A conversão dos povos ocidentais não foi um fenômeno de superfície. O germe da vida sobrenatural penetrou no próprio âmago de sua alma e foi paulatinamente configurando à semelhança de Nosso Senhor Jesus Cristo o espírito outrora rude, lascivo e supersticioso das tribos bárbaras. A Igreja estendeu sobre toda a Europa sua contextura hierárquica e, desde as brumas da Escócia até as encostas do Vesúvio, foram florindo os mosteiros, as igrejas, as catedrais, conventuais ou paroquiais, e, em torno deles, o rebanho de Cristo.
Essa florescência religiosa projetou-se sobre a sociedade civil. O príncipe, o artesão, o filósofo, o guerreiro, o menestrel não era cristão apenas dentro do templo, no momento da oração. Ele reinava, produzia, pensava, guerreava e cantava como cristão. Toda a vida civil, organizada com fundamento na Lei divina, ordenou-se segundo a vontade de Deus e a ordem natural por Ele estabelecida na Criação. Formou-se, assim, uma sociedade temporal constituída sob o signo de Cristo, segundo a Lei de Cristo e conforme à natureza própria de cada criatura.
Os Mandamentos são a expressão da vontade divina para os homens. Infinitamente sábio e bom, Deus não poderia querer que agíssemos em sentido diverso ou contrário da natureza que Ele nos deu. Portanto, os Mandamentos nos ensinam a proceder segundo nossa própria natureza e contêm as regras fundamentais a serem observadas para se conseguir a grandeza da sociedade civil.
A glória e o bem-estar temporal são o prêmio natural da sociedade civil. Mas ela tem, mesmo neste mundo, um prêmio mais alto, pois Deus auxilia a grandeza dos povos fiéis, não só pelo jogo natural das causas segundas, mas por uma multidão de graças especiais.
Isso explica porque, sob o influxo de todas as energias naturais e sobrenaturais entesouradas nas nações cristãs, foi emergindo lentamente do caos da barbárie na alta Idade Média, a sociedade civil cristã, a Cristandade, cuja beleza, de início indecisa e sutil, foi se afirmando à medida que, com o escoar dos séculos, a Europa batizada “crescia em graça e santidade”.
Nasceram, por essas energias humanas vitalizadas pela graça, os reinos e as estirpes fidalgas, os costumes corteses e as leis justas, as corporações e a cavalaria, a escolástica e as universidades, o estilo gótico e o canto dos menestréis.
A alma nacional, em todas as suas aspirações universais e humanas, em todas as suas aspirações nacionais e locais, encontrou plena e ordenada expansão dentro da Civilização Cristã. Daí a enorme variedade de formas de governo e de organização social ou econômica, de expressões artísticas e de produções intelectuais, nas várias nações da Europa medieval.
A expansão das tendências nacionais causa ao povo um grande bem-estar. A mentalidade nacional inspira a formação de símbolos, costumes, artes, nos quais ela se exprime, se define e se afirma, se contempla a si mesma e se solidifica. Esses símbolos são um patrimônio nacional, uma condição essencial para a sobrevivência e progresso espiritual da nação. O maior tesouro natural de um povo é a posse de sua própria cultura, isto é, quase a posse de sua própria mentalidade.
A Cristandade só pode ser admirada e vivida pelas almas que, dentro da Igreja, vivem do Catolicismo. Ela é incompreensível, cheia de tédio, até odiosa em sua superioridade solar, para as almas que começam a abandonar a Igreja ou blasfemam contra ela. A Civilização Cristã só viveu plenamente enquanto foi sincera e profundamente católica a Europa.
É inútil querer fazer sem ou contra a Igreja a obra de Deus. “Enquanto o Senhor não edificar a cidade, trabalharão em vão os que construírem. Enquanto Ele não a proteger, lutarão em vão os que a guarnecerem” (cf. Sl 126, 1). O mundo não pode ser salvo por formas diluídas de Cristianismo ou por sistemas que representem uma etapa comodista ou preguiçosa nas sendas da restauração da Cristandade. Nosso leitmotiv deve ser: para a ordem temporal do Ocidente, fora da Igreja não há salvação. A falência dos ideais políticos, sociais ou culturais intermediários está patente.
O segredo da vitória da Igreja consiste precisamente nisto: renunciarmos aos ideais intermediários e, ligados a todos os que nos ofereçam sua cooperação, vencer a hidra revolucionária com a única arma que a esmagará: a Cruz, que representa a Igreja de Deus e as mais antigas e legítimas tradições da Civilização Cristã.
“In hoc signo vinces”, foi a inscrição vista por Constantino num momento em que parecia incerta a sorte das armas. É esta a mesma mensagem para o mundo hodierno.*
* Cf. Legionário n. 666, 13/5/1945.



