Ainda que pareçamos perdidos, relegados aos últimos rincões da Terra, só não cometamos um erro: não cessemos de confiar. A doença de nosso querido João traz como ensinamento que a hora dos grandes perigos, das grandes incertezas, dos fenomenais atos de confiança vem chegando.
Eu tenho uma gratíssima notícia a lhes dar e que só pode ser recebida de pé. Mandei pôr na frente a imagem de Nossa Senhora, porque é a única própria a presidir realmente esta reunião.
Tranquilidade, alegria e esperança ante a notícia da cura
Recebi uma mensagem gravada e depois tive um telefonema com o Sr. João Clá, e ele contou-me – com o pitoresco que ele sabe pôr nos pormenores – que, oficialmente, o médico mais notável do Hospital Hopkins,1 depois de fazer nele um exame exaustivo, declarou que estava curado.
É justo e corresponde ao desejo de todos nós que cantemos o Magnificat, para dar graças a Nossa Senhora por um tão grande, tão assinalado e tão inesperado benefício.
Confesso que, ainda ontem, quando eu pensava no caso do nosso João – e era quantas e quantas vezes por dia, para não dizer por noite –, era com preocupação, com olhar sombrio: “Mas será? Esses exames médicos, no fundo, do que valem? O que atestam? Até onde isso quer dizer qualquer coisa?”
Tenho certeza de que perguntas dessa natureza sombrearam as almas de todos, durante esses seis meses de padecimento que todos sofremos; porque exatamente, a doença se declarou no dia primeiro de janeiro e se prolongou até 16 de junho. Portanto, foram seis meses cheios, durante os quais Nossa Senhora quis prová-lo, quis provar-nos a nós, e permitiu e dispôs que a provação cessasse num belo dia de sol. Chamo “belo dia de sol” não às condições atmosféricas em São Paulo, mas um belo dia em que tais notícias nos chegam. Chegam de repente, inesperadamente, e de um modo a tranquilizar por completo.
Que se tenha passado do auge da inquietude para o auge da tranquilidade, quase sem transição, é algo no qual entra um requinte do afeto de Nossa Senhora, do carinho d’Ela como a nos dizer: “Meus filhos, eu os provei, mas agora está aqui minha mão maternal para fazer passar as dores e fazer com que elas se substituam por uma alegria”. E por uma alegria sólida, firme, porque tudo quanto foi dito a ele partiu de uma sumidade mundial.
Sem dúvida, nosso João terá ouvido com a atenção normal e, portanto, com a desconfiança supernormal com que uma pessoa longamente afetada por uma doença toma contato com um médico que, embora sendo uma grande sumidade, afinal de contas, ele está conhecendo naquele momento.



Podemos imaginar, à medida que as palavras do médico foram gotejando sobre o João, as torrentes de tranquilidade, de alegria e de esperança que desciam sobre a alma dele.
Esse médico empenha a sua responsabilidade profissional, enquanto sumidade reconhecida como tal por toda parte, além de fazer parte da direção de um dos hospitais maiores e mais importantes do mundo, o grande Hospital Hopkins. Nós temos, assim, garantias das melhores de que, com o favor de Nossa Senhora, tudo correrá do melhor modo possível.
A “Bagarre”, a grande batalha da confiança
Nós estamos na orla da “Bagarre”.2 Mais do que isso, podemos dizer que as primeiras águas dela já nos molham. De fato, dessa vez subiram tão alto que, nas suas agitações e ondulações desordenadas, elas, por assim dizer, já nos golpearam no rosto. Ou, para exprimir em termos mais adequados o que se passou, já nos bateram no coração. Tudo quanto se passou com nosso João bateu em nosso coração.
Como essa doença dele está relacionada com a “Bagarre”?
O fato concreto é que nós todos sentimos, o mundo todo sente, que a “Bagarre” vem se aproximando e que as alegrias fúteis, fáceis e tantas vezes pecaminosas da “Bagarre azul”3 têm que ir acabando, e que a hora da seriedade está chegando.
Ora, nós sentimos que o ensinamento dessa doença de nosso querido João é precisamente este: vem chegando a hora das grandes dores, dos grandes perigos, das grandes incertezas, dos fenomenais atos de confiança. Os fenomenais atos de confiança se tornam necessários e vencerá quem confiar. A “Bagarre” começa por uma grande batalha de confiança.


Nossa Senhora quis isso do nosso João… Quantas qualidades ele acumula! É uma torre de qualidades. As asas da tragédia roçaram sobre ele, roçaram, portanto, por nós. E pudemos sentir que a época na qual as coisas trágicas não aconteciam não existe mais, que os dramas são o normal da época, e trata-se de enfrentá-los com o ânimo de herói. Herói católico, que confia, confia, confia, e quando não há mais razão para confiar e esperar senão a confiança em seco em Deus, a confiança continua de pé como era a de Jó. Veio um momento em que o desafio de Satanás a Deus se encerrou triunfalmente para Jó.
A desventura de Jó, uma prova do amor de Deus
Imaginemos o momento em que Satanás interpelou a Deus (cf. Jó 1, 6-12):
— Não há homem na Terra que Vos siga, portanto, estais derrotado.
E Deus, nestas ou naquelas palavras, respondeu:
— Tenho o meu servidor Jó. Vê como ele é, e como desmente tua afirmação.
E Satanás disse a Deus.
— Mas Vós a ele dais tudo. Ele tem esposa, tem filhos, é feliz com a esposa, feliz com os filhos; ele tem uma enorme fortuna, é um homem saudável, tudo quanto lhe acontece é agradável. É evidente que ele não se revolta contra Vós. Queremos saber se Vós o ferísseis com várias dores, provações, o que ele Vos faria.
E Deus, que amava Jó e confiava nele, deu-lhe uma prova de amor e de confiança extraordinária, e respondeu a Satanás:
— Vai e prova Jó. Eu te dou sobre ele todo o poder, exceto a possibilidade de matá-lo. Faz cair sobre ele todas as desgraças, todos os infortúnios, e vamos ver se, no ápice do infortúnio, esse varão que é meu, se levantará contra Mim ou adorará os meus desígnios misteriosos. Vai!
O demônio fez o possível, provou Jó como se sabe, e ele respondeu do modo sublime como se conhece (cf. Jó 27, 1-6). E Deus, em determinado momento, deu por cessada a prova. Jó dera toda a demonstração de seu amor a Deus, confiara no auge do infortúnio, meio leproso, sentado no monturo, reduzido à miséria, acompanhado de uma mulher da qual o mínimo que se poderia dizer é que era acremente rabugenta e falava contra ele, da sorte desventurada que tinha caído sobre ambos.
Os amigos de Jó vieram da cidade onde eram homens importantes e ilustres à maneira do que ele fora; lamentaram-se pelo destino dele, à moda oriental, com aqueles simbolismos que exprimem tanto.
Jó estava sozinho sobre o seu monturo, talvez imaginando que até seus mais próximos o tivessem abandonado, quando viu chegar a turma dos amigos (cf. Jó 2, 11). Em vez de falarem com ele, ou ele com os amigos, todos ficaram quietos quando se viram, e uma grande consternação fez-se notar.
Por causa disso, ficaram sete dias e sete noites sem se falar, apenas contemplando a tristeza, a miséria, o infortúnio de Jó, e pensando nesses desígnios impenetráveis de Deus que faz acontecer ao homem justo a coisa sinistra e triste, a qual muitas vezes não cai sobre o injusto (cf. Jó 2, 13).
Pode-se imaginar o efeito desse silêncio sobre eles; o silêncio do deserto, porque as grandes extensões da Terra Santa são desérticas. Jó estaria numa delas,4 com um calor abrasador, pondo por assim dizer em fogo os cacos de telha que concomitantemente o queimavam, o cortavam, o faziam sofrer, e eram o seu canapé; porque se ele se recostasse sobre o chão ainda sofreria mais. Jó ali deitado, no silêncio, ouvindo apenas aquilo que é a voz sinistra do deserto: é um animal que está morrendo de sede ou de fome e uiva à distância, um uivo que é uma ameaça; se ele encontrar o que comer, ele mata; mas, ao mesmo tempo, um gemido de quem sente que os dias estão se acabando, suas forças estão desaparecendo e que ele vai indo para a morte. É, mais adiante, um longo sibilo de cigarra enchendo aquelas vastidões e não encontrando nenhum lugar onde o som batesse e desse qualquer eco, porque tudo era o vazio. Aquele vazio só tinha como cântico que o exprimisse e exalasse a dor, a monotonia do apelo da cigarra e o desespero daquele apito, como algo que não vai mais acabar.
Ele sofrendo aquele sol de hoje. Já custou a se acostumar com o sol de anteontem, com o de ontem; o sol de hoje o causticou ainda mais. O que será o de amanhã?
Alguém dirá: “Mas, por que ele não se recolhe a uma árvore?” Onde há árvore no deserto? Não há nenhuma. Talvez uma esgueirada palmeira com umas folhagens caídas e um fio de sombra que corresponde ao magro diâmetro de uma palmeira comum, e mais nada.

No meio de tudo isso, pouca comida e, de vez em quando, um camelo que traz em seu bojo uma escassa água. Mas, o que será uma água tirada da bolsa que tem para isso o camelo? Que gosto? Que aspecto? Que amarelo nojento? Que gosto repugnante? Bebe um pouco daquilo para matar uma sede tremenda.
Tudo isso Jó aguentou, certo de que ele era justo, não estava sendo castigado, mas que Deus o estava maltratando (cf. Jó 10).
Desde o Céu, Deus preparava a recompensa
De fato, ele estava entregue às mãos de Satanás, estava torturado. Deus fizera isso, mas, simultaneamente, no mais alto dos Céus, numa alegria à qual se associavam os Anjos, Ele ia preparando tudo para que a recompensa de Jó viesse. Os Anjos que costumam acompanhar a ação de Deus conjecturavam entre si o que Ele faria, que desígnios Ele teria; conjecturavam talvez cantando… Que linda reunião de um conselho de Estado em que os conselheiros são, ao mesmo tempo, heróis e bardos da Sabedoria e, ao mesmo tempo, cantores de lindas harmonias! Que coisa maravilhosa esse conselho, presidido por Deus, de Anjos que cantam em louvor de Jó!
Deus não revela o que pretende fazer, mas eles percebem que, de repente, certa região amanhece verdejante, com regatos e riachos criados durante a noite, e se perguntam por que naquele deserto a Providência colocara aquilo.
No dia seguinte, eles percebem que há uma casa muito bonita, disposta de um modo muito agradável, num jardim excelente, e que ambos se completam com as plantações, as criações e, portanto, com toda a fortuna que ali vai nascendo.
Jó, sobre o monturo, ignora tudo. Os Anjos olham para ele e não notam nele a mínima alegria. Será para Jó aquilo tudo ou não? Se for, ó alegria angélica! Se não for, ó incógnita terrível! Para quem será então? Quando cessará a dor de Jó?

Até que, em determinado momento, Jó percebe que toda a vastidão onde ele estava deitado amanheceu ajardinada. Mais adiante, durante a noite, ele acorda em meio a cantos magníficos e percebe que está sendo levado por Anjos. É levado para a mansão construída que os Anjos contemplaram antes. E eles entendem para quem tudo se recompõe e tudo passa a ser vida.
Jó rejuvenesce, tem outros filhos e a vida se reconstitui (cf. Jó 42, 10-17). São os mistérios de Deus. No meio das dores lancinantes, das preocupações terríveis, aparecem também horas adoráveis, horas suavíssimas, em que tudo se dissolve, nas quais se recebem, de repente, bênçãos e graças que nos dão a coragem para outras correrias heroicas na “Bagarre”.
Durante seis meses tivemos um Jó que sofreu
Vemos isso agora, por exemplo, com o caso do nosso João. Vimos de um modo, para toda a eternidade célebre, com o caso de Jó. Ele viveu depois anos de felicidade que lhe compensaram as tristezas horríveis pelas quais passara. Jó venceu a batalha, mas por quê? Essencialmente porque confiou que Deus o trataria paternalmente, segundo a sabedoria e a bondade infinitas d’Ele; ele confiou e por isso não se revoltou; porque não se revoltou, adorou a Deus. Quando Deus empunhava o açoite que o fustigava, ele dizia: “Senhor, eu sou vosso, fazei de mim o que quiserdes. Adoro o açoite que me chicoteia”. Afinal, ao cabo de algum tempo, tudo refloresceu.
Ora, se Jó tivesse pensado: “Assim como Satanás pediu para provar-me e Deus permitiu, será que Ele não dará licença outra vez? Não serei eu provado de novo e de um modo terrível?” e começasse a ter medo, esse pensamento bastaria para estragar a renovação pela qual ele passou.
Ao contrário, ele, mais do que isso, confiou: “Eu tive tudo, perdi tudo, tenho a restituição de tudo. Mas Deus pode me honrar com outra prova, infelicitar-me com outro látego. Eu confio n’Ele, eu O amo, e se esse látego descer sobre mim eu direi: ‘Senhor, vem de Vós, eu aceito, eu mereço. Dai-me forças!’”
Essa experiência pela qual passamos conduz a pensamentos dessa natureza e nos prepara para considerações desse jaez. É a história do Grupo em vários dos seus aspectos, é a nossa história individual em vários de seus aspectos. Durante seis meses tivemos um Jó que sofreu. E quanto sofreu! E quanto nós sofremos juntamente com ele! Quem de nós, ontem ainda, poderia imaginar que hoje ouviria o que ouviu? Entretanto, acabamos de ouvi-lo.


Isso é um prolongamento das reflexões tão belas e tão cheias de fervor enviadas pelo nosso João e nos prepara para os dias que sempre esperamos, pelos quais sempre gememos porque tardavam. Eis que chegam!
Eu quis que a imagem de Nossa Senhora, nossa Mãe Santíssima, ficasse em primeiro plano para ser venerada, amada por nós, porque, se é verdade que Ela é Medianeira de todas as graças – e disso não se pode duvidar –, se é verdade que, portanto, isso foi uma graça, ela então nos veio por meio d’Ela, é natural, é mais do que legítimo que, por meio d’Ela, também nós agradeçamos a Deus o grande benefício que nos mandou.
Mas como agradecer? Aproveitando a lição, compreendendo o que se passou.
Por piores que sejam as circunstâncias, não cessemos de confiar!
Em nenhum momento eu vi o João dizer uma palavra que fosse uma queixa em relação a Deus. Onde o João percebe que possa estar sofrendo, ele vai para frente. Em nenhum momento eu o vi fazer um resmungo porque a coisa estava doendo demais ou porque estivesse demorando. Ele aceitou e padeceu o que tinha que padecer. Chegou, afinal de contas, a hora do Hospital Hopkins; e chegou a hora da libertação, em que foi dito o que ouvimos, e ele teve, na alegria do justo, cheio de gáudio e satisfação, ele teve a consolação. Essa doença do João, no total, é uma glória para ele, é evidente.
Isso deve servir para nós de ensinamento. Por piores que sejam as circunstâncias em que estejamos na “Bagarre”, ainda que pareçamos perdidos, relegados aos últimos rincões da Terra, só não cometamos um erro: não cessemos de confiar! Eu ouso quase dizer o seguinte: o essencial é não duvidar, é confiar; o resto vem por si.
Dessa maneira devemos dispor nossas almas para aproveitar a provação pela qual passamos e nos preparar para “jobices” eventuais pelas quais Deus queira nos fazer passar. Seja como for, havendo a proteção de Nossa Senhora, não desesperarmos, não termos receio de que seremos abandonados. Pelo contrário, quanto mais sofrermos, tanto mais nos glorificaremos. E no dia em que o sofrimento tenha atingido o insondável, nesse dia devemos cantar o Magnificat: a hora de Deus está próxima!
Foi o que eu quis tornar presente a nossos olhos, pedindo a todos que cantássemos o Magnificat agradecendo a Nossa Senhora a esplêndida lição que Ela nos deu. Portanto, daqui para a frente, aconteça o que acontecer: confiar, confiar, confiar, Nossa Senhora dará o resto.
Devemos agradecer a Ela mais uma vez esta grande alegria e, sobretudo, por esta ter nascido de uma grande dor. Felizes e nobres as alegrias que nascem de dores! Miseráveis e infames as alegrias que nascem de meros prazeres, meros contentamentos, meros gozos de vida, em que o homem se lembra de Deus apenas para pecar contra Ele e insultá-Lo…
(Extraído de conferências de 16, 21 e 23/6/1995; 7/7/1995)
1) Johns Hopkins Hospital. Localizado em Baltimore, Maryland, Estados Unidos.
2) Do francês: conflito desordenado e profundo. Palavra usada por Dr. Plinio para se referir ao grande castigo de Deus à humanidade, se esta não se voltar para Ele, profetizado por Nossa Senhora em Fátima.
3) A expressão “Bagarre azul” alude ao estado de espírito surgido na época do desenvolvimentismo brasileiro, no qual, mesmo em meio ao caos, as pessoas se deixavam iludir pela prosperidade e pelo avanço da industrialização.
4) Na terra de Uz, localizada possivelmente entre a cidade de Damasco e o Rio Eufrates, na orla do Deserto da Arábia, ou na fronteira de Edom, nesse mesmo deserto.



