Considerar a diversidade da Igreja Católica constituía para Dr. Plinio um verdadeiro regozijo. Entretanto, também o unum da Igreja o encantava e este parecia-lhe por vezes expresso na excelência da bondade, que é o desejo de doar-se continuamente aos demais, não com a intenção de tirar algum proveito para si, mas pelo bem encontrado nos outros, reflexos do espírito da própria Santa Igreja.
Quando Dona Lucilia faleceu, encontraram várias fotografias suas e de toda a família, no meio dos objetos guardados por ela.
Dotado de um espírito categórico…
Numa dessas fotografias, eu estou com alguns meses de idade nos braços dela. Aliás, é uma foto muito escura, porque as máquinas não eram boas naqueles remotos anos de 1908, 1909. Dona Lucilia era ainda relativamente moça, mas era uma pessoa muito forte e bem constituída; está comigo nos braços, sorrindo, muito enlevada, muito satisfeita.
A fotografia original era bem menor, mas o João mandou ampliar. Eu nunca tinha prestado atenção na minha fisionomia ali, carregado nos braços dela; mas, com aquilo ampliado, eu casualmente olhei e percebi um aspecto de meu modo de ser, de meu temperamento, que eu reconheço até hoje.
Os mesmos traços percebi em outras fotografias minhas posteriores, por exemplo, em menino, mas já bem maior, com uns dois ou três anos, sentado numa cadeirinha que imitava a cadeira de um homem adulto daquele tempo.
Todos os cinco sentidos eu os tinha largamente bons. A vista era comum, mas dentro do comum, larga, excelente. A audição – a qual fui perdendo aos poucos junto com a vista –, também muito boa, fina, apanhando bem os sons. E assim o olfato, o paladar, tudo muito amplo, preciso, nítido, muito bom. Tudo isso acompanhado de um feitio de personalidade: aquilo que eu gostava, gostava torrencialmente, e aquilo de que não gostava, eu detestava. Meus sentidos e meu temperamento não eram propensos à indecisão, eram muito decididos. Isso eu conservei a vida inteira; mas, em contraposição, energicamente também não gostava de algumas coisas.
Por exemplo, eu tinha uma preguiça muito grande de qualquer esforço físico, uma execração de qualquer trabalho que me fizesse transpirar. Eu sentia horror, repugnância da transpiração! Ora, a minha fórmula para todos os efeitos era: “Sombra, sapato largo e água fresca”. Também não gostava de ter lutas com ninguém, detestava as brigas. E tinha um temperamento muito afetivo, carinhoso até, tendo uma vontade enfática de viver bem com os outros. Possuía, então, movimentos de sensibilidade muito pronunciados, muito categóricos. Eu acho que algo disso dá para reconhecerem até hoje.
…e da capacidade de saber ajeitar-se em situações penosas
Na linha do apetite, eu o tinha primeiro muito mau. Dona Lucilia e a Fräulein tanto fizeram e apertaram que, de preguiça, eu acabei tendo um bom apetite. Elas diziam: “Tem de comer!”, eu não queria. Um menino qualquer se revoltaria, mas eu achava mais cômodo comer sem fome. Revoltar podia trazer consequências desagradáveis na ordem moral, como na ordem física traria subir uma ladeira, coisa que toda a vida eu detestei! Portanto, era melhor comer.
A solução intermediária era tapear. Então, na mesa onde comíamos havia uma espécie de mecanismo de madeira por debaixo, para poder ampliá-la, que ninguém via. E a Fräulein cortava pedaços de pão, passava manteiga e me dizia: “Tem de comer!” Ao ouvir o passo dela se distanciando, eu colocava os pedacinhos de pão em ordem nas traves embaixo da mesa. Quando ela voltava, estava tudo comido!
Era a solução, eu não queria brigar. Se eu não queria comer mesmo, então punha lá. Não sei quando descobriram; com certeza abriram a mesa para pôr as tábuas e caíram os pedaços no chão. Pode-se imaginar a surpresa dela e de mamãe.
Percebe-se que aí já ia se desenvolvendo também, em mim, um certo senso político da condução das coisas para evitar esse choque interior, porque eu era, ao pé-da-letra, o que se chama em francês muito douillet,1 gostando das coisas muito almofadadas e aconchegadas para mim.
Eu não estou dizendo que tudo isto seja virtude, pelo contrário, há defeitos graves que me deram trabalho e me mantêm vigilante até hoje. Mas, enfim, se querem saber como é a minha sensibilidade, eu devo contar a verdade.
Senso vivíssimo da própria dignidade
Isso contrastava também com um outro aspecto. O meu modo de ser tranquilo e pacífico levava-me muito a não entrar em brigas, mas, graças a Nossa Senhora, eu tinha – e ligado à sensibilidade – um senso vivíssimo de minha dignidade. Acho que isso hauri de mamãe, algo um pouco além da sensibilidade, mais próprio da alma.
A ideia dupla de que eu, enquanto pessoa, tinha qualquer coisa de superior – desculpem-me ao dizer isso – eu não me explicava bem esse ponto nem procurava explicar, mas algo que me impunha como um dever absoluto, fazer-me respeitar, com a impossibilidade e a proibição moral de eu, debaixo de qualquer ponto de vista, fazer-me de bobo ou algo semelhante, que não fosse de menino respeitado.
E nisso eu creio que não entrava vaidade nem amor-próprio. Era algo ligado a uma outra ideia, que ultrapassava a sensibilidade, mas como que despertava em mim reações muito vivas, e que merece ser nomeado no jogo da minha sensibilidade.
Essa dignidade vinha da ideia de que as famílias de meus pais, apesar de não serem das mais antigas do Brasil, possuíam uma categoria muito alta e muito boa, e isso impunha a obrigação de me fazer respeitar não só enquanto pessoa, mas enquanto membro daquela família. Eu pensava: “Aquelas linhagens são superiores em tais aspectos e, por causa disso, elas têm uma irradiação no próprio meio até maior do que seria cabível com o conjunto dos pontos que elas têm. Isso eu preciso assimilar e preciso ter. E é uma obrigação minha fazer valer isso por um princípio de fidelidade ao que tem de dom de Deus nessa condição”.
Possibilidade de casamento
No que se refere ao Sexto Mandamento, eu só concebia haver uma inclinação por uma moça nos limites da idade do casamento. Eu pensava em me casar, mas não queria fazê-lo fora do meu circuito social. Ademais, compreendia que, para ser um casamento direito, eu precisaria ter uma espécie de paridade fraterna com minha esposa. Ou seja, ela precisaria estar à minha altura, devia me respeitar e ter as mesmas ideias.

Para que um casamento correspondesse a isso, não esperava encontrar alguém aqui no Brasil, talvez na Europa. Como me parecia que o caminho de todo homem era casar-se, então seria um casamento resignado, muito mais do que entusiasmado. Resignado porque, enfim, eu achava que alguém com a minha mentalidade eu não poderia encontrar.
Combatividade e rejeição à amizade sentimental
Com o tempo, percebi que minha relutância em andar e em estar de pé – porque eu procurava estar de pé o menos possível –, decorria de um mal-estar físico que eu não chegava a notar. Qualquer um, estando de pé, pode estar tão natural quanto sentado, mas, para mim, não. Estar de pé foi sempre um sacrifício e estar sentado sempre algo agradável. Com o progresso dos anos, dei-me conta de que isso era um mal-estar difuso de caráter físico, decorrente de um desvio de espinha bem acentuado – o qual nunca relacionei com isso –, e que, portanto, não era tanto preguiça quanto mal-estar. Além disso, desde pequeno eu senti muita dor nos pés para andar, e que se acentuou com o tempo. Por falta de discernimento, eu chamava isso de preguiça.
Mas não deixa de ser verdade que preguiça espiritual e psicológica eu sempre tive em quantidades colossais. Então, era preguiça de combater, de esforçar-me. Contudo, por causa da Contra-Revolução, sentindo-me na batalha da vida para preservar a minha fidelidade à Igreja, a minha respeitabilidade como nascido de família tradicional brasileira, digno de todo respeito, enfim, para preservar uma porção de coisas, eu tive de desenvolver uma combatividade enorme; e compreendi que era só levando a combatividade e a desconfiança até o último ponto que eu poderia realmente ser um homem combativo. Com meios-termos eu não o conseguiria.
Compreendi também que todo homem é ruim. Eu notava o que era ruim em mim e a maldade dos outros homens. E, portanto, a ideia primeira de que todas as pessoas são boas e que as estimamos por causa disso, feneceu completamente, sendo substituída pelo seguinte pensamento: alguém é bom quando corresponde à graça, pois esta o ilumina e transforma em algo muito melhor do que se pode imaginar. Mas se retiram a graça da alma, surge um monstro.
E mesmo a quem eu tinha mais veneração, pensei: “Eu não venerarei bem enquanto não encontrar o lado fraco, o lado mole, não consentido, mas nativo, originário”. Pus-me nessa pesquisa e creio que encontrei, pois até lá chegou o meu horror à amizade sentimental, por tomar a pessoa como ela não é. Preciso ver como ela é e querê-la bem por amor a Deus, o resto é conversa fiada.
Gostos carregados de simbolismo e profundidade
Acho que com esses lineamentos principais pode-se notar o que vai muito além da sensibilidade, ou seja, os gostos. Por exemplo, o gosto do grandioso, do monumental, do forte, o gosto das cores mais do que das formas. Tudo isso se pode facilmente deduzir do que acabo de dizer.
Eu sou muito mais sensível às cores do que às formas, porque a cor é um símbolo que me fala muito mais do Absoluto, portanto de Deus, e tem qualquer coisa de mais genérico e mais alto do que a forma. Esta última me fala muito mais do indivíduo. Eu não quero dizer que isso deva ser para todo mundo, mas é o que há em mim.
Havia na Renascença diferença entre a escola veneziana e a escola florentina. Os quadros florentinos são de desenhos primorosíssimos e cores muito discretas, apenas para dar uma realidade ao que estava pintado. E nos quadros venezianos, pelo contrário, as cores são bonitas e muito falantes, e o desenho tinha apenas o necessário para se entender.
Quando li isso, senti-me veneziano! Eu estive em Florença e gostei muito, é uma cidade bonita. Mas, em Veneza, eu me senti outro homem! Sem comparação! É o modo de ser de cada um.
Parece-me que o verum que no desenho se vê, se entende, se pesquisa, se entende na cor, é evidente. O verum, a realidade, se sente muito mais na cor do que no desenho.
Por que isso? Eu já me tenho perguntado e não percebo bem por que é. Talvez com o tempo eu chegue a perceber.
O dar de si constituirá a nota tônica do Reino de Maria
Eu notava em mamãe algo como uma característica do mundo novo que ia nascer, mas que, curiosamente, tem alguma relação com o romantismo enquanto afetividade, não enquanto escola de filosofia.

Ela tinha uma forma de carinho envolvente para quem soubesse compreender e agradecer, e uma forma de querer bem onde havia mais dom de si e, por causa disso, uma faculdade de envolver, de penetrar, de estabelecer um vínculo afetivo absorvente, no sentido de formar um só com ela, porque ela tinha muito pouco egoísmo, tanto quanto se pode dizer isso de uma pessoa concebida no pecado original.
Essa forma de carinho eu tenho a impressão que diferencia, distingue a América do Sul da Europa e dos Estados Unidos, muito definida e agudamente. Eu falo menos do mexicano e do centro-americano, pois os conheço menos, mas suponho que seja a mesma realidade. Acho que isso ainda é mais acentuado no brasileiro do que nos outros hispano-americanos, e era mais acentuado em mamãe do que em qualquer outro brasileiro que eu tenha conhecido. Não quero dizer, portanto, que absolutamente não haja em nenhum, mas apenas falo dos que eu conheci.
Eu volto a dizer: a excelência dessa bondade consiste no dar de si. O carinho não é visto apenas como um apoderar-se, mas muito mais como um dar-se, o que era uma nota saliente em Dona Lucilia.
Essa atitude torna o homem, tanto quanto possível, de un vermisseau et misérable pécheur,2 num outro Nosso Senhor Jesus Cristo. Disso Ele foi o Mestre de um modo superperfeito, verdadeiramente humano e divino. O que tem de extraordinário, debaixo desse ponto de vista, é o quanto Ele Se dava, o querer bem d’Ele era mais um dar-Se e oferecer-Se do que um querer para Si ou apropriar-Se.
Noto que o meu modo de querer bem é esse. É muito difícil alguém me ver procurar uma pessoa para obter dela uma vantagem para mim, nem tenho segundas intenções de tirar proveito. Ou eu quero e quero, ou eu não quero e passo por indiferente ou inimigo, conforme for o caso.
Aliás, eu só sou inimigo de quem ataca a Igreja e a Civilização Cristã. Fora disso não sou inimigo de ninguém, pode me fazer a pessoa o que quiser que eu não fico inimigo dela. Mas se atacar a Igreja, a Civilização Cristã, eu desejo exterminar toda a obra dessa pessoa, fazendo o que for possível para liquidar, tolher a obra que ela possa fazer.
E ninguém, em anos e anos de convívio, viu-me com raiva de outro, absolutamente não. Por exemplo, nos estrondos que tive de enfrentar, o menos colérico fui eu. Era, ao mesmo tempo, o mais visado e o menos colérico.
Essa propensão a dar-me, encontrando aí uma espécie de repouso para mim, eu recebi de mamãe, e creio que é uma coisa que vai para os séculos futuros, ou seja, no Reino de Maria deve ser muito assim.
Amar o próximo por amor ao espírito da Santa Igreja
Creio que Nossa Senhora deu esse predicado à Península Ibérica mais acentuado do que ao resto da Europa. E deu mais aos portugueses do que a outros reinos que havia lá. Ao Brasil, deu mais do que à América espanhola, como já tratei.
É preciso dizer que no europeu há muito menos propensão para dar-se, mas também ele não tem certas más propensões que nós temos. Por exemplo, é fora de dúvida que os povos sul-americanos, em parte, não progrediram porque têm muito menos propensão para o trabalho e para a vida dura do que os europeus.
Eu diria o seguinte nessa linha do dar-se: com essa propensão que tenho, há em mim um querer bem aos outros que não é por querer bem para mim, mas é por causa de algo de bom que está nos outros e que corresponde a um certo bem que não sou eu e que não é o outro, mas é o espírito da Igreja Católica ao qual me dei, tomado e conhecido mais do que se conhece uma pessoa.
Ou seja, sob certo ponto de vista, eu creio conhecer a Igreja Católica melhor do que conheço qualquer pessoa com quem eu tenha tido contato em minha vida; o espírito da Igreja absolutamente em todos os seus aspectos, mesmo os mais diversos uns dos outros. Eu me regozijo com essa diversidade e faço dela um banquete para a minha alma.
Tudo o que pertence à Igreja Católica eu amo intensamente
Eu tenho pelo gótico o encanto que todos sabem; porém, durante o tempo em que havia embaixo de meu apartamento o escritório de uma agência de viagens, costumavam colocar cartazes de propaganda convidando a fazer turismo no Oriente Próximo, e certa vez havia uma fotografia muito bem tirada, bonita, de uma igreja antiga, que deveria ser dos armênios, das cristandades primitivas. A parte detrás da igreja dava de costas para o mar, chegava ali um barranco com umas pedrinhas, e a água entrava lá, mexia com aquilo; mas tinha um quê dos primeiros tempos da Igreja no Oriente que depois não se recompuseram.

Eu não pedi aquele cartaz para mim só de medo de não ser compreendido, mas eu amei aquilo intensamente. Era um aspecto da Igreja.
Por exemplo, os verdadeiros aspectos do canto dos melquitas. Aquilo tudo é muito diferente da Idade Média, mas eu me abraso de amor por aquilo. Também pelo Rito Maronita; o Rito Latino, nem preciso dizer! Aquelas grandes mitras, os báculos e tudo o mais!
O que é verdadeiramente da Igreja eu amo incomparavelmente mais do que quis bem a mamãe – todos sabem bem disso – como o próprio foco de um certo unum que é a Igreja, à qual eu me dei e a quem amo mais do que a mim.
É algo na linha da mística comum, um sentir o Espírito Santo na Igreja, que é harmônico com o lado racional, por onde, de fato, eu tenho uma conaturalidade enorme com o tomismo e com todo aquele modo de ensinar de São Tomás, aristotélico, como se fosse eu mesmo que pensasse aquilo – eu sei que não seria capaz, não tenho aquele talento.
Tenho a impressão de que o espírito da Igreja que se manifestará no futuro não está tanto numa concepção doutrinária nova, mas nessa nota do dar-se mais, em que algo existe de criativo, que eu não sei bem como é.
(Extraído de conferência de 22/8/1987)
1) Do francês: aconchegante, confortável. Diz-se da pessoa que possui uma vida sem conflitos, sem problemas.
2) Do francês: vermezinho e miserável pecador, segundo a expressão de São Luís Maria Grignion de Montfort no seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem.




