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O verdadeiro jeitinho brasileiro – I

“Jeitinho”, o que faz esta palavra adquirir seu verdadeiro valor estando no diminutivo? O jeitinho deve ter êxito, do contrário ele não é jeitinho, e deve ser feito de tal maneira que chame pouca atenção. Toda a riqueza dessa arte consiste em perceber, com grande gênio, pequeníssimos problemas, na realidade importantes, e arranjar-lhes soluções que exigiriam quase que um microscópio para encontrá-las.

Como definir o jeitinho? Consideremos a descrição feita por um diplomata que exerceu o cargo de embaixador no Brasil.1

Uma das mais especiais vivências da alma brasileira

Divulgação (CC3.0)
Mariano Federico Picón Salas

Existe um outro estranho matiz da alma brasileira que só se pode nomear com a intraduzível palavra “jeito”. Não sei de algum sociólogo que tenha feito um tratado – que bem o mereceria – dessa peculiar atitude anímica.

Como definição provisória, diria que o jeito é a benévola solução inesperada com que se enfrenta a dificuldade das coisas. É uma ordem emocional que pretende resolver aquilo que numa estrita lógica pareceria cruel e implacável. Tem alguma coisa da “coracionada” espanhola e do “palpito” de que falam os argentinos; mas, vai mais longe dessa iluminação repentina da realidade. Participa daquele espírito de fineza de que falava Pascal; mas não é só “a compreensão das razões que a razão não compreende”; porque deseja também atuar e ajudar. A pessoa submersa num conflito não deseja apenas que lhe compreendamos, mas também que lhe prestemos auxílio. Então, aparece essa região um pouco mágica, na qual o “jeito” está acima. E a lei e a rotina determinaram tais e tais procedimentos; mas, bem pode acontecer que surja uma situação tão estranha que precise ser resolvida por outro método. Quiçá o rei Salomão, ante a briga das duas mulheres que reclamavam a mesma criança, tenha sido um longínquo precursor do jeito. Comportou-se Salomão como o mais flexível dos cariocas.

Para se conseguir um bom jeito são necessárias duas virtudes que nem sempre são compatíveis: imaginação rápida e benevolência. Na primeira parte do processo, o jeito consiste em compreender o anômalo e extraordinário da situação, pois em tal caso não adianta ver o código, já que muitas poucas vezes os códigos falam das exceções da regra. E na segunda parte, a flexível fantasia daquele que vai outorgá-lo, inventará uma fórmula que não pareça ilícita.

A pessoa que dá um jeito cruza durante uns segundos o perigosíssimo caminho que separa o que é habitual e legal do que é inusual. Deve-se mexer com cuidado para não cair no que é reprovável. Porém nunca o jeito – criação de um povo bondoso e imaginativo – se dá por interesse, mas por generosidade estética. É uma abundância do coração. Se se inventa o jeito como uma criação da imaginação, meio fábula e meio poesia, outorga-se como um final de magnanimidade. E quão poucos brasileiros podem resistir quando se apela a seus bons sentimentos sob o nome imponderável de “jeito”. Porque uma grande parte da virtude que se atribui ao homem é precisamente essa virtude de serviço e obséquio.

Quem dá o jeito se sente o árbitro da situação, pois prova ao mesmo tempo sua generosidade e seu poder. É preferível pecar de generoso que de demasiado estrito. Estamos muito longe do puritanismo estreito e da hipocrisia do fariseu, pois neste caso se deseja compreender as razões da vida que nem sempre ficam abarcadas na lei e na norma abstrata; o jeito, como toda coisa humana, pode ser pecaminoso se não se distingue entre o autenticamente lícito e o culpável. E é uma das mais especiais vivências da alma brasileira.2

Samuel Holanda
Salomão – El Escorial, Espanha

Aspectos do jeitinho, mas não a sua totalidade

As notas desse embaixador são bem inteligentes e, na maior parte, pegam aspectos do jeitinho, mas não a sua totalidade. Vê-se que ele observou uma série de situações concretas. Ele ficou como embaixador até 1959; portanto, na época em que a capital federal era no Rio de Janeiro e, por causa disso, as observações dele sobre o jeitinho são, sobretudo, do carioca.

Como o carioca é muito amável, tem gosto em ser gentil, encontra uma espécie de delícia, de satisfação em deixar as pessoas contentes e fica contemplando alegremente o contentamento que o outro está gozando.

Ele define o jeito – eu não sei se ele se dá bem conta disso – como uma forma muito sutil e quase indefinível de assistência, de ajuda ao outro; um particular modo de ser bom e de gostar de agradar. Ele diz que é uma atitude do coração, mas com isso ele confunde uma das atitudes do jeitinho – a atitude assistencial, de ajudar, de prestar caridade –, com o que é o jeitinho em si.

O jeitinho é uma coisa diferente. Pode ter jeitinho um político, e pode ser que em certos Estados do Brasil com a política mais desenvolvida que em outros, o jeitinho seja muito mais desenvolvido também.

Ora, política não é a arte de ser caridoso, não é a arte de alegrar os outros; é uma coisa bem diferente. Entretanto, nenhum brasileiro diria que político não precisa de jeitinho. A afirmação até causaria surpresa: “Como assim? A política é uma atividade na qual, com frequência, é preciso recorrer ao jeitinho. Ele fica amputado de algum dos seus principais aspectos se dissermos que ele não tem lugar na política”.

Esse diplomata não viu os cem jeitinhos do Itamaraty? O período mais brilhante do Itamaraty, em que ele era a glória e o orgulho dos brasileiros por causa do jeitinho, foi a fase dele no Rio de Janeiro.

IMS (CC3.0)
Palácio Itamaraty no final do século XIX

Então para contrabalançar a opinião que ele tem a respeito do jeitinho é preciso começar por dizer que isso é apenas uma das aplicações do jeitinho.

Por que jeitinho não é o mesmo que jeito?

Uma pessoa jeitosa, uma resposta jeitosa, uma saída jeitosa, uma defesa jeitosa de alguém a quem queremos bem, ou uma acusação jeitosa a uma pessoa que deve ser denunciada…

Em primeiro lugar, o que é o jeito?

É algo praticado por alguém que se encontra em dificuldades e surpreendentemente, inesperadamente – alguma coisa do surpreendente e do inesperado, está nas palavras do embaixador – encontra um jeito para resolvê-las.

É uma saída inesperada quando, na aparência, a saída não existe. É preciso ter muita finura de visão para perceber que ela existe e, depois de tê-la descoberto, executar o que se descobriu de tal maneira que de fato a coisa fique inteiramente feita, sem encrenca.

A palavra jeito ele diz que é intraduzível. Eu nunca em minha vida pensei em traduzi-la, mas creio que, por exemplo, no francês as palavras façon e manière dão um pouco da ideia do que é jeito. A pessoa que tem de bonne façon de faire quelque chose, ou de bonne manière pour ­obtenir quelque chose, teria jeito, mas isso não é o jeitinho.

Por que o jeitinho é pequenininho? Por que nós nunca julgaríamos correto chamar de jeito o que queremos dar a entender por jeitinho? O que faz o diminutivo necessário e indispensável para que essa palavra tenha o seu verdadeiro valor?

Em matéria de linguagem, o jeitinho é um substantivo. Um conceito que, entretanto, não empregado no diminutivo significa outra coisa. O que faz o diminutivo? Qual é a alteração que ele introduz na palavra e que faz com que o jeitinho não seja o jeito?

O que é o jeitinho?

Tome-se em consideração uma agulha comum, com aquele buraco por onde se passa uma linha; o fazer passar esse fio pela agulha, por ser o orifício muito estreito, supõe alguma habilidade e um certo jeito, não propriamente jeitinho. Mas, se o fio é de uma natureza que o torna difícil de passar pelo orifício, por exemplo, por estar um pouco encerado, e uma pessoa, percebendo isso, passa-o pelo fogo sem queimá-lo, rapidamente, para gotejar um pouquinho a gordura que haja nele, a fim de que depois, sem dificuldade, ele possa passar pela agulha, esta pequena coisinha é tipicamente o jeitinho.

O jeitinho deve ter êxito, do contrário ele não é jeitinho, e deve ser feito de tal maneira que chame pouca atenção. Por isso é que ele é jeitinho: ele é rápido, ele é pequenininho, ele triunfa num movimento de dedos, num golpe de olhar, no canto de um sorriso ou na gravidade de um cumprimento, desde que seja um gesto pequeno, que em pouco tempo resolve uma questão, sem barulho nem encrenca.

Se fosse fazer uma regra de jeitinhos, bastava alguém decorá-la para ficar completamente desajeitado. É preciso não ter regras e saber improvisar. Toda a riqueza dessa arte consiste em perceber, com grande gênio, pequeníssimos problemas, na realidade importantes, e arranjar-lhes soluções que exigiriam quase que um microscópio para encontrá-las.

Esta seria, a meu ver, a definição do jeitinho.

Arquivo Nacional (CC3.0)
Rua Visconde do Rio Branco, em 1956 – Rio de Janeiro

Um exemplo de jeitinho

Eu vi um francês elogiar o jeitinho. Confesso que fiquei pasmo, eu já tinha uns quarenta anos naquele tempo e nunca tinha atentado para isso. Ele me disse que estava encantado como um chauffeur que fazia um serviço de lotação no Rio de Janeiro. Lotação é um carro que leva vários passageiros, cada um paga a sua passagem e ele faz determinado percurso deixando-os pelo caminho.

E esse senhor francês disse que estava encantado pelo seguinte: na parte da frente da lotação, além do chauffeur, iam mais dois passageiros, por isso os movimentos do motorista ficavam um pouco tolhidos. Ademais, um deles era especialmente gordo, de maneira que o chauffeur ia ainda mais comprimido.

O chauffeur tinha também que dar o troco para os fregueses que desciam e, uma vez que ele ganhava tanto mais dinheiro quanto mais rápido fazia o circuito, ele tinha pressa em seguir em frente.

Para agilizar o troco, ele colocava nos intervalos dos dedos notas de diferentes valores, mas já classificadas. Quando o automóvel parava, o passageiro entregava-lhe uma quantia e ele, com toda rapidez, tirava o troco, devolvia e arrancava o carro. O trânsito era muito irregular, as ruas eram apertadas e numa hora em que todo mundo estava deixando o centro da cidade para ir almoçar e voltar a trabalhar; com isso ele era obrigado a esgueirar-se muito.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em março de 1971

Ele tinha que fazer ao mesmo tempo um colosso de jeitinhos: jeitinho para não se enganar na nota e não ter prejuízo; jeitinho para não dar uma trombada e, apesar de estar com poucos movimentos, saber fazer a manobra; jeitinho para carregar tantas notas entre os dedos e não deixá-las cair; jeitinho para usar desses sinais que os motoristas fazem com a mão para fora da janela e não perder nada… Ele não ficava nervoso e, às vezes, até assobiava para se divertir.

O rapaz francês ficou pasmo e me descreveu mais ou menos tudo isso que estou dizendo.

Isso são pequenos gestos, pequenas concessões, pequenos apertões, pequenas soluções para resolver problemas quase insolúveis. É possível que filhos de outros povos muito bem dotados de inteligência não tenham essa agilidade do chauffeur, por onde ele percebia que naquela hora podia fazer um gesto com a mão carregada de dinheiro, intuindo que o homem que vinha atrás não lhe arrancaria as notas que trazia entre os dedos. Ele intuía que, num certo movimento, o indivíduo que estava ao seu lado não iria aplastá-lo mais ainda… É um mundo de pequenas intuições, de pequenas soluções para cada caso, e soluções mais ou menos originais conforme a circunstância. Quer dizer, não era calculado: “Sempre que precisar pôr a mão fora para dar um sinal, tire todas as notas, porque é perigoso perder o dinheiro, alguém dá um solavanco e leva tudo, se não levar a mão…”

(Continua no próximo número)

(Extraído de conferência de 19/10/1994)

1) Mariano Federico Picón Salas (*1901 – †1965), escritor e diplomata venezuelano, embaixador no Brasil de 1958 a 1959.

2) PICÓN SALAS, Mariano Federico. Viajes y estudios latinoamericanos. Paginas de Chile y Peru. Gusto de México. Imagenes y Retratos. Biblioteca Mariano Picón Salas. Vol. IV. Caracas: Monte Avila Latinoamericana, 1991. p. 158, 159.

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