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Um canal lilás e prata que conduz à Santa Igreja

É conhecido o quanto Dr. Plinio admirava sua mãe e como transbordava de afeto para com ela. Entretanto, o amor que lhe devotava era porque via nela um canal muito direto, muito cândido que o conduzia à Igreja. Por isso afirmou certa vez: “Com respeito, com veneração, a verdade precisa ser dita: mãe, mãe mesmo, minha mãe, é a Igreja Católica Apostólica Romana!”

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O ponto de encontro da ogiva da Igreja Católica é Nosso Senhor Jesus Cristo. Abaixo d’Ele, Nossa Senhora, e o Reino de Maria seria o topo da história da Igreja. Todos nós temos os olhos voltados para o topo desse arco. Ora, qual seria o papel de Dona Lucilia dentro desse panorama?

É preciso conhecer a Igreja através de pessoas que a amam

Se conhecêssemos a Igreja Católica sem ter contato com uma só alma verdadeiramente católica, conheceríamos mal a Igreja. E Dona Lucilia foi, por excelência, a alma inteiramente católica que eu conheci a fundo. De maneira que não preciso dizer mais para dar a entender qual foi a influência dela sobre mim.

Havia uma coisa curiosa nela: sua formação era toda paulista, mas afrancesada. Não que quisesse se parecer francesa, mas marcada pela influência francesa. Ela presenciou a penetração da influência norte-americana no Brasil, no entanto nunca notei de sua parte uma reação, como também muito menos uma adesão. Eram águas que não chegavam até o monte onde ela estava, e que não tomava em consideração.

Mas eu notava muito que quanto mais as pessoas se americanizavam, menos a entendiam e menos gostavam dela. O que é facilmente compreensível, porque toda a escola de valores dela era anti-hollywoodiana. Ou, para dizer melhor, Hollywood era a destruição de toda a escala de valores que ela aceitava como verdadeira, e que, de fato, é a verdadeira.

Um afeto doce, nobre e enlevado

Por exemplo, o Quadrinho.1 Há nele uma estabilidade suave, não carrancuda como de uma pirâmide ou de uma esfinge, mas afável, de quem está fixamente posta num ponto do qual não vai mais subir, entrará na eternidade…

Há uma qualquer coisa em toda alma humana que é inesgotável, é insondável. Para usar bem a palavra portuguesa antiga, é inefável, é algo que não se sabe como dizer.

Evidentemente, o lado mais emocionante, mais tocante de mamãe era por onde ela tinha qualquer coisa de inesgotável, de uma forma de pensamento tão, tão sereno e tão profundo, que se tinha a impressão de que eram pensamentos comuns, mas equiparáveis a um lago profundo, de águas muito cristalinas.

Além disso, um afeto doce, nobre, elevado, envolvente, empolgante, que desarmava pela mansidão. Uma tal mansidão, uma tal sujeição ao que os outros queriam, que de bom grado cedia, mesmo quando isso era absurdo, desde que não fosse pecado; uma tal concórdia nas coisas mais insignificantes, e com dor, que a mim simplesmente maravilhava; e não era a conciliação indiferente de um “nhonhô”.2

Alma oposta ao espírito trepidante hollywoodiano

Essa suavidade é o contrário da trepidação da influência hollywoodiana. Eu falo da influência hollywoodiana, mas não sei se chegaram a conhecer bem esse influxo trepidante, o corre-corre no qual os artistas e os personagens se movem de um modo ridiculamente apressado, os acontecimentos no romance se sucedem quase aos saltos uns sobre os outros. O estilo cowboy indica bem isso.

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Dr. Plinio em 1995

De outro lado, olhando para a senhora do Quadrinho, tem-se a impressão de que ela está despreocupada de problemas práticos o quanto se possa estar. O prático virá depois. Ela está pensando em coisas sobrenaturais, metafísicas, está pensando na alma humana: como vale o afeto deste, daquele, como querer bem a este ou àquele.

Havia uma expressão que ela costumava proferir, quando eu falava em ser deputado. Ela me dizia: “Meu filho, a vida não é isso, a vida é nos querermos bem e morarmos juntos”. Mas no sentido elevado, não no comum da palavra.

Como isso é diferente da vida prática! Enfim, do grande zumbido norte-americano, do qual é um eco toda a barulheira que passa pela rua.

Por detrás das virtudes, estava a Santa Igreja Católica

De outro lado, havia da parte dela algo que eu chamaria o contrário do egoísmo: uma forma de bondade pela qual o que era seu, naturalmente comunicava aos outros, estimulava-os com aquilo. É o contrário do: o que é meu, é meu; o que é teu, é teu etc., que caracteriza tanto o hollywoodiano em relação, por exemplo, aos de nosso país pré-hollywoodiano.

Ela era o contrário de tudo isso, e concorreu poderosamente para formar em mim a reação anti-hollywoodiana. Ela não era uma militante anti-hollywoodiana, mas era fundamentalmente não hollywoodiana, e produzia o choque. E, do choque, eu fazia a opção por ela.

Essa opção nunca teria prevalecido se eu não tivesse a convicção de que, por trás dessa posição, estava a Igreja Católica. Nunca!

Aqui está um homem que viveu 86 anos. Dou graças a Nossa Senhora por ter vivido esse tempo, porque pude viver na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que é a minha mãe mais do que a minha própria mãe! Por mais que se fale de Dona Lucilia como eu falo, com respeito, com veneração, a verdade precisa ser dita: mãe, mãe mesmo, minha mãe, é a Igreja Católica Apostólica Romana. Dona Lucilia foi minha mãe no sentido em que foi um canal lilás e prata para me conduzir à Igreja e legar minha alma de filho, meus modos de ser de filho. Realmente um canal muito próximo, muito direto, muito cândido, nem sei como agradecer a ela isso.

Todos sabem quanto amei Dona Lucilia, quanto a amo. Mas, em comparação com a Santa Igreja Católica, nada! A Igreja Católica é incomparavelmente mais para mim do que ela era.

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Dr. Gabriel Ribeiro dos Santos, irmão de Dona Lucilia

Mas, se através de mamãe eu não tivesse visto a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por mais que eu quisesse bem à Igreja como eu queria, eu não teria sido fiel. Por causa da Igreja é que eu tenho sido fiel.

Se eu amo tanto mamãe, é porque ela me conduziu à Igreja. E se eu a amei até o fim, é porque, até o fim, a examinei, e até o fim notei que nela tudo conduzia à Igreja Católica. Mas, meu amor é à Igreja.

Ela, que me queria tão bem, punha a Igreja Católica muitíssimo acima de mim. E é uma das razões pelas quais eu queria tão bem a ela.

Lutar pela Igreja, sim! Por política, não!

Mamãe tinha um irmão mais velho que às vezes brincava um pouco com ela. Um dia ele esteve em nossa casa, e ela foi acompanhá-lo até à porta. Eu fui junto, porque estávamos os três conversando. Quando chegamos ali, ele se pôs um pouco para trás dela – ele era alto e ela era baixa – e me fez um sinal com o olho indicando que iria fazer uma brincadeira com ela. Fingi que não percebi, porque ela estava olhando para mim. Ele disse a ela:

— Lucilia, você sabe que eu faço parte do governo de São Paulo.

Ele era o Ministro – para me exprimir assim – da Agricultura de São Paulo. Ela disse:

— É verdade.

Ele continuou:

— Você sabe que está para arrebentar uma revolução aqui – estava mesmo, e pouco depois arrebentou –, e, nessa ocasião, o governo vai convocar todos os jovens para pegar em armas e lutar para defendê-lo, para não cair. Para essa hora, eu conto com que você mande o Plinio.

Ela ficou tesa e disse:

— Isso nunca!

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Dona Lucilia um mês antes de seu falecimento

E explicou-se, dizendo que isso não era para o Brasil, mas para interesses políticos, e que ela não ia sacrificar o filho por isso, e saiu por aí… Mas com fogo!

Ele disse sério, ela não percebeu que ele estava gracejando:

— Está bem! Agora eu quero saber uma coisa: se fosse preciso para a Igreja Católica, o Plinio teria que ir?

— Claro! Seria o primeiro a pegar em armas!

Ele caiu na gargalhada, para mostrar a ela que ele estava brincando e que se divertia de ver todo o apego que ela tinha por mim, e como ela me queria bem.

Quando ela teve essa atitude, eu pensei: “É porque ela ama a Igreja mais do que a mim que eu quero tão bem a ela”.

Um segredo só conhecido por Nossa Senhora

A influência de Dona Lucilia sobre todos os que me seguem, ela mesma dirá. Percebe-se bem que ela, de vez em quando, abre as nuvens e deixa cair uma gota de bênção numa semente.

Tudo leva a crer que, no Reino de Maria, essa missão continuará. Em que proporções?

Isso é segredo de Nossa Senhora. Nós não sabemos como será, se em proporções maiores ou menores. O que podemos ter certeza é que o que começou tão belamente e depois de tanto sofrimento, não terminará a não ser muito belamente e depois de nos ter causado muito gáudio.

Quando terminará? A pergunta é incógnita. Nossa Senhora saberá.

(Extraído de conferências de 6/6/1978, 29/12/1980 e 1/3/1995)

1) Referência a Dona Lucilia, numa alusão à pintura a óleo que Dr. Plinio ganhou de um de seus discípulos e que ficou conhecida como “O Quadrinho”.

2) Nhonhô era o nome que os escravos davam ao filho mais velho do patrão, nas antigas fazendas brasileiras, por deturpação da palavra senhor. O nhonhô era alvo de todos os cuidados e atenções da parte dos escravos que o serviam, tendo, portanto, vida fácil e regalada. Dr. Plinio usava o termo – bem como a forma derivada que cunhou, “nhonhozeira” – para caracterizar a mentalidade comodista dos que têm aversão ao sacrifício.

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