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Perfeições opostas e harmônicas

Uma pessoa habituada a fazer exercícios de transcendência a propósito de tudo leva uma vida entretida, porque vai ao fundo das coisas e se reporta ao Ser que é a fonte de todas as delícias na Terra: Deus, Nosso Senhor.

Há um método pelo qual podemos transcender dos seres criados até o Criador. Vejamos qual é.

O mar, atraente e dominador

Tendo diante de mim um panorama, ou seja, um conjunto de objetos que cabem num mesmo golpe de vista e possuem certa inter-relação, sinto algo ao contemplá-lo e devo procurar explicitar o que ele exprime.

Consideremos um panorama marítimo composto de dois elementos puros e um elemento que, na falta de melhor expressão, poderíamos chamar de misto. Os primeiros são: a terra enquanto terra, e o mar enquanto mar; o elemento misto é o ponto onde os dois elementos puros se tocam, misturam-se e entrando numa espécie de confronto.

A seguir, eu farei uma descrição de cada elemento.

O mar, massa líquida enorme, de uma cor leve, ligeiramente tendente ao azul – ao menos para minha vista – quase se poderia dizer que é um pouco azul-verde, um pouco água marinha. Percebe-se que ele vem de muito longe e, sem estar propriamente revolto, está num movimento contínuo colossal, deslocando-se dentro de si mesmo, massas e massas de água de um lado para outro, discreta, mas possantemente; e, tendendo a espraiar-se, pede para conquistar e entrar na terra. O mar tem qualquer coisa de dominador, de avassalador.

Por outro lado, há algo curioso: ele avança, vai para frente, mas convida quem está perto a entrar nele. É um avançar fascinante, que não só não dá à pessoa vontade de fugir, mas dá vontade de entrar nele. Tem-se a ilusão – pode ser algo subjetivo, aliás, não é inteiramente uma ilusão –, de que, imerso nessas águas, há uma delícia de estar ali e de morar dentro delas; e que há um deleite para o corpo em afagar o frescor dessas águas, em saborear o salgado; para o olfato, em sentir o cheiro dessas maresias que dessas águas se desprendem; e para os músculos, uma alegria, ora em se deixar levar como uma molécula que o mar arrasta, ora em contrariá-lo, entrando nele quase como numa espécie de luta, para ter a alegria de revolvê-lo.

Quer dizer, nós, que somos habitantes da terra, sentimo-nos atraídos para dentro do mar como um pássaro para o ar, por exemplo.

Confronto entre a terra e o mar

Essa sensação causada pelo mar, entretanto, é contrariada pela impressão que causa a terra ao aparecer sob a forma de montes, os quais dão ideia de que não foram cortados por mãos de homem, mas por uma ventania impregnada e quase vaporizadora de ar do mar, que joga a umidade salgada, marinha, de encontro à montanha e a corrói, umedece-a e torna impossível qualquer vegetação.

Por outro lado, essa montanha lambida, cortada, mutilada, causa a impressão de que se sente meio afrontada e procura olhar o mar de cima, redarguindo com uma segurança extraordinária: “Adiante tu não irás. Meu poder é fixo, estável, inamovível. Contenho-te. Tu morres ou me feres. Inferior a ti, eu não sou. Eu sou sólida, não líquida. Eu permaneço, tu és variável. Tu és a fantasia, eu sou a realidade palpável, efetiva, física. Tu és mais a realidade espiritual, etérea”.

E o mar responde: “Substância cega, estúpida, parada. Eu continuarei a te injuriar e a te corroer, a te lamber e a te desprezar. Eu sou o espírito, superior a toda a tua carranca. Onde tu, para te afirmares, fazes carranca, eu, para me afirmar, resplandeço e passo”.

Gabriel K.

Eu sentiria o confronto desses dois elementos dessa forma. Compreendo que possa entrar aqui algo de subjetivo, que outros sintam diferentes notas dentro disso ou considerem secundárias as que eu acabo de dar. Mas a mim, elas me falam muito.

Amenidade da zona intermediária

Agora vejamos a zona intermediária. Trata-se da praia, amena, sem os orgulhos e a pretensão das montanhas, quase tão graciosa como o mar. Dir-se-ia que é um pouco de fundo de oceano que dorme ou sonha ao pé da montanha e sobre o qual este vem passear.

Em relação a essa praia, o mar é afável, entra nela branco, sorrindo em espuma; ele a visita, mas não a ocupa; e retira-se deixando presentes, como as conchas e as ostras. Dir-se-ia que há uma amizade entre os dois elementos. E nós temos aqui, em última análise, duas formas de beleza, porque tanto o monte quanto a água têm sua beleza, que não são contraditórias, mas são perfeições opostas e harmônicas, cuja harmonia é afirmada nessa faixa central, que faz exatamente a nota de síntese entre uma coisa e outra.

Exclamações que brotam do espírito

Depois de feita essa descrição do quadro, vem uma exclamação que talvez pareça abstrata demais, pelo que vou ter que explicá-la antes. É muito mais interessante primeiro fazer a exclamação e depois explicá-la, mas neste caso, didaticamente, vou inverter o método.

Quem olha só para o mar neste quadro, contempla um elemento na sua própria natureza e no seu próprio modo de ser, enchendo a quem o considera. Tem-se a sensação de plenitude: um mar enorme, admirabilíssimo, a cuja majestade e grandeza nada falta, nem sequer os encantos graciosos. Ele contém toda forma de poder, de charme, de brilho, toda imensidade, mas, ao mesmo tempo, possui todo o encanto dos seres miúdos que boiam na sua superfície. Tudo nele está presente. A pessoa sente-se de tal maneira cheia, que tem vontade de tomar um barco leve e ir visitar o mar, esquecendo-se da terra.

Se quiserem comprovar como é efetiva essa sensação de plenitude do mar, imaginem alguém que estivesse num barco e, de repente, ouvisse tocar um telefone portátil, e um terceiro dissesse: “Estão chamando o senhor para resolver um caso”. Ele teria vontade de pegar logo o telefone e resolver imediatamente o caso para livrar-se dele. Ou seja, ali, de momento, a pessoa tem tudo. Não quer nada da terra, sente-se inteiramente atendido, ao menos durante algum tempo.

Não tem dúvida nenhuma que a montanha, vista de dentro dela mesma, é perfeitamente insignificante. Mas quem a vê do mar, portanto, beneficiada pelo contraste, depois de tanto patinar dentro das massas fluídas, não pode deixar de olhar e exclamar: “Ó estabilidade, ó força, ó continuidade, substância sobre a qual eu me apoio e repouso, em vez desse mar continuamente encantador, mas no fundo traiçoeiro e que me extenua de tanto pedir que o admire. Eu volto para a tua mediania, volto para a tua pacatez como para a casa paterna, como quem tira os vestidos de gala depois de uma festa e põe o pijama. Tu és o terra-a-terra, és o contínuo, o palpável, o proporcionado a mim, meu habitat normal, do qual eu fugi num momento de infidelidade quando me superei a mim mesmo, mas ao qual eu volto sentindo que o meu lugar é esse”.

Arquivo Revista

Plenitudes que transcendem a Deus

Mas, no retorno, há uma espécie de plenitude também.

Aí temos, então, duas plenitudes opostas e harmônicas, cuja harmonia é fisicamente demarcada ou simbolizada numa faixa de contato. Entretanto, é muito raro essas duas substâncias plenas mostrarem tão claramente no que se harmonizam, formando uma unidade. No caso desse panorama marítimo, qual é o elemento que costura melhor essas duas plenitudes? Quase se diria que as ondas são como fios de linha que vão costurando a beleza do mar à beleza da terra, e, portanto, atraem e agradam.

Isso é uma plenitude por cima das plenitudes, porque os contrários harmônicos formam uma plenitude. A própria expressão “contrários harmônicos” forma uma plenitude de expressão de contrário harmônico. Eu poderia, inclusive, descrever a altaneria das montanhas e do mar, e mostrar como isso desenvolve a ideia do confronto das duas plenitudes.

Assim eu veria o panorama, e a exclamação que, feitas as reflexões, sairia dos meus lábios seria: “Oh, plenitude”.

Dessa plenitude eu faço a transcendência.

Deus não é pleno, Ele é a plenitude e pode ser comparado tanto a um oceano infinito de perfeições, como a uma montanha, a uma rocha estável que ninguém abala. Ele criou tais seres para serem suas semelhanças neste sentido. E eu, contemplando esses elementos, posso pensar nas qualidades, nos atributos infinitos de Deus que ali se refletem, e desejar o dia em que os verei face a face de um modo incriado, como nem de longe agora posso imaginar.

Dessa forma está feito o exercício de transcendência que me deixa extasiado. E quando eu deixo essa plenitude despertar uma impressão inteiramente conforme a minha razão e a minha fé, eu digo: na Terra, esta verdade, este bem, esta beleza que eu estou sentindo, são um antegozo do Céu.

Eduardo Terço;Marcos Ramos

Transcendência e entretenimento

Eu gostaria de fazer uma relação entre isso e o entretenimento.

Quem vai à praia e olha dessa forma o panorama, tem longamente com o que se entreter. Ora, quem vai de rádio ligado para saber questões de guerra no mundo ou cotações da bolsa, este não entendeu nada. Causa mal-estar imaginar que alguém possa estar de rádio ligado diante de um lugar como esse.

Portanto, uma pessoa habituada a fazer exercícios desses a propósito de tudo leva uma vida entretida. Por quê? Porque vai ao fundo das coisas e se reporta ao Ser que é a fonte de todas as delícias na Terra: Deus, Nosso Senhor.

Seria muito bonito fazer um exercício tomando algumas imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo ou de Nossa Senhora que me pareçam representá-Los bem, e imaginar onde eu Os colocaria nesse panorama, de maneira a servir-Lhes de moldura.

Isso leva para um outro mar de assuntos que é o mundo dos possíveis. Por exemplo: onde ficaria bem uma capelinha, que capelinha e em que lugar. Onde ficaria bem uma Cruz, que Cruz e em que lugar. Isso faz ressaltar belezas que dormem no panorama e que nossa imaginação evoca de dentro dele para povoá-lo pela concepção de nossa arte.

Esse é um passeio entretido.

Por exemplo, dois companheiros que, sentados numa cadeira de lona comentassem o panorama, poderiam passar uma manhã inteira ali. Ao concluir suas considerações, viessem anunciar-lhes que o almoço está pronto e que comeriam dos frutos do mar que eles admiraram e da terra que consideraram. Iriam depois fazer uma sesta desanuviada e tranquila, já não mais pensando nisso. No entanto, as considerações que fizeram ficariam como um fruto colhido no fundo de seu subconsciente, uma riqueza adquirida no fundo de sua alma.

Assim, nós poderíamos fazer mais turismo do que percorrendo quinhentos quilômetros, a cento e cinquenta por hora.

A meu ver, isso é viver.

(Extraído de conferência de 27/12/1974)

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