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São Timóteo, audaz invectivador dos maus

Diante do mal e do erro, São Timóteo não temia uma atitude de ataque frontal. Sabendo que podiam lhe advir inconvenientes e perseguições, ele não se acovardava e assim sacrificou a própria vida. Há ocasiões nas quais devemos ser jeitosos e há momentos em que deve prevalecer a audácia.

No dia 26 de janeiro, a Igreja celebra a festa de São Timóteo, bispo e mártir. A respeito dele diz D. Guéranger:1

Por sua fama de santidade, torna-se bispo de Éfeso

Timóteo, nascido em Listra, na Licaônia, filho de pai gentio e mãe judia, já praticava a religião cristã quando o Apóstolo Paulo chegou àquela região. Paulo, impressionado com a fama de santidade de Timóteo, tomou-o por companheiro de viagem. Contudo, por causa dos judeus que se convertiam a Jesus Cristo e que sabiam que o pai de Timóteo era pagão, Paulo o circuncidou. Quando ambos chegaram a Éfeso, o Apóstolo fê-lo bispo a fim de que governasse essa Igreja.

Paulo escreveu-lhe duas cartas, uma de Laodiceia e outra de Roma, para orientá-lo no exercício de seu cargo pastoral. Como Timóteo não podia aceitar que se oferecessem aos ídolos dos demônios o sacrifício devido somente a Deus, um dia em que os habitantes de Éfeso imolavam vítimas a Diana durante uma de suas festas, ele esforçou-se em dissuadi-los dessa impiedade, mas eles o lapidaram. Os cristãos o transportaram semimorto e o levaram a um monte nas proximidades da cidade, onde ele adormeceu no Senhor, no nono dia das calendas de fevereiro.

Após uma invectiva contra uma mulher culpada, inicia-se a perseguição

Ainda sobre São Timóteo, temos esta ficha narrando uma visão de Ana Catarina Emmerich:2

Divulgação (CC3.0)
Martírio de São Timóteo – Biblioteca Vaticana

Timóteo, discípulo de São Paulo, foi feito prisioneiro na ilha de Quios, ao mesmo tempo em que o Apóstolo São João estava cativo na ilha de Patmos. Sempre o vi alto, moreno, magro e pálido. […] Foi muito estimado por todos. Mantinha uma comunidade de convertidos. Até os soldados que o rodeavam queriam-lhe bem. Havia uma mulher nobre, cristã, que caíra em grave culpa. Enquanto Timóteo celebrava os Sagrados Mistérios numa pequena igreja, já no altar, conheceu por revelação a culpa daquela pessoa que chegava à igreja para ouvir Missa. O santo bispo saiu então à porta e impôs penitência à mulher, impedindo-a de entrar. Em consequência disso, levantou-se uma perseguição contra o santo. Foi desterrado para a Armênia e libertado. São Paulo o enviou como bispo a Éfeso. Nessa cidade foi morto porque havia condenado com veemência as desordens e as orgias celebradas naqueles dias, com máscaras, levando ídolos em bacanais.

Ao aproximar ambos os trechos – a hagiografia histórica de D. Guéranger e a revelação mística de Ana Catarina Emmerich –, notamos uma concordância completa entre um e outro.

Resoluto em desmascarar o erro

É importante considerar aqui dois aspectos: em primeiro lugar, a coragem dele invectivando o culto a Diana. O templo dessa deusa, em Éfeso, era dos mais célebres da gentilidade, considerado uma das obras-primas do mundo antigo.

Eu cheguei a ver reconstruções desse templo e realmente era uma beleza! Uma construção de mármore branco que ficava no alto de uma escadaria e tinha a forma quase de um quadrado. A proporção entre a escadaria encimada pelo templo dava um aspecto muito bonito e agradável de se ver. O teto era também bem proporcionado e com uma figura no alto. Não era mais a arte grega pura, mas a helenística, que mistura algo do Oriente e que hoje é censurada pelos críticos de arte como pouco pura, mas que não deixou de inspirar algumas obras-primas muito importantes.

Zee Prime(CC3.0)
Maquete do templo de Diana

Ora, nesse templo, a deusa Diana operava toda espécie de ações maravilhosas, mirabolantes. Eram prodígios do demônio que agia por esse meio. E São Timóteo, indo àquele local e querendo fazer cessar esse culto, manifestou uma coragem, uma capacidade de enfrentar o adversário e uma decisão verdadeiramente extraordinárias.

Em consequência, o que aconteceu? Ele foi perseguido, lapidado e morreu.

O mesmo aconteceu no fato da mulher que foi à igreja onde ele ia celebrar Missa. Ele teve uma notícia de que ela pecara e achou que não podia deixá-la aproximar-se dos Santos Mistérios. Então exigiu que ela fizesse uma penitência na entrada da igreja. Ela não quis. Era uma mulher nobre. Naquele tempo a nobreza tinha uma grande situação, pelo menos em vários países. Entrevê-se pela narração que ela tomou uma atitude de revolta e açulou muita gente contra ele. Por isso ele quase morreu, foi expulso da cidade e exilado na Armênia.

No estandarte, um leão ou uma raposa?

Nos dois casos vemos a mesma atitude. Diante do mal e do erro, uma posição de ataque frontal e flagrante, sabendo que poderiam vir inconvenientes, perseguições. Ele não se incomodava e numa dessas ele sacrificou a própria vida.

Isso significa que se deva proceder sempre assim? Nós não podemos dizer que, muitas vezes, não procedemos assim? Mas muitas vezes não nos esgueiramos? Houve uma pessoa que, com certo espírito, declarou que o animal que deveria figurar em nosso brasão não era um leão, mas uma raposa, de tal maneira damos vueltas y vuelteretas. E é verdade que nosso leão sabe dar passos de raposa. Isso não tem dúvida nenhuma.

Saber quando imitar e quando apenas admirar

O que acontece na vida de certos Santos é que eles, por inspiração divina, têm uma linha de conduta que não é para ser seguida por todo mundo, mas é para inspirar atitudes em outros. São os tais Santos que fazem as coisas que são para serem admiradas e não são para serem sempre imitadas. Mas, na beleza da sua atitude, eles fazem algo que inspira outros a, no momento oportuno, fazerem o que eles fizeram.

É um pouco como São Francisco de Assis com seu pai. Pedro Bernardone brigou com São Francisco e lhe disse:

— Você não é meu filho!

São Francisco tirou a roupa, ficou quase nu diante do pai e respondeu:

— Graças a Deus, fique com essa roupa, porque eu não sou mais filho de Pedro Bernardone… Mais veridicamente que nunca eu posso dizer “Pai nosso, que estais no Céu…”

Giotto di Bondone (CC3.0)
São Francisco renuncia aos bens terrenos – Basílica de São Francisco de Assis, Itália

Não se deve deduzir daí que todo mundo que brigue com o pai deva tirar a roupa. Mas há algo no ato dele que inspira a tomar uma atitude enérgica nos momentos oportunos.

O Grupo tem lances de muita energia e de uma energia bravia. Mas há horas em que devemos ser audaciosos e há horas em que devemos ser jeitosos. Nós devemos admirar nos Santos a audácia e o jeito.

Santo Inácio de Loyola foi extremamente audacioso e extremamente jeitoso. E São Timóteo é um Santo admirável, que nos mostra muita audácia.

Audaciosos e jeitosos

Alguém me perguntará: “Dr. Plinio, o que o senhor admira mais: a audácia ou o jeito?

Eu sou obrigado, pelas circunstâncias, a todos os jeitos e trejeitos, mas meu coração e minha alma vão para a audácia. Dizer de frente, dizer no duro, de uma vez, romper, enfrentar, rachar… oh, delícia! Oh, maravilha! Só de dizer isso eu floresço, se é que se pode dizer que um homem é uma flor. O que se pode fazer? Deus me livre de faltar com a audácia numa hora em que devo ser audacioso. Mas, Deus me livre de faltar com o jeito na hora em que tenho que ser jeitoso.

A audácia é uma virtude mais difícil que o jeito. Ela supõe que se arrisque a pele, enquanto muitas vezes o medo se camufla atrás do jeito.

De maneira que mais vale a pena insistir sobre a audácia do que sobre o jeito. Entretanto, quando eu notar que os membros do Grupo estão muito audaciosos, preparem-se, porque falarei sobre o jeito. Porque não há coisa pior do que uma audácia sem jeito.

(Extraído de conferência de 24/1/1969)

1) Guéranger, Prosper. L’Année Liturgique. Le temps de Noël. 10.ed., Paris: H. Oudin, 1891, t. II, p. 434-435.

2) Beata Ana Catarina Emmerick. Visiones y Revelaciones Completas. Buenos Aires: Guadalupe, 1952, t. X, p. 307-308.

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