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Conhecimento doutrinário e comunicação de almas

Entre todas as coisas criadas por Deus no universo, nada pode dar a alguém uma compreensão tão completa da doutrina quanto vê-la refletida em outro homem. Por essa razão, para completar o conhecimento doutrinário é preciso ter uma comunicação de alma com outrem.

A Doutrina Católica, em termos muito simples, é a Revelação interpretada e explicada pela Igreja. Como se conhece a doutrina da Igreja, ou, mais especificamente, uma doutrina?

Conhecimento doutrinário e conhecimento concreto

A Providência dispôs as coisas nesta vida de tal maneira que o homem conhece a doutrina pela inteligência, fazendo abstração. Por exemplo, a doutrina que ensina que a Igreja Católica é hierárquica. Nela se entende que o poder na Igreja está entregue à classe sacerdotal, à qual compete ensinar, dirigir e santificar, enquanto que a nós, leigos, cabe sermos ensinados, dirigidos e santificados.

Tomas T.
Igreja dos Carmelitas, Rio de Janeiro

Mas uma coisa é saber isso em doutrina, outra é considerar in concreto a Hierarquia Católica, como ela existiu e deveria existir: os cardeais, arcebispos, bispos, vigários; e depois as ordens religiosas, que constituem uma espécie de exército colateral ao do clero secular, também todas elas hierarquizadas.

De um modo plenamente humano, o homem conhece a doutrina entendendo o princípio abstrato de que a Igreja é e deve ser hierárquica, por instituição de Nosso Senhor Jesus Cristo; e conhece depois a hierarquia como ela existe na Igreja. Porque o conhecimento não se cifra ao abstrato, mas pede o exemplo concreto para dar um abarcamento inteiro do assunto.

Dou um exemplo que ajuda a exprimir o meu pensamento: imaginem um homem pagão que está viajando no deserto e lhe cai em mãos, de repente, uma série de livros sobre a Doutrina Católica. Ele está em cima do camelo, vai lendo os livros e se converte. É um homem da Namíbia, que nunca viu nada da Igreja Católica. Ele pode conhecer toda a doutrina, mas enquanto não ouvir um sino, um órgão tocar, um cantochão, não vir uma cerimônia religiosa, o interior de uma igreja, as realidades materiais de um templo, a lamparina do Santíssimo acesa, uma mitra, um báculo, etc., ao conhecimento que ele tem dessa doutrina falta uma certa dimensão, a humana, própria ao homem, que é o concreto no qual aquele abstrato se cola.

Reversibilidade entre ambos os conhecimentos

Assim também a doutrina da Igreja no que diz respeito à virtude. Entende-se o que é a virtude, por exemplo, da castidade perfeita; quer dizer, a abstenção do ato de perpetuação da espécie humana por amor de Deus, com toda a temperança, dignidade, limpeza de alma que a pessoa adquire em virtude dessa abstenção. Mas outra coisa é ter visto uma pessoa casta. Isso completa, de algum modo, o conhecimento do que é a castidade.

E algumas pessoas são tão ricamente dotadas por Deus do dom de fazer conhecer as virtudes por elas praticadas, que o conhecimento direto de pessoas castas, em algum sentido da palavra – não em todos, nem sequer nos principais –, fala mais à alma do que o conhecimento teórico e doutrinário a respeito da castidade.

Compreende-se, então, existir uma comunicação de pessoa a pessoa, que não é, digamos, meramente doutrinária.

Se uma pessoa tivesse que escolher entre a doutrina e a prática, deveria preferir a doutrina, mas vou dar um exemplo um pouco exagerado. Se alguém me perguntasse:

— Você quer ficar sem o braço direito ou sem o esquerdo?

— Prefiro ficar sem o braço esquerdo, porque o direito me é mais útil. Entretanto, eu propriamente quero permanecer com os dois braços. É uma amputação ficar sem um deles.

Assim também julgo ser uma amputação ter que optar entre a teoria e a prática, porque ambos os conhecimentos – o doutrinário e o concreto – se completam, se conjugam, e não vejo razão pela qual, para ter um, preciso desistir do outro.

Arquivo Revista
Dr. Plinio durante conferência em 1991

Nesse sentido, tenho a impressão de que nos falta muito, por força da educação que tivemos, do século no qual nascemos, uma coisa que no contato com os antigos se recebia. Numa porção de realidades concretas se via quais doutrinas nelas se espelhavam; como, numa série de doutrinas, se percebia em que realidades concretas se refletiam. Há uma reversão que, creio eu, as almas fazem com muita dificuldade hoje em dia.

Noção total da verdade

Podem-se fazer essas reversões de todos os modos. Por exemplo, essa sineta que foi elaborada exatamente segundo as minhas indicações. Fiquei um pouco surpreso vendo que o cabo dava uma impressão de ser um pouco maior do que eu teria querido; parece-me que há certa desproporção. Se o cabo fosse mais curto, a esfera e a cruz teriam proporção com o resto da sineta. Acho que o todo está um pouco élancé1 demais. Entretanto, não deixa de ser verdade que certas pessoas muito esguias, muito altas, quando levantam a cabeça, ficam quase altas demais, mas isso orna. E essa sineta tem uma analogia com pessoas que são assim; há um pulchrum especial em considerar esse excesso, que fica corrigido com esta visualização. Ela fica mais bonita com essa originalidade desse modo interpretada, do que no tamanho convencional em que eu a mandaria fazer.

Assim, há uma série de relacionamentos entre coisas materiais e espirituais; e se deveria comumente ter o hábito de fazer essas reversibilidades, como quem respira.

A doutrina pede o fato concreto, o qual, por sua vez, impõe uma explicação doutrinária, e meu espírito não sossega enquanto não tenha encontrado tal explicação.

Possuo uma relativa facilidade de passar da doutrina para o exemplo e deste para a doutrina. Porque, para mim, isso é como a realidade vista tanto com o olho direito como com o esquerdo. Eu a vejo bem com qualquer um dos olhos, mas eu a apanho melhor com os dois. E, vendo a doutrina e a realidade juntas, tenho uma espécie de noção total da verdade.

A mais eminente das realidades concretas é outro ser humano

Pode alguém ser exímio na doutrina sem ter comunicação de alma com outrem? E acertar sempre na doutrina, sem conhecer coisas concretas que lhe deem uma noção completa da doutrina?

Eu digo que é pelo menos dificílimo. Se existir essa possibilidade, é como dom para muito poucas pessoas; porque normalmente as pessoas precisam ter um contato com a realidade concreta para conhecer bem a doutrina. E a mais eminente das realidades concretas que se conhece é outro ser humano. Assim, se alguém pode conhecer a santa cólera vendo o mar enfurecido, muito mais a entenderá contemplando um Santo enfurecido.

Lembro-me de um episódio da vida de São Pio X. Quando se tratou de instituir o processo de canonização dele, examinaram seu anel, que era uma esmeralda, e verificaram que a pedra estava quebrada. Então, o advogado do diabo perguntou qual era a razão pela qual se tinha partido essa pedra na mão do Santo. Não haveria ali qualquer coisa que fizesse suspeitar da santidade dele? Foram indagar e, fato curioso, tinha sido um murro que o santo pontífice tinha dado numa mesa. E por quê?

NPG (CC3.0)
São Pio X em 1914

Ele tinha que tratar com um ministro do Imperador da Alemanha, o qual levaria a ele uma proposta que importava num verdadeiro insulto, pois ia propor-lhe uma espécie de traição à Causa Católica, mediante essas ou aquelas vantagens. Sabendo disso, São Pio X pediu a Deus Nosso Senhor – por meio de Nossa Senhora, naturalmente –, na hora da Missa, de manhã, que lhe concedesse a virtude da indignação.

Podemos imaginar o ministro do Kaiser entrando na sala de São Pio X e achando tratar-se de um poder espiritual que estava para o poder temporal como a mulher está para o homem, ou seja, uma coisa débil, fazer sua proposta para o Papa.

São Pio X, tomado da cólera santa que pedira, meteu um murro na mesa e quebrou a esmeralda. Não é pouco quebrar uma esmeralda com um murro. E pôs fora o embaixador do Kaiser. Até o fim do dia o Santo Pontífice tremia da cólera santa que o Espírito Santo lhe dera.

Pois bem, o furor dele dá muito mais ideia da cólera santa do que o mar enfurecido, que é um elemento líquido lançado por diversos fatores, com impulsos que lembram a cólera. É claro que a realidade conhecida diretamente vale muito mais do que através de metáforas.

Então, de tudo quanto no universo Deus criou para me dar a compreensão completa da doutrina, nada é mais ilustrativo do que outro homem.

Analogia, conaturalidade, eflúvios

Resta saber de que maneira é essa ilustração, como se dá e no que consiste a comunicação de alma.

A comunicação de alma é a de um professor que ensina alguma coisa para um aluno? A de um literato que comunica algo àquele que lê a sua obra? O que ela é propriamente?

Há um fato tão corriqueiro que nem precisaria ser exemplificado, mas acho conveniente fazê-lo para que a doutrina fique bem clara. É o seguinte: quando uma criatura humana vê outra em determinado estado de espírito, ela recebe um convite para se pôr no estado dessa última. Todo convívio é um convite para uma participação de estado de espírito. E, nessa perspectiva, uma pessoa pode, por exemplo, vendo alguém festivo, participar de sua alegria, sem saber por que ele está contente.

Por exemplo, um homem aborrecido e pensativo está andando numa das ruas mais prosaicas que conhece, e vê, em sentido contrário, uma criança alegre; ele pode ficar com uma certa alegria transmitida pela criança.

Qual é o fundamento lógico desse estado de espírito?

Suponhamos um indivíduo que, vendo uma criança alegre, imagina subconscientemente uma das mil coisas que pode produzir aquele tipo de alegria, e assim alegra-se também. A criança vai receber, por exemplo, uma boneca, e ele sabe por experiência própria como é a alegria de uma menina nessa circunstância, pois se lembrou do contentamento da irmãzinha dele quando esta recebeu semelhante presente. Ele, então, sorri. Quer dizer, o estado de espírito passou de um para o outro.

Basta vermos uma pessoa alegre que tendemos a ficar alegres; ou uma pessoa triste que tendemos a ficar tristes. Não pode haver um espírito que seja gracioso no convívio com um bandido, porque este comunica sua carranca: sombria, hepática, hipocondríaca. Vivendo com o criminoso, a pessoa acaba adquirindo aquele espírito.

Cesc2003 (CC3.0)
Santo Antônio Maria Claret em 1868

Ou seja, os estados de espírito se comunicam por analogia, por conaturalidade, porque o homem tem a mesma natureza que outro homem; comunicam-se também – creio eu, mas não tenho certeza – por eflúvios. Porque o homem tem certas vibrações, e suponho que um outro homem as sinta. Cada homem é para outro como uma emissora de televisão que capta e emite vibrações. E aquilo constitui um modo de as ideias e estados de espírito passarem de um homem para outro. Nesse sentido, é o lado natural.

E há o lado sobrenatural.

Comunicação de estados de alma entre os que têm a mesma vocação

É certo que o homem pode ser veículo para a graça comunicar-se a outro homem. Isso é ponto líquido da Doutrina Católica.

Por exemplo, a obra A alma de todo apostolado, de Dom Chautard. Uma das verdades fundamentais sobre as quais o livro está baseado é esta: a graça é uma participação sobrenatural, criada, na vida de Deus, e um homem pode transmitir a graça a outro.

Todos conhecem a história de um pregador ao qual, terminado o sermão, uma senhora foi dizer que agradecia muito o bem que tinha feito a ela. Ele perguntou: “Mas o que eu disse para fazer bem à senhora?” Respondeu ela: “Quando o senhor disse: ‘Passemos à quinta parte…’ Aquilo me fez um bem!”

Posso compreender que um pregador virtuoso, por exemplo, um Santo Antônio Maria Claret, passando de uma parte para outra do sermão diga: “E passemos agora à quinta parte…”, e que isto tenha impressionado alguma pessoa. Deu-se aí uma comunicação de estado de alma.

Arquivo Revista
Dr. Plinio durante conferência em 1980

Então, compreende-se que haja comunicação de estados de alma entre aqueles que são chamados para uma mesma vocação. E a fortiori entre aquele que deu os primeiros passos nesse rumo e os que vão segui-lo. Nada mais legítimo, mais natural, mais razoável do que isso.

Dou um exemplo: o verdadeiro comandante de navio, seja ele de guerra ou de passageiros, é aquele que tem autoridade e transmite respeitabilidade ao conjunto da criadagem, dos empregados, do pessoal que trabalha nas máquinas, da marujada e dos passageiros. E pode-se imaginar um capitão de navio, ainda que civil, com um casquete, um homem que não se mistura muito com as pessoas e tem uma parte do tombadilho própria para ele passear. Um tanto sisudo, amável, sobretudo gentil quando conversa com as senhoras, mas que, quando termina a conversa, volta ao seu posto. E que ri pouco.

Há uma comunicação de alma dele com a tripulação, pela qual ele vai conduzindo-a.

Assim também entre nós a comunicação de alma é ultralegítima.

(Extraído de conferências de 27/8/1968 e 19/7/1980)

1) Do francês: delgado.

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