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Uma dama afável e acolhedora, que o mundo não quis compreender

Ainda tradicional, mas eivado de espírito moderno, o mundo formava um vazio em torno de Dona Lucilia, o qual tornava notória sua posição contrarrevolucionária, tantas vezes incompreendida. Pequenos fatos de sua vida ressaltavam aos olhos de Dr. Plinio esse choque entre ela e a Revolução.

A respeito da oposição de Dona Lucilia ao mundo revolucionário, eu teria mil fatinhos a contar, mas tão pequenininhos que ficam na minha cabeça como uma Via Láctea. Quando olhamos para o céu, não vemos estrela por estrela, e sim uma coisa esbranquiçada dentro da qual sabemos que estão as estrelas.

Posição contrarrevolucionária de Dona Lucilia

Lembro-me de uma infinidade de pequenos fatos que eram mais do mundo com ela do que dela com ele. Ou seja, o mundo tomava uma atitude de um polido, mas real e completo rechaço em relação a mamãe, e ela, sempre afável, acolhedora, não mudava de posição. Não que ela o rejeitasse, porque tudo em torno dela era ainda antigo, tradicional. Entretanto, ele fazia o vazio em torno dela.

Arquivo Revista
Dona Lucilia nos fins dos anos de 1960

Por causa desse vazio – que se traduzia em mil pequenas coisas – notava-se a posição contrarrevolucionária dela e como ela entrava em luta com o mundo.

É-me difícil especificar, mas dou um exemplo: as senhoras, ao menos aqui no Brasil – mas deve ser pelo mundo inteiro –, vivem muito mais de contar fatinhos do que de comentar doutrinas. Em geral são acontecimentos da vida delas, episódios que se passaram com parentes ou conhecidos do mundo no qual se movem. Às vezes elas comentam o fato, mas pouco; habitualmente são meras narrações.

Dona Lucilia era de uma época antiga, do velho Brasil sossegado, tranquilo, do tempo do Império; ela alcançou ainda a era dos escravos e contava episódios com muitos pormenores, para o detalhe dar o sabor ao fato.

Mais ou menos a partir de 1920, se estabeleceu no Brasil um estilo de conversar muito americanizado: as pessoas continuavam a contar fatos, mas ultrarresumidos, ultrarrápidos e sem detalhes de nenhuma espécie. Percebe-se que o mundo não gostava do modo de mamãe narrar, porque o achava démodé.1 Na concepção dela, o suco do fato estava no pormenor.

Arquivo Revista
Em destaque, Dr. Antônio Ribeiro dos Santos, pai de Dona Lucilia. Ao lado, Fazenda Santo Antônio das Palmeiras, como era na época de Dana Lucilia

Ademais, ela tinha uma peculiaridade frequente nas pessoas de idade, mas que hoje em dia estas tomam muito cuidado em evitar, porque as mais novas não gostam: ela repetia fatos já conhecidos… Tudo isso, que parece insignificante, decorria, no fundo, de uma posição contrarrevolucionária e ocasionava mil incompreensões. Eu via que as pessoas formavam o propósito de não procurá-la para não ter que ouvir essas histórias.

O fato do carneirinho

Lembro-me, por exemplo, de um fato contado por ela para manifestar o modo de seu pai – a quem ela venerava – combater o sentimentalismo nela.

Mamãe era uma menina de seus 10 anos, seu pai era fazendeiro, possuía uma criação de gado – carneiros, entre outros – e tinha lhe dado de presente um carneirinho… Ele deixava-a brincar e mimar o animal, coisa de criança.

Arquivo Público do Estado de São Paulo (CC3.0)
Rua de São Paulo no início do Século XX

Um dia, o empregado da fazenda – creio que ainda era um escravo – aproximou-se dela e disse-lhe baixinho:

— Sinhazinha, eu vou lhe contar uma coisa, mas não diga que fui eu que falei.

Os homens eram chamados pelos escravos de sinhô, a filha e a esposa do dono eram chamadas de sinhá, que era um modo de eles dizerem senhor e senhora, e quando se tratava de uma criancinha, chamavam-na de sinhazinha.

— O que é? – perguntou a menina Lucilia.

— Sinhô Doutor – que era o pai dela – resolveu mandar matar o seu carneiro e ele já está sendo preparado para amanhã. E os carneiros, quando estão sendo preparados para serem mortos, ficam tristes. Seu carneiro está chorando porque vai morrer amanhã.

Ele não devia ter contado, foi uma estupidez ou uma maldade. Ela ficou alvoroçadíssima, porque para uma criança de 10 anos saber que vão matar seu carneiro… Foi correndo falar com o pai – ela não contou como soube – e pediu para ele não matar o carneiro.

O pai a atendeu com toda a bondade e disse: “Minha filha, eu tenho muitos outros carneiros e podia atender o seu pedido; teria gosto em atendê-lo para você não chorar. Mas você precisa aprender a viver: a um animal não devemos querer bem como a uma pessoa, porque bicho não é gente. Com ele brinca-se um pouco, mas quando chega a hora de matar, mata-se! Portanto, vou matar seu carneiro”.

Ele fez muito bem. Ela abraçou-o, beijou-o, reiterou o pedido… O pai tratou-a com muita bondade, mas no dia e na hora marcada ela viu o homem levar o carneiro para morrer. É um fenômeno curioso, mas carneiros, quando vão sendo levados para morrer, choram. Esse carneiro foi chorando e ela também chorou como nunca. Mas o pai foi irredutível para com ela.

Objeções modernas e revolucionárias

Mamãe contava esse caso e as pessoas que a ouviam faziam as seguintes objeções modernas e revolucionárias: “É um fato velho, passou-se há muito tempo e só casos recentes interessam”. Esse é um dos dogmas da conversação moderna.

Por outro lado, ela contava pormenorizadamente, com vistas a acentuar o episódio. Ora, para o espírito moderno, bastava resumir numa palavra o que o pai tinha feito e como ela o recebeu, e já a essência do fato estava mais do que contada.

Além disso, tratava-se de um fato que, no fundo, não deixava de ter uma certa nota de tristeza, porque acabava dando a entender como a vida é triste, como às vezes é preciso massacrar sentimentos delicados para impor o espírito de luta que a vida deve ter. Ora, segundo a mentalidade moderna, só convém contar episódios alegres.

Resultado, como ela era uma senhora respeitável, ouviam-na com respeito, mas com fisionomia de monotonia. Ela notava isso, mas não sabia a razão, porque o espírito moderno era outro mundo que estava aparecendo. Ela percebia que, se não contasse, cedia a alguma coisa de mal que havia neles.

Detalhes que apresentam interesse para quem tem senso da tradição

Assim se poderiam dar vários exemplos. Ela contava muitos fatos antigos, do tempo em que ela era menina ou moça.

Em São Paulo, quando os automóveis começaram a ser fabricados e a se introduzir, e mesmo quando seu uso tornou-se generalizado, para as ocasiões de solenidade utilizavam-se ainda muito coches com cavalo. Minha mãe gostava de contar que o casamento dela foi o primeiro em São Paulo no qual os noivos usaram automóvel. Eram dois automóveis importados, bonitos, ornamentados especialmente para o casamento.

Para nós, porque temos o senso da tradição, esses detalhes apresentam um certo interesse, mas não no mundo afora. Assim havia centenas de coisas que representavam o choque dela com o mundo revolucionário.

(Extraído de conferência de 16/7/1982)

1) Do francês: fora de moda.

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