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Delicadeza transformante

Inclinações, preconceitos, às vezes um modo de querer imperativo, tudo se apaziguava na presença de Dona Lucilia.

Fotos: Arquivo Revista
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Na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Dona Lucilia não tinha um lugar fixo para ouvir Missa. Ela costumava ir à igreja aos domingos; durante a semana ela ia apenas para comungar, mas era relativamente raro, por causa da dificuldade de locomoção que possuía.

Como boa brasileira, sem roteiros muito fixos

Aos domingos, habitualmente, ela chegava na horinha da Missa começar. Ela nunca foi de uma grande pontualidade. Comungava no altar-mor e rezava muito ali; depois se dirigia à imagem do Sagrado Coração de Jesus ou à de Nossa Senhora Auxiliadora, passando de uma para outra, de acordo com o lugar que tivesse encontrado para assistir à Missa. Ela ia do lado mais próximo primeiro, ali rezava longamente; depois se dirigia também para alguns dos outros altares.

Ela rezava sempre diante da imagem de Nossa Senhora de Lourdes; depois, em frente do Menino Jesus com os doutores no Templo. Nos outros altares era um pouco conforme as circunstâncias, não tinha nada de muito fixo. Ela não era uma pessoa de grandes fixidezes. O gênero brasileiro não é de coisas muito fixas, move-se um pouco de um lado para outro, não muito cadenciado. Ela também. Apenas os altares que mencionei eram fixíssimos; indo à igreja, rezava diante deles.
Fotos: Arquivo Revista
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Relacionamento suave e atraente

Por outro lado, no que se referia ao relacionamento com mamãe, inúmeras vezes, ao longo de minha vida, eu notava, no convívio, que ela tinha um certo modo de se dirigir a mim – digo “a mim” porque é do que me lembro, naturalmente –, que era uma coisa curiosa: eu podia estar no estado de espírito que estivesse, muitas vezes não bom; ela falava e eu tinha a impressão de que ela entrava em minha alma, sem eu perceber, pondo-me diante de um estado de espírito tão atraente, tão suave, tão diferente daquele em que eu estava, desmanchando o mau castelo que estava na minha alma, que eu me tornava outro. Isso ela fazia com tal delicadeza, que depois de ter falado comigo, eu saía transformado e alegre, satisfeito, e percebia que era um verdadeiro transbordamento do espírito dela. Dona Lucilia conseguia de mim as modificações que ninguém conseguiria.

Quem me conhece sabe que o que eu quero, quero! Pois bem, “o que eu quero, quero” com ela não valia…

Quando eu era muito pequenininho ainda, não sei por que ela começou a me chamar “filhão”! E eu não sei por que também a chamava de “mãezinha”, embora ela fosse muito maior do que eu quando eu era menino. Era só ela chegar e dizer:

— Filhão, tal coisa não seria melhor do outro jeito?

— É claro que é, é evidente!

Eu tinha preconceitos formados, inclinações que eu não deveria ter, aquilo tudo se apaziguava num instante.

Fotos: Arquivo Revista

Ação que se prolongou após a morte

Eu vejo com assombro, pela descrição que fazem, que os que recorrem a ela afirmam receber graças assim. Isso começou a ser relatado antes de eu contar como era minha relação com mamãe, senão alguém poderia dizer ser sugestão. Mas não é.

Quando ela era viva, às vezes eu pensava: “Uma coisa curiosa: ela só tem dois filhos, mas tem coração para querer bem a milhares de outros. Esse amor fica aqui inútil; não sei para que Deus criou isso, no Céu se saberá”. Nunca imaginei que ela viesse a ter entre os meus seguidores o papel que tem. Nunca! Nunca imaginei. E que tantos e tantos rapazes se sentiriam tratados como filhos nesse contato com ela.

(Extraído de conferências de 31/7/1978 e 16/7/1982)

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