A Santa Igreja venera em São Miguel Arcanjo o modelo da humildade cristã. Lúcifer recusou a homenagem que o Altíssimo dele exigia. São Miguel, acompanhado dos Anjos que permaneceram fiéis, prestou essa homenagem. Enquanto Lúcifer personifica a Revolução, São Miguel é personificação do espírito de hierarquia e de disciplina, quintessência da humildade cristã.
Numa época profundamente minada pelo espírito revolucionário, quando todos os poderes legítimos – seja na ordem espiritual, política, social, econômica ou familiar – são objeto de um ódio e de uma desconfiança generalizada, é especialmente difícil para o católico conservar íntegro o espírito de hierarquia que, em todos os campos da atividade, é a nota distintiva do verdadeiro cristão. Entretanto, a alternativa é inexorável: ou temos o espírito de hierarquia que caracterizou São Miguel, ou nosso espírito é o de Lúcifer. O patrocínio de São Miguel Arcanjo é, pois, singularmente precioso para os que querem permanecer fiéis à ortodoxia, à genuína doutrina da Igreja Católica, em todos os pontos atacada pelo espírito de revolta.
São Miguel é também o modelo do guerreiro cristão pela fortaleza de que deu prova atirando ao Inferno as legiões de espíritos malditos. É ele o guerreiro de Deus, que não tolera que em sua presença a majestade divina seja contestada ou ofendida e que está pronto a empunhar o gládio a fim de esmagar os inimigos do Altíssimo. Ensina-nos ele que não basta ao católico proceder bem; é seu dever combater também o mal. E não apenas um mal abstrato, mas o mal enquanto existente nos ímpios e pecadores, pois São Miguel não atirou ao Inferno o mal enquanto um princípio, uma mera concepção da inteligência; e nem princípios e concepções meramente intelectuais são susceptíveis de serem queimados pelo fogo eterno. Foi a Lúcifer e a seus sequazes que ele atirou no Inferno, pois odiou o mal enquanto existente neles e amado por eles.
Indubitavelmente, um dos piores venenos com que o liberalismo ameaçou as consciências católicas foi a ideia de um desarmamento espiritual. Assim como o pacifismo posterior à Guerra de 1914 foi ruinoso para a paz mundial, pois na realidade não passava de uma atitude amedrontada e covarde que abriu as portas a todas as arrogâncias dos totalitários, assim também essa espécie de pacifismo religioso compromete em extremo os interesses da Igreja, permitindo as arremetidas dos seus inimigos implacáveis e cruéis.
É verdade que a Igreja é indefectível e eterna, mas quantas almas não foram arrancadas ao seu seio maternal pelas incursões dos adversários que não foram contidos em sua sanha pela falta de combatividade dos que lhes deveriam ter sido uma barreira natural? Assim, por não querer ferir os inimigos, se lhes entregam os irmãos inocentes, o que é, certamente, uma das piores faltas de caridade.
Não se pode negar que o espírito de conciliação, principalmente em matéria religiosa, está muito de acordo com o comodismo da natureza humana. Mas, exatamente por ser demasiadamente humano, é muito pouco divino.
Vivemos em um tempo de profundo liberalismo religioso. Poucos são os cristãos que têm a ideia de que pertencem a uma Igreja militante, tão militante na Terra quanto militantes foram no Céu São Miguel e os Anjos fiéis.
Também nós devemos saber esmagar a insolência da impiedade. Também nós devemos opor uma resistência tenaz ao adversário, atacá-lo em suas posições, expulsá-lo e reduzi-lo à impotência. São Miguel, nesta luta, não deve ser apenas nosso modelo, mas nosso auxílio. A luta entre São Miguel Arcanjo e Lúcifer não cessou, mas se estende ao longo dos séculos. O Príncipe da Milícia Celeste auxilia todos os cristãos nos combates que empreendem contra o poder das trevas.*
* Cf. Legionário n. 515, 26/7/1942 e Catolicismo n. 9, setembro de 1951.



