jueves, julio 25, 2024

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Bécassine, o espelho da França arquetípica

Mergulhando na vastidão do seu discernimento, Dr. Plinio analisa os aspectos arquetípicos da França anteriores à I Guerra Mundial, descrevendo com suma atração e encanto os desenhos da história da menina bretã, Bécassine.

Já tive ocasião de narrar o histórico de minhas viagens à Europa, as pessoas que conheci por lá, suas atitudes ideológicas ou táticas em face do confronto entre a Revolução e a Contra-Revolução, e quais eram os elementos contrarrevolucionários atuantes, militantes na Europa dos dias em que a visitei.

J. Pinchon
Ilustrações: J. Pinchon

Nessas narrações tive como corolário a necessidade de descrever um ou outro personagem e o ambiente no qual ele se localizava. E, de proche en proche1, fui movido a patentear a diferença entre a Europa arquetípica, desde Carlos Magno até seus últimos haustos em 1914, e a do período em que começou sua agonia, a qual perdura até hoje.

Falarei agora a respeito dos tipos e arquétipos dos países europeus, dando uma ênfase especial à nação francesa, com vistas a diferenciar a França arquetípica daquela que encontrei.

Um verdadeiro manual de psicossociologia

A França arquetípica foi a que viveu, sob aspectos e graus diversos de Revolução, até a I Guerra Mundial. Entre as duas guerras, essa nação já começava a se tornar decadente pela inferioridade que toda a Europa sentia em relação aos Estados Unidos. Após a II Guerra Mundial, ela já não era mais arquetípica.

Como apresentar, então, essa França arquetípica da Belle Époque, ou seja, anterior à I Guerra Mundial?

Uma saída idônea que encontrei foi tecer algumas considerações sobre uma historieta em quadrinhos. Talvez, qualquer francês que ouvisse dizer isso daria risada; contudo, eu não só penso, mas afirmo ser assim. A França arquetípica está apresentada naquilo que eu chamaria de verdadeiro manual de psicossociologia: as ilustrações que o Comandante Pinchon fez para a Bécassine. Aquilo é um encanto, um prodígio de psicologia e do estudo de hábitos sociais!

Seria muito interessante, útil e concludente se tomássemos várias figuras de um álbum da Bécassine e fôssemos examinando os desenhos para entendermos a arquetipia da França, porque há certas realidades que a linguagem humana não consegue descrever, pois não esgota nem contém inteiramente, de tal maneira são inesgotáveis.

Desde pequeno fui leitor da Bécassine, e passados sessenta anos, voltei a tomar contato com a história da menina bretã. É verdade que a historieta me impressionava muitíssimo menos do que os desenhos, porque considerava a narração feita para crianças, que faz sorrir e produz um certo entretenimento, mas não passava disso.

Os desenhos não, pois sempre reputei o indivíduo que os fez – o Comandante Pinchon – um verdadeiro psicossociólogo, como eu entendo que este deve ser. Ele tomou a figura típica dos homens da época, no estilo da vida corrente de então. E assim ele retrata épocas inteiras nas circunstâncias da vida familiar.

Pretendo, portanto, fazer o comentário dessas figuras do ponto de vista psicossociológico; não considerar apenas o aspecto sociológico. Minha intenção é analisar qual a mentalidade contrarrevolucionária da época e como ela ainda se fazia perceber em alguns aspectos, até ir cedendo e desaparecendo gradualmente.

Os dois polos da simbologia: a elite e a plebe

Recordemos que Bécassine era uma camponesa da Bretanha, filha do casal Labornez. Eles moravam numa aldeiazinha de nome encantador: “Clocher-les-Bécasses”, a qual existia em função do castelo de um casal de marqueses, Monsieur le Marquis e Madame la Marquise de Grand-Air.

É mister notar que na história da Bécassine há dois ambientes diversos: um é antes da guerra, onde se delineia a França arquetípica ainda vivendo os seus últimos dias; outro é durante e depois da guerra. Começa a mudar o ambiente para entrar um outro mundo muito mais revolucionário, no qual as arquetipias começam a cair.

J. Pinchon
Ilustrações: J. Pinchon

Fixemos a atenção em duas figuras centrais, os dois polos da simbologia. A Madame de Grand-Air – a Senhora dos Grandes Ares – e a Bécassine representam a elite e a plebe, embora não propriamente contrarrevolucionária, mas, ao menos, não revolucionária. Elas vivem como se não soubessem que há uma Revolução, não se estranham nem lutam contra ela. E mais ainda: diante de alguns fatos revolucionários, o narrador da Bécassine não a põe indignada, mas apenas espantada.

Por exemplo, o caso do sobrinho de uma parente da Madame de Grand-Air.

Após a II Guerra Mundial, Bécassine vai a um prédio de apartamentos, muito bonito e bem arranjado, para prestar serviço de empregada doméstica a uma parente da Madame de Grand-Air, fazendo-lhe um favor porque não tinha criados.

Chegando lá, pergunta pelo zelador e lhe explicam que este se encontra no apartamento dele. E ela diz:

— Mas, como? O zelador mora num desses apartamentos de donos?

— Sim. – era um conde, o zelador do prédio.

Ela se espanta e diz:

— Como assim?

— Ele é sobrinho da Sra. Condessa – aquela a quem ela iria prestar os seus serviços, e que morava em outro andar –, mas por causa do congelamento dos aluguéis, ficou muito pobre. É por isso que o Sr. Conde serve de zelador, enquanto os outros donos pagam para ele manter os apartamentos e evitar que entre gente indigna de morar aqui.

Ele era, ao mesmo tempo, empregado de todos, amigo de todos, parente de alguns, e nas horas livres, almoçava e jantava nos apartamentos de seus iguais. É um fenômeno eminentemente revolucionário. A Bécassine mostra uma surpresa engraçada e até divertida do fato, mas não tem indignação. Também não mostra comprazimento. Ela passa sem tomar uma atitude doutrinária.

Inclusive, após a guerra, nota-se que a Madame de Grand-Air perde também algo dos seus ares de grandeza, pois ao perder sua fortuna, vai morar numa casinhola em Versailles, onde, empobrecida, passeia junto com sua cozinheira num parque abandonado. Tempos depois, a marquesa recupera a fortuna, porém já não volta a ser o que era antes da guerra. A única a permanecer sempre a mesma foi a Bécassine.

Em fatos como esse, podemos discernir o espírito de quem escreveu a história. E os desenhos feitos pelo Comandante Pinchon constantemente revelam e representam essa vida da França, paradigmática, que eu nem saberia bem como descrever.

A Madame de Grand-Air no Batizado da Bécassine

Para podermos fazer uma sessão de arquetipia, eu escolheria uma cena característica de antes da Guerra: a cena da Madame de Grand-Air, ainda muito jovem, chegando à aldeia, na carruagem dela, para o Batizado da Bécassine, pois fora convidada para ser a madrinha da menina.

Ilustrações: J. Pinchon
Ilustrações: J. Pinchon

Analisemos a cena. Vemos três pessoas presentes: a marquesa, o cocheiro e um camponês, provavelmente Monsieur Labornez, que vem receber a marquesa. Também estão presentes três animais: dois cavalos e um cachorro. E não podemos deixar de analisar a carruagem.

Madame de Grand-Air é apresentada com um misto de moça e de senhora. O que ela tem de moça? A fisionomia, a impostação da cabeça, o olhar, a leveza dos gestos com os braços, o formato do corpo, as cores alegres do traje, a sombrinha vermelha, o chapéu com um laço de fita grande do lado; tudo isso sugere juventude. O que indica ser a marquesa uma senhora formada? Ela está sozinha na carruagem, sentada do lado direito, conforme mandava o protocolo quando alguém viajava só.

Os dois braços são simétricos, revestidos de duas grandes luvas de pelica branca que chegam até à manga do vestido. Ao erguê-los, a fisionomia da nobre fica quase como entre uma moldura; é um movimento sumamente distinto. O braço esquerdo é tão leve, parece não estar sujeito à ação da gravidade, como se a sombrinha não estivesse pesando nada. O outro braço saúda Monsieur Labornez de um modo afável.

O pudor do traje é notável. Vejam até onde chegam a gola e a saia. Ela está toda coberta.

Ela demonstra uma grande segurança. Ela está sentada no coche, com o corpo e a cabeça erguidos, e, apesar de o olhar ser benévolo para com Monsieur Labornez, ela o olha muito de cima, propriamente como se deve olhar um camponês que trabalha para ela. Quer dizer, ela conhece e sabe marcar a distância, mas, sobretudo, sabe fazer incidir o arco-íris da benevolência e da simpatia, de maneira que ela é muito agradável no olhar.

Um cocheiro dignificado pelo contato com a nobreza

A importância da marquesa é realçada pelo cocheiro. Notem como a indumentária dele está bem cuidada: uma espécie de dólmã ou paletozinho sobre um colete vermelho, uma cartola com uma fita enrolada. O jeito de ser dele é teso, com a corpulência de um banqueiro quando vai chegando aos sessenta anos. Ele está guiando a carruagem dentro da aldeia, portanto, no meio dos camponeses. Se estivesse percorrendo o Bois de Boulogne, não poderia estar mais solene. Dir-se-ia estar transpondo uma avenida onde reis, príncipes ou milhardários são tão frequentes como as crianças correndo pelas ruas.

Ele conduz a carruagem ufano de sua importância, não tanto por guiar os cavalos, mas por transportar a Madame de Grand-Air. Sua fisionomia exprime o seguinte: “Vejam como eu sou importante porque levo aquela que vem atrás! Senhores, abram caminho, a marquesa está passando!”. Essa atitude do cocheiro contrasta com a afabilidade da marquesa. É muito apropriado a uma senhora que é superior fazer-se preceder por um homem capaz de defendê-la, dando-lhe a possibilidade de ser leve e graciosa, e muito bem acolhida, porque tem quem garanta o respeito.

A marquesa não é tão rica quanto fina. Percebe-se que ela tem dinheiro, mas chama maior atenção a sua distinção. O cocheiro, pelo contrário, é um homem do povo, mas pelo fato de estar em contato contínuo com ambientes excelentes, algo lhe impregnou, resultando um homem muito mais imponente, como alguém que frequenta grandes casas, do que um tipo corpulento carregador de estação de trem.

Enquanto a marquesa olha o Sr. Labornez com toda a amabilidade, o cocheiro permanece sério sem o fitar, porque o camponês, para ele, é inferior. Assim lhe dá a entender de forma implícita: “Cuidado porque ela é uma marquesa!” Desta maneira a ordem social fica resguardada no equilíbrio de seus dois elementos constitutivos, a reverência e o afeto.

Aspectos auxiliares ricos em significado

Os cavalos têm parte nisso: brancos, muito bonitos, limpos e bem cuidados, com antolhos e peitoral de couro bege, muito harmônicos entre si. Sem serem cavalos de altíssima qualidade – são próprios a uma marquesa, ela não é uma princesa – andam bem ajaezados. Aliás, esses animais têm um ar de pessoas sensatas, criteriosas, que fazem o seu caminho com uma certa seriedade e não impõem risco nenhum, como se estivessem habituados a trotar pelas ruas de Paris.

Merece especial atenção o caniche, raça de cachorrinho, de estimação do marquês e da marquesa. Uma mascote preta, ultralavadinha, como se percebe no desenho, vestida com uma espécie de roupinha, mas não é para agasalho. Pelo traje da marquesa e do Sr. Labornez, e por toda a luminosidade espalhada na carruagem, percebe-se ser um dia claro e quente. Logo, a veste do cachorro é apenas para deixá-lo mais bonitinho, levezinho, pois sendo um animal preto, fica engraçadinho estar vestido de branco. Está feito o contraste.

Divulgação (CC3.0)É evidente que o caniche vinha na carruagem e quando esta parou, com a vitalidade própria a esse tipo de bichinho, saltou e começou a correr pelo chão, e o Comandante Pinchon quis acentuar a nota leve e graciosa pelo modo de desenhar o rabinho, as orelhas muito pontudas, as patas bem esticadas, tudo isso dá a ideia de vitalidade e leveza, de salto ágil. Além disso, o pintor deixa transparecer algo da vida delicada e íntima da marquesa, pois evidentemente é um bicho habituado a ser tratado como bibelot, está sempre contentíssimo porque só tem mãos de veludo para acariciá-lo, recebe leite do melhor para beber e, se duvidar muito, ele come brioche molhado no leite.

Esse caniche está para demais cãezinhos como a marquesa em relação a uma mulher comum que anda pela rua. Tudo quanto cerca a marquesa é “amarquesado”! É o décor da marquesa.

Para que tudo fique bem estudado, falta analisar a carruagem. O estofado dela é capitonné verde-musgo. É um sistema de forrar sofás ou qualquer mobília de couro pregando botões profundos. Já as partes exteriores são pretas. As rodas são de cores claras, pouco contrastando com o bege dos cavalos, mas o eixo da roda, a parte mecânica, é preta também.

Solenidade e leveza no senso de proporção próprio do francês

Qual é a razão de ser disso? Segundo o bom gosto, um veículo desse gênero deve ter cores escuras do lado de fora para dar uma boa impressão, mas por dentro cores claras para ficar agradável. Ainda mais quando a carruagem fica toda aberta e vê-se por inteiro seu interior, causando essa impressão de algo leve. O preto é solene. Solenidade e a leveza se aliam aqui mais uma vez com aquele senso de proporção próprio do francês.

Agora, é preciso olhar para as luminárias. Habitualmente, o tampo das lanternas era de cristal e a faces internas de espelho, de maneira a irradiar a luz para todos os lados. A parte de ferro é toda ela preta, mas há uma parte niquelada no cabo e em cima. Aqui as representam prateadas, mas costumavam ser dourada. Todos esses detalhes serviam para marcar a solenidade do preto, a alegria e a leveza do aspecto ornamental da carruagem, que eram as lanternas.

No total, vê-se como o número de formas, de cores e desenhos, que uma carruagem como essa comporta, é coerente e bem analisado. Corresponde a um período que ainda possuía vestígios do Ancien Régime, no qual tudo procurava realçar nos grandes personagens a delicadeza, a finura, a elegância e o requinte. Uma época em que o poder e a riqueza estão presentes, mais insinuados do que mostrados. Tudo quanto é matéria fica meio disfarçado, enquanto o principal, que é o espírito, aparece bem definido, ou seja, a leveza, a distinção, a elegância, também o recato e a pureza.

A marquesa é uma pura mãe de família que cuida de si, e não tem nada do que hoje se chamaria sensual. Além dela, o cocheiro e até o Sr. Labornez são tais, que a preocupação sensual não passa pela cabeça deles, e nem sequer o mundo do horror, da tara e do vício. Por exemplo, ninguém poderia imaginar essa carruagem parar numa cidade moderna, junto a um quiosque, e alguém entregar para a marquesa uma revista imoral. A simples hipótese é desagradável! De tal maneira esse mundo de beleza e distinção está distante da corrupção. A virtude, portanto, está colocada no candelabro, enquanto a corrupção se esconde no bueiro.

Descrevendo o Monsieur Labornez

Falta-me examinar o pai da Bécassine. Ele não é americanizado nem anglicanizado. O francês de antes desse século não usava cabelo curto, mas comprido; os nobres usavam uma peruca. O cabelo do Labornez está lavado e penteado com aquele típico pente grosso, chega até os ombros e na fronte forma uma franjinha, mas não tem nada parecido com o sistema hippie. O todo dele dá uma impressão agradável de saúde, limpeza, calma e confiança reverente na marquesa.

O pai Labornez evidentemente não é um homem gordo, mas também não é magro. Dá a ideia de estar bem nutrido, pois é um trabalhador manual. O cajado dele, por exemplo, serve tanto para espantar gado no campo como para ajudá-lo a andar. Apesar de ser um camponês, trabalhador manual no campo, o Sr. Labornez não é um sans culotte2, ele usa culotte e meia comprida, à maneira dos fidalgos no Ancien Régime.

A roupa dele se compõe de duas peças: uma blusa ou paletó de cor azul-claro, alegre, limpo e bem conservado, embora já meio usado, feito de um pano forte, difícil de desgastar. Na ponta da manga que encosta no pulso tem uma aplicação de tecido avermelhado, lembrando um pouquinho o paletó do cocheiro. Finalmente, um meião grosso, que nem mosquito ou abelha conseguem furar.

O desenho é tão cuidadoso que até a meia tem um detalhe. Na parte inferior, onde toca no tamanco, tem uma aplicação vermelha parecida com a da manga. Com certeza, foi bordada pela Sra. Labornez em noite de inverno. Aliás, essa roupa é feita em casa, não pensem ser comprada em loja. E notem, é traje de festa! É capaz de ter sido a roupa do casamento dele, confeccionada há seis ou sete anos, mas ele a traja em dias solenes como na noite de Natal, na Páscoa, quando tem algum casamento na aldeia, no Batizado da filha, na festa de posse do prefeito, etc.

Todas as figuras são feitas para despertar um discreto sorriso. Pinchon desenha as pernas fininhas, um tanto irregulares, modeladas pelas meias, contrastando com a calçona bufante – de linho ou um tecido qualquer branco, e provavelmente um cinto de couro com um fivelão comum que não aparece aí –, e os tamancões nos pés, o que indica falta de origem aristocrática.

No chapelão do Sr. Labornez vemos a mesma combinação de uma cor mais clara com a faixa preta. Ele tirou inteiramente o chapéu para saudar a Madame la Marquise. Inclusive, percebe-se que levanta o olhar para vê-la. Ele é respeitoso, mas não está nem um pouco tenso, nem torcendo em nada, porque ela o coloca à vontade. Ele está muito alegre em vê-la e se sentindo muito honrado. A palavra francesa adequada para isso é flatter com a presença da marquesa.

Pinchon soube aproveitar muito bem as cores para valorizar o desenho. A moldura preta do paletó dá um ar um pouco mais sério e varonil, enquanto o azul-claro tende para a jovialidade de um homem que está fazendo seus trinta anos, mas já é um chefe de família casado e com responsabilidades.

Com isso, está esgotada a chegada da marquesa ao Batizado da Bécassine. Para uma próxima ocasião eu gostaria de tratar a respeito da alegria e a vida do povinho, como também da marquesa. Versar sobre a concórdia e não a luta de classes.

(Extraído de conferência de 10/5/1980 e 14/5/1980)

1) Expressão francesa que significa “passo a passo”. Literalmente, “de próximo em próximo”.

2) Do francês, literalmente, “sem culote”. Termo que durante a Revolução Francesa passou a designar os revolucionários insurgidos contra a nobreza, cujos membros usavam os característicos culottes.

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