O ponto de partida de toda “megalice” é a pessoa não se conhecer a si mesma. Não tendo uma ideia real de si, fica-se sujeito a pânicos, a tensões que constituem um verdadeiro sistema de compressão e descompressão, gerando uma sensação de instabilidade e de crise. O pior efeito desse vício é a destruição do amor a Deus, fundamento de todas as virtudes.
A fim de tratar de modo mais aprofundado a respeito do problema da “megalice”,1 que tenho mencionado em outras ocasiões, há algumas observações concretas que eu gostaria de fazer antes de qualquer análise teórica sobre o assunto.
O processo de “carunchamento” dos espíritos fervorosos
Imaginemos uma pessoa muito correta, direita, que revela lealdade e retidão de espírito, que pensasse o seguinte: “Eu noto em mim, de vez em quando, bons movimentos interiores; são claramente frutos da graça que me impulsionam a tomar esta ou aquela atitude boa. Não tenho nenhuma dúvida de que eles são muito bons. Entretanto, quando vou analisar qual é o desenvolvimento deles, noto que, a partir de determinado ponto, começa a misturar-se neles alguma coisa que não é boa, e resulta em “megalice”. De maneira que quase todo movimento da graça que existe em mim, acaba sendo adulterado e dando numa complacência para comigo mesmo, num exagero de minhas qualidades etc. Eu até tenho medo da graça, porque já antevejo qual é o inimigo que vem do outro lado das barricadas…”
Tal modo de pensar revela perfeitamente o processo de “carunchamento” de vários espíritos fervorosos: começam a dedicar-se à Causa de Nossa Senhora e se entusiasmam; entusiasmando-se, ficam muito ardorosos; ardorosos, passam a ser admirados; admirados, ficam “megas”;2 “megas”, se deterioram.

Tenho notado muitos casos assim e, às vezes, fico numa situação muito difícil, porque há certas coisas que devem ser elogiadas, senão pode haver desânimo; mas há o perigo de provocar “megalice”. Então fica-se quase sem saber para onde se voltar. Ora, a postura de nunca elogiar não resolve, pois isso é não governar bem. Eu, que não sou muito largo nisso, sou fundamentalmente contrário a esse sistema. Algum elogio deve ser feito, e entre nós há várias coisas a serem louvadas.
“Megalice” e impureza, dois campos de batalha?
Há também um outro ponto que é delicado para todo homem hoje em dia, e, a fortiori, para todo jovem: a pureza. É um problema difícil e que exige muito cuidado. Compreende-se, pois, que a atenção de um jovem esteja concentrada em grande parte nele. O resultado é que se torna difícil conduzir essas duas batalhas ao mesmo tempo. Entre lutar contra algo que, de si, redunda fácil e rapidamente em pecado mortal, como é a impureza, e combater um defeito que, stricto sensu, conduz com bem menos frequência a ele, parece que o horror ao pecado mortal deve levar-nos a concentrar nossa atenção muito mais na questão da pureza do que na da “megalice”.
Por esse motivo, parece haver uma espécie de dispersão das energias e das atenções caso se cuide da questão da “megalice” com muita insistência. Esse é um ponto de vista que não é apenas defensável, mas que, sob vários aspectos, é verdadeiro, embora não o seja em todos. Como então combater a “megalice”, uma vez que a vigilância está atraída por outro adversário, em particular nas atuais gerações, nas quais a capacidade de vigilância e a distância psíquica são, de si, carentes, insuficientes e falhas? Isso cria um problema muito sério.
Eu devo dizer que erram os que separam a “megalice” da impureza.
Dois modos de manifestação da “megalice”
Não creio que, na minha geração e nas gerações que a sucederam imediatamente, esses problemas fossem ligados – ao menos não observei que o fossem proximamente. Porque a “megalice” apresenta-se nas gerações mais novas com características bem diferentes das que ela tinha na geração antiga, e essas características dão-lhe um dinamismo diferente.
Na minha geração, evidentemente havia pessoas vaidosas e até doentiamente vaidosas. Mas não era frequente que a vaidade, o orgulho ou algum defeito dessa natureza, se apossasse de um homem de maneira a abalar nele rapidamente todo o edifício do amor a Deus.
Podia-se conceber, por exemplo, um bispo um tanto vaidoso por ser grande orador – deve-se deplorar isso num bispo –, mas, daí a dizer que ele era um homem que estava com o amor a Deus abalado nos seus fundamentos porque era vaidoso, seria exagerado para um prelado dos antigos tempos.

Mas nas gerações que se foram sucedendo, a “megalice” tomou um aspecto de algo galopante, inebriante, que lhe conferiu um modo de atuar que não corresponde à psicologia das pessoas para as quais foram feitos os manuais antigos de vida espiritual. De sorte que, o modo de tratar desses assuntos na espiritualidade clássica está um pouco defasado. Isso nos obriga a fazer um reestudo da psicologia dessas gerações atuais, para uma luta eficaz contra a “megalice” na vida espiritual.
Destruição do amor a Deus
De que forma isso se dá? Sabemos que a “megalice” produz uma destruição do amor a Deus. Ora, o amor a Deus é o fundamento de todas as virtudes. E, entre nós, um dos aspectos mais frisantes desse amor é o amor à vocação. Então, desde que, em virtude da psicologia especial de uma certa geração, a “megalice” passou a abalar rapidamente o amor à vocação e o amor a Deus, ela passa a ter primordial importância entre os defeitos a serem combatidos, o que significa ficar num plano praticamente igual ao da impureza.
Há pessoas que caem na impureza por causa da “megalice”. O trajeto é o seguinte: ela fica “mega” e com isso sofre um abalo no amor à vocação; consequentemente cai numa frustração, porque percebe que não é tudo quanto quereria ser; e com isso vem um desespero. Nessa hora, o demônio se apresenta dizendo: “Tudo isso que você está sofrendo, toda essa desordem interna que está em você, decorrente da frustração que você tem consigo mesmo, tudo isso só tem uma saída: já que a sua vida está um inferno, cometa um pecado impuro, que você se alivia e está acabado”. Com isso ela pode vir a cometer um pecado de impureza.
A crise da “megalice” nas gerações antigas e nas atuais
O homem antigo podia fazer uma ideia excessivamente vantajosa a respeito de si mesmo. Ou ao menos tinha a esperança de, à força de tapeação, conseguir impor uma ideia excessivamente vantajosa de si aos outros. E esperava obter, por esse meio, um efeito maior do que habitualmente poderia obter.
Mas, entre a ideia que o indivíduo fazia de si – ou pretendia que os outros fizessem dele – e a realidade, a diferença tinha um limite.
Por exemplo, um catacego, isto é, um homem quase cego, não tinha a “megalice” de ser campeão de tiro ao alvo. Ele compreendia que possuía outras qualidades, podia imaginar que via melhor do que na realidade, mas não se achava diretamente capaz de ser campeão de tiro ao alvo. Um homem de inteligência mediana poderia ter a “megalice” de considerar-se bem inteligente, mas um gênio, não. Uma pessoa amável e com notável capacidade de seduzir, agradar e atrair, podia julgar-se, por excesso, a mais encantadora do ambiente no qual vivia. Tudo isso poderia perfeitamente acontecer, mas havia uma proporção na diferença entre a imagem e a realidade.
O pressuposto disso é que todos mais ou menos sabiam o que eram, e havia um certo limite nos seus exageros.
As gerações que vieram depois da minha parecem não ter noção do limite de suas próprias possibilidades, e, por causa disso, qualquer um se julga capaz, ou sonha ou é tentado a sonhar com os triunfos mais delirantemente universais.
Por exemplo, se eu fosse cantor e imaginasse o seguinte: “Sou um dos bons cantores de São Paulo”, quando na realidade não passo de um cantor agradável para ser ouvido num salão, isso poderia me lisonjear. Mas, imaginar-me descendo de avião em Paris e multidões incontidas correndo para me receber com aplausos, carregando-me em triunfo, com a televisão de Nova York filmando e um funcionário do governo que chega com um cartãozinho do Ministro de Relações Exteriores desculpando-se por não ter comparecido e pedindo-me que reserve o dia seguinte para almoçar com o Presidente da República, que está ansioso por ouvir o timbre de minha voz… Imaginar uma vitória tão suprema, evidentemente é capaz de me pôr louco!

Um triunfo proporcionado a meus recursos não me põe louco, mas a ficção pode fazer-me delirar. Por quê? Porque é inebriante.
Nervosismos e inseguranças gerados pela falta de conhecimento próprio
Também em relação à possibilidade de fracasso: se eu sei mais ou menos o que sou, sei que não sou capaz de reeditar as proezas oratórias de Demóstenes; e sei também que não há nenhum perigo de eu, ao fazer uma conferência, de repente começar a gaguejar. Podem acontecer outras coisas, por exemplo, que eu não saiba contar dinheiro na saída de um restaurante; mas que eu não saiba expor fluentemente uma ideia, não vai acontecer.
Quando não se tem nenhuma ideia real de si mesmo, fica-se sujeito verdadeiramente a pânicos e tensões. A alternação de um delírio de esperança, um apogeu de esperança, com pânicos horrorosos, constitui um sistema de compressão e descompressão contínua. Nesse sistema, as pessoas se debatem no nervosismo, na insegurança completa, que provoca uma espécie de desabamento ou uma espécie de golpes dados no ar completamente errados, seguidos de fracassos e outras coisas do gênero.
Há um ponto curioso: em geral, todo “mega” o é com qualidades que não possui. De maneira que a pessoa, no lugar de aprimorar as qualidades que tem, procura o golpe por onde pode fazer brilhar as qualidades que não tem. E daí vêm consequências, a partir das quais eu não sei até onde se chega.
Imaginemos alguém que seja realmente dotado para negócios. Ele não tem “megalice” alguma disso. Ele vem de um banco, onde fez uma transação importantíssima, puxa um caderninho e tira de dentro algumas incumbências. Às vezes são coisas pequenas, como ver se foi colocado um vidro na janela de casa.
Uma pessoa que não tenha jeito para negócios, se for falar com um banqueiro para uma transação qualquer, se julga degradada se tiver que executar uma incumbência pequena logo depois…
Tudo gira, portanto, em torno do fato de que as pessoas não têm um conhecimento razoável, verdadeiro, consistente, do que verdadeiramente valem. Isso fica numa espécie de lusco-fusco, uma espécie de indefinição. Com – volto a dizer – apreensões horríveis e esperanças tremendas, representações enormes, truques de toda ordem; cada um faz o truque como consegue, bem ou mal sucedido, pouco importa, e depois tem, naturalmente, uma sensação de instabilidade e de crise.
Aqui está descrita a “megalice”.
A necessidade de conhecer-se a si mesmo
O ponto de partida desse problema é a pessoa não se conhecer a si própria. É não ter noção de qual é, mais ou menos, a bitola dentro da qual pode esperar alguma coisa de si, mas jogar-se desde logo nas nuvens. Ela não tem a ideia do que é e, por causa disso, tem as maiores esperanças e as maiores ilusões, mas também as maiores apreensões e o maior pânico. Vive num clima de insegurança contínua e, com a insegurança, vem todo o resto, inclusive as crises de pureza.
Há tempos estava conversando com dois amigos nossos a esse respeito. Julgando auxiliá-los, eu disse o seguinte: “Um bom modo de se saber o que se é, é procurar prestar atenção na opinião que os outros têm a respeito de nossa pessoa. Essa opinião nunca é inteiramente objetiva, mas oscila entre um pouco mais e um pouco menos, daquilo que nós somos. Ela tem, portanto, uma certa quota de verdade. De maneira que, para a pessoa começar a formar uma opinião a respeito de si mesma, é interessante começar por observar isso”.
Perguntei aos dois interlocutores se haviam entendido e se achavam útil esse método. Disseram-me que sim. No entanto, percebia-se na fisionomia deles uma perplexidade, e um deles explicitou-a: “Dr. Plinio, o senhor está enganado a nosso respeito. O senhor julga que nós sabemos o que os outros pensam, mas na realidade nós desconhecemos. De maneira que aquilo que o senhor nos dá como ponto de referência, não funciona”.

Como se diz em francês, “de fil en aiguille”, fazendo o fio passar por uma agulha, conclui-se que o pressuposto para resolver este emaranhadíssimo problema é ter conhecimento do conceito que os outros têm. É preciso que fique bem clara a importância desse ponto: se eu entrever o que os outros pensam de mim, fazendo alguns descontos criteriosos e cautelosos, chego mais ou menos ao que sou.
Eu nunca devo me julgar conforme as críticas que me fazem nas más horas. Mas há uma faixa, que não fica precisamente no meio, dentro da qual eu estou; esta é a minha figura real.
Então nasceria o problema de saber como se julga, como se forma uma opinião a respeito do que os outros pensam de nós.
A conversa a que aludi estava nesse ponto: “O senhor baseou seu remédio num pressuposto que não existe”. É o que vou passar a fazer.
Como saber o que os outros pensam de nós
Para sabermos o que os outros pensam a nosso respeito, devemos analisar como é o trato dos demais e como é que nós mesmos os tratamos, porque é no trato que isso se exprime. Consciente ou subconscientemente, a impressão que eu causo a alguém se reflete no trato que eu recebo. Esse é o princípio fundamental.
Para isso posso fazer-me a seguinte pergunta: o trato que os outros têm para com alguém é de que ele é especialmente inteligente; então vou observar o trato que se tem para com as pessoas habitualmente tidas como inteligentes e verificar se há um trato igual para comigo. Às vezes é uma comparação escalpelante, mas, se é para saber… é preciso olhar! Não há outro modo.
Por exemplo, eu noto que os outros têm para com os que são especialmente inteligentes graus diferentes de reconhecimento, manifestados no modo de tratá-los. Então cabe a pergunta: eu, em que grau sou colocado? A resposta dá mais ou menos o nível de inteligência que se possui.
Ou então, alguém que queira saber se é agradável. Ele deve observar como são tratadas as pessoas reconhecidamente agradáveis e, depois, observar como ele mesmo é tratado.
E isso pode ser feito com todas estas qualidades que a “megalice” pleiteia – inteligente, agradável, engraçado, fino, rico, bonito, todas as misérias que quiserem –, porque a cada qualidade corresponde um modo de trato. Isso é inevitável.
É assim que cada qual pode situar-se e encontrar o seu lugar, basta perceber qual é a opinião que os outros têm a nosso respeito. Ela nunca é tão boa quanto esperaríamos, entretanto, em geral, também não é tão ruim como recearíamos.
Eu compreendo que possa ser árduo fazer isso. Aconselho que esse exercício seja feito aos poucos. Esta é uma matéria que se deve tratar de esguelha e não se afundar nela, porque é por demais dura. Mas aí teremos uma revelação a nosso respeito e a respeito dos outros.
A galeria dos homens incompreendidos
Alguém poderia dizer-me o seguinte. “Dr. Plinio, o princípio que o senhor dá comporta numerosas e importantes exceções. A História está cheia de exemplos de pessoas que foram desconhecidas no seu tempo e aplaudidas nos séculos posteriores. Elas constituem a grande galeria dos homens incompreendidos. Eu não serei também um desses incompreendidos? O senhor mesmo me compreenderá e terá visto em mim aquilo que eu vejo e que eu não ouso dizer-lhe, senão vou ser chamado de ‘mega’?”
Essa seria uma saída, é até uma boa saída.
Mas a este eu responderia: “Meu caro, para quem não sabe nada a respeito de si mesmo, comece a julgar-se segundo esse critério. Numa segunda etapa, verifique se você é exceção ou não. Comece por conhecer a regra. Depois, você vai ver também que na História figuram muitas exceções, porque ela propriamente consigna as exceções e não as regras gerais, ela é exatamente, até certo ponto, uma galeria de exceções. Mas tais exceções são muito menos numerosas na vida quotidiana.

Outro poderia dizer-me então: “Mas, Dr. Plinio, há um outro fato: é que o filho da luz nunca é devidamente admirado entre os filhos das trevas. Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo, que continha em Si todas as perfeições, não foi admirado; pelo contrário, foi odiado pelo povo hebreu”.
Essa é uma afirmação que precisa ser analisada com cautela. Que Nosso Senhor Jesus Cristo foi odiado é evidente. Mas que Ele não foi admirado é incomparavelmente menos evidente. Eu até tenho como certo o contrário, pois o povo admirou-O e odiou-O; reconheceu muitas das qualidades incomparáveis que Ele tinha e odiou-O por causa disso. Toda a comoção que houve em Israel por causa d’Ele, era uma prova da admiração que se Lhe tinha, porque ninguém iria deixar-se convulsionar por um joão-ninguém. Ou seja, o ser odiado por muita gente, ainda mais quando a razão dominante não é conforme à Doutrina Católica, é um modo de admiração com um sinal negativo na frente, mas é admiração. O grande ódio só é produzido por aquilo que é grandemente odiável. Logo, havia grandeza.
Para fazer desabrochar todas as qualidades, é indispensável o esforço
Ao aconselhar esse exercício para chegarem ao conhecimento de si mesmos, eu não indico que verifiquem que valor lhes dão os filhos das trevas; eu digo que procurem ver que valor lhes dão os filhos da luz.
E faço ainda um adendo que não é propriamente um ponto de Doutrina Católica, trata-se apenas de uma opinião pessoal, mas, enfim, eu a tenho: a pergunta “o que é que eu valho”, está exagerada em sua importância.
As qualidades humanas são muitíssimo elásticas e, assim como um homem comum esforçado pode conseguir muito de si, uma pessoa muito dotada, se não for diligente, em geral obtém pouco de si. Portanto, é mais importante para um homem analisar o esforço que ele faz para manter o aproveitamento de suas qualidades, do que conhecer quais qualidades naturais possui.
O principal é saber se ele formou uma ideia exata, segundo a Doutrina Católica, do que a qualidade é, e se ele tende para ela como se deve. O que é uma coisa completamente diferente.
Por exemplo, o que é, segundo a Doutrina Católica, um homem agradável? Quais são os vários modos pelos quais um homem pode ser agradável? Qual é o esforço que uma pessoa faz para aproveitar suas qualidades e se tornar agradável? Sendo que nem todo mundo tem obrigação de ser agradabilíssimo, é claro, mas, pelo menos, razoavelmente, qual é o esforço que se faz? O problema todo está no empenho, é preciso apelar muitíssimo para o conceito de esforço, que supõe um ideal bem concebido, e, depois, a aplicação da vontade em fazer coisas penosas para atingir aquele ideal.
O exemplo de Demóstenes
É conhecida a figura de Demóstenes que alguns consideram um dos maiores oradores de todos os tempos.
O grande Demóstenes queria aprender a ser um orador que impressionasse as multidões nos comícios populares de Atenas; no entanto, ele era gago e, ademais, tinha por vício um movimento de ombros muito desajeitado. Ambas as coisas podiam facilmente provocar vaia, pois o povinho não perdoa o ridículo. Ele percebeu que, colocando uns pedregulhos dentro da boca, corrigia seu defeito de dicção. Então ele se dirigia a um lugar inteiramente ermo e lá falava em altos brados. Pendurava também um escudo sobre o ombro o qual ele tinha tendência de mover, a fim de conservar aquele membro na imobilidade. Ele fez o que nós chamaríamos hoje em dia de “educação de reflexos”. Esse foi o meio pelo qual Demóstenes eliminou em si dois defeitos que teriam cortado sua carreira oratória.

Imaginemos um “geração-nova” numa ilhota, sozinho… Em primeiro lugar, o “geração-nova” é gregário, não gosta de fazer nada a sós. E é evidente que é cacete: quanto trabalho até descobrir que colocar pedrinhas na boca corrige a gaguice; arranjar um escudo e falar horas e horas ao vento, sem ninguém notar, desenvolvendo a voz e os pulmões, numa autocrítica tremenda, até se tornar um grande orador… Se Demóstenes fosse negligente teria chegado a ser quem foi? Nem de longe! Portanto, ao invés de ficarmos em torcidas, esforcemo-nos para ser, e aí de fato seremos!
Como sabemos, o esforço, quando se tem em vista servir a Deus Nosso Senhor, se consegue por meio da graça, obtida por intermédio de Nossa Senhora, Medianeira Universal, em razão da misericórdia d’Ela e das orações que nós fazemos. É assim que se tem o ânimo para fazer esforço.
Aprimorar as qualidades unicamente para a maior glória de Deus
Tudo isso partindo do princípio de ser legítimo à pessoa obter essas qualidades. É legítimo a um católico querer aprimorar sua inteligência? É legítimo querer ser um grande orador?
Em tese, sim. Se Deus me concedeu meios para conhecer minhas deficiências humanas e naturais – nem digo os defeitos morais – está nos planos da Providência que eu as corrija. De maneira que, por esse prisma, é legítimo. Mas a razão pela qual eu devo desejar esse aprimoramento é inteiramente diversa. Eu não devo querer aprimorá-las para chegar a ser mais que os outros, mas unicamente para maior glória de Deus. Portanto, com desapego, despretensiosamente.
Imaginemos uma pessoa nascida numa categoria social distinta e que queira ter as boas maneiras que lhe são próprias. É uma muito boa razão, é ordenado e está bem que seja assim. Ou uma pessoa com muito talento para pintura. Ela pode dizer: “Eu tenho este talento, eu quero aprender a pintar. Deus concede o talento para a pintura para que os que o têm exerçam-no para a manifestação da sua glória. Eu vou, portanto, pintar bons quadros”.
Mas, por esses exemplos, vê-se quão perigoso é se servir de uma suposta aptidão como mero pretexto para a “megalice”. E como, portanto, é preciso ter cuidado para não ir atrás dessa razão meramente teórica. É somente depois de se ter adquirido um domínio muito grande sobre a própria “megalice”, que se pode permitir olhar as coisas debaixo desse ponto de vista.
Nossa Senhora pede a entrega de tudo para o serviço da Santa Igreja
Para nós que temos uma vocação de tanto alcance, esse raciocínio não é oportuno, porque nós fomos suscitados para um trabalho tão grande dentro dos planos da Providência, que devemos nos considerar como convidados a uma dedicação integral. Tudo quanto é nosso, Nossa Senhora nos pede – como ao moço rico do Evangelho – que demos a Ela para seguir Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós devemos considerar que toda nossa capacidade, nosso talento, devem ser exercidos unicamente com a intenção de servir a Igreja Católica e nada mais. É o que é próprio a nós.
Do contrário cometemos uma infidelidade para com a nossa vocação e fazemos como Ananias e Safira, que disseram entregar tudo, quando na verdade conservaram algo consigo. É bem sabido o que aconteceu (cf. At 5, 1-11).

Como, então, alguém pode adquirir todas as suas qualidades pelo desabrochar de todas as potencialidades que há nele?
Voltaire afirmava que, se houvesse um exército no qual todos os soldados acreditassem firmemente em Deus, lutando contra um exército onde todos estivessem certos de que Deus não existe, o esquadrão vitorioso seria necessariamente o daqueles que acreditavam em Deus. É evidente, pois não há maior estímulo para se fazerem bem-feitas todas as coisas que o amor a Deus.
São Francisco Solano, violinista exímio por amor a Deus
Exemplo disso podemos encontrar em São Francisco Solano, missionário no Paraguai. Ele tocava violino tão bem que, com os sons harmoniosos que produzia, aplacava a sanha dos bugres com os quais fazia apostolado. Eu conheço poucas coisas tão graciosas quanto imaginar índios com os rostos pintados de preto e vermelho, com penas no cabelo, maus odores de toda espécie, um hálito de assustar, pulando, produzindo ruídos cacofônicos, com sanhas antropofágicas, maus humores e infestados por demônios, e São Francisco Solano, vendo a tempestade temperamental que subia, tomar o violino e começar a tocar… Os selvagens começavam a sorrir, sentavam-se… estavam aplacados.
Nem Davi tocando harpa para expulsar os espíritos que estavam em Saul me dá uma ideia tão magnífica quanto São Francisco Solano nesse fato. Saul era infestado pelos demônios e tornou-se um filho das trevas, mas não era um bugre.
Diante disso, imaginemos que São Francisco Solano tivesse raciocinado do seguinte modo: “Eu vou ser um grande violinista, desenvolvendo os dotes que Deus me deu. Vou me fazer aplaudir nas principais cortes da Europa e depois vou para o Paraguai aplacar os índios”. Ele não iria ao Paraguai e, se fosse, não aplacaria os índios. Poderia inclusive tocar melodias muito bonitas, mas os índios acabariam por tomar o violino, quebrá-lo na cabeça de São Francisco, matá-lo e, fazendo uma fogueira, comê-lo. É o destino que poderia ter tido esse grande violinista, se fosse “mega”.
Como ele conseguia tocar de modo tão extraordinário, tornando-se emocionante para aqueles bugres? Desejando de toda alma a glória de Deus no universo inteiro, a propósito daqueles indígenas.
Amemos, portanto, as coisas de Deus e nos entreguemos à Causa de Nossa Senhora com toda a força, e nossas qualidades naturais desabrocharão.
(Extraído de conferência de 25/3/1972)
1) A partir do termo “megalomania” Dr. Plinio criou a palavra “megalice”, a fim de designar o vício de quem atribui a si mesmo qualidades que não possui ou então as exagera.
2) O que tem “megalice”.



