São Miguel condensa em si o amor de todos os Anjos bons. Ele esmagou completamente Satanás e seus sequazes atirando-os para fora do céu. Assim deve proceder todo contrarrevolucionário: atacar o mal no que tem de mais despótico e lutar com tanto amor, ímpeto e ódio, que arraste atrás de si todos os que amam verdadeiramente a Deus.
São Miguel Arcanjo foi o ponto de partida da reação dos Anjos bons contra os anjos ruins. Tendo sido o primeiro a se lançar na luta, também a capitaneou. E por causa disso as imagens costumam apresentá-lo vestido como um guerreiro medieval, Satanás calcado aos seus pés, no ato de ser atirado ao Inferno.
Desse fato tão sintético, tão resumido, mas ao mesmo tempo tão cheio de significação, o que podemos considerar como sendo a mentalidade de São Miguel?
Um brado de reação que desencadeou a batalha celeste
Há um primeiro dado que nos levará a compreender melhor o papel de São Miguel Arcanjo como chefe que levantou a reação dos Anjos fiéis.
Afirma-se, a respeito dos anjos rebeldes, que eles se dividem em duas categorias: uns que se atiraram desde logo à rebelião, foram direto para o Inferno e ali estão; outros cuja insurreição não foi motivada inteiramente pelo seu próprio ódio, mas que se deixaram arrastar, com cumplicidade, pelos anjos maus. Portanto, houve uma certa influência dos anjos revoltados sobre eles.
A partir desse dado percebemos o contrário da ideia que fazemos habitualmente da natureza angélica. Os anjos foram susceptíveis de serem arrastados uns pelos outros. Aí nós compreendemos o papel de São Miguel dando o brado de reação no Céu, com sua exclamação: “Quem é como Deus?”, e começando ele a expulsar os outros anjos.

Não significa que os Anjos bons tenham hesitado ou tenham cometido qualquer imperfeição. De qualquer forma, um teve a glória de ser o primeiro a reagir: esse foi São Miguel Arcanjo. E foi a reação dele que pôs em movimento uma porção de reações, que certamente também se poriam sem ele, mas que se puseram naquele momento – se é que se pode falar em momento quando se trata de acontecimentos dessa natureza – dado o brado dele.
Nos espaços eternos e infinitos, diante dos Anjos bons indignados e horripilados com a revolta, um viu mais rapidamente, um detestou mais imediatamente, um formulou, por um brado, aquilo que em todos os Anjos fiéis estava em gestação para dar numa magnífica e celeste explosão. Este teve a palavra que moveu todos os outros, que deu a fórmula que desencadeou a cavalaria celeste a sair magnífica e majestosamente na carga contra os anjos abomináveis. E a palavra de ordem dessa luta, a indignação, o ódio sacral que a moveu foi um pensamento de São Miguel.
O cântico da inconformidade sagrada
Se nós tomamos em consideração que os Anjos cantam, ele teve uma canção magnificamente cantada. E foi essa exclamação entoada no Céu que moveu todos os espíritos angélicos, como quem diz: “É o que eu penso também, e não pode durar mais um minuto; vamos para a luta!” São Miguel teve essa exclamação magnífica. E a glória dele foi, portanto, em determinado momento ter desatado a Contra-Revolução celeste, por ordem de Deus evidentemente, era essa a vontade divina.
Nós podemos então imaginar o que seria a beleza desse brado ribombando pelo Céu. Se eu fosse músico, como gostaria de entoar um “Quis ut Deus?” que procurasse imitar na Terra o brado de inconformidade sagrada, de indignação sacrossanta e de ordenação perfeita com que São Miguel saltou em cima de Satanás.
A luta também deveria ser musicada. Por quê? Porque está escrito: “Prœlium magnum factum est in cælo” (cf. Ap 12, 7), uma grande batalha foi realizada no céu.
Uma luta terrível e altamente simbólica
Para uma pessoa que não leu nenhuma interpretação autorizada a respeito disso e que comenta apenas a olho nu, parece querer dizer que houve realmente uma luta que, se fosse de homens, se chamaria corpo a corpo, mas, não sendo, foi de espírito a espírito. E que, de um modo misterioso, os Anjos lutaram de fato contra os demônios; por assim dizer, se atracaram uns nos outros, uns precipitaram os outros no Inferno e a limpeza no céu que daí decorreu não veio por uma simples ordem de Deus, mas o Todo-Poderoso agiu por meio dos seus Anjos, dando-lhes a ordem para expulsar os demônios utilizando suas forças naturais e sobrenaturais e as interferências de Deus.
Essa batalha, e a maneira como se deu, deve ter produzido ruído, não físico, porque os Anjos não produzem ruídos físicos. Mas engana-se quem pensa que o mais terrível e o mais real dos ruídos é o físico. Exatamente o estrépito do entrechoque das almas umas contra as outras deveria ser tal que, a ser transposto a termos físicos, deixaria o homem surdo e louco, de tal maneira é mais forte do que ele, superior e incompreensível.

Esse estrépito não foi como o de dois homens que lutam, pois os Anjos estão muito mais próximos de personificar as próprias virtudes do que os homens. E por causa disso, a luta entre os Anjos foi muito mais terrível, mas também muito mais simbólica, muito mais admirável do que um mero combate entre seres humanos.
Dois indivíduos que representam a causa de dois exércitos
Eu procurarei me exprimir melhor através de um exemplo. Não houve mercenário nas Cruzadas, pelo menos tanto quanto eu me lembre, mas vamos dizer que um soldado mercenário esteja lutando nas Cruzadas. Ele sabe que, se tomar Damieta ou Jerusalém, por exemplo, ele ganha tanto. Tal soldado luta, portanto, com o ódio de quem tem vontade de ganhar dinheiro. Mas ele não simboliza de nenhum modo a causa à qual está servindo, pois não tem amor a ela; nele não se reflete a nobreza nem a santidade da causa. É um homem pago.
Imaginemos que ao lado dele combate contra os sarracenos não um homem pago, mas um São Luís IX, com todo o furor e indignação do ódio religioso, do amor de Deus. E o Santo Rei cruzado luta contra um maometano que odeia a Deus tanto quanto ele, São Luís, ama-O. Isso resultaria num embate ultrassimbólico, porque em cada um transpareceria tudo da causa que representa.
Em tese, o entrechoque poderia ser desses tais como havia em certas batalhas medievais, nas quais todos paravam de lutar para ver os dois combaterem. Era a causa da Cruz contra a do Crescente. Era o amor de todos os homens que lutavam pela Cruz contra o ódio de todos os que pugnavam pelo Crescente, simbolizados na luta daqueles dois indivíduos, porque eles representam dois exércitos. Essa seria uma pugna muito mais expressiva, muito mais tremenda do que a de dois exércitos. Ora, assim seria a luta de dois anjos.
Triunfo e glorificação de São Miguel
O anjo, por sua própria natureza, está muito mais próximo e adequado a representar uma causa do que o homem, tanto para o bem quanto para o mal.

Na batalha celeste, todos os anjos lutando uns contra os outros, de um lado havia fragores, aclamações de amor a Deus, protestos, atos de reparação, de amor, de ação de graças, de pedido a Deus pela vitória; e do outro lado, blasfêmias. Os Anjos bons revidando contra as blasfêmias, espancando; e os anjos maus tentando espancar também os Anjos bons.
E no cerne dessa luta, no centro, São Miguel e Satanás. São Miguel condensando em si o amor de todos os Anjos bons, dando brados que cobriam o campo de batalha angélico e que glorificavam a Deus mais do que qualquer outro brado, e ouvindo os gritos de Satanás, enfurecendo-se contra eles e revidando-os.
Imaginemos que São Miguel seja o primeiro a precipitar no Inferno a Satanás, e este arraste, pela força da gravidade, todos os seus sequazes, os quais começam a escorrer sob as pancadas dos Anjos bons, como a água suja escorre pelo ralo. Quando os últimos demônios saíram do céu, este brilhou diáfano, em paz de novo. E São Miguel foi comparecer diante de Deus, que assistia comprazido o combate, apresentando as “tropas” vitoriosas.
Deve ter havido algo como o que um rei faz com um general que ganhou a guerra, uma glorificação do Arcanjo, em que todos cantaram o seu triunfo, e ele se sentou no seu trono por toda a eternidade.
Não sei se será teológico: quem sabe se São Miguel era um anjo de uma categoria inferior à de Lúcifer e se Deus deu o trono desse revoltado para São Miguel ocupar, e ainda realçou esse trono com belezas e grandezas que não tinha antes. É possível.
Foi entoado, então, o cântico final, o cântico de todos os Anjos aclamando São Miguel; e a bênção de Deus Pai, Filho e Espírito Santo Todo-Poderoso desceu sobre ele. O glorioso Arcanjo, unido à Santíssima Trindade e vendo n’Ela verdades, esplendores e magnificências face a face, inenarráveis até para Anjos de uma categoria inferior, recebeu ali um prêmio cuja grandeza nós nem podemos imaginar.

Nenhum triunfo de general, em todos os tempos, nem a passagem sob o Arco do Triunfo de Paris, nenhuma vitória de Carlos Magno, sequer a entrada dele em uma de suas capitais depois de uma guerra, nem de longe, pode ter representado o que foi a glória de São Miguel.
Dois episódios que superam a glória de São Miguel
Eu imagino, no Céu, só dois episódios capazes de se comparar por superação à glória de São Miguel. O primeiro foi no momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo, depois da Ascensão, entrou no Céu levando consigo todas as almas que estavam no Limbo; aí deve ter havido uma festa simplesmente inimaginável. E eu me comprazo em imaginar, com uma probabilidade que toca na certeza, que Nossa Senhora viu tudo isso, e que Ela, embora o seu corpo estivesse na Terra, foi levada ao Céu para ser louvada e glorificada nessa ocasião também.
O segundo episódio foi quando a Santíssima Virgem entrou no Céu para ser coroada e ocupou o trono que Lhe estava reservado desde toda a eternidade. Fora disso, eu não posso imaginar na glória celeste coisa comparável a essa glória de São Miguel.
Aí está uma biografia, um tanto hipotética, mas muito verossímil de São Miguel, como foi o papel dele durante a luta, como foi a sua glorificação. E essa glorificação naturalmente dura por toda a eternidade, porque no Céu não há o dia seguinte da festa, em que se faz o chamado “enterro dos ossos”,1 ainda meio fruindo qualquer coisa, meio lamentando que a festa tenha acabado. No Céu, essas comemorações deixam ecos eternos. E quando a Igreja celebra São Miguel na Terra, talvez também se renove toda essa festa no Céu.
Em face do mal, devemos ser como São Miguel
Vem, então, a comparação conosco, o nosso papel, a nossa missão.

Em São Miguel devemos admirar essa vigilância e essa prontidão de espírito pelas quais ele foi o primeiro dos primeiros, ninguém teve dianteira sobre ele, em discernir, em detestar e em atacar.
Nós também devemos ser assim: desejar, em face dos adversários da Igreja, de Nossa Senhora, de Deus Nosso Senhor, ser os primeiros, os mais prontos, os mais imediatos em perceber quem é o inimigo e qual é a ação dele, discernir por que um indivíduo é ruim. Devemos ter uma voz capaz de denunciá-lo, de increpá-lo de tal maneira, que todos os bons se levantem.
Na Oração Abrasada, de São Luís Maria Grignion de Montfort, há uma linda oração, uma súplica, ou melhor, um lindo apelo em que ele diz: “Quem for do Senhor, junte-se a mim!” (cf. Ex 32, 26) Ele se sentia sozinho, e havia muita gente que era mais ou menos de Deus, mas que não se juntava a ele. Porém, São Miguel teve uma voz tão forte que quem era de Deus juntou-se a ele.
Então, que tenhamos uma voz tal, não a física, não a da laringe, mas é o dizer as coisas tão na sua essência, com tanta verdade, com tanto amor, com tanto ímpeto e com tanto ódio, que arraste a todos os que amam aquela verdade a que tenham aquele ímpeto, aquele amor e aquele ódio. Que tenhamos a fórmula certa, precisa, pela qual nós jogamos todos na luta. Depois desçamos ali, para o que entre aspas eu chamaria o “corpo a corpo”.
São Miguel não perdeu o seu tempo atacando estes ou aqueles. Ele foi a cabeça da Contra-Revolução. Ele esmagou completamente, atirando fora do céu a Satanás. Foi o aplicador, o executor da maldição de Deus.
Bem podemos imaginar o resmungo no Inferno por toda a eternidade, o ódio, a vergonha, a confusão de Satanás e seus asseclas quando chega a festa de São Miguel e eles comprovam que, por toda a vastidão da Terra, a Igreja Santa canta ao glorioso Arcanjo. Também o ódio, a vergonha e a confusão dos demônios espalhados pelos ares, todos eles inibidos na sua ação.
Por fim, no Céu, São Miguel está brilhando, e os rugidos de Satanás ainda sobem como manifestação da glória dele. “Olhai lá o miserável que ruge. Olhai as penas complementares que os ímpios têm. Até nisso há uma glória para vós, ó São Miguel!”

Nós devemos ser como São Miguel, atacarmos o mal na sua causa mais ativa, na sua ponta de lança, no que tem de mais despótico. E lutar de tal maneira que, no combate, à medida que o adversário acentue as blasfêmias, nosso amor cresça, não diminua, que não fiquemos inseguros, mas, pelo contrário, lutemos mais. E, de ponto em ponto, chegará o momento em que nosso amor seja tão maior que o ódio deles, que eles se precipitem no Inferno. É uma coisa magnífica! Assim nós devemos ser, isso nós devemos pedir.
Mais: com certeza São Miguel pediu o tempo inteiro ao Todo-Poderoso que o ajudasse; ele rezou durante todo o tempo que lutou e sua vitória foi uma vitória de Deus. Ele voltou radioso de glórias, mas despretensioso, glorificando o seu Criador que é, não só a fonte, mas a própria essência de toda verdade, de todo bem e de toda beleza.
Ação de Maria Santíssima no Prœlium Magnum
Alguém dirá: “Dr. Plinio, dentro desse quadro falta Nossa Senhora”.
Realmente eu tenho um propósito, a que raras vezes falto e quando falto é por causa de minha péssima memória, de nunca falar em público sem ao menos fazer uma referência a Nossa Senhora, mais extensa ou menos, conforme a natureza do assunto e as circunstâncias comportem, mas falar d’Ela. Eu quereria ser fiel a esse propósito aqui entre os meus filhos, lugar por excelência onde deve ser-nos grato falar ou ouvir falar d’Ela.
Pode-se perguntar: como fez São Miguel se ele não tinha a intervenção de Maria Santíssima, pois Ela estava ausente?
Nós sabemos que Nossa Senhora foi mais imediatamente a razão da discórdia. Satanás ficou indignadíssimo porque lhe foi revelado que o Homem-Deus, com as duas naturezas, divina e humana numa só Pessoa, deveria ser adorado por ele por ocasião da Encarnação do Verbo. Mas ele ficou ainda muito mais indignado quando soube que uma simples criatura humana, porém a mais alta das criaturas, a Santíssima Virgem, que já não tem união hipostática com Deus, seria Rainha dele e teria que receber o culto dele.

São Miguel aceitou junto com os Anjos bons. Os anjos maus recusaram.
Então, eu acredito que São Miguel terá pedido a Deus, em união ou contando com as preces de Nossa Senhora para ele vencer – porque ele lutava pela glória d’Ela – de maneira que a intercessão d’Ela provavelmente, eu quase diria certamente, de algum modo esteve presente.
Quando Maria Santíssima começou a ter o uso da razão, creio que uma das coisas que Ela conheceu logo no início foi o cântico de São Miguel contra Satanás e suas blasfêmias, e aclamou aqueles que haviam lutado a favor d’Ela.
Se isso é verdade, como é belo imaginar, em sua vida, Ela recebendo uma revelação e rezando pela vitória de São Miguel já realizada no Céu, e associando-se a essa luta, Ela que esmagou a cabeça da serpente. Isso é uma verdadeira maravilha!
São Miguel reivindicou a ordem e a hierarquia
Se São Miguel nos aparecesse, qual seria a impressão que ele produziria sobre nós?
Uma impressão rutilante de lutador, não há dúvida. Mas lutador pelo quê? Porque não basta ser lutador para ser bom, é preciso lutar pelo bem. Senão, do que vale ser lutador? Não vale de nada. Então, ele produziria sobre nós a impressão fundamentalmente ordenativa de um lutador pelo bem.

O “Quem como Deus?” era o brado de quem reivindicava a ordem contra o revoltado por excelência. Como se dissesse: “Deus é como ninguém, e você que saiu de sua categoria, do papel que lhe compete para, arrogantemente, querer ser mais do que lhe toca; você tem que ser esmagado, porque rompeu a ordem posta por Deus na natureza de todas as criaturas. Você foi um violador da ordem na sua revolta contra Aquele que é a fonte e a explicação de toda ordem. Se Ele não existisse, não haveria ordem. Ele é Deus Nosso Senhor”.
Portanto, foi um brado repressivo da desordem e defensor da ordem hierárquica, segundo a qual um é o Ser infinito, perfeito, é tudo, e outros são criaturas contingentes que dependem d’Ele e devem aceitar a sua soberania, inclusive quando Ele manda que adorem o Homem-Deus e que prestem o culto de hiperdulia Àquela mera criatura que será a Mãe de Deus.
Satanás fez uma desordem e rompeu a hierarquia. São Miguel reivindicou a ordem e afirmou a hierarquia.
Esse é o pensamento fundamental dessa luta, a qual é, no fundo, uma “RCR” bem-aventurada, pois a Contra-Revolução destroçou para todo o sempre a Revolução.

São Miguel despertaria em nós um senso de zelo por todas as hierarquias, por todas as categorias, como sendo o modo de estabelecer a ordem, como sendo a própria ordem. Ele, então, poria em ordem nossos próprios seres segundo esta hierarquia interna: a fé inspirando todos os nossos atos, a inteligência e a razão; a razão dominando, orientando e guiando a vontade; esta dominando a sensibilidade. Por fim, os homens seriam colocados nas respectivas hierarquias uns com os outros e em relação com Deus. E aí, São Miguel cantaria de felicidade o “Quis ut Deus?”, como cantou de indignação quando viu que havia anjos revoltados contra isso.
Altíssimos e misteriosos desígnios de Deus
Alguém perguntará: “Por que a Divina Providência suscitou São Miguel e não um Querubim ou um Serafim?”
Sobre a posição exata de São Miguel no Céu, o assunto não está inteiramente claro, parece haver discussão entre os teólogos. Mas a Providência, às vezes, faz ações dessas com um desígnio que só depois compreendemos e achamos belo.
Também se poderia perguntar por que não houve união hipostática com um Anjo. Poderia ter havido com o mais alto dos Anjos. Mas, não, foi com um homem.
Por que isso? A doutrina da Igreja o explica.2 O homem é espiritual como o Anjo; de outro lado, é animal no seu corpo, além de conter um princípio vegetal e mineral. De maneira que todo o universo está representado no homem. E Deus, unindo-Se hipostaticamente ao homem, honrava mais o universo inteiro.
Ou seja, não é necessário que o mais alto receba sempre a maior honra. A ordem imposta por Deus é tão magnífica que, às vezes, tem uma excelência não geométrica, na qual entra algo que eu não chamaria de fantasia – a expressão não seria respeitosa –, mas que para o homem tem o aspecto de fantasia, com umas belezas que excedem a tudo. No Céu nós compreenderemos.
O que pedir a São Miguel Arcanjo?
Nós devemos ter o espírito eminentemente ordenativo e hierárquico, e quando queiramos pedir para ter esse espírito e sintamos nisso alguma dificuldade, devemos recorrer à intercessão de São Miguel para afastar os demônios que nos levam à complacência pândega e displicente, a essa influência relativista e relaxada em face dessa ordenação. Que sejamos tais que qualquer desordem, qualquer violação da hierarquia sobretudo, nos fira e nos indigne; assim como toda manifestação de ordem nos alegre, nos contente e entusiasme.

Dessa forma nossa vida será um contínuo “Quis ut Deus?” até o momento em que cada um de nós, em proporções quão mais modestas do que as de São Miguel, mas autênticas, for coroado também no Céu, pois subirá à glória eterna com palavras como as do Apóstolo São Paulo, as quais eu reputo de uma beleza perfeita. Pouco tempo antes de ser decapitado, ele disse estas palavras: “Combati o bom combate, completei a carreira que deveria completar. Senhor, dai-me agora o prêmio de vossa glória” (cf. 2Tm 4, 7-8).
Parafraseando São Paulo, nós seremos outros São Miguéis que poderemos dizer no fim da vida: “Combati o bom combate, percorri todo o esforço dessa corrida enorme, dessa pista que eu deveria correr. Senhora, agora, por vossa misericórdia, dai-me o prêmio de vossa glória. E antes de todo esse prêmio excelso, dai-me um olhar, um sorriso vosso, uma penetração de minha alma na vossa alma sacratíssima, para que lá eu possa penetrar até Deus Nosso Senhor”.
Encerro pedindo a São Miguel que nos dê a graça de sermos inteiramente hierárquicos até a pugnacidade, e pugnazes até a vitória. Na hora da vitória, estejamos voltados exclusivamente para Deus e atribuindo a Ele toda a glória que merece, da mesma forma como o glorioso Arcanjo amou tanto e tanto a Nossa Senhora, que ele Lhe foi fiel até antes de Ela ter nascido.
(Extraído de conferência de 30/9/1975)
1) No Brasil, expressão que designa o dia seguinte a uma festa, no qual se servem as sobras da comida e da bebida do dia anterior.
2) Cf. SÃO TOMÀS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.4, a.1.



