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Cristo gladífero, modelo para os católicos do século XXI

Enfadado de uma civilização tão cheia de prazeres, o homem do século XX aspira a um estado de vida selvagem irreal, no qual, sem regras, possa gozar de todas as delícias e comodidades da vida moderna. Entretanto, o homem verdadeiramente feliz não é o do prazer, mas o da reflexão. A solução está em recorrer a Maria Santíssima e ter uma mentalidade na qual a alma esteja disposta a todos os sacrifícios, pois viver é preparar-se para o Céu.

Se eu devesse resumir as minhas impressões a respeito da década de 1970, diria que, embora o fim do nosso século se dará na década de 1990, tenho a impressão de já estarmos assistindo ao seu desenlace; o século XX é temporão, morrerá de apoplexia precipitadamente.

Enquanto todos os séculos terminam no fim normal de suas décadas, tudo leva a crer que este se encerre na década de 1980, executado com pena capital pela justiça da História, morrendo vinte anos antes. E, ao terminar essas sete décadas e aureolar a sua fronte com o octogésimo aniversário, ele parece cair e morrer. Ao se examinar, verifica-se que as razões dessa morte correspondem a um fim inglório de uma existência inglória.

O primeiro choque com a mentalidade dos homens do século XX

Este século eu o vi decorrer quase inteiro. Embora nos primeiros anos de minha vida, como todo mundo, não tivesse senão uma noção muito vaga das questões sócio-econômicas, políticas e intelectuais, eu me lembro do primeiro vislumbre desses problemas, que foi um contraste entre a tradição e o século XX.

Rama (CC3.0)
Desfile dos Couraçados

Reporto-me a um fato que se deu quando estive em Paris em menino, na idade de mais ou menos quatro anos: eu estava brincando no meu quarto, quando ouvi, de repente, um toque de clarim. Fui correndo à janela e vi desfilar um batalhão de couraceiros magnificamente aprestados com couraças e elmos rutilantes, que tocavam as trombetas. Era a majestosa cavalaria de antes da Primeira Guerra Mundial. Fiquei literalmente encantadíssimo.

Uma pessoa muito mais antiga que eu – naquela ocasião tinha mais ou menos quarenta anos –, me observava nesse gesto de admiração. Então lhe perguntei:

— O que é isto?

— Ah, são couraceiros… São coisas sem importância.

Fiquei aturdido. Como uma coisa bela, tão heroica, é sem importância? O que tem valor para esse homem? Era o meu primeiro choque com a mentalidade do século XX. Ou seja, o que falava de beleza, de heroísmo e de grandes horizontes, não tinha interesse para aquele homem prático. O que valia era, antes de tudo, a sua longa vida, e a teve longa; seu dinheiro, que não o teve; e sua saúde, teve muitíssima. Com um pouco de dinheiro, longa vida e saúde ele tinha tudo o que queria na Terra. Era o seu ideal.

Minha incompreensão nesse primeiro choque foi total: viver é viver muito e não viver bem? Se é ter saúde como a querem ter os animais, então não conte comigo, porque isso eu não quero. Eu desejo viver sobretudo para refletir, para ter ideais e não apenas para comer, beber e dormir.

Muitos anos depois, eu compreendi melhor a raiz pagã que havia na atitude dessa pessoa que desprezava os magníficos couraceiros. Quando professor de História da Civilização na Faculdade de Direito, estava preparando um curso e tomei conhecimento da história de uma rainha da Babilônia, vencedora de muitas batalhas que, sentindo-se mal de saúde, mandou construir para si uma sepultura sobre uma das portas mais importantes da cidade. Nesse mausoléu, ela mandou escrever: “Enquanto vives, come, bebe e diverte-te, porque depois desta vida não há nem prazer, nem dor. Está tudo acabado”.

Eu pensei: “Essa pagã que viveu talvez dois mil anos antes de Cristo tinha a mentalidade daquele homem que menosprezava os couraceiros. É sempre a mesma mentalidade do pagão, para o qual viver é ter delícias, alegrias efêmeras e transitórias, e para quem a reflexão, a cogitação das coisas mais altas e que estão para além desta vida e lhe dão significado, não têm importância.

O homem verdadeiramente feliz não é o do prazer, mas o da reflexão

Há, portanto, um choque: existem homens que vivem só para o sensível, para aquilo que se percebe e se goza materialmente; mas há homens de uma outra raça espiritual. Esses compreendem que tudo quanto existe nesta Terra não é senão um reflexo de uma realidade muito mais alta; que todos os estados de espírito do homem, quando são virtuosos, são reflexos de outra virtude que não habita nesta Terra, mas transcende, e é uma virtude absoluta, uma sabedoria absoluta, um poder eterno, ou seja, é o próprio Deus.

Para esses homens todas as coisas da terra não têm sentido senão quando consideradas como reflexos de Deus, e viver é preparar-se para o Céu, buscando encontrar em cada coisa concreta o que há de imagem e semelhança com Deus. Desse modo, as impressões efêmeras, as sensações, a agitação, o prazer têm uma importância pequena na vida, enquanto a reflexão tem grande importância. O ideal, esse é o sentido da vida. O homem verdadeiramente feliz não é o do prazer, mas o da reflexão.

Divulgação (CC3.0)
Paul Claudel

E para essa ideia encontrei uma expressão muito boa quando li, alguns anos depois, a frase de um célebre poeta francês, Paul Claudel, que disse: “A juventude não foi feita para o prazer, mas para o heroísmo”. Eu pensei: “Essa é a explicação da juventude na ordem natural das coisas. A juventude existe para o heroísmo, não para o prazer, porque toda a vida humana existe para o heroísmo e não para o prazer. Em todas as idades da vida, deve-se ser herói e não viver para o prazer. E essa é a grande verdade que o século XX rechaçou.

Uma parábola-síntese do século XX…

Para fazermos um pouco ideia do que pudesse ser a síntese do século XX, imaginemos um encontro especial que se desse nas proximidades das pirâmides do Egito, em pleno deserto.

Um automóvel moderno, magnífico, concebido para que o homem de prazer percorresse o deserto sem as moléstias da poeira, do calor excessivo… um veículo ideal, não só capaz de correr muito, mas também com acomodação magnífica para as pessoas que viajassem nele: uma cabine para os passageiros onde coubessem duas poltronas grandes que pudessem ser usadas como camas; uma pequena geladeira para conservar frescos os alimentos; vidros escurecidos; uma música discreta que servisse de fundo para a paisagem; ventilação refrigerada e todas as comodidades que possamos imaginar… quase um pequeno palácio ambulante.

Flávio Lourenço
Almoço dos artistas escandinavos no café Ledoyen – Museu de Arte de Gothenburg, Suécia

Um homem põe esse automóvel no deserto e começa a viagem. A certa altura, em sentido oposto, vem de longe uma caravana. Andam em camelos, lentamente, não têm nada do que há nos automóveis. Eles possuem apenas os trajes brancos dos beduínos, porque o branco resiste à luz e dá um pouco de frescor; um pouco de tâmaras secas; água em quantidade moderada; nada mais que isso. Caminham, caminham e caminham, ao sol.

É um contraste entre dois estilos de vida, fantástico, em que todas as superioridades parecem estar do lado das pessoas que estão no automóvel. Elas são o mundo civilizado: têm um estilo de vida superdesenvolvido, têm todos os progressos, têm inclusive uma televisão no automóvel, o rádio e as últimas notícias que acontecem no mundo. Os beduínos têm um estilo de vida que é o mesmo há séculos…

O beduíno passa, olha o carro como se olhasse um camelo. Não tem a menor inveja dos que viajam nele. Os que estão no automóvel, pelo contrário, olham os beduínos, riem e dizem: “Pobres coitados, infelizes, não são nada!” Mas, no fundo, há um pouco de inveja: “Se eu pudesse sair desse automóvel e montar um camelo… Se eu pudesse fazer-me um beduíno, eu me sentiria mais completo. Eu não sou nada! Quem sou eu? Um homem como milhares de outros. Eu me perco na poeira humana das grandes cidades, eu não sinto minha personalidade… Eu sou um anônimo aos meus próprios olhos. Se eu fosse beduíno, eu seria capaz de sentir a beleza da lua, o esplendor dos areais, o gosto pelo sol tórrido e a luta contra ele; as distâncias e as delícias dos oásis… Eu teria uma vida muito mais colorida, mais plena de realidade do que viver nesta irrealidade artificial deste ambiente em que eu estou”.

Então alguns gostariam de parar e oferecer aos beduínos: “Vocês querem trocar um pouco? Vocês entram nesta câmara de delícias e nós montamos em seus camelos e andamos um pouco. Contanto que vocês nos emprestem também seus trajes e nós lhes demos os nossos…” Porque, para montar em camelo, é preciso estar vestido como beduínos e representar esse papel durante algum tempo.

Todos sentem isso, mas não têm coragem de dizer uns para os outros, porque têm medo, cada qual, de que os outros zombem dele. Pelo medo da risada, nenhum tem coragem de dizer algo que todos pensam.

…que demonstra quão ilusória é a vida carregada de conforto e de delícias…

Em certo momento, surpresa: o automóvel para e os passageiros percebem que a altura diminui um pouco. Surpresa geral. “O que pode ser isso?” Se detêm e os beduínos também. Mas estes olham com uma pequena curiosidade despectiva e dizem:

— É natural, esse é um carro mecânico, não é como os nossos camelos que são fortes e vivos e que atravessam todos os desertos. Ele pode quebrar de um momento para outro. Nossos camelos, não. Não morrem de um momento para o outro, têm uma resistência fantástica. É explicável que isso se tenha quebrado. Vejamos o que dizem os que estão lá dentro.

Willem van de Poll (CC3.0)
Beduínos

Os que estão no automóvel abrem as portas e saem para averiguar o que aconteceu:

— Como pode ser que as areias do velho deserto, areias moles e movediças que os ventos empurram para todos os lados, como pode ser que elas tenham vencido o automóvel magnífico, fabricado na melhor fábrica de automóveis dos Estados Unidos ou da Alemanha?

Imaginemos um Mercedes dos mais cômodos, mais magníficos da técnica alemã. Esse carro para… e se verifica que o deserto em que marchavam os faraós e onde transitam camelos o venceu. Como pode o passado de dois mil anos vencer o progresso de hoje no que tem de mais rápido e brilhante? É uma pergunta que todos se põem.

Fora do carro, eles constatam que aconteceu uma coisa muito simples: os pneumáticos se esvaziaram e estão colados na areia. Não podem andar mais.

Eles se perguntam: como se esvaziaram? É um final de viagem humilhante, porque se o carro tivesse quebrado por ter encontrado uma elevação de areia muito grande ou por ter se afundado nela… se, pelo menos, uma peça de bronze dele tivesse quebrado… Seria uma tragédia, mas um bronze que se parte tem alguma dignidade, pode-se dizer: “Eu tive uma surpresa! Meu carro era todo ele de peças de bronze! Mas o bronze, em sua nobreza, não resistiu ao sol que vinha sobre ele e se fundiu. Oh! Em que situação estávamos! Era trágico!…”

Mas não foi isso que aconteceu nessa cena que imaginamos. Foram as partes moles que falharam, não foi nem a borracha dos pneus, mas o ar que estava aprisionado neles que escapou. E só por isso o carro magnífico está parado. E, faltando essa parte mais vil, o resto não tem mais significação, porque não se pode ficar nas delícias da pequena casa ambulante se ela não é mais ambulante. Acaba a eletricidade, a comida, e a solução é estudar qual a causa do ocorrido e depois ver como sair do deserto.

Qual é a causa? Há alguns técnicos nesse conjunto de pessoas e um deles diz: “O carro está tão carregado de confortos que o peso dessas delícias esvaziou os pneumáticos. Em contato com as areias do deserto, o ar do pneu se tornou quente, a borracha se tornou muito cheia, o peso não diminuiu, veio o atrito e, enquanto o carro rodava, pssit! Das quatro rodas o ar escapou…”

…e como os confortos do mundo trazem consigo exigências terríveis e inexoráveis

Qual é a solução? Os homens se aproximam muito amavelmente dos beduínos aos quais olhavam, até há pouco, com desprezo e com gargalhadas. E, com a ajuda de algum intérprete, com discreto sorriso e fazendo cumprimentos amáveis, lhes dizem:

— Senhores beduínos, antes de tudo queríamos vos dizer que impressão encantadora vós nos fazeis… Temos para convosco a maior simpatia e consideração. Porém, vós vedes que o nosso carro está quebrado e temos que voltar ao Cairo. Vós nos permitiríeis viajar na parte de trás de vossos camelos, agarrados a vós? O camelo pode transportar duas pessoas. Vós não consentiríeis em pôr mais um na garupa?

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1981

Os beduínos, homens práticos, fazem duas objeções. Primeira:

— Sim, porém não queremos passar fome. Temos um pequeno excedente de tâmaras. Se vocês se contentarem em comer cinco tâmaras cada um em cada vinte e quatro horas de viagem e nos permitirem comer tâmaras à vontade… Essa é umas das cláusulas do acordo.

Os homens ficam com medo de que os beduínos se encolerizem e os deixem no areal. Então, com sorriso amarelo respondem:

— Mas é claro, senhores beduínos, é um dever de justiça! As tâmaras são vossas e já é muito que nos deis cinco para comer.

— Sim, sim, porém há outra coisa: água não! Temos pouca água. Se encontrarmos um oásis no caminho, vocês e nós beberemos água; se não encontrarmos, vocês terão que se arranjar como puderem, porque a água é insuficiente para nós.

É uma dificuldade maior, mas eles não podem desgostar os beduínos e dizem:

— Senhores beduínos, mas é natural! A água é vossa. Dai-nos somente um lugar na garupa e estaremos muito contentes.

E os beduínos respondem:

— Nós temos tâmara, água e camelo. Vocês têm dinheiro. Nós queremos seu dinheiro e todo ele. Senão, não fazemos o transporte.

A necessidade tem leis terríveis e inexoráveis.

— Senhores beduínos, aqui está nosso dinheiro.

— Sim, sim, sim, vai bem!

Põem o dinheiro nas profundidades dos bolsos, onde há de tudo… arames, tâmaras, e muitas coisas velhas e sujas misturadas.

E dizem:

— Subam aqui atrás e vamos.

Muito humilhados, depois de dez horas de uma viagem terrível, voltam ao Cairo os homens que a cidade vira passar magnificamente num carro que causava inveja a todos. Veem-nos envergonhados, cansados, com fome e com sede e, quando se detêm junto ao hotel onde estavam hospedados, ainda dizem aos beduínos:

— Muitíssimo obrigado!

Está contada uma história. Os homens do carro entram nas delícias de um hotel moderno e os beduínos seguem sua vida. Foi um episódio no deserto…

Esse episódio tem semelhanças com a história do século XX.

O progresso do mundo moderno faz com que o homem sonhe com outros estilos de vida

Com efeito, há pessoas que vivem para as delícias, são os homens característicos do século XX, que fabricaram uma civilização tão cheia de delícias, mas também tão pesada, que não suportou seu próprio peso. O mundo de hoje está como um automóvel com os quatro pneumáticos vazios e que não pode rodar. Por quê? Porque é a “magnífica” civilização do consumo, a “magnífica” civilização do progresso. Esse progresso é tão amplo, tão grande e, ao mesmo tempo, tão complicado, que o homem não aguenta seu peso e se põe a sonhar com outros estilos de vida, com outros modos de caminhar, com outros jeitos de lutar. E isso explica o aparecimento, em nossa época, de uma escola de pensamento que é original e que até há pouco era tida como uma das coisas mais modernas que pode haver: uma escola de pensamento contrária à civilização.

A fadiga da civilização, o peso excessivo dela, faz com que os homens queiram fugir da civilização. Como se dá isso? Que escola de pensamento é essa? Qual é o drama do mundo moderno?

Depois dessa introdução que põe tudo no seu lugar, vou discorrer sobre isso.

Houve um filósofo famoso, Lévi-Strauss1 que fundou uma escola de pensamento chamada “antropologia estruturalista”. Essa escola tem como característica o seguinte: o homem, para viver, tem que viver fazendo o que lhe pareça agradável. Ora, a civilização moderna, a cada momento, dá ao homem uma delícia, mas impõe-lhe uma coisa desagradável. Desse modo, ao construir sobre o homem um castelo antagônico de coisas agradáveis e desagradáveis, ela não consegue realizar a felicidade inteira da vida.

Ora, se civilização é o que dá ao homem a felicidade inteira, então temos que nos perguntar se o castelo das coisas agradáveis construídas pelo homem tem um valor maior do que o cárcere das coisas desagradáveis.

A civilização moderna, uma máquina de resolver e de criar problemas

A civilização moderna, principalmente a dos anos de 1970, resolve um número espantoso de problemas, mas a grande pergunta é esta: desses problemas, quantos foram criados por ela mesma? Ela não é uma máquina de criar os problemas que resolve e de resolver os problemas que cria?

E uma vida mais natural, menos técnica, menos artificial não seria mais própria ao homem? Não estamos no pleno domínio da artificialidade? Para o bem-estar do homem: civilização, sim ou não? Técnica, sim ou não? Essa é a interrogação.

Uma cidade grande produz muita sujeira, é natural, e a eliminação dessas coisas é um terrível problema! Por exemplo, São Paulo é percorrida por um histórico rio, o Tietê. Mil fatos da história dessa cidade estão relacionados com ele. Porém a cidade cresceu, despejou nele muito de seu lixo e, por causa disso, ele perdeu toda sua conotação literária, toda sua história, e a grande cidade não sabe o que fazer com o rio…

José Reynaldo da Fonseca - REFON(CC3.0)
Rio Tietê na cidade de Barra Bonita

O rio passa por São Paulo, penetra no interior do Estado de São Paulo com toda sua sujeira e percorre uma extensão imensa e, sem nada de artificial, pela gravidade e por um jogo da natureza, alguns quilômetros depois da metrópole o rio deixa no seu leito todo o lixo e a água se torna mais límpida.

Ou seja, o que a técnica não consegue fazer, a natureza o faz. Sem ruído, sem botões de pressão e descompressão, sem fábricas imensas… mas de maneira lenta, discreta, distintamente, as águas se limpam e continuam seu curso. Os homens fizeram algo errado e a natureza corrigiu, mas com que superioridade, com que dignidade e com que eficácia!

Alguém que caia no Tietê, é como se caísse no veneno. Alguém que caia mais além da cidade de São Paulo, encontra uma água mais limpa. É a mesma água, purificada pela natureza que Deus criou. Oh! O que foi posto por Deus e que os homens tantas vezes deformam!

O século XX foi regido pela escola “estruturalista”

A escola “estruturalista” considera o progresso uma quimera dos homens. Seus adeptos chegam à radicalidade inimaginável de afirmar que a verdadeira maneira de viver é a dos homens pré-históricos.

Pensadores tidos como atualíssimos, cujos livros se vendem nas livrarias mais modernas, se transformaram nos detratores do progresso do século XX e nos adoradores de uma ordem de coisas que estava nas origens da História da humanidade.

Alguém objetará: “É uma escola de extravagantes, de loucos! É uma minoria muito insignificante que, por esnobismo, tomou essa importância; nós não devemos dar ouvidos a essa escola. Na realidade, ela só tem importância por causa de sua extravagância, porque o homem do século XX gosta da extravagância. Porém, essa escola não pode fazer sucesso, não pode ter muitos adeptos”.

Respondo que a grande maioria do século XX está afundada nesse pensamento, ainda que por vezes não o perceba. Qual é a prova? É a atitude do homem do século XX, do homem do Ocidente, e mais especialmente do burguês do Ocidente – não do proletário – viciado nas delícias. A atitude do burguês face ao comunismo é inteiramente característica nesse sentido. Os burgueses sabem perfeitamente que o comunismo oferece um teor de vida muitíssimo mais pobre do que se tem no Ocidente. Eles sabem que, se o comunismo se instalar, eles serão reduzidos ao estado operário, perderão as fortunas que adoram, o conforto que querem tanto e ficarão reduzidos a zero. Porém, a resistência burguesa contra o comunismo diminui a olhos vistos, e os anos de 1970 foram de capitulação e de fugas as mais vergonhosas face ao comunismo.

Em todos os países ocidentais, a burguesia deixou de ser a força viva e ativa contra o comunismo e começou a considerar a possibilidade da implantação dele como uma coisa que não é desejável, mas que no total não é uma tragédia.

Como explicar que esses homens estejam dispostos a deixar suas casas confortáveis, as fortunas que acumularam e sua vida deliciosa, e se resignem a ponto de ser comunistas? Como explicar que nas últimas eleições em São Paulo, um candidato comunista tenha obtido quase a maioria dos votos no bairro mais rico de São Paulo? Como explicar uma coisa dessas?

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1981

Evidentemente, é porque há na alma do homem do nosso século uma contradição: ele gosta muitíssimo do progresso, do lucro, do dinheiro, porém ele está farto do progresso, do lucro e do dinheiro. Então, para não lutar, permite que essas coisas lhe caiam das mãos.

Uma senhora da alta sociedade de São Paulo contou-me que suas amigas estavam tão indiferentes ante a perspectiva do comunismo que, se o implantassem em São Paulo – todas muito ricas – a única coisa que os comunistas haveriam de fazer era dar a elas o endereço do lugar onde teriam que fazer trabalhos manuais. Elas tomariam o ônibus, iriam para lá.

O gozo legítimo não existe numa vida sem o sofrimento

Esse é o drama da sociedade do Ocidente. O homem é tão gozador, que se revolta contra uma lei posta por Deus na natureza, segundo a qual todo gozo legítimo custa algo ao homem e ele precisa sofrer para obter esse gozo e para manter-se nele. O prazer verdadeiro é inseparável do sofrimento. Ora, o homem do século XX sonha com uma vida sem nenhum sofrimento, só feita de prazer.

A civilização lhe dá prazeres, mas exige certo sofrimento, certo esforço. A vida selvagem, pelo contrário, não exige esforço – ao menos na aparência – e dá alguns prazeres; o homem moderno desejaria somar as duas coisas que em si não são somáveis: ter uma forma de selvageria imaginária, gostosa, fácil, e o não fazer esforço.

Um missionário com certa experiência em tribos selvagens contou-me que, numa ocasião em que ele conversava com um selvagem, voou na direção deles um besouro; o selvagem interrompeu o diálogo, pegou o inseto, tirou-lhe asas e o comeu cru! O missionário confidenciou-me que teve necessidade de fazer esforço para não deixar transparecer sua repugnância. E o índio explicou-lhe: “Devemos pegar a comida quando ela passa diante de nós. Passou o besouro, ele é comível? Nós o comemos, porque não sabemos quando passará um outro”. Essa é a vida do selvagem.

O homem moderno quer imaginar um estado selvagem irreal

Porém, o homem civilizado não quer ouvir isso. Ele quer imaginar um estado selvagem irreal, com as delícias de uma civilização. E assim ele tem uma mentalidade que não é adaptável a nada: nem à civilização e sequer ao estado de selvageria. Se ele fosse selvagem, venderia sua alma para ser civilizado. Como é civilizado, farto da civilização, permite que esta desmorone e que os comunistas lhe arranquem a civilização das mãos. Por quê? Porque ele chegou a um estado de deterioração onde qualquer situação é impraticável e inaceitável.

Seu desejo imoderado de prazer o tornou incapaz da modesta felicidade dos selvagens ou da boa felicidade dos civilizados. Por quê? Porque quer somente o prazer e não quer outra coisa que não seja ele.

Para esse tipo de homem, esta civilização é pesada. E assim como os pneumáticos daquele automóvel não aguentaram o peso das delícias que havia no carro, o homem do século XX não aguenta mais o peso da civilização.

A mentalidade do homem do século XX

Qual é a mentalidade do homem do século XX? Qual é mentalidade do homem que virá?

Para compreender bem isto, nós não temos que olhar para o século XX, mas para a mentalidade que se está formando hoje em dia. Que mentalidade é essa? Atualmente, o mundo está em perigo de uma guerra universal, e todos os homens que têm o mínimo de cultura para abrir um jornal e ler as notícias percebem que essa é a realidade que temos diante dos olhos.

Morio(CC3.0)
Arranha-céus de Tóquio

O que pode significar a guerra mundial? O Papa João Paulo II fez há dias uma declaração sobre isso na homilia2 durante uma Missa que celebrou no Dia da Paz.3 Citando informações recebidas de cientistas, o Papa afirmou que apenas duzentas, das mais de cinquenta mil bombas nucleares existentes atualmente no mundo, seriam suficientes para destruir a maior parte das cidades importantes. Se a guerra prossegue e se detonam todas as cinquenta mil bombas, o que restará do mundo? Portanto, a guerra pode ser uma hecatombe pior que o dilúvio.

O homem moderno, construtor do sim e do não

Enquanto o homem moderno construía suas delícias, arquitetava também sua condenação e sua destruição. O trabalho do progresso foi simultaneamente um serviço técnico fabuloso para fazer grandes cidades e para destruir as grandes cidades que construíram. Os mesmos homens do século XX que levantaram os arranha-céus, construíram as bombas; edificaram o sim e o não; o preto e o branco. E nós estamos na hora em que o “não” pode desatar-se, agredir o “sim” e destruí-lo de um momento para o outro.

E o Papa afirmou que isso ainda não é tudo. Uma guerra nuclear causará terríveis reduções de recursos de alimentação, porque os resíduos radioativos serão levados pelo vento sobre as terras e podem provocar alterações tais nas plantações, que elas tornar-se-ão inúteis para a alimentação. Então, os poucos que não forem mortos terão dificuldade de sobreviver em razão da deterioração da natureza.

Haverá alterações na camada de ozônio, de maneira que o homem será exposto a perigos terríveis ainda desconhecidos; poderá haver perigosas mutações genéticas que podem provocar a geração de monstros. E João Paulo II acrescentou: é urgente que o povo mantenha abertos os olhos diante desse perigo.

Isso que ele disse com tanta clareza, mais ou menos todos sabem; e todos mais ou menos temem. E nessa perspectiva eu creio notar que começa a se estabelecer um estado de espírito contraditório terrível – ao menos no Brasil, que é o país onde vivo e conheço diretamente. Pessoas que não tinham reação contra o comunismo e estavam dispostas a abandonar suas fortunas porque estão fartas de riquezas, diante do perigo da morte têm um medo que não tinham diante do perigo comunista. Tinham antigamente, mas não têm mais diante do perigo comunista.

Por causa disso, as pessoas começam a sentir uma fatalidade, como se a guerra, se não eclode agora, pode explodir de um momento para outro; se não é em determinado lugar, é em outra parte da Terra e por razão diversa. Mas a guerra, cedo ou tarde, é inevitável; consequentemente, o futuro deles é a bomba atômica e o fim de sua vida farta, não como o selvagem, mas como as pobres vítimas das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, no Japão, no fim da Segunda Guerra Mundial. Os que não morreram por uma desintegração instantânea e horrível, transformados em pó no primeiro choque, sobreviveram com doenças em quantidade e dores terríveis. Os que não ficaram doentes existem para cuidar dos doentes e tudo se transforma em uma enfermaria.

Esse é o fim do século XX que começou com tanto brilho.

Onde encontrar a solução para essa situação irremediável?

E essas pessoas que se habituaram continuamente a gozar a vida, vendo repentinamente esse fim trágico que se põe diante delas, teriam uma solução. Porém, como estão endurecidas, a solução sequer lhes ocorre.

Charles Levy (CC3.0)
Bomba atômica de Nagasaki

Essa solução seria rezar. Pedir à Virgem, Mãe de Misericórdia, que os salve dessa situação. Deus tudo pode. E se Maria Santíssima Lhe pede algo, Ele o faz certamente. Dizem certos teólogos que Nossa Senhora é chamada “a onipotência suplicante”, Aquela que tudo pode por suas súplicas. Ela não é onipotente por sua própria natureza, mas sua oração pode tudo. Os teólogos dizem: o que todos os Anjos e Santos do Céu pedissem sem Maria Santíssima, não o obteriam. Porém, o que Maria Santíssima pede sozinha, sem os Anjos e os Santos, Ela obtém. De tal maneira Ela é amada por Deus.

Então pedir a Nossa Senhora: “Minha Mãe, salvai-me! Salvai os que eu quero!”

Entretanto, atualmente ninguém pede o auxílio de Deus. Ao mesmo tempo, todos olham a morte com um começo de ódio e de cólera, como se ela fosse uma fatalidade indignante, que não se pode aceitar. É necessário morrer, porém de pé e com indignação. Isso é a véspera da blasfêmia, porque essa revolta, no fundo, é contra o próprio Deus.

Eles não pedem a Deus, quando poderiam salvar-se se o fizessem. Eles se revoltam contra Deus no momento em que Ele lhes deixa antever o castigo para que se salvem. Se eles orassem agora, poderiam evitar a guerra. Deus lhes deixa ver o perigo para que evitem a guerra, para que peçam, para que regenerem os costumes, para que voltem à prática dos Mandamentos e se façam bons católicos. As portas da salvação, inclusive terrena, estão abertas para eles. Porém eles não querem. Preferem a imoralidade e os prazeres; preferem ser mortos nesses prazeres que começar a levar uma vida dura, difícil, vida de um verdadeiro católico apostólico romano. Essa é a contradição espantosa desses homens que estão cegos.

Diz a Escritura que o amor do prazer faz com que o homem fique cego. Os homens de hoje são incapazes de ver a terrível realidade em que estão, por isso eles se submergem no ódio e no dilúvio dos castigos.

Em 1917, Nossa Senhora apareceu em Fátima e disse: “A Rússia espalhará seus erros por toda parte, muitas nações desaparecerão etc.” E ameaçou o mundo com um castigo universal se os homens continuassem nas vias da imoralidade. Ao invés de ouvir a Santíssima Virgem, amá-La e modificar o seu procedimento, esses homens continuam no pecado; veem o castigo e morrem blasfemando. Esse é o homem mau de amanhã.

É necessário que haja homens inocentes e combativos

Como será o homem do século XXI? Será isso? Valerá a pena que haja um século XXI? Para haver um século XXI blasfematório, não é melhor que Deus feche a História e faça o fim do mundo?

A resposta é a seguinte. Para que haja um século XXI que seja o que Nossa Senhora disse em Fátima – Ela prometeu que por fim o seu Imaculado Coração triunfará – para que Ela triunfe é necessário que haja homens inocentes, que tenham a mentalidade oposta à mentalidade do século XX. Como seria essa mentalidade?

Todos nós admiramos os mártires das primeiras eras do Cristianismo. Porém, no tempo dos mártires, não se poderia prever como seriam os Cruzados. Os mártires morriam sem possibilidade de lutar. Eram heróis na defesa passiva. Depois veio uma outra forma de heroísmo que nasceu do seio fecundo da Igreja Católica: o heroísmo na carga de cavalaria e na luta contra os mouros. Posteriormente vieram outras formas de esplendor moral católico, ao longo dos séculos.

Nós vivemos no tempo da guerra psicológica revolucionária. Estamos em uma guerra, que não é de armas – a guerra de armas poderá sobrevir de um momento para outro –, mas é a guerra de inteligência contra inteligência. É um choque de mentalidades, de habilidades, de argumentações, de organizações, onde o erro procura conquistar alma por alma e os bons católicos procuram defender alma por alma e reconquistar alma por alma. Há, portanto, duas forças: a força do bem e a força do mal. Nós devemos ser, no momento atual, os cruzados dessa luta de mentalidades. Devemos ter a mentalidade oposta à do mundo.

O ideal do verdadeiro católico é ser um outro Cristo, inclusive em seu aspecto gladífero

Como é a mentalidade oposta? É uma mentalidade que quer o ideal mais do que qualquer coisa. Que está disposta a qualquer sacrifício, contanto que possa conhecer, amar, servir e lutar por seu ideal; está disposta a levar a vida mais dura, contanto que veja o seu ideal vitorioso. E esse ideal não é abstrato, que se perde nas nuvens; ele tem um nome: é Nosso Senhor Jesus Cristo!

Flávio Lourenço
Cristo expulsa os vendilhões do Templo – Gemäldegalerie, Berlim

Ser como Cristo é seguir seus exemplos, fazer o que Ele fez. Esse é o ideal: ter uma civilização cristã, uma Igreja autenticamente católica!

Mas… Cristo teve muitos aspectos. Em sua vida nós O vimos perdoando, nós O vimos chorando próximo à sepultura de Lázaro, nós O vimos suando Sangue no Horto das Oliveiras, nós O vimos morrendo, clamando em alta voz: “Eli, Eli, lamá sabachtháni? – Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonastes?”(Mt 27, 46). Nós O vimos em todas as situações…

Em todos os episódios da História da Igreja, o católico tem que ser como Ele. Nós O vimos, também, pegando um açoite e expulsando os comerciantes do Templo; nós O vimos dizendo palavras duras aos fariseus.

Em nossa época temos que imitar Nosso Senhor Jesus Cristo, especialmente quando tinha o açoite nas mãos. Temos de imitá-Lo, sobretudo quando Ele dizia as mais duras verdades aos fariseus. E para dizer qual é o perfil moral do homem católico no século XX, devemos pensar em Nosso Senhor Jesus Cristo não tanto como está na narração de sua vida terrena no Evangelho, mas como previu São João no Apocalipse.

Ele prevê um momento de castigo e de maldição na terra. Ele prevê a destruição, o fim do mundo. Ele vê a segunda vinda de Cristo, que ele chama de Cristo Gladífero: um cavaleiro magnífico montado sobre um cavalo branco e que vem armado de tal maneira que em sua boca Ele traz uma espada. Ele vem para lutar!

Christianus alter Christus – o cristão é um outro Cristo. Tal deve ser nossa semelhança com Nosso Senhor Jesus Cristo, ser um cristão gladífero, o católico gladífero que vem para a luta, para dizer “não” ao comunismo, “não” aos moles, “não” aos sofistas, aos mentirosos, e para lançar-lhes na face todos os seus erros com energia e com lealdade, sem temor, enfrentando qualquer perigo e a morte se necessário for, contanto que Cristo Gladífero vença. Essa é a figura do católico.

Nada nos leva a pensar que estejamos no fim do mundo, mas estamos, sim, diante de uma tragédia que é uma prefiguração dele. Agora o Cristo Gladífero não virá pessoalmente, mas Ele espera de nós que sejamos todos juntos um “Cristo Gladífero” a abrir as paredes, a destruir as dificuldades com o gládio da língua e fazer vencer a boa causa.

(Extraído de conferência de 5/1/1980)

1) Claude Lévi-Strauss (*1908 – †2009).

2) https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1980/documents/hf_jp-ii_hom_19800101.html

3) 1º de janeiro de 1980. Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus. XIII Dia Mundial da Paz.

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