Envolvendo virtudes que parecem antitéticas, a alma do grande São Vicente de Paulo, ao mesmo tempo tão combativa e tão compassiva, é o exemplo perfeito do bom espírito daquele que adere com a inteligência e a vontade, sem infiltrações de preferências pessoais, a todos os princípios da Santa Igreja.
Muitas vezes eu me tenho perguntado qual é a razão da união de almas que caracteriza tão especialmente o nosso Movimento; união que se traduz numa concórdia na ação e na vida cotidiana, que é uma das nossas maiores graças.
A união, uma grande graça
Várias vezes, recebendo visitantes da Europa, mais de um me disse: “Agradeça a Deus essa união que reina aqui e peça sempre que Ele continue a dá-la”. Eles se impressionam com aquilo que há de compacto e de maciço no Grupo.
Isso me faz lembrar um sacerdote da Paróquia de São Vicente, perto de Santos, que me perguntava uma vez se eu não podia entregar-lhe nosso regulamento. Eu disse:
— Não temos regulamento.
Ele, acreditando pouco no que eu dizia, insistiu:
— Eu queria que o senhor me desse pelo menos o artigo que atribui poderes ao senhor, para ver como mantém todos unidos.
— Não há regulamento, não existe esse artigo.
— Como?
Eu nem soube o que responder. Porque essa união é uma graça tão grande e é um fato tão natural, que nem me passou pela cabeça como lhe explicar isso.
União com base em princípios supremos, livre de caprichos pessoais
De fato, quando há um mesmo espírito e quando este procura ser e é inteiramente bom, ortodoxo, quando nele não entram infiltrações de preferências pessoais, de manias, de caprichos individuais, mas nele a alma procura conhecer e aceitar por inteiro a Revelação, o Magistério da Igreja, e modelar-se segundo o ensinamento recebido e não segundo si mesma, quando esse espírito se desenvolve ao calor da devoção a Nossa Senhora, existe algo que é mais eminente do que uma humilde doutrina, que é a profissão ardorosa, entusiástica, sem restrições, incondicional de alguns princípios supremos, dos quais todos os outros princípios decorrem por via de consequência.

Isso é o bom espírito, a união inteira da inteligência e da vontade nesses princípios que traz a adesão aos outros princípios secundários, e que faz também a coesão na ação.
A propósito disso, eu gostaria de comentar algo sobre o espírito de São Vicente de Paulo.
Desfazendo o mito da incompatibilidade entre as virtudes
São Vicente de Paulo era, ao mesmo tempo, o Santo da combatividade e da caridade. Da combatividade em dois terrenos: o doutrinário, no qual combateu os jansenistas com meticulosidade, política, tática e estratégia. Ele os combateu em Roma, na corte do Rei da França, na nobreza, no clero, no povo, de todos os modos possíveis, com sua imensa influência pessoal. Além da combatividade intelectual ele também quis armar uma cruzada contra Túnis e, nesse sentido, dirigiu-se ao Rei de França.
Ao mesmo tempo, era o Santo da caridade, da compaixão. Encontramos nessa conjunção uma rara e alta manifestação de bom espírito. Porque, segundo a opinião corrente, quem é muito combativo, não é muito compassivo, e quem é muito compassivo, não é combativo.
Como nós somos muito combativos, chegam à conclusão que nos falta compaixão. Dizem que somos duros, severos, vingativos, temos em nossa alma toda a maldade que eles atribuem aos inquisidores, a Torquemada1 e ao grande São Pio V,2 por exemplo. Trata-se de destruir esse mito.
Quem é verdadeiramente compassivo é combativo. Quem é santamente combativo é compassivo. Se a combatividade e a compaixão são virtudes, não pode haver entre elas uma incompatibilidade. Pelo contrário, todas as virtudes são irmãs, revertem umas nas outras. Imaginar que uma pessoa possa ter uma virtude e por isso não tenha a virtude oposta, é ignorar o bê-á-bá da virtude.
O bom espírito consiste, isto sim, em ser combativo contra aquilo e aqueles que se deve combater e nas horas certas, com toda a energia; ser compassivo para aqueles com quem se deve ter compaixão, nas horas em que é necessário e na medida em que é preciso.

Vê-se bem isso na índole da Igreja, que ao mesmo tempo instituiu as ordens de cavalaria e as ordens de enfermeiros e enfermeiras, que curam as feridas.
Pode-se conceber perfeitamente um exército católico com uma ordem de cavalaria para ferir os adversários, e depois uma ordem de irmãs de caridade para cuidar desses feridos com as devidas cautelas, e nos termos necessários, sem humanitarismo. O verdadeiro católico ama o bem sob todas as formas, e como o bem é difusivo de si, ele é compassivo.
Uma indomável combatividade pode e deve coexistir com uma meticulosa compassividade
Mas não é possível amar o bem sem odiar o mal. Qualquer amor ao bem que não redunde em ódio ao mal, não é verdadeiro. Se uma pessoa ama o bem, pela mesma razão pela qual é combativo, é compassivo.

Uma indomável, feroz e tremenda combatividade pode e deve coexistir com uma dulcíssima e meticulosa compassividade, desde que esta não signifique pactuar com o mal, consentindo que ele continue quando deve morrer, ou que continue atuando, pelo menos ferido e incompleto, quando ele deve ser exterminado radicalmente. Consentir que lhe restem algumas armas na mão, restos de prestígio, de influência. Contra o mal, a ofensiva deve ser inteira para desarmá-lo por completo. Fora dessa medida, a mais requintada, extrema, e delicada suavidade é o corolário da combatividade.
Eliminado até em suas sementes, arrasado o mal e negados a ele todos os quartéis, humilhado, destroçado, privado de todos os meios de ação e de todo o prestígio em toda a medida em que seja possível neste vale de lágrimas, o resto é tarefa da compaixão.
Na junção dessas duas coisas entendemos o que é o bom espírito, envolvendo virtudes que parecem antitéticas, mas que são uma só virtude.
Isso nos explica a alma do grande São Vicente de Paulo, ao mesmo tempo tão combativa e tão compassiva, igual a de todos os outros Santos, inclusive dos cruzados, dos Santos inquisidores e dos que fundaram ou se santificaram em Ordens de Cavalaria.
(Extraído de conferência de 20/7/1965)
1) Tomás de Torquemada (*1420 – †1498). Alcunhado o Grande Inquisidor, Inquisidor-Geral espanhol.
2) De nascimento chamado Antônio Ghislieri; foi o 225º Papa, governou a Igreja de 1556 até sua morte em 1572. Foi também inquisidor.



