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IX – A imagem-pináculo da devoção a Maria

No afresco da Mãe do Bom Conselho de Genazzano transparece a intimidade do Menino com sua Mãe, parecendo ambos estarem prontos para uma confidência. Do mesmo modo Nossa Senhora trata as almas de seus eleitos e, mesmo quando parece retirar-Se daqueles que A abandonam, conserva dentro da alma destes uma promessa de que retornará.

Pelos acontecimentos que vou narrar, veremos como Nossa Senhora trata as almas que Ela ama muito, das quais, porém, se afasta. Afasta-se, mas continua presente em estado de ruína dentro delas. Ruínas que falam, eu diria quase ruínas que cantam e que convidam para a reconciliação, para o perdão, para a reestruturação.

A veracidade da história se comprova

No século XV não houve grandes controvérsias a respeito da autenticidade do milagre do afresco de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genaz­zano, mas, à medida que o racionalismo foi progredindo na Europa, as dúvidas começaram a nascer. E no século XVII se perguntavam: “Será que existiu na Albânia a igreja de onde ele saiu? Será que esse quadro veio da Albânia? Como se pode provar isso?”

Ora, a Albânia se tornou, pela invasão, um país majoritariamente muçulmano. Isso explica bem porque Nossa Senhora a tenha abandonado.

A nação albanesa estava separada da Itália por algo parecido com a cortina de ferro:1 era um país turco e a entrada de pessoas cristãs não era permitida. Da Albânia não se tinha notícia alguma.

Entretanto, continuou a haver lá um certo número não tão pequeno de católicos, os quais se conservaram fiéis à sua Fé. Por razões ligadas à política – cujos pormenores não é o caso de explicar aqui –, foi permitido a esses albaneses católicos continuar com algumas práticas da Religião.

Apenas no século XVIII, com a decadência do poderio turco, depois de tantos anos de separação, foi possível enviar alguns missionários italianos para a Albânia, que começaram a tomar contato com os católicos albaneses que estavam, até então, completamente isolados. Assim puderam informar-se com facilidade, de modo sumamente direto e, portanto, com toda veracidade, a respeito das circunstâncias da vida religiosa albanesa, mandando relatórios para a Santa Sé, como se faria em qualquer missão.

Gabriel K.

O relatório explicava o que os críticos queriam saber: que existia, de fato, uma igreja da Anunciação, em Scutari. Nela constava que havia um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho, o qual partira misteriosamente antes da dominação turca.

Tomou-se conhecimento também de cantos e hinos religiosos que o povo albanês cantava, pedindo a Nossa Senhora que voltasse porque estavam arrependidos.

Das ruínas, Nossa Senhora voltará a fazer reinar seu Imaculado Coração

Portanto, ficou um resíduo de fiéis o qual Nossa Senhora não abandonou. Mesmo tendo deixado a Albânia, Ela continuou a ter sua mão pousada lá, e o santuário em ruínas continuou habitado pela predileção d’Ela, passando a ser teatro de milagres e lugar de peregrinação. E aí se vê um deixar não deixado, um abandonar não abandonado, um retirar não retirado, quase mais bonito do que o ficar.

Quanta bondade de Nossa Senhora, quanta conservação de sua misericórdia! As punições d’Ela são de mãe que continua a conclamar para a penitência, para a emenda, para uma modificação de vida, e não para o abandono completo e a destruição da nação.

Todos esses fatos se deram porque Nossa Senhora quis conservar a fé entre os albaneses.

É a economia, o modo pelo qual Nossa Senhora não trata o comum das almas, mas as muito prediletas. Por aí se compreende como é a misericórdia d’Ela: mesmo quando Ela castiga e parece se retirar, conserva dentro da alma uma espécie de ruína, de permanência de algo que é um sinal de que Nossa Senhora não a abandonou inteiramente, pois ainda deseja e espera que essa alma seja reconduzida ao bom caminho. E esse algo é como uma lâmpada que se acende no meio das ruínas, é uma luz que continua a brilhar com graças que continuam a ser recebidas, é uma promessa de Nossa Senhora que diz que Ela ainda voltará e fará reinar a virtude, fará reinar seu Imaculado Coração nos lugares que Ela abandonou.

Nesse sentido, eu acho que o afresco da Mãe do Bom Conselho é feito para o desfile inaugural do Reino de Maria. E aparecerá com uma grande ênfase. Pode-se imaginar que a Imagem apareça de corpo inteiro, falando, movimentando-se, enfim, como se Ela tomasse vida e depois voltasse para dentro do quadro.

Atração causada pelo afresco

Há um outro dado curioso: eu li, no livro do João Clá, que na Albânia Ela chamava-se Nossa Senhora dos Bons Ofícios e depois, em Genazzano, passou a ser chamada Nossa Senhora do Bom Conselho. Ora, “Bons Ofícios”, a meu ver, equivale a Auxiliadora, porque se alguém me fez bons ofícios, significa que me auxiliou em certas circunstâncias. Essa coincidência com a invocação da Virgem de Lepanto pareceu-me muito interessante.

Que imagem, como esta, pode ser apresentada como foco de devoção? Certas imagens de Nossa Senhora das Graças são muito expressivas, mas absolutamente não são como esta.

A meu ver, a escravidão a Nossa Senhora, ou seja, o pináculo da devoção a Ela, deve voltar-se normalmente para a imagem-pináculo, que é a Mãe do Bom Conselho.

Quando estamos diante d’Ela somos atraídos pela imagem e algo da doçura e da suavidade d’Ela comunica-se a nós, deixando-nos como que suavemente hipnotizados.

É incrível, mas o olhar d’Ela e do Menino chamam tanto a atenção…! Fica-se com os olhos fixos no afresco, desejando passar uma eternidade olhando-o. A tal ponto que há momentos em que não é possível sequer recitar o Rosário; é preciso parar de rezar… Fica-se sem saber o que dizer… é um milagre permanente.

O olhar do Menino Jesus tem o feitio de razão de um homem, por assim dizer; Ele é um varãozinho. O d’Ela é de Senhora, de uns trinta e poucos anos, mas não é tão determinado como o do Menino Jesus, não tem os contornos do olhar d’Ele. É meio impreciso, nota-se uma certa incerteza. Entretanto, para ter o Menino com essa idade, Nossa Senhora deveria ser muito mais moça. A característica da infância n’Ele, no afresco, é precocemente maturada. É um Menino que sabe o que quer, dir-se-ia já dotado de razão, embora Ele não o deixe transparecer.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 25 de setembro de 1988

A testa de Nossa Senhora na fotografia é ligeiramente rosada. Ela está com uma espécie de liberdade, muito natural e quase suave. A cor do seu vestido é escura. As estrias, no fundo, são de cores vivas. Aquele como que fio de metal que sai da orla do manto, está muito costuradinho no tecido de cima, e faz gomos. Não tem nada de apertado, tudo é muito direito, muito natural.

Intimidade atraente, cheia de sobrenatural

Entre Nossa Senhora e o Menino Jesus há uma intimidade própria para uma confidência. É uma intimidade tão grande que a atmosfera está pronta para o Menino Jesus dizer uma coisa ao ouvido d’Ela, e Ela responder a Ele ou dizer algo a Ele, baixinho, e Ele responder. Não estão fazendo confidência, mas está tudo pronto para tal.

Imaginemos a língua que eles falavam, o aramaico. Por exemplo, no alto da Cruz Nosso Senhor disse a Nossa Senhora: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26), com a conotação de “Minha Rainha, eis aí teu filho”. É preciso dizer, por mais que se admire, o latim não estava à altura d’Eles. A construção desse idioma é muito arquitetônica, muito raciocinada, mas não tem a graça, os afetos, o carinho do aramaico.

Por outro lado, contemplando a expressão fisionômica de Nossa Senhora, se eu não a interpreto mal, é um pouco rêveuse,2 de alguém que está se deleitando com a presença do Menino Jesus e assim entregue a um grau de elevação sobrenatural muito alto; não é algo como tinha Santa Teresa de Jesus, mas discreto, suave.

Nesse relacionamento seria legítimo imaginá-Los prelibando o cálice da amargura. Não é isso, porém, que transparece no afresco. Tem-se a impressão de que o mistério da vida de Nosso Senhor o veriam depois, e de que, no momento, Eles estão com os olhos postos no encontro dos dois no Céu, onde, por toda a eternidade, Ele estaria num fastígio de glória inconcebível, mas unido a Ela assim, como no quadro.

Os atributos que lhe cabem por ser Mãe do Homem-Deus, Esposa do Divino Espírito Santo e Filha por excelência de Deus Pai são inenarráveis, celestiais. Evidentemente, não são contestados por nada na pintura, mas também não se deixam ver de propósito.

Parece que o artista conheceu Nossa Senhora nesta vida e acabou pintando algo do que ele viu n’Ela, sem estar glorificada, mas d’Ele e d’Ela pensando na glorificação. Podemos imaginar quando Ela ouviu Nosso Senhor dizer ao Bom Ladrão: “Hodie mecum eris in Paradiso – Tu estarás hoje comigo no Paraíso” (Lc 23, 43), como Nossa Senhora ficou alegre com isso, compreendendo que, no meio da noite em que Ele estava, a certeza de o Paraíso estar próximo O ­iluminava!

1) Cortina de ferro: expressão usada, durante a Guerra Fria, para designar a divisão existente entre os países capitalistas e socialistas da Europa.

2) Do francês: sonhadora.

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