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Entre o trágico e o feérico

Cercada por precipícios e montanhas que dão a impressão de serem um Fujiyama quebrado a socos, a cidade de Cuenca, na Espanha, causou verdadeiro encanto em Dr. Plinio. Ele, tão encantável com as sorridentes belezas francesas, sentiu-se embevecido com a seriedade do temperamento espanhol, capaz de gerar um convento para homenagear Nosso Senhor no transe de sua vida em que até o discípulo amado O abandonou.

 M.Peinado (CC3.0)

Na primeira viagem que eu fiz à Europa, depois de desmantelada a Ação Católica em São Paulo, eu estava em Madrid e reservei um dia para visitar o Cardeal Segura, que era, naquele tempo, Arcebispo de Sevilla. Eu já tinha estado nessa cidade. Telefonei para o Palácio Episcopal e me disseram que o Cardeal não se encontrava ali, estava de férias na cidadezinha de Cuenca, distante cerca de cem quilômetros da Capital.

Então contratei um taxista e fui para Cuenca.

Montanhas que parecem quebradas a socos

A estrada passa por aquelas montanhas da Espanha que dão a impressão de um Fujiyama quebrado, não por mãos de artista, mas por socos. As montanhas são todas quebradas e espatifadas, vão subindo e, de repente, acabam tragicamente. A toda hora tem-se a impressão de encontrar, numa de suas cristas, D. Quixote que passa e Sancho Pança atrás, montado no seu burro. É uma atmosfera meio trágica e meio feérica, a seu modo, grandiosa.

Eu não sabia que a Espanha era assim, e pensei: “Olha um monte quebrado. Outro monte quebrado. Oh, que história é essa? Essa gente quebrou tudo quanto é montanha!” Depois dei-me conta de que era uma peculiaridade do panorama e concluí: “Mas é uma coisa curiosa… É o sismógrafo do temperamento espanhol. Assim se fazem as reconquistas”.

Uma cidade encantadora

Depois de alguns montes, cheguei à cidade de Cuenca. É um lugar dos mais engraçadinhos que tenho visto em minha vida.

Jorge Franganillo (CC3.0)
Jorge Franganillo (CC3.0)

No lado por onde entrei havia uma pracinha, encantadora! Pequena, toda calçada com pedras, uma mureta baixa, também de pedra e uma montanha na qual subia um mato ralo, mas engraçadinho e cheio de vitalidade. Encostada naquela mata havia uma fonte com dois “torneirões” que me pareceram ser de bronze, jorrando água continuamente, abundante, caudalosa e um pouco rabugenta. A água, em geral, cai cristalina e faz um barulho agradável. Aquela fazia um ruído grandioso, de um certo gênero de rabugice que eu gosto. Quando a rabugice é coragem e a coragem está a serviço da Fé, aí me agrada.

O motorista quis parar para beber água. Então desci um pouco do automóvel para andar, enquanto o esperava, e me deparei com um convento que parecia de brincadeira de boneca, tão pequeninho era, mas sério e direitinho, e que datava do século XVII.1

Passava por perto um senhor do povo. Vendo-me, ele percebeu logo que eu não era espanhol. Dirigindo-me a ele, perguntei:

— Por favor, que convento é esse?

Ele respondeu-me com ar de dignidade:

¡Pues! Son las Hijas de la Angustia.

PMRMaeyaert (CC3.0)

Almas vítimas chamadas a enriquecer o tesouro espiritual da Santa Igreja

O título me encantou. Se há uma coisa que o homem não quer ter é angústia, isso lhe causa terror. As Filhas da Angústia são aquelas que carregam todas as angústias por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, para converter as almas, para chamá-las do pecado para a virtude, para enriquecer o tesouro da Igreja, de maneira que ela possa, na ordem sobrenatural, ter os recursos indispensáveis para se expandir. Elas são vítimas expiatórias, vocação que toda a vida admirei com transportes de admiração.

Em qualquer canto do mundo um convento chamado “das Angústias” não se encheria, porque as pessoas têm mais medo da angústia do que da dor.

Um convento atrair com o nome de Filhas da Angústia pareceu-me magnífico! Tive vontade de mandar vir uma cadeira de qualquer barzinho para ficar observando e me embevecendo com esse tipo faustoso de almas que se acolhem debaixo das sombras da angústia para viver e para homenagear Nosso Senhor naquele transe de sua vida em que até o discípulo amado O abandonou!

Se fosse esta minha vocação, e houvesse uma ordem religiosa dedicada às angústias, nela eu ingressaria, porque esta é a militança da alma, que vale ainda mais que a do corpo. Tomar a angústia de frente e dizer: “Viverei dentro da angústia para consolar Nosso Senhor, dar honra e glória a Ele e a Nossa Senhora. Do outro lado me espera o Céu, mas durante esse tempo eu pago os meus pecados, expio pelos revolucionários e obtenho a derrota da Revolução. Lá vamos nós!”

Eu estava encantadíssimo com o Convento das Angústias, com a dignidade do homem, com a sonoridade da pedra, com o resmungo da fonte, com a largura das torneiras, tudo aquilo formava um todo que me deixava maravilhado.

Enrique Íñiguez Rodríguez (Qoan) (CC3.0)

Eu, tão encantável pelo Trianon de Versailles e por todas as belezas francesas tão sorridentes, entretanto ali estava embevecidíssimo até o extremo de minha alma, e no que ela tem de mais sério, com as Filhas da Angústia e com Cuenca.

Espanha aburguesada, oposta à heroica Espanha dos grandes tempos

Mas tive de entrar no automóvel novamente e continuar o percurso. A estrada dava a volta no morro e passava por um arco; eu não pude mandar parar o carro, mas percebi que abaixo havia um precipício e no meio do caminho uma pedra que cortava o acesso da estrada; então os espanhóis tinham-na furado e aberto um caminho por dentro dela, fazendo assim um arco. A estrada era quase um desafio ao precipício.

Eu me perguntei: “Será que este carro cabe? Este ‘mosquitão’ de ferro em que estou passa por esse arco tão estreito?” O automóvel, com os para-lamas meio trêmulos, uma buzina precária… o que eu podia ver do automóvel dava-me a impressão de ser pouco seguro. Por fim ele passou e chegamos ao centro de Cuenca.

Essa parte da cidade era ainda mais alta que o local onde estão Las Hijas de la Angustia. O centro da cidade revelava uma Espanha um pouco burguesa, muito diferente da atmosfera heroica da Espanha dos grandes tempos.

Havia uma pracinha pública de cidadezinha entre média e pequena, aconchegadinha, onde eu tive a impressão curiosa de que ninguém trabalhava. Os homens parados na pracinha, conversando, e as senhoras deviam estar trancadas em casa fazendo o jantar.

AdriPozuelo (CC3.0)
Jorge Franganillo (CC3.0)

A melhor confeitaria de Cuenca

Eu tinha fome e sede, pois fizéramos uma viagem longa. Então mandei o taxista ir para a melhor confeitaria de Cuenca, perguntando-me: “O que será a melhor confeitaria de Cuenca? Que doces vou encontrar lá? Enfim, vamos…”

Chegamos à confeitaria. Era uma sala grande com mesinhas encostadas à parede e que enchiam todo o perímetro. Havia uma espécie de faixa grande, toda de couro, que circundava toda a parede. Os encostos e o assento das cadeiras eram forrados de couro também. Até os espelhos tinham arranjado um jeito de envelhecer. A pessoa se olhava no espelho e saía meio oblíqua… Mas tudo muito limpo e bem arranjado.

Uma orquestra completa estava tocando, em pleno dia, uma música solta. E quase todas as mesas cheias. Os homens, ou conversando com uma animação extraordinária, ou – surpresa para mim – jogando dominó, que aqui no Brasil é uma brincadeira para crianças. Eles jogavam as partidas numa torcida! Eu fiquei entretidíssimo e quis ver como funcionava por dentro a cabeça de um homem desses.

Não me lembro como eram os doces da melhor confeitaria de Cuenca. Não deviam ser nem muito ruins nem muito bons, porque me esqueci deles, mas fiquei encantado e pensando: “Se pudesse trazer mamãe, eu viria morar em Cuenca, porque sinarquia não tem! Aqui eu respiro e tenho tempo de pensar”.

(Extraído de conferências de 17/5/1980 e 6/5/1988)

1) Ermida Santuário de Nuestra Señora de las Angustias.

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