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Encontro impregnado de enlevo

O senso do sacral traz a compreensão de como todas as coisas são sagradas por efeito da Religião. Por isso, ao venerar o Divino Infante e contemplar sua Mãe Santíssima, foram concedidas graças aos Reis Magos pelas quais compreenderam estar diante do Menino–Deus, Redentor do gênero humano.

Colocaram-me à disposição uma ficha a respeito de Nossa Senhora e os Reis Magos, pedindo que fizesse um comentário. Trata-se de um excerto da obra intitulada Mística Ciudad de Dios, de Sor María de Jesús de Agreda.1

Três reis diante da doçura e da majestade do Menino Jesus e de Nossa Senhora

Aguardava a divina Mãe, com o Infante Deus em seus braços, os devotos e piedosos reis. Estava com incomparável modéstia e formosura…

Flávio Lourenço
Reis Magos diante do Menino-Deus e sua Mãe Santíssima – Catedral de Burgos, Espanha

Modéstia significa de modo digno, com modos incomparavelmente bons.

…descobrindo, entre a humilde pobreza, indícios de majestade sobre-humana, com algo de resplendor em seu próprio rosto. O Menino tinha essa majestade muito maior e derramava grande refulgência de luz, com que estava toda aquela morada transformada em Céu.

Entraram nela os três reis do Oriente e, à vista primeira do Filho e da Mãe, ficaram muito tempo admirados e suspensos, prostrando-se depois em terra, e nessa postura reverenciaram e adoraram o Menino, reconhecendo-O por verdadeiro Deus e Homem, e reparador do gênero humano. E, com poder divino, em vista e presença do dulcíssimo Jesus, foram de novo ilustrados interiormente.

O encontro é muito bonito. Eles chegam ao local, Nossa Senhora os estava esperando. A primeira sensação que eles têm é de um tal estupor, que eles param. Depois de terem se recobrado da admiração diante daquela doçura e da majestade do Menino Jesus e de Nossa Senhora, eles se inclinam até a terra e prestam as suas adorações. Depois disso, eles sentem, ao considerar a face divina do Menino Jesus, movimentos interiores da graça: reconheceram que se tratava do Menino-Deus, Redentor do gênero humano.

Lição de sacral veneração

Conheceram a multidão dos espíritos angélicos que, como servos e ministros do grande Rei dos reis e Senhor dos senhores, assistiam com temor e reverência. Levantaram-se e, de pé, logo deram os parabéns à sua Rainha e Senhora, pelo fato de ser Mãe do Filho do Padre Eterno, e chegaram a dar-Lhe reverência, postos de joelhos. Pediram-Lhe a mão para beijá-la, como em seus reinos se costumava fazer com as rainhas. A prudentíssima Senhora lhes retirou sua mão e ofereceu a do Redentor do mundo, e disse: “Meu espírito se alegra no Senhor e minha alma O abençoa e louva, porque, entre todas as nações, vos chamou e elegeu para que chegueis, com vossos olhos, a vê-Lo e conhecer o que muitos reis e profetas desejaram e não conseguiram, que é o Eterno Verbo encarnado e humanado. Engrandeçamos e louvemos seu Nome, pelos sacramentos e pela misericórdia para com seu povo. Beijemos a terra que se santifica com sua real presença”.

Essas foram as palavras de Nossa Senhora para os Reis Magos. É muito bonita a declaração, e termina nisto: beijar o chão, considerando que, uma vez que o Menino Jesus está na Terra, ela toda está transformada num altar sagrado, e os homens devem oscular o solo como quem oscula um altar, por causa, precisamente, da sacratíssima presença de Nosso Senhor Jesus Cristo. Basta Ele estar aqui para tudo ser santificado e sagrado. É algo muito bonito.

Em certos ritos católicos do ­Oriente existe este costume: sempre que o fiel entra na igreja, ele se ajoelha e beija o solo, para indicar a sua reverência e a sua convicção de que, na Igreja, tudo é tão sagrado, que nós não somos dignos, por nós, de pisar naquele solo nem de entrar naquele recinto, e que devemos osculá-lo antes de entrar.

Os Reis Magos beijam o solo porque uma vez que o Menino Jesus está nesta Terra onde Nossa Senhora o mantém no seu colo, a terra toda se torna sacrossanta.

Isso é algo de se louvar por causa do seu sentido sacral. Esse senso do sacral é a compreensão de como todas as coisas são sagradas pelo efeito e pelo contato com a Religião; e daí o espírito de veneração que devemos ter para com tudo aquilo que, de perto ou de longe, toque a Religião ou toque em Deus Nosso Senhor. É uma admirável lição que está inculcada aqui.

Uma hierarquia em ordem inversa

Com essas razões de Maria Santíssima, se humilharam de novo os três reis…

Flávio Lourenço
Reis Magos junto à Sagrada Família – Mosteiro do Escorial, Madri

Ou seja, inclinaram-se de novo.

…adorando o Menino Jesus, e reconheceram o benefício grande de ter nascido tão cedo o Sol da Justiça para iluminar as trevas em que eles estavam.

Feito isso, falaram ao santo esposo José, engrandecendo sua felicidade de ser esposo da Esposa do mesmo Deus

Nota-se o senso de hierarquia. São José era o chefe, mas naquela família havia uma hierarquia em ordem inversa: quem era mais, era sempre menos. São José, que era o menor de todos, era o chefe da família; Nossa Senhora, que era mais do que ele, estava sujeita a ele; e o Menino Jesus, que era Deus, estava sujeito aos dois. Os reis primeiro olham para o Menino Jesus e para Nossa Senhora; eles discernem com o mesmo olhar o Menino Jesus e Nossa Senhora e Os veneram com atos de culto simultâneos. Depois de tudo terminado e ditas as primeiras palavras de Nossa Senhora, eles se dirigem a São José. Então, depois da latria a Deus, da hiperdulia a Nossa Senhora, a dulia a São José. É perfeitamente razoável e hierárquico, perfeitamente anti-igualitário. Eles falam com São José, louvando-o pela felicidade de ser esposo da Mãe do Filho de Deus e, por isso, lhe dão parabéns.

…admirados e compadecidos com tanta pobreza, e que nela se encerrassem os maiores Mistérios do Céu e da Terra.

Ao chefe da família eles deram parabéns por aquilo que podia envergonhá-lo: felicitaram-no pela pobreza. Vê-se a profundidade que tudo isso tem.

Passaram três horas nessas coisas; e os reis pediram licença a Maria Santíssima para irem à cidade tomar pousada, por não terem lugar para se deter e a Sagrada Família estar ali.

É muito bonito que quando Nossa Senhora está presente, Ela é a Rainha, e eles, reis, não ousam sair do lugar, a não ser pedindo licença. Ela está presente, Ela manda.

O gênero humano inteiro, representado pelos reis, prostrou-se perante o Menino

Seguiam-nos algumas pessoas, mas só os magos participavam dos efeitos da luz e da graça. Os demais, que só aparavam e atendiam ao exterior, olhavam o estado pobre e desprezível da Mãe e de seu esposo; ainda que tenham tido alguma admiração pela novidade, não conheceram o Mistério.

Ou seja, tudo isso só foi visível para os magos. Uma porção de outras pessoas não viram.

Despediram-se e foram embora os reis. Ficaram Nossa Senhora e José, com o Menino, sós, dando glória à sua Majestade, com novos cânticos de louvor, porque seu Nome começava a ser conhecido e adorado pelas gentes. O que mais fizeram os reis, eu direi em próximo capítulo.

Que bonita cena! Os reis saem, e quando estão um pouco mais longe, elevam-se as vozes puríssimas e harmoniosíssimas de Nossa Senhora e de São José cantando para agradecer a Deus essa primeira glória do Menino Jesus: os magos, os reis que vieram do Oriente e adoraram o Menino; o gênero humano inteiro, representado por esses reis, prostrou-se perante o Menino. Então, uma grande alegria e um grande cântico dos Anjos.

O cântico estava nos costumes do Oriente. Por ocasião da visita de Nossa Senhora a Santa Isabel, Ela cantou. Logo, era inteiramente natural que Nossa Senhora e São José tenham composto um lindíssimo hino. E poder-se-ia até imaginar esse canto, os dois timbres de voz como se alternavam; talvez fosse algum Salmo do Antigo Testamento, adequado às circunstâncias, escolhido para o momento. Mas que coisa inefável, e como os Anjos, que viam isso, deviam ficar absolutamente enlevados com a cena, sobretudo vendo o Menino Jesus ali, sendo objeto dessa adoração!

Conselhos de Nossa Senhora aos reis

No dia seguinte, ao amanhecer, os reis voltaram para oferecer ao Rei Celeste presentes que tinham trazido. Chegaram e, prostrados em terra, O adoraram com nova e profundíssima humildade e, abrindo seus tesouros, como diz o Evangelho, Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra.

Falaram com a divina Mãe e A consultaram a respeito de muitas dúvidas e assuntos que tocavam os mistérios da Fé e coisas pertencentes às suas consciências e governos dos seus Estados…

Luis C.R. Abreu
Os Reis Magos oferecem presentes ao Menino Jesus – Museu do Louvre, Paris

Que beleza! Eles consultando a respeito do governo dos seus Estados, e Nossa Senhora, como Rainha dos reis, dando orientação. Primeiro, como Rainha das almas, ilustrando essas almas; depois, como Rainha dos reis, ensinando a governar.

…porque desejavam voltar instruídos e informados a respeito de tudo, e capazes de governar santa e perfeitamente suas obras.

A grande Senhora os ouviu com sumo agrado e, quando informava, conferia com o Infante, em seu interior, tudo o que havia de responder e ensinar àqueles novos filhos de sua Lei Santa.

Portanto, Ela rezava e falava internamente com o Menino Jesus. Pode-se imaginar o Menino Jesus deitado: Ele era Deus e, no entanto, estava como uma criança que não tem consciência do mundo externo. Nossa Senhora misticamente conversava com Ele. Então perguntava a Ele o que responder, e Ele falava a Ela. E Ele que era, na aparência, sem inteligência e sem voz, sabia e conversava com Ela internamente. Pode-se imaginar a sublimidade dessa conversa!

E como mestra e instrumento da Divina Sabedoria, respondeu a todas as dúvidas que Lhe propuseram, tão altamente, santificando-os e ensinando-os de tal maneira, que, admirados e atraídos pela sabedoria e ciência da suave Rainha, não conseguiam apartar-se d’Ela. E foi necessário que um dos Anjos do Senhor lhes dissesse que era sua vontade, e forçoso, retornarem às suas pátrias.

Nossa Senhora era Rainha e podia dizer: “Meus caros, agora chegou a hora de voltar. Meus filhos, voltem”. Mas a delicadeza d’Ela era tão grande que, para não tomar Ela essa iniciativa, mandou um Anjo falar. Vê-se nessa atitude o requinte de polidez e de delicadeza de alma de Nossa Senhora.

Não é maravilha que isso sucedesse, porque as palavras de Maria Santíssima foram ilustradas pelo Espírito Santo e cheias de ciência infusa a respeito de tudo quanto perguntaram e ainda em muitas outras matérias.

Fica-se também com um pouco de tristeza por deixar essas descrições grandiosas e pensar nas coisas de todos os dias, desta era de Revolução em que nos encontramos.

(Extraído de conferência de 12/1/1967)

1) Sor María de Jesús. Mística Ciudad de Dios. Vida de María. Parte II, livro IV, cap. XVI, n. 560-561; cap. XVII, n. 567. Convento de las Religiosas Concepcionistas Agreda (Soria).

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