O cintilar da Igreja com todas as suas verdades, com todos os seus Santos, com todo o seu passado, com o seu presente é o que há de mais magnífico na Terra. E dentro dessa magnificência, há o ápice incomparável e sublime da Virgem-Mãe.
As graças são progressivas; quanto mais a pessoa reza, mais graças recebe; e quando elas vêm, devemos saber aproveitá-las, caso contrário, não produzirão frutos na alma. A graça é uma força sobrenatural que Deus concede para caminharmos para frente. E, concedendo-a, temos de andar. Ficarmos parados até estarmos inundados de graça para depois resolvermos andar um pouco não é o correto.
Como fazer, quando rezamos, para ter amor à Igreja Católica, como corresponder a essa graça? Devemos desejá-la muito e estarmos atentos a ela, e saber admirar. E quando admirarmos algo, prestarmos atenção e procurarmos compreender e amar aquilo. Então nasce a união com a Igreja Católica.
A Santa Igreja, o refúgio e o bem-estar da alma
Qual é o maior “flash” que eu tive com a Santa Igreja?
Não se pode dizer que eu tenha tido um maior “flash”, porque quem supõe um, supõe muitos outros. Ora, eu tive um só, não um “flash” modesto, mas firme e seguro. Iniciou-se com as primeiras noções que eu tive da Santa Igreja, em que comecei a me dar conta dela, da perfeição dela e perdura até hoje. São oitenta e três anos nos quais eu não considero algo da Santa Igreja que não me dê um fundo de “flash” meio parecido com a Via Láctea no céu.

A Via Láctea parece formar um caminho, uma longa lista de estrelas em tal quantidade que o céu fica um pouco esbranquiçado, percebe-se a olho nu que tem estrelas pelo meio. Por isso, chama-se via, caminho, láctea, de leite, porque é um branco leitoso. Essa é a Via Láctea.
Nossa Senhora teve esta misericórdia para comigo: deu-me uma “via láctea” na qual eu caminho desde o início e, queira Ela, caminhe até ao fim.
Nunca tive uma revelação, nunca me apareceu um Santo, nem nada disso. Tenho tido algumas consolações interiores sobre a Santa Igreja Católica, que é o meu grande entusiasmo e a minha grande consolação, é uma visão contínua da perfeição e da santidade dela, da sua imutabilidade, de que ela é o refúgio, é o bem-estar da minha alma, é o Céu na Terra para mim. E quando eu quero fazer uma meditação sobre o Céu, eu medito sobre a Igreja.
Concretamente, como isso se faz?
A Igreja, durante um dia comum, confere a cada um de nós uma série de impressões. Sobretudo a nós que Nossa Senhora chamou para vivermos tão junto da Igreja, tão dentro dela; nós estamos nos defrontando com ela a todo momento.
Assim, há dois modos de notarmos como é a Santa Igreja. Sabemos como ela deve ser, sabemos qual é a doutrina e a moral católica, portanto, como é a santidade católica. E muitas vezes nós entramos em contato com as realidades da Santa Igreja e percebemos de um modo vivo essa moral existente nela.
O sigilo de confissão jamais rompido
De que maneira isso se faz? Ora é lendo a vida de um Santo, ora recebendo um Sacramento como a Sagrada Eucaristia, como a Confissão. Ainda que tenhamos uma falta insignificante para confessar, ainda que compareçamos apenas para acusar-nos dos pecados do passado e receber a penitência, é impossível que não sintamos a sensação de alma que foi lavada, foi limpa pelo Sacramento da Confissão.
Entra-se no confessionário, o padre é um desconhecido; o que nós não contaríamos a ninguém, contamos para ele. E, às vezes, é alguém que, como homem, vemos não merecer a nossa confiança, mas sabemos que uma coisa é certa: se nos confessamos com ele, nunca contará o que ouviu. Para quem raciocina um pouco já compreende a maravilha que há nisso.
Se eu tivesse a coisa mais terrível para me acusar – uma dessas que, se revelasse, poderia ocasionar à minha vida uma revolução –, eu deveria contar ao padre com todo o sossego, ainda que ele fosse indigno. Mas até nos indignos há esta sublimidade: é um padre da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ou seja, pode ser um homem que não mereça a nossa confiança, entretanto, nós sabemos que há nele uma força de Deus que o ajuda neste ponto: o segredo da confissão ele não quebra.
De onde vem essa sublimidade senão da própria Igreja?
Alguém poderá dizer: “Não seria mais bonito que Deus permitisse que os padres nunca pecassem?” Eu digo: “Não”. É mais bonito saber que para eles, como para nós, o estarmos em estado de graça supõe cuidado, vigilância, sacrifício, luta. Assim, respeitamos o padre bom; quando o encontramos, o cumprimentamos com respeito: “Esse é o ministro de Deus, um homem bom, que leva uma vida santa. Que alegria ter encontrado um bom padre!”
De outro lado, quando nos encontramos com um padre indigno, sabemos que sobre ele ainda pousa uma graça de Deus, pela qual nunca se ouviu dizer que um padre traísse o sigilo de confissão. Não é só afirmar que nunca houve um padre que traísse o segredo da confissão, é mais: os caluniadores não ousam difamar a esse respeito.
Isso não é uma verdadeira maravilha? Ouvindo isso, não temos vontade de exclamar: “Oh, Santa Igreja de Deus! Oh, Céu na Terra para minha alma!”?
O Papa, sucessor de Pedro
Consideremos a coisa debaixo de um outro ponto de vista.
A Igreja é hierárquica e tem como monarca o Papa, sucessor de São Pedro. Há uma tal diferença entre o Papa e todos nós, ele está numa tão alta hierarquia, numa tão alta categoria, que há uma distância enorme entre ele e nós. Mas há algo curioso: qualquer bom católico quando fala do Papa, ainda que ele não esteja contente com ele, fala dele com a maior intimidade, e em sua voz entra um eco de mais afeto do que se ele falasse do seu próprio pai.
Isso é ou não é verdade? O que é isso? É uma graça que Deus dá ao Sumo Pontífice por ser o continuador de São Pedro, o sucessor daquele a quem Nosso Senhor disse: “Tu és Pedro, e sobre essa pedra eu edificarei a minha Igreja; as portas do Inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Oh maravilha!
A sublime condição de Virgem-Mãe
Considerando outro lado das maravilhas que Deus fez na Igreja: é muito bonito uma pessoa ser virgem, mas é muito bonito, ao mesmo tempo, ser mãe.

Lembro-me de ter lido uma carta escrita por uma senhora a um escritor meio francês meio italiano do século passado: Joseph de Maistre.1 Ele era do Piemonte, uma parte de Itália, e escrevia em francês com uma perfeição completa. Uma senhora escreveu-lhe uma carta lamentando não ter o dom de escritor que ele tinha, porque gostaria de poder escrever livros. E ele respondeu com outra carta: “Minha senhora, a senhora se lamenta de não poder escrever livros. Mas a senhora é mãe, gerou e gera filhos. Pobres de nós que não fazemos um filho, mas apenas um livro. Quanto um homem vale mais do que um livro! Fique contente com a sua condição de mãe”. É uma observação muito fina.
Na Igreja o nosso espírito católico fica meio atrapalhado diante dessa sublimidade da condição de virgem, depois da sublimidade da condição de mãe. Nossa alma pediria uma certa unidade nisso. Como é? O que é melhor, ser virgem ou ser mãe?
A Igreja dá uma resposta sublime: é ser Virgem-Mãe. Aquela que foi virgem antes, durante e depois do parto – notem a energia deste pensamento: antes, durante e depois do parto! – esta foi a Mãe perfeita e a Virgem perfeita, Mãe do Filho perfeito, Nosso Senhor Jesus Cristo. É uma resposta que nos deixa…
Imaginem um homem que fosse cego de nascença e recebesse de repente a graça da visão num momento em que ele, por acaso, estivesse olhando para as estrelas durante a noite. A primeira coisa que ele veria seriam as estrelas luzindo, um belo luar do sertão brasileiro brilhando também em meio à escuridão. Esse homem ficaria maravilhado.
Pois bem, isso é incomparavelmente menos bonito do que o cintilar da Igreja com todas as suas verdades, com todos os seus Santos, com todo o seu passado, com o seu presente. E nós podemos dizer: “Somos convidados a ser límpidas páginas desse torvo presente, nós, os que somos fiéis em meio à noite da infidelidade, que somos a estrela no meio da noite”.
E assim eu poderia passar uma noite fazendo elogios sobre a Santa Igreja.
(Extraído de conferências de 4/6/1989 e 26/9/1992)
1) Joseph-Marie de Maistre (*1753 – †1821). Escritor, filósofo, diplomata e magistrado.



