A luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é a oposição fundamental entre duas concepções de vida e é, no mais profundo, uma questão metafísico-religiosa. A Revolução não tolera o plano divino no qual os seres devem estar numa harmônica gradação. A beleza dessa unidade posta na variedade pode ser contemplada nos mais diversos aspectos da criação e da Civilização Cristã.
Quando analisamos a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução, não devemos ver apenas o combate de dois movimentos ou dois partidos, e sim a oposição fundamental que há entre duas concepções de vida, duas ordens de coisas profundamente diversas: de um lado, a concepção católica e contrarrevolucionária do universo, e, de outro, a ordem de valores revolucionária que as hostes do mal visam implantar.
Como razão profunda dessa luta encontramos uma questão metafísico-religiosa. Procuraremos mostrar, no decorrer desta exposição, a existência dessa questão, que é a causa primeira e fundamental da divisão dos campos e dos espíritos em revolucionários e contrarrevolucionários.


Dois mundos que se defrontam
A história da Revolução Russa de 1917, tão rica em episódios de intrigas e traições, contém, entretanto, alguns outros fatos, como o que abaixo relatamos, cheios de nobreza e de profundo significado para os soldados da Contra-Revolução.
Referimo-nos a um acontecimento cujo protagonista foi o grão-duque Nikolai Nikolaevich,1 um fato que se passou em São Petersburgo. Depois da renúncia do Imperador, a desordem era completa. A polícia imperial debandou e o palácio foi invadido. Discursavam nas ruas os revolucionários, apregoando a hora da liberdade que chegara, e, imbecilizado, o povo aplaudia.
Em determinado momento dos acontecimentos, passa uma limousine com dois chauffeurs, tendo na frente o brasão de armas da família do Czar: a coroa imperial sobre uma espécie de almofada. É o grão-duque Nikolai Nikolaevich que chega, pois, sabendo da desordem que reinava em São Petesburgo, vai ao Palácio Imperial hipotecar sua fidelidade ao Imperador. Ele ordena que o veículo abra caminho por entre o populacho. Há oposição, cercam o automóvel e, percebendo que se trata de um grão-duque, começam a vaiar e a partir os vidros.
A limousine para, o grão-duque desce. De pé, no estribo do automóvel, com sua imensa estatura e força de Hércules, começa ele um discurso, descompondo a revolução. Por fim, ordena a todos que se retirem; o povo começa a recuar e desaparece. O grão-duque vence e chega sem empecilhos ao Palácio Imperial.
Esse fato nos evoca uma cena de Maria Antonieta muito conhecida, ocorrida durante a Revolução Francesa. Surgindo de um balcão de seu palácio, reduziu ao silêncio, com sua simples presença, a massa sediciosa que momentos antes lhe vociferava as piores injúrias.
Não temos, em ambos os casos, símbolos de dois mundos que se defrontam e que se excluem? A um espírito superficial poderia parecer que se tratava apenas de regimes, de formas de governo em choque. De fato, havia muito mais. Tratava-se de uma oposição irreconciliável entre duas ordens de valores, entre duas maneiras de considerar o universo. Eram, na verdade, duas “místicas” face a face, duas categorias do espírito humano, duas ordens de valores supremos e transcendentais, que se excluíam como o preto exclui o branco, como o “sim” exclui o “não”.
Isso importa em dizer que, em última análise, estava em jogo uma questão religiosa. Pois, na oposição entre aqueles personagens históricos e a massa revolucionária, estavam envolvidos os mais altos problemas do universo, problemas que, pela sua grandeza e por sua amplitude, encerram forçosamente uma questão religiosa.
Sob que aspecto pode-se afirmar isso? Como pode uma maneira de encarar os problemas do universo encerrar uma questão religiosa?

Pluralidade e hierarquização que espelham a perfeição divina
Vamos procurar elucidar essa questão, considerando o universo nas razões de sua criação e em suas leis.
Analisando a criação, podemos nos perguntar por que Deus, tendo em si toda a plenitude, desejou criar a imensa quantidade de seres que compõem o universo.
Sendo infinitamente perfeito, não precisava criá-los. E, se é verdade que não havia nenhum motivo que O impedisse de dar existência ao cosmos, de outra parte razão alguma existia que O obrigasse a fazê-lo. Em sua bondade e sabedoria infinitas, Ele assim o quis. E então, como que de um jorro, uma quantidade incontável de seres foi por Ele produzida.
Deus Nosso Senhor, além de ter em si todas as perfeições, vê também em Si todos os graus de perfeição possíveis. Seu intuito, ao criar tão grande número de seres, foi fazer com que estes não só espelhassem a sua perfeição, mas a reproduzissem nos mais variados graus.
Assim se explica o caráter hierárquico que Deus imprimiu ao universo. Esses graus de perfeição O espelham convenientemente.
Não podia Deus criar uma única criatura que por si só refletisse todas as suas perfeições tão bem como o conjunto dos seres criados? Não nos parece que essa questão possa ser considerada como objeto de uma opinião unânime dos filósofos, mas somos muitíssimo propensos a pensar que isso seria metafisicamente impossível. Deus criou um universo composto de muitas criaturas para que elas, de um lado pela sua pluralidade, de outro pela sua hierarquização, espelhassem convenientemente a perfeição divina.
A razão de ser da criação consiste em dar glória a Deus, espelhando de modo completo e pleno as perfeições que n’Ele existem.
Essas considerações são importantes para a exata compreensão do que seja a “Causa Católica”. Poder-se-ia conceituá-la como sendo o ideal que visa fazer com que a criação dê glória a Deus, considerada entretanto a criação em seu todo e não somente em um ou outro de seus aspectos parciais. É o conjunto das famílias, das cidades, das nações, da humanidade e, em última análise, do universo inteiro, que se trata de fazer com que dê glória a Deus.
A beleza se encontra na unidade posta na variedade
De acordo com a Escolástica, a beleza consiste na unidade posta na variedade. Julgamos um objeto belo quando seus elementos variados formam um todo uno. Os seres fragmentados, sem unidade, não têm nem beleza, nem capacidade de atração. É a unidade que dá beleza aos seres, é ela que dá o valor, por seus elementos diversos e variados. Portanto, a unidade é a forma da beleza; e a variedade é a sua matéria, elemento secundário, mas indispensável, da beleza.


De certo modo, cada ser tem em si essa unidade e essa variedade. É fácil percebê-lo em todos os seres concretamente considerados. Examinemos, por exemplo, a alma humana. Verificamos que ela tem inteligência, vontade e sensibilidade. Eis a variedade na alma humana. Mas essa variedade está posta na unidade da pessoa do homem.
O princípio da unidade na variedade tem suas leis, que consubstanciam o que chamamos de estética do universo.
No estudo dessas leis encontramos a explicação de muita coisa da Idade Média que encanta os membros do nosso Movimento, e que faz parte da maneira de ser e de atuar de nossa família de almas.
Analisemos, em primeiro lugar, as leis da variedade.
Para bem entendermos essa lei, vamos servir-nos de um exemplo. Tomemos uma sala com vários objetos: poltronas, quadros, lustres, tapete, cortinas. Aí está a variedade de elementos. Em que condições, entretanto, será autêntica essa variedade?
Só o será quando cada um dos objetos for muito tipicamente, muito caracteristicamente ele mesmo. Digamos que todos esses objetos fossem feitos de uma única substância – a matéria plástica, por exemplo, tão a gosto do mundo moderno – e que seus formatos não diferissem entre si como deveriam, parecendo-se o lustre com a poltrona e vice e versa; não teríamos variedade. O característico é, pois, um sinal distintivo da variedade autêntica, é nele que a verdadeira variedade se realiza.
É essa a razão pela qual tanto nos maravilhamos com aspectos ricos, característicos e típicos que encontramos na organização política e social da Idade Média. E é por isso que defendemos tanto as coisas sadiamente típicas.
O equilíbrio das variedades harmônicas
Por que, por exemplo, temos um movimento de simpatia e admiração para com um andaluz característico? É porque nele estão muito nítidas todas as notas que o tornam diferente de um biscainho ou de um navarrês. Se nada houvesse senão o homem standard moderno, não haveria variedade. Julgamos bonito, na Espanha antiga, o soberano intitular-se “rei de todas as Espanhas”. Sim, porque cada uma de suas regiões era como que uma pequena Espanha, com sua arquitetura, suas danças, suas músicas, tudo muito característico.

Nesse mesmo sentido, é muito interessante, na sociedade medieval, a diferença nítida que havia entre as classes sociais. Um guerreiro era tipicamente guerreiro. Os monges, os comerciantes, os artesãos, os camponeses, eram marcadamente aquilo que eram. Podemos imaginar uma rua de uma aldeia medieval: passa um nobre precedido de um cortejo, logo após um clérigo, depois um artesão, passa, por fim, um frade. O que torna essa cena interessante? É o fato de cada um desses elementos ser autenticamente ele mesmo.
O mesmo podemos admirar no estilo gótico que, sendo cheio de variedade, conserva uma profunda unidade, e por isso é equilibrado e harmônico.
A civilização moderna, pelo contrário, odeia a variedade e idolatra uma pseudounidade. Ela detesta tudo o que é típico, e, em geral, ama o que é promíscuo e confuso. Abolindo a variedade e colocando em seu lugar uma uniformidade sem o menor sentido, a Revolução destrói a semelhança da criatura com o seu Criador.
Além disso, as diversas coisas devem manifestar um certo contraste, uma certa oposição, para que sua beleza seja mais completa.
Contrastes hierárquicos na Santa Igreja
A Igreja Católica tem, em suas instituições, muitas variedades que chegam ao contraste. Imaginemos, por exemplo, um cortejo papal entrando no Vaticano. Notamos, desde logo, os Prelados da Igreja Oriental com toda a pompa peculiar ao Oriente. Mais adiante, os frades franciscanos, vestidos de maneira paupérrima, com os seus simples buréis. Seguem os Príncipes, representando a nobreza; mais atrás, os militares soberbamente fardados. Por fim, entra o Papa, rodeado de um fastígio de glória, enquanto humildes religiosas, rezando, inclinam-se à sua passagem.
Há magnífico contraste entre o Papa, que está no pináculo do poder, diante do qual todos se ajoelham, e um humilde irmão leigo, que protesta se alguém se ajoelha diante dele. Essa oposição está cheia de harmonia. É precisamente nesse contraste, nesse extremo de aspectos antagônicos, que a variedade se reveste de toda a sua riqueza.

O mundo moderno odeia as variedades postas por Deus no universo
É doloroso verificar como, no mundo moderno, a beleza está mutilada pela uniformização que a Revolução impõe aos quatro cantos da terra.
Quis a Divina Providência criar todas as coisas hierarquizadas. Fazendo os minerais, os vegetais, os animais, os homens e os Anjos, estabeleceu dentro de cada uma dessas categorias uma imensa gama de graus intermediários. Essa hierarquia, cheia de diversidade, é ao mesmo tempo inteiramente harmônica. Há uma infinidade de nuances entre os diversos graus, que faz com que neles não haja saltos bruscos.
Sem esses graus intermediários, aliás, o mundo seria agreste e inóspito. Imaginemos que o homem vivesse num mundo em que só houvesse minerais, e que a Providência o fizesse tirar daí o alimento indispensável ao seu sustento. Ele se sentiria mal, pois há um abismo entre o homem e os minerais. Porém, quando junto a si ele tem vegetais e animais, estabelece-se uma escala natural, que produz nele uma sensação de bem-estar.
A hierarquia orgânica e cheia de gradações é agradável ao espírito contrarrevolucionário porque constitui uma unidade cheia de variedade. Essa lei da gradação, transposta para o campo político-social, produziu a sociedade medieval, em que as classes sociais formavam uma hierarquia suave, com uma infinidade de status intermediários entre o vilão e o rei.
A Revolução, pelo contrário, odeia a existência de sociedades com esses entrosamentos cheios de graus, orgânicos e articulados entre si. Quando muito ela chega a tolerar que “novos ricos” se arvorem em senhores do universo, considerando párias todos os outros, sobretudo as elites tradicionais.
Por que a Revolução quer a eliminação dos graus intermediários da sociedade? Vejamos os motivos.
Exemplos da sociedade medieval
Consideremos de um lado um rei; de outro, um plebeu de baixa categoria; e, entre eles, toda uma gradação intermediária, de acordo com os princípios de beleza que acabamos de expor. O rei e o plebeu se completam; a beleza do estado do plebeu vem, de certo modo, do fato de haver o rei, e a beleza do estado do rei vem do fato de haver plebeus.
Se só houvesse reis, e não plebeus, pouca significação teria o ser rei. Pois é a existência do plebeu que dá ao rei um grande valor.
Tomemos o inverso. Imaginemos, numa botica medieval, o ourives trabalhando no lusco-fusco, algumas pedras preciosas aqui, um cálice acolá. Além, um agradável odor de saborosos quitutes, os móveis de carvalho, uma cançãozinha de criança. Em uma palavra, o bem-estar plebeu. Isso é evidentemente agradável; contudo, se o mundo todo fosse somente assim, seria horroroso. O rei e o plebeu, pois, se completam, dão-se um ao outro.
Colocada diante desse quadro e desejando destruí-lo, a Revolução tinha duas soluções: fazer com que todos fossem reis, ou com que todos fossem plebeus. Sendo impossível a primeira solução, adotou a segunda, muito mais conforme, aliás, ao seu espírito democrático. O resultado é que esses valores desapareceram quase totalmente da sociedade.
Elemento de formosura na criação
Há ainda um outro interessante tipo da variedade: o da transformação. Existe no mundo uma transformação constante, um movimento contínuo. Mas as variedades de movimento postas por Deus no universo são graduais, harmônicas, a exemplo das gradações da hierarquia que analisamos na lei anterior. Essa harmonia do movimento constitui um elemento de formosura na criação.

Para exemplificar, consideremos o desenvolvimento da vida humana em um varão justo. O homem nasce, desabrocha com um movimento rico em harmonia na adolescência e nobremente se torna maduro; envelhece em dignidade e, quando Deus chama sua alma, é como que a colheita de um fruto precioso, que vai ser levado para o Céu. É uma bela trajetória.
No entanto, o que quer o espírito revolucionário? Ele pretende que o homem deva ser mocinho até cair morto. Arranjados ou pintados, todos devem parecer ter a mesma e jovem idade.
A Revolução não tolera o plano divino que estabeleceu a desigualdade nas idades. Quando, entretanto, é forçada a reconhecer a sua existência – que não pode ser, aliás, objeto de contestação – procura fazê-lo com uma brutalidade colossal, desconhecendo as gradações entre as idades e desprezando a velhice que para nada serve, já que nada produz…
Pode-se concluir isso observando a vida de uma família antiga e a de uma família moderna. Na primeira, reúnem-se em uma mesma sala os avós, os pais, as crianças, os parentes, os amigos; as mais variadas idades convivem juntas, conversando: variedade na unidade. Na família moderna, se os pais promovem uma recepção, os filhos não devem comparecer. Se estes dão uma festa, os pais – e sobretudo a mãe – devem ausentar-se… Os pais são chamados pelos filhos de “os velhos”, e não querem ter com eles maior convívio. É que a Revolução odeia esse entrosamento, essa articulação entre as idades, que é uma marca da perfeição divina que Deus pôs na criação.
Passemos ao estudo das leis da unidade.
(Continua no próximo número)
(Extraído de conferência de 1/2/1965)
1) Nikolai Nikolaevich Romanov (*1856 – †1929). Comandante em chefe dos Exércitos Russos durante o primeiro ano da Primeira Guerra Mundial.



