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Grandes sonhos que se projetam no futuro e fazem a História – II

Os mais legítimos, belos e elevados sonhos dos homens ao longo de toda a História alcançarão sua plena realização, contanto que a humanidade esteja imbuída do espírito da Santa Igreja, tendo uma só aspiração com o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria e o Sagrado Coração de Jesus.

Para introduzir o tema, vou comentar Salomão. O que há de pungente no caso deste rei é a impressão que causa, como se diz em francês: sujet à caution, ou seja, que está sujeito à hipoteca, à caução. Talvez haja algo no Antigo Testamento ou no ensinamento da Igreja que retifique o que eu digo. Não li a história de Salomão antes de fazer esta reunião. Portanto, tenho uma impressão genérica de que ele era, dentro da escolha do povo de Israel, o ápice de uma rampa.

Salomão, chamado a ser um varão-símbolo, prevaricou

Flávio Lourenço
Rei Salomão – Museu de Belas Artes de Valência

Apesar de todas as infidelidades, tudo o que se conhece, Salomão, no início de sua vida, foi progredindo em virtude. Nele Deus pôs tudo que era próprio pôr, até preparar para si o seu discípulo perfeito do Antigo Testamento: o rei completo, o rei admirável, a cabeça, a alegria e o modelo do povo eleito. Esplendor intelectual, irradiação e charme de personalidade, pulchritude física, porte régio; ele tinha absolutamente tudo. E, no período bom de sua vida, é considerado como a prefigura de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muito se fala em São João Batista – quão venerável! – trajado com uma pele de carneiro, nutrindo-se de mel silvestre e de gafanhotos; figura de austeridade magnífica que precede de pouco a Nosso Senhor e diz: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Não sou digno de desatar as suas sandálias” (cf. Jo 1, 27-29). É uma magnificência tal, que surge a pergunta: Salomão não era digno de viver no mesmo tempo em que viveu o precursor do Messias, de tal maneira era grande? O fato é que São João Batista tem algo de penitencial, e se ele foi o precursor de Nosso Senhor, a impressão que eu tenho é de que Salomão é a plena prefigura de São João.

Se Salomão tivesse sido fiel, é bem admissível que outra teria sido a história de Israel. Como a História teria mudado em função desse homem! Ele prevaricou e caiu do modo como se sabe. Aquele que levantou voo como uma águia acabou sendo minhoca no galinheiro, detrito no chiqueiro. Esse é o Rei Salomão. Os homens abanam a cabeça e passam adiante, ninguém quer saber dele.

Entretanto, é bonito saber que houve um homem destinado a ser o varão-símbolo e perfeito de toda uma ascensão do alto da qual se desprenderia, em certo momento, a pomba perfeita e sem mancha, e d’Ela viria o Salvador. Se quiserem, no alto de um monte todo de cristal, e reluzente, brotaria de repente a mais linda planta de toda a Terra e dela o fruto que valeria mais que o universo inteiro: Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os povos antigos esperavam um Salvador

Com essa impostação nós percebemos como a humanidade se alegra diante dessas figuras típicas, características de perfeição, de plenitude, de beleza. O homem para e tende a oferecer a homenagem de sua oblação.

Flávio Lourenço
Semíramis caçando um leão – Museu Fabre, França

No Antigo Testamento, nós vemos que a ideia caminha nessa direção, porque há um Messias que deve vir e redimir o gênero humano.

Aliás, em muitos povos antigos, encontramos que a humanidade estava escangalhada, degenerada, deteriorada, e o progresso não se fez sob a forma de um aperfeiçoamento de máquinas que eles foram inventando, como a roda, nem de dados técnicos, pois não era lá que eles deveriam procurar a solução. Esta estava no Messias que haveria de vir.

Em alguns povos, lembrados ainda da Revelação primitiva dada a Adão e Eva (cf. Gn 3, 15), havia a ideia de um Messias que nasceria de uma virgem. Os persas, por exemplo, acreditavam que, em certo momento, viria um salvador – eles não usavam a palavra Messias, pois é hebraica – nascido de uma virgem. E eles viviam nessa esperança.

Em certo momento, Deus constitui o povo eleito; dentro deste surgiria a dinastia da qual nasceria a Virgem, e d’Ela viria ao mundo o Salvador.

Percebam a eclosão da História num duplo movimento de sonho, que vai se acumulando no passado, aos poucos se transformando em realidade e se destilando, quintessenciando-se.

O bonito é estudar História assim, analisá-la desta forma, aí ela ganha vida. Parece-me relevante guardar essas impressões, pois são o néctar da História!

Houve na História os sonhos retos e os malditos

Do mesmo modo, todas as nações caminham para a ideia de um Estado, de uma sociedade, de uma ordem de coisas perfeita.

Antigamente isso se dava com Jerusalém. Os judeus a consideravam como a cidade perfeita. A Bíblia chama a cidade perfeita, alegria da humanidade inteira (cf. Sl 47, 2-3). Por quê? Porque tinha o templo onde Deus Se comunicava com os homens. Sobretudo porque nela um dia ia sofrer e nos remir o Cordeiro de Deus. E dessa Redenção superabundante, nasceria a ordenação de todas as coisas.

Houve no passado, então, vários sonhos de cidade perfeita. Por exemplo, o Império Romano realizou a seu modo um esboço. O império persa e o caldeu visaram a uma certa perfeição.

Há quem diga que Semíramis1 não existiu; há outros que dizem que ela existiu e que os tais jardins lendários, suspensos, existiram de fato.

Flávio Lourenço
Torre de Babel – Museu da Catedral de Milão

Eu não acho tão importante saber se existiram ou não. O importante é saber se os caldeus um dia se encantaram com a ideia de um jardim suspenso, de uma Semíramis fabulosa que passeava no meio deles e representava uma coisa perfeita dentro de uma cidade magnífica que eles queriam construir. Era uma aspiração, um sonho nacional.

Foi também um sonho, mas um sonho maldito, a Torre de Babel. Quantos outros sonhos malditos os homens fizeram assim! Na Torre de Babel eles quiseram construir um monumento que desafiasse o Céu. É um sonho completamente laico, de grandeza humana. Foram construir e, em determinado momento, Deus os castigou e os dispersou, os ejetou pela Terra inteira. Com isso, vieram castigos para os homens, entre os quais a confusão das línguas (cf. Gn 11, 1-9).

Eu sou levado a achar que, com a confusão das línguas, algo de mental se rebaixou, o homem ficou menos inteligente e menos capaz de saber a arquilíngua que exprimiria tudo, que diria tudo, com matizes nem sei quais, com a graça grega, a precisão latina, a sonoridade francesa, a vivacidade alemã, os sons portugueses, o timbre castelhano, o cantante italiano, tudo somado. Por que os homens não falam mais essa língua? Porque não são capazes disso.

Tenho a impressão de que as línguas de hoje não são nem sequer um patois,2 dialetos baixos daquilo que foi outrora. Houve uma queda no padrão humano e, já antes disso – e quão terrível! – com a Arca de Noé. Contaram-me há pouco – eu não me lembro de ter lido isso na Bíblia – que o homem vivia por volta de novecentos anos (cf. Gn 5). Com o dilúvio, a vida do homem ficou abreviada (cf. Gn 10). Moisés viveu só 120 anos (cf. Dt 34, 7).

E o homem de hoje, o que é? Vai-se apagando, se apagando, se apagando; são quedas, baques, porque sonhou com uma coisa perfeita que depois não foi realizada.

Com a fundação da Igreja Católica, há o início da ordem temporal perfeita

Entretanto, o reino e o estado perfeitos para o homem perfeito estavam iniciados com a Redenção, a fundação da Igreja Católica, alma da ordem temporal perfeita, que é a Civilização Cristã.

Houve o Império Romano pós-constantiniano até a invasão dos bárbaros. Essa foi a civilização romana batizada, mas não era a Civilização Cristã verdadeira. Aquela arquitetura e aquela arte não foram concebidas por almas cristãs, embora fossem vividas, no que tinham de bom e digno, por elas.

Na Idade Média, pelo contrário, o Batismo influenciou a própria concepção das coisas, e daí começou a nascer a ordem perfeita, que é a Civilização Cristã.

Qual terá sido o novo Salomão – micro Salomão – que pecou, caiu, e se tornou réu do pecado imenso? Não sabemos, isso fica pelas brumas da História. O fato é que o mal começou a construir a cidade dele, ou seja, a construção da desordem total, ou melhor, uma destruição, uma derrubada.

Nós estamos no fim dessas ruínas, no começo da implantação do reino maldito dele. Nossa Senhora de Fátima apareceu oferecendo uma alternativa: “Ou eu converto a Rússia, se vocês se converterem; ou acabará vindo um castigo”. E passaram-se, de lá para cá, sessenta anos, numa terrível espera.

O castigo começou logo depois, com a queda da Rússia. É um longo atormentar antes de liquidar. E os homens não dão atenção.

A ordem perfeita posta na Igreja, no homem e na Cristandade

O que será o Reino de Maria? Será, afinal, essa ordem perfeita posta na Igreja, no homem e na Cristandade. Ou seja, quando a Igreja estiver no feliz estado de gerar, com toda a abundância inerente à generosidade dos planos de Deus, homens grandes como carvalhos, de uma santidade não suspeitada ainda, e que ela deitar as raízes pela Terra inteira, sendo senhora de tudo, no regime de Nossa Senhora, com aquele poder, sobretudo aquela virginalidade da Mãe de Deus, numa Igreja que não se pode chamar arqui-Igreja, mas a Igreja na sua arquiperfeição, esses arquivarões constituirão na ordem temporal o arquiestado.

E nós teremos ali o nosso sonho. Tudo quanto os medievais pensaram, somado a tudo quanto estava no primeiro anseio que Nossa Senhora teve de que o Redentor viesse ao mundo, passando pelas dores, pelas alegrias da vida terrena d’Ele, padecendo depois a Paixão, a Morte, até Pentecostes etc., tudo isso se realizará em estado de magnificência e de vitória final d’Ela no Reino de Maria.

Os homens arranjarão um jeito de derrubar também esse reino. Contudo, virão dois varões perfeitos, separados de todos os outros, do fundo da História, confirmados em graça e que se oferecem em holocausto: Henoc, que teria conhecido Adão (cf. Gn 5, 24), verá o Anticristo; Elias, que fundou a ordem eliática, também participará da invectiva e será morto junto com ele. Depois virá Nosso Senhor Jesus Cristo na sua pompa e majestade (cf. Ap 11, 3-12). Não há mais nada a dizer.

Tangopaso(CC3.0)
Carlos Magno recebendo Alcuíno – Museu do Louvre

Aí temos uma espécie de ideia da História vista com olhos de sonho. Não é uma mentira, mas é um ensaio de como se deve – com olhos de anseio – verificar a História. E é propriamente isso que dá a dimensão histórica à alma do contrarrevolucionário ao ver a vida, a História, o passado, o presente e o futuro numa mesma perspectiva, levada por anseios desses. Essa é a globalidade da questão.

Para a concretização do sonho contrarrevolucionário é necessário o holocausto

Se passamos do campo do bem para o do mal, no Paraíso – para falarmos mais uma vez dele – houve alguma coisa que representasse o sonho do mal?

Na promessa do demônio “Sereis como deuses” (cf. Gn 3, 5), vemos que ele ou instilou um anseio que não havia, ou avivou uma aspiração para a qual o homem era propenso.

O homem não era Deus, mas conhecia a Deus e sabia o quanto Lhe era inferior. E era propenso a – aí está a prova, a tentação – vendo um estado superior a si, oferecer o holocausto de si mesmo. Entretanto, Adão e Eva fizeram o contrário: desejaram tudo para si.

O holocausto é a essência da Contra-Revolução. E não tem alma contrarrevolucionária aquele que, diante de cada superioridade, de qualquer natureza que seja, não tenda à homenagem, ao obséquio e ao holocausto.

Por exemplo, Carlos Magno não seria a grande coluna da Contra-Revolução, se ele não tratasse Alcuíno com a superioridade que a instrução desse monge exigia. Ele era mais ou menos – para profanar as funções dele com um nome inadequado e moderno – Ministro da Educação e Cultura do império de Carlos Magno. Porque, a esse título era mais do que o Imperador.

O grande Carlos deveria ter gosto não só em que Alcuíno fosse mais do que ele, mas, podendo, em certo momento, sem abdicar da majestade imperial, imolar algo em favor de seu Ministro. Por exemplo, recebendo dos árabes uns manuscritos preciosíssimos, dá-los ao convento de Alcuíno, que se fez beneditino, com voto de pobreza, ou mandar construir um mosteiro com todo o necessário para ele viver.

Carlos Magno deveria desejar fazer algo que fosse um sacrifício de sua própria substância pelo outro. E no dia em que fizesse isso, ele não deveria gostar que os outros aclamassem: “Oh, que rei generoso nós temos!” Isso significava receber uma recompensa. Ele gostaria que os outros cantassem junto com ele: “Ó grande Alcuíno, nós te louvamos!” Essa é a impostação correta da alma.

A posição revolucionária é querer ser igual a Deus, porém cheio de deleite por si mesmo

A posição revolucionária por definição é outra: “Ah, Deus tem isso? Eu também quero para mim!” E sempre que nós sentirmos um pendor revolucionário, lembremo-nos: o “eu também” dá no seguinte: “Eritis sicut dii – sereis como Deus” (Gn 3,5).

Todo sonho revolucionário não para e é uma incorporação de outras coisas a nós, de outras coisas a nós, de outras coisas… até uma plenitude, no fundo da qual, olhando para Deus, diremos: “Eu quero aquilo!” Porque nós queremos tudo.

Alguém dirá: “Dr. Plinio, não é bem verdade. Olhe o hippie, por exemplo. Ele se despoja desdenhosamente de tudo, é um neofranciscano”.

A vontade que se tem é de responder: “Não blasfeme, porque não é verdade! O hippie carrega consigo a experiência, a memória de toda a ascese que é necessária para o homem subir retamente. Para ser educado, para ser culto e inclusive para viver agradavelmente – parece incrível, mas é isso – o homem precisa de ascese. Porque se o homem não fizer nenhuma ascese, ele se despe de tudo e se joga na vida hippie. Ali ele se esparrama e faz tudo quanto é gostoso”.

Um modo de negar toda superioridade é negar toda regra sobre si. E, para isso, o indivíduo precisa abandonar todos os princípios, as normas, as coerções, as organizações, as estruturas, as leis, a cultura, tudo! E vagabundear segundo o ritmo do espírito por onde queira. Caricaturando o homem, dando a ideia de inteira autossuficiência que não precisa de ninguém para a sua própria vida, e que pode viver só ou em hordas desagregáveis à maneira de emulsão que se recompõe, como a areia tocada pelo vento, dando a ideia de que ele se basta a si próprio com as coisas que existem no universo.

É um modo de querer ser Deus, porque só quem se basta a si próprio é Deus. É um outro estilo de chegar a essa autossuficiência. De onde o hippie não reza, não pede nada para si; ele vagabundeia, tira tudo de si, haure de si, vive para si, ele não quer mais nada.

O sonho perfeito faz caminhar as cogitações e as vias

Há alguns homens, ainda, que sabem sonhar e que lutam pela prevalência do que nós chamamos sonho, da aspiração na Terra, como primeiro impulso, do fundo da inocência à procura de Deus. Daí vem um desenvolver de alma de que eu já tratei anteriormente.3

Flávio Lourenço
Sagrados Corações de Jesus e Maria

De outro lado, o sonho faz caminhar as cogitações e as vias. Um dito de Isaías “Vossas vias não são as minhas vias, nem vossas cogitações são minhas cogitações” (cf. Is 55, 8-9), pode-se aplicar a Nosso Senhor com os Apóstolos. Ele fez inúmeros convites para uma união de vias e de cogitações, porém, foi negado até dar na infâmia que conhecemos na Paixão. Se das cogitações e das vias não restava mais nada, era porque as aspirações profundas dos Apóstolos não eram as d’Ele. Daí as vias e as cogitações não serem as mesmas. Em Pentecostes, isso se alterou.

Então, o que é essa união de aspirações? Eu não tive tempo de ler o livro de São João Eudes, mas o que tenho visto sobre o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, parece-me dar fundamento à tese de que o órgão físico – o Coração Sagrado d’Ele – exprime e simboliza as aspirações mais profundas da humanidade santíssima de Nosso Senhor, em união hipostática com a segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

É o fundo da natureza humana ligada à divindade, posta, portanto, num estado inexcogitável por nós. E a santidade incomensurável e imaculada de Maria Santíssima se vê nessas aspirações fundamentais, originárias, primeiras, que se dirigem a um determinado rumo.

O Sagrado Coração de Jesus e Maria exprime a perfeita união dos corações

Imaginem Nossa Senhora meditando, procurando excogitar como seria o Messias, de Escritura na mão, ajudada por graças e por Anjos, que nós nem podemos imaginar adequadamente. No momento em que Ela compôs a figura do Messias, apareceu o Anjo e A convidou para ser mãe d’Ele.

O que era isso senão uma aspiração saída do mais fundo d’Ela? Naturalmente não era só da natureza. Eu acabo de dizer, a graça, a vocação – não especial, mas única que Ela tinha – com suporte na natureza d’Ela, imaculada e confirmada em graça desde o primeiro instante do ser, e caminhando para aquilo. Aí se vê que a cogitação e a aspiração d’Ela, era o Verbo que depois gerou.

Se o que estou dizendo confere com o que a Igreja leciona a esse respeito, e a quem mais uma vez eu submeto com alegria tudo quanto digo, então nós compreendemos bem o que é a união dos corações. É uma união pela qual as aspirações, no que têm de mais perfeito, fundem-se e são uma só coisa.

Assim se entende que São João Eudes chamava o Sagrado Coração de Jesus e Maria, no singular. É tão grande a união, que forma uma só aspiração. Se isso for assim, essa tem que ser a força motriz, a grande linha da História. O resto são pormenores.

As almas que se entregam a esse ideal arrastam muitas outras

Se nos planos da Providência divina há um número, sobretudo uma qualidade, reputados suficientes, se há almas que inteiramente se dão a essa união, tem de ser que isso tenha, de proche en proche,4 um mover sobre todas as outras almas, pelas quais, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo que a engrenagem das aspirações se modifica. E com isso se modifica o curso da História.

O resto, quais são as escolas, as universidades, os exércitos, as técnicas etc.? Tudo isso tem sua importância, mas acaba se amoldando se nesse ponto as coisas estiverem bem. Pelo contrário, se houver um amolecimento nesse ponto, nada mais é nada na terra de ninguém. Porque tudo se esvai, tudo se liquida por completo.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1981

Alguém dirá: “E se o número não for bastante?” Alguns poucos obterão a multiplicação dos fiéis. Quem fez a multiplicação dos pães, não fará a multiplicação dos fiéis? Como pôr isso em dúvida?! Então, as poucas almas que haja, que sejam, na força do termo, “varões de desejo”, ou seja, homens que desejam aquilo que Nosso Senhor e Nossa Senhora desejam – porque o resto é extravio – que tendem para onde a Igreja, na sua melhor autenticidade e na sua melhor representatividade, tende, esses obterão a vinda de outros. Assim como um Daniel profeta, como um Elias, moveu toda uma série de coisas.

Elias começou por Eliseu. Depois espraiou pela Terra, pela História o veio eliático, dentro do qual me parece ver Cluny, parece-me ver São Luís Grignion de Montfort e tantas outras almas. Portanto, esse veio acendeu-se a partir da chama que foi Elias. Entretanto, no tempo dele, parecia muito desassistido, muito desajudado; que importância tinha? A questão é ter movido outras almas.

São Luís Grignion de Montfort, por exemplo. A Vendée, que foi um corolário da pregação dele, como se extinguiu! Contudo, quem ousaria dizer que morreu a obra dele? Esse santo perfuma a Igreja, queiram ou não queiram, definam ou não definam, ele está ali! Essas são as coisas que não morrem.

Embora distantes, estaremos próximos se tivermos uma só aspiração

Eu queria muito ter isso bem fixado nos meus filhos por ocasião dos castigos previstos em Fátima. Nós nos preparamos para eles tendo essa arquitetura de pensamento diante dos olhos. No caso de nossa vocação é assim: podem acontecer as coisas mais inesperadas, mais assombrosas, mais lindas, como também as mais terríveis; nós temos a certeza de que, uma vez que houve almas que se deram, isso vai vingar. Nossa Senhora chegará ao seu resultado.

Eu, às vezes, recebo pedidos prementes de que explique se nessa ocasião estaremos juntos. O que vou dizer agora me enseja de responder de cheio à pergunta.

Não se trata tanto de estarmos fisicamente próximos. Se nós tivermos as mesmas aspirações, se todos formos os filhos do mesmo desejo, ou seja, dos desejos, das promessas e das ameaças de Nossa Senhora em Fátima, mesmo à maior distância da Terra, nós estaremos juntos. Ora, na medida em que nós não formos isso plenamente, à maior vizinhança da Terra, nós estaremos distantes. Não se iludam!

A ponta do gládio é essa. Para o nosso caso, não se trata de nenhum modo de proximidade física. Quanta proximidade física temos tido ao longo dos anos e das décadas! Se não houver essa união de alma no mais recôndito de nós, tendo uma só aspiração, que é o Reino de Maria, não como uma fórmula oca, mas uma aspiração nascida de nossas católicas, inocências, adquiridas ou readquiridas com quanto ornato pela contrição. E eu vou dizer mais: às vezes, quanto maior o convívio, maior a distância. É terrível, mas chega-se a esse ponto. Inclusive almas chamadas a uma grande união são tentadas na convivência e devem manter a distância para conservar essa união. Tais são os mistérios que isso comporta.

A questão é participar do espírito da Igreja e ter uma só aspiração com o Sapiencial e Imaculado Coração de Maria, portanto, com o Sacratíssimo Coração de Jesus.

(Extraído de conferência de 3/6/1981)

1) Lendária rainha da Assíria e fundadora da Babilônia.

2) Do francês: dialeto oral, geralmente restrito a uma região rural.

3) Ver Revista Dr. Plinio nº 335, p. 24-28.

4) Do francês: expressão que significa “passo a passo”. Literalmente, “de próximo em próximo”.

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