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Grandes sonhos que se projetam no futuro e fazem a História – I

Há na alma humana, quando ela procura viver em estado de graça, uma forma de retidão perante Deus que a leva a querer sacrificar-se. A oblação, para a alma reta, é um sonho, e um sacrifício não é um pesadelo. O verdadeiro amor pede a imolação.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1981

Começaremos a tratar dos seguintes temas: o papel dos sonhos enquanto aspiração, nostalgia e esperança; o Reino de Maria prefigurado no Antigo Testamento; Jerusalém, a cidade perfeita; Salomão se não tivesse caído; o Evangelho, o Reino de Maria, a Cristandade, a Idade Média, a gentilidade. Quando o inocente sonha, ele planeja.

Do subconsciente à idealização das aspirações

Já tive ocasião de lhes dizer que a expressão adequada para designar sonhos é propriamente aspirações, no sentido etimológico da palavra, aquilo pelo qual aspiramos, que enche os pulmões. É parecido com algo que pensamos, figuramos rationabiliter,1 razoavelmente, com compostura mental e que constitui para nós uma alegria e um entusiasmo. Nessas condições, o sonho é em nós uma nostalgia, uma esperança, uma aspiração.

Em todo homem o aspirar é, ao mesmo tempo, uma nostalgia e uma esperança. Acaba sendo o próprio de cada episódio da vida e das circunstâncias as mais diversas que a pessoa, ainda que possa ter o máximo de consciência, terá sempre um certo elemento subconsciente. E muitas vezes nós conscientizamos a dor de certos episódios e não conscientizamos a alegria e o bem-estar que a acompanham. De maneira que, passada a dor, o espírito humano percebe que nem tudo quanto foi sentido corresponde à imagem que se conservou, mas que ficaram no subconsciente certos elementos dos quais só então se dá conta. Ele fareja esses elementos e percebe haver algo que não tinha percebido, mas que havia vivido naquela ocasião, estava subconsciente e era deleitável por este ou por outro aspecto, e confere uma nostalgia.

Luis C.R. Abreu

Em geral, é esse elemento esquecido que incorporamos no nosso sonho. Ou seja, aquilo que se prolonga em nossas aspirações, ou aquilo de que nos lembramos e incorporamos a elas. Porque há um certo elemento inefável que só se inala inteiramente e que dá uma impressão especial depois de passado o momento.

O mesmo se passa também com a dor. Depois de passadas certas alegrias, ao vermos um lugar, revermos uma fotografia, uma pessoa, é aquela dor que volta e da qual nem sempre tínhamos consciência, apesar de que o homem mais facilmente conscientiza a dor do que a alegria. A dor subconsciente é mais rara do que a alegria subconsciente, mas, enfim, às vezes é uma dor que vem à tona, e a pessoa revigora aquilo com uma especial pungência.

Recordações do passado que se projetam para o futuro

Ambas as coisas se deram, por exemplo, comigo, em duas circunstâncias. Em muitas circunstâncias, porque se dão com todo mundo, mas só posso exemplificar com casos meus, pois são os que conheço por dentro. De maneira que não me levem a mal.

Havia uma casa em um lugar de São Paulo – ela já não existe, foi destruída – que ficava vizinha a um prédio; não era uma casa particular, mas uma construção pública, na qual fui muitíssimas vezes e onde tive de enfrentar muitas lutas internas e externas pela minha perseverança.

Lembro-me de uma sala onde me comprazia muito estar. Havia ali uma série de razões de gáudio para mim, satisfações; o mobiliário, a decoração eram bastante a meu gosto, e a frequentei muito. Ora, por essas ou aquelas razões, cessei de frequentá-la e passei talvez anos sem entrar nela.

Em certa ocasião tive de entrar ali novamente; a sala era a mesma, mas o aspecto material estava transformado, os móveis não estavam mais lá. Eu entrei e tive um choque à maneira de estremecimento. Era a recordação pungente de tudo quanto naquela sala eu tinha sofrido, mas foi aí que me dei conta – dentro de uma intencional impassibilidade necessária para aguentar o que eu estava aguentando –, da enormidade do que eu tinha sofrido.

Assim, as recordações do passado se projetam para o futuro e influem nos sonhos de um modo especial. Como?

Vamos analisar, por assim dizer, o substrato, as profundidades da alma humana das quais o sonho pode nascer.

Da gratidão ao desejo de sacrifício

Há, na alma humana, quando ela procura viver em estado de graça, uma forma de retidão perante Deus, Nossa Senhora e a Igreja, pela qual ela, de tanto admirar quer sacrificar-se. O verdadeiro amor pede a imolação. E a pessoa sentiria uma frustração e um vazio da vida se não houvesse sacrifícios.

O Adão reto, se estivesse vivendo no Paraíso, se soubesse não haver a prova, entraria numa espécie de liquidação criteriológica. Porque ele, de tanto agradecer, em certo momento, deveria dizer a Deus: “Meu Senhor e meu Pai, o que posso fazer por Vós, que seja algo que eu tire de mim?”

Há um trecho de um Salmo que diz: Quid retribuam Domino pro omnibus…, que retribuirei a Deus por todas as dádivas que Ele me fez? Calicem salutaris accipiam, et nomen Domini invocabo (Sl 115, 4). Eu tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome de Deus.

O cálice da salvação contém o Sangue infinitamente Precioso de Nosso Senhor. Ou seja, não tendo o suficiente para retribuir, eu alego a condição de redimido pelas dores d’Ele; invocarei o nome e o holocausto d’Ele para agradecer aquilo que eu obtenho. Mas a gratidão tem uma apetência de sacrifício.

Flávio Lourenço
Santa Isabel da Hungria dando esmolas – Museu Suermondt-Ludwig, Aachen, Alemanha

E não é só a gratidão pelo favor recebido, é também o descompasso. Alguém que é muito maior do que nós – no caso de Deus infinitamente maior, no caso de Nossa Senhora incomensuravelmente maior – e se digna estabelecer relações conosco; nós tendemos, por um amor à reta ordem do ser, de algum modo, a compensar aquela defasagem oferecendo algo, o qual, se nos fizer falta, mais contente ficaremos.

Sonhar com a batalha, com a dor, com o holocausto

Imaginem uma casa de caboclo, na qual entra por bondade, vamos dizer, uma rainha ou uma princesa, a soberana do país ou a dona da fazenda. Ela sabe que tem alguém doente ali, então entra para fazer uma visita de caridade, de gentileza.

Lá está a mãe da criança, a criança e a família toda se for hora do almoço, encantados com aquela presença. Conversam um pouco… Na casa há um bouquet de flores silvestres muito bonitas que foram colhidas para alegrar um pouco o ambiente. A dama, rainha ou princesa, o vê e diz:

— Que lindas flores!

A dona da casa sorri, vai correndo por detrás dela e o entrega ao lacaio:

— Por favor, deponha aos pés da rainha quando ela chegar à sua casa.

É a retidão.

Alguém dirá: “Mas vai fazer falta na casa”. A dona contestará: “Mas é por isso! O gostoso está em que me fará falta e a rainha notará. Ela verá por aí como eu a quero e como fico alegre em dar-lhe algo”.

A oblação, para a alma reta, é um sonho. E um sacrifício não é um pesadelo. Nessa perspectiva, um homem reto, quando não teve ainda grandes sacrifícios na vida, sonha com os que vai ter! E depois de os ter, diante da imensidade – é assim a alma humana – do que sofreu, daquele repelão que levou, que poderia ser chamado de repelão-revelação, percebe que muito por detrás desabrochou a ideia gaudiosa do sacrifício pago, da oblação feita, do dever cumprido, da dor que foi sofrida e que se tocou para frente. Essa é a alma reta.

E projeta para o futuro uma esperança e um sonho: novas lutas, novas batalhas, até onde for, para provar a dedicação até onde deve ser. Pode-se e deve-se sonhar com a batalha, sonhar com a dor, com a luta, sonhar com o holocausto como significado de uma vida. Isto é que dá à vida o seu tônus.

Percebemos por aí quantas camadas psicológicas existem nesse estado de espírito chamado sonho, anseio, aspiração, e como é interessante irmos destilando essas várias camadas, em si mesmo como nos outros, com inteira imparcialidade e formando ideias, noções.

Degustação de um bolo, lembranças da geologia

Às vezes viajamos e vemos no caminho um corte de terreno para a estrada passar, e percebemos haver camadas geológicas, qualidades de terras diferentes superpostas. E me lembro de duas coisas diferentes, ambas fazem um pouco parte de dois sonhos diversos. Recordo-me desse sobrepor das camadas na alma humana e, ao mesmo tempo, da época em que eu era pequeno, em que havia uma confeitaria – os meus sonhos muitas vezes são gastronômicos – numa loja, hoje proletarizada, outrora das melhores de São Paulo, Casa Mappin. Dividia-se em dois ramos: Mappin Well, Mappin Store.

A Mappin Well é o produto abastardado e degenerado do que existe hoje na Praça Ramos de Azevedo. A Mappin Store vendia objetos finos, de luxo, pratas inglesas etc.

Eles tinham uma casa de chá muito boa, na qual às vezes me levavam e me serviam um bolo inglês que eu nunca vi em outros lugares: era feito de camadas de bolos cor de rosa, verde pistache e outras, lembrando-me a geologia, embora não a conhecesse naquele tempo. Uma dessas camadas era molhada a licor.

Ainda me lembro de mim comendo aquilo com apetite truculento, e o olhar discretamente atento de Dona Lucilia a me ver tomando um pedaço, outro, outro, e o pânico da indigestão… Aquela sucessão de impressões me davam a ideia confusa que dizia, no fundo, o seguinte: “Não há nada como uma coisa boa junto a outra coisa boa. Na sucessão é mais gostoso do que se fosse uma só”.

Divulgação (CC3.0)
Casa Mappin em 1932

São as duas ideias que agora me vêm juntas. Uma me lembra das alegrias de um período em que a inocência não tinha ainda tomado as grandes pancadas. Outra me fala, pelo contrário, das pancadas, para mim terríveis, alternadas com outras coisas que não foram pancadas, pelo contrário, a alegria de as ter levado. Tudo isso vem junto, formando as várias “camadas de alma” que existem em todos, desde que se deem ao trabalho de se examinarem.

Compreende-se bem como a Revolução faz mal procurando impor à pessoa que não preste atenção nisso, por ser bobagem… É o suco da vida! Exatamente o melhor que fica da vida é essa recordação, a qual é um prelúdio do Juízo Final, quando encontrarmos a par de todas as nossas ações não boas, também as boas.

Então, tudo isso acaba formando no fundo da alma uma amálgama com perfumes diversos. Se pudesse haver caleidoscópios de perfumes, que, quando fosse o caso, a alma girasse para sentir os aromas… Em geral, quando se passa por lugares com os quais temos nexo, quando percebemos, algo disso se evola; nós nos lembramos, gostamos, vivemos. É viver projetando para o futuro, porque tudo isso alimenta o sonho.

Explicitar o passado

Assim como os homens têm essas recordações, também as têm os povos. E o povo carrega em seu subconsciente um mundo de impressões que a História deixou e que a pessoa não sabe explicitar a si mesma, a não ser quando aprende a História; só então ela confere e desperta uma série de impressões no fundo da alma e, subconscientemente, exclama: “Ah! É mesmo! Oh! É verdade!”

Isso modela a mentalidade do homem com o coeficiente de colaboração que, volens in nolens,2 todo mundo dá para a formação da opinião pública e para a marcação dos destinos de um país. De maneira que aprender História é explicitar o passado e projetar para o futuro um rumo que deve vir.

Nesse momento, convém pensarmos em todos os homens que há na Terra, de toda espécie, inclusive os que estão dormindo ou agonizando e perderam a consciência de si; todos esses homens vivendo com tudo isso se remexendo dentro deles, se externando de cá, de lá, de um modo ou doutro. Porque até no modo de dormir, no de agonizar, o homem indica quem ele é.

Pairando em cima de toda essa complexidade, está a corte celeste, no ápice da qual se encontra Nossa Senhora e, no alto, Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santíssima Trindade. Todos, o tempo inteiro, prestando atenção no que acontece, e vendo em nós mesmos aquilo que não conhecemos, mas que o amor a Deus, ou a tibieza, ou o ódio a Ele, regulam a fundo de algum modo. De maneira que não é sem alguma responsabilidade nossa, e às vezes com grande responsabilidade nossa, que a História se passa.

E aí está a História e a essência do momento presente. É Deus que paira, Nossa Senhora e os Anjos que rezam, os demônios que zumbem e atormentam, há os que tentam, os homens que cambaleiam, andam ou se precipitam.

Exercícios de presença diante de Deus

Nós somos um ponto dentro dessa reta. É uma beleza! Como seria bom para nós conjugar a nossa vocação com a vida de piedade. Parar e pintar, evocar diante de nós esse quadro: todo o gênero humano, dentro dele os que pertencem à Santa Igreja Católica; dentro da Santa Igreja Católica, os chamados mais especialmente para a Contra-Revolução; e a corte celeste, Anjos e Santos, Nossa Senhora, Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus Padre e Deus Espírito Santo, todos olhando nesse nível e nós pararmos e rezarmos. Como faria bem isso!

Seria um ato de presença da opinião pública e de si mesmo diante de Deus. Não olhar para si, somos um ponto dentro da reta. Olhar para o conjunto. Que nobre e belo exercício seria!

Arquivo Revista
Crucificado (coleção particular)

Alguém diria: “Deve-se rezar durante esse tempo quantas coisas?” Tome um terço, segure-o na mão, porque é como se estivesse com a ponta do manto de Nossa Senhora na mão, dá uma impressão inefável, é incomparável! Pegue o terço, por exemplo, mas no momento não reze, deixe-se penetrar pelo quadro.

Querem algo que também diz muito? Nosso Senhor Jesus Cristo nos contemplando no alto da Cruz.

Já não são onze e meia, passaram-se três minutos, e todo este quadro em algo já se alterou, como as sombras e as luzes numa floresta. O Sol não para, nunca cessará, vai se alterando, tudo caminha. Assim essa meditação caminha também.

Em três minutos o quadro se alterou… Mas, vamos imaginar Nosso Senhor Jesus Cristo do alto da Cruz sofrendo e pensando neste momento, nesta hora. Ele teve em vista a nós, em concreto, nesta hora, enquanto fazíamos esta meditação, e sofreu para que ela fosse feita. Provavelmente Nossa Senhora, ao lado d’Ele, conhecia tudo quanto Ele via e pensava, e rezava por nós para que isto saísse retamente.

Os que se agradam do que estou dizendo e se deixam penetrar por isso; os que são indiferentes, estão pensando na abotoadura; os que birram… todos eles, todos nós, causamos a Ele e a Ela, naquela ocasião, uma impressão: uma dor a mais ou uma alegria que vinha atenuar-Lhes um pouco o sofrimento.

De maneira que, por incrível que seja, nós estamos aumentando ou diminuindo as dores de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, porque, nessa perspectiva, presente e passado se fundem.

É uma meditação que vale a pena ser feita. Alguém dirá: “Mas não é usual em devocionários”. Sê-lo-á no Reino de Maria, porque ela é inteiramente ortodoxa, eu lhes garanto. Por que não fazê-la?

Tudo isso se relaciona, infelizmente, apenas com o item primeiro da exposição, e eu passo, portanto, para o segundo: O Reino de Maria prefigurado no Antigo Testamento; Jerusalém, a cidade perfeita; Salomão se não tivesse caído…

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de 3/6/1981)

1) Do latim: racionalmente, com o pensamento.

2) Variação da expressão latina nolens volens: quer queira quer não.

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