O cisne é eminentemente seletivo, aristocrático, calmo, alheio a tudo o que é terra a terra. Ele propicia a tendência de querer a perfeição em todas as coisas.
Quando menino, passeando pelo Parque Antártica, eu via os cisnes saírem daquela casinha de porcelana – a qual me parecia um encanto – e porem-se a nadar.
Alegria de possuir uma relação especial com Deus
Contemplando os cisnes, eu me compreendia melhor, porque o nadar deles era uma imagem daquilo que eu fazia. Por quê? Porque o cisne nadava tranquilo, sem preocupações. Quando ele precisava se alimentar, comia um bichinho que encontrava na água. Ele o olhava e não avançava logo em cima; esperava um pouquinho, mergulhava a cabeça e pegava o bichinho no lugar certo onde ele estava. Não tinha luta nem nada, o inseto era deglutido sem mais conversa e ele continuava a nadar com aquela sobranceria, aristocrático, calmo, mas dominador.
Puro, limpíssimo, às vezes eu o via abrir a asa e meter a cabeça debaixo para limpar o bico em contato com alguma penugem mais delicada que talvez houvesse ali. Tirava a cabeça e continuava distintíssimo por cima da água, como quem não tivesse feito nada de prosaico.
Tinha-se até a impressão – obviamente falsa – de que o cisne tinha consciência do que ele era, do que ele devia ser, das distâncias, das sobrancerias, como quem dissesse o seguinte: “Eu sou assim, mas o sou porque tenho um comércio especial com quem está em cima. Eu tenho um contato com Deus, um teor de relações especial, que é a alegria da minha vida”.
Esse é o estado de inocência que me dava uma alegria, uma felicidade de viver, tranquila, calma, pura. Não há nenhuma felicidade que o homem maduro possa ter depois que valha tanto.
Isso cria uma situação não propriamente de pouco caso para com os outros, mas de saber colocá-los na posição que lhes é devida. Para qualquer pessoa existe uma ordem de valores na qual há, sobretudo, ela e Deus, e o resto é secundário: “Dê no que der, seja como for, o que fulano achou de mim, o que outro achou… não tem importância”.
Se o sujeito não é cisne, Deus o criou pardal. Ele deve querer ser como Deus o criou. Cada um deve se pôr na sua posição e, a partir daí, construir sua vida, mas nessa contemplação contínua que foi imaginada no cisne.
Animal eminentemente seletivo
Qual é o resultado prático dessa posição? É dar-nos uma tendência à própria perfeição. Eu não sou senão cisne, é um colosso ser cisne, mas o problema não é esse, e sim ser, enquanto cisne, perfeito. E querer a perfeição para tudo.
São Tomás era tudo quanto era – um sol! –, mas não encontramos nele a ideia de que as coisas temporais existentes podem manifestar uma certa perfeição e excelência verdadeiramente religiosa e sacral.
Por exemplo, as considerações feitas sobre o cisne, o que têm de religioso ou sacral?
O cisne é eminentemente seletivo. No modo pelo qual ele desliza e olha para a água, não tem nenhum desprezo por ela; ao contrário, o cisne gosta da água, mas sente em relação a ela uma alteridade perfeita e uma superioridade.
Por outro lado, o modo como ele come um verme. É um aspecto inferior da natureza dele comer isso. Então ele mete a cabeça dentro da água e come rapidamente, quase se diria que ele se envergonha daquilo que faz, porque o cisne não come nada que esteja à altura dele ou que peça dele um movimento elegante, como faz para tudo.
Nessa hora, tem e aparece nele o prosaico, que existe em tudo, e o cisne parece sentir e pedir desculpa. Encontra, apanha e come sem demora. Depois continua como se não tivesse comido o verme.
A minhoca nojenta é para ele um petisco, ele a degusta, mas é como quem não tem nenhuma relação com aquilo. Ele continua sobre as águas. É assim que ele faz.
Essa atitude do cisne, eminentemente seletiva, tem qualquer coisa de paradisíaca, como a de uma ave que nasceu para outras áreas e outras coisas e a qual as circunstâncias jogaram naquele tanque de água onde o cisne está; mas ele protesta e se mantém distante, como quem diz: “Com isto eu não tenho nada”. Alheio a tudo, é alheio ao próprio terra a terra existente nele, como em toda a criatura deste universo aqui.
Portanto, ele é tão seletivo que não se mistura nem sequer consigo próprio.
Contemplação do cisne em face do universo
Por outro lado, mesmo sendo um animal irracional, o cisne como que tem fantasia e vive num mundo de sonhos que não é aquele no qual está; e ele tem uma certa tristeza de exílio.
Em muitos momentos, na relação do cisne com a água, ele como que diz: “Água, tu não és aquela terra sólida e vil que te prende dentro das tuas margens, tu és uma coisa superior. Tu refletes o céu, tu és um espelho. Água, eu me sinto teu aliado, porque eu espelho e represento uma coisa que não existe. E me recuso a alegrar-me com qualquer coisa fora disso. Mas saiba o seguinte: nos momentos em que eu deslizo sobre ti e eu sou o teu sonho, tu não és o meu, porque eu cogito uma coisa mais alta do que tu”.
Há, portanto, um movimento na atitude do cisne face ao universo: em certo sentido, desprezar aquilo que o universo tem de agressivamente insultante perto dele.
Por exemplo, bate um vento, levanta a poeira e esta cai na água e no cisne. Ele não foge ridiculamente, não trava um combate vil contra a poeira procurando espantá-la; ele a ignora, se deixa empoeirar, e ele nada mais um pouquinho. Em certo momento, quando não se percebe, ele está se lavando, fazendo uma imersão com a qual ninguém contava. A poeira foi embora e ele continua perpetuamente limpo. É muito bonito isto!
Esta descrição, na realidade é uma contemplação.
Consideração altamente religiosa
No entanto, onde o espírito religioso está presente nisso? Trata-se de uma consideração altamente religiosa e contemplativa? É o problema e o ponto terminal.
A resposta, a meu ver, deve-se entender assim: Deus colocou no animal um símbolo para que o homem sinta os estados de espírito que o animal não tem, mas que ele, homem, deve sentir.
No que isso é religioso? É religioso por causa da interpretação das altíssimas realidades que faz sentir. Tão, tão altas que elas, por sua natureza, são religiosas, por serem sacrais.
Por exemplo, imagine um menino que quisesse apedrejar o cisne e saísse correndo de um lado para outro do lago, até forçá-lo a se refugiar passando para a terra, e obrigasse o cisne a correr porque ele quase não voa. Então dá gargalhadas vendo-o correr, e depois começa a dar pontapés, até que o cisne entra na água de novo, todo machucado, e surge uma poça de sangue em torno dele.
O que mereceria um menino como esse? Um castigo parecido ao que se daria a um sacrilégio. Porque o menino quer achincalhar para não se sentir tão inferior ao cisne. Existe na alma dele algo tão ruim… A meu ver, é um pecado. É o pecado de Revolução.
Em sentido contrário, todo homem deve ter essa atitude do cisne e de tudo o que é à maneira dele, ou seja, o homem de alma nobre é partidário de tudo quanto é “cisnífero” sobre a Terra.
(Extraído de conferências de 6 e 13/6/1993)









