia que nada explica o trágico absurdo no qual vivemos. Ou seja, é o contrário do doce: é um absurdo – e um absurdo trágico! Mas esse “absurdo trágico” existiria se Nossa Senhora não fosse uma aliança entre o Céu e a Terra. Ele não existe por causa d’Ela, pois Maria Santíssima é a doçura que dá bom gosto à vida humana.

Esperança nossa

“Esperança nossa” é a outra exclamação. Não é: “sois uma esperança nossa”, mas “sois a esperança nossa”, a única razão de nossa esperança, toda nossa esperança! De tal maneira que, por causa d’Ela, nossa vida se torna doce; nossa vida é vida, porque Ela é nossa esperança.

O começo da Salve-Rainha contém afirmações muito bem calculadas, com um sentido profundo, precioso e admirável: “Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve”. Essa saudação, muito inteligentemente, lembra a Nossa Senhora por que razão vamos pedir o resto, mas também dá-nos a nós mesmos essas razões, para nos incutir ânimo, fervor e confiança na oração.

A Salve-Rainha – em que muitos titubeiam sem sequer imaginar que possui uma construção tão racional, tão lúcida, tão perfeita – é muito bem elaborada. A primeira parte é uma saudação marcada pelos dois “salve”: “Ave, eu te saúdo, Rainha, Mãe de misericórdia…”

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1965

A segunda parte já é uma transição, que mostra qual é a posição do pecador diante d’Ela: “A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.

Depois, a terceira parte é o raciocínio acompanhado de uma súplica: “Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”. Ou seja, nós Vos fazemos este pedido por causa disso.

São três partes muito bem calculadas: a glória d’Ela, nossa necessidade, nosso pedido. É tudo admiravelmente bem pensado. É um pequeno tratado de teologia marial, de grande beleza literária.

Para que a Salve–Rainha?

Quando se compreende a Salve-Rainha nesses termos, pode-se estar em dia de aridez, sem vontade de rezar, tentado ou do modo que for: nem por isso Nossa Senhora deixará de ser aquilo que a Salve-Rainha diz d’Ela. Assim, eu tenho uma base firme para, mesmo nos momentos mais difíceis da vida, dirigir-me a Ela e ser atendido. Esse é o sentido de analisar racionalmente uma oração.

Quantas pessoas rezam a Salve-Rainha, mas quão poucas analisam o que rezam! Notamos, através dessa análise, como é verdadeira a piedade católica. Ela nasce da fé, a qual nos dá certezas e meios de viver. É assim a piedade contrarrevolucionária autêntica.

(Extraído de conferência 20 e 21/5/1965)

1) Antífona mariana: “Gaude, Maria Virgo, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo – Alegrai-vos, Virgem Maria, só vós esmagastes todas as heresias no mundo inteiro”.

2) François Anatole Thibault (*1844 – †1924). Literato francês de grande fama, cuja opera omnia foi condenada pela Santa Sé.

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