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Como uma opala à luz do Sol

À maneira de uma pedra preciosa posta em confronto com a luz e emitindo diferentes reflexos, cada um mais belo que o outro, assim é a Igreja Católica e tudo aquilo que nasce dela. Analisando diferentes elmos, Dr. Plinio transcende do objeto material para a sua beleza metafísica.

Nos elmos feitos para soldados cristãos, católicos que iam combater os infiéis, há expressa qualquer coisa de guerra santa que traz ao espírito a ideia de vigor, de decisão, de personalidade extraordinária. De outro lado, há uma beleza inegável e imponderável flutuando em torno de uma feiura assustadora.

Fotos: Flávio Lourenço

Por exemplo, um capacete de cavaleiro da Ordem Teutônica, compridíssimo, com uma espécie de nariz de metal pavoroso e apenas uma seteira, a qual parece mais própria para colocar atrás uma metralhadora do que o olhar humano.

Heroico e poético, ao mesmo tempo uma Camáldula ambulante

Cada elmo revela como o aspecto heroico está admiravelmente presente e leva-nos a perguntar em que pormenor dele se encontra esse aspecto. Parece-nos sentir o tropel dos cavalos das Cruzadas, ouvir o olifante tocar, ver o garbo majestoso de Godofredo de Bouillon que avança, de São Luís, Rei de França, ou de São Fernando, Rei da Espanha, ou de Santo Henrique, Imperador do Sacro Império Romano Alemão, do Cid, de Roland, de Olivier, dos cavaleiros enfim, que partem para a guerra na sua mais alta acepção.

Entretanto, se um elmo fosse feito hoje, em primeiro lugar, não se chamaria assim. Dariam a ele o nome de cabeceira, cabeçada… ou se o metal de que ele é feito fosse óxido de qualquer coisa, diriam oxicabeça, ou o denominariam com qualquer nome inútil… Mas elmo certamente não o chamariam. A palavra é nobre demais para ser inventada por uma época tão sem nobreza.

Em que pormenor se fixa essa atmosfera de poesia? Na verdade, se houvesse uma doença que tornasse a fisionomia de um homem parecida com um elmo, seria considerada como uma moléstia terrível. Imaginar alguém que pela manhã vá se lavar e veja no espelho que está com cara de elmo… que susto, que respeito humano! Sair pela rua com aquele elmo alemão que começa por não ter boca… O guerreiro não fala? Ele apenas vê, respira e assalta?

Fotos: Flávio Lourenço
Crucifixão – Museu de Belas Artes de Budapeste

Porém, não é grandioso um elmo que é uma Camáldula ambulante, dentro da qual não se fala, mas em cujo coração pulsa forte o amor de Deus, de Nossa Senhora, da Igreja, que incendeia o olhar e arma o braço? “Agora vos pegarei! E é já!” Esporada no cavalo e lança no peito do maometano!

Símbolo de uma bela determinação

Que beleza pensar que aquele elmo pode servir de mortalha! Assim como ele pode matar alguém, o cavaleiro pode ser morto e o capacete poderá ser a prisão dentro da qual expire, jogado ao chão. O cavaleiro, ao pôr o elmo, sabe se revestir da dupla coragem: de matar e de morrer. Ambas coisas por amor de Deus, de Nossa Senhora, da Igreja.

O elmo exprime uma bela deliberação: “Matarei! Matarei por amor a Deus, por amor a Nossa Senhora, por amor à Santa Igreja Católica! Se for morto, eu desde já aceito a morte atroz para que outros passem sobre meu cadáver, vão para frente e ganhem a batalha. A morte para mim não é uma surpresa, não é o desastre, não é uma inimiga da qual eu fuja espavorido. Se a morte é, segundo os desígnios de Deus, o final dos dias de todo mundo, que a minha morte tenha isto de bom: ela virá por cima de mim por causa do ódio que os infiéis têm a Deus.

“Ó morte, neste encontro eu te venço! Porque ainda que tu me arranques a vida terrena, eu, de ti, arranco outra coisa: a vida eterna! Tu me matarás, mas as razões pelas quais morro me farão viver na vida eterna. Morte, se meu encontro está marcado contigo, eu vou ao teu encontro e te venço no momento em que tu me venceres e me arrancares a vida, porque conquisto a vida eterna”.

Belezas iridescentes nascidas da Igreja

Dir-se-á ser isso óbvio. Mas faz parte da boa formação de espírito saber explicitar o que é evidente, de maneira a tirar sempre o caldo mais precioso da explicação.

Então, onde está a beleza disso tudo? Sabendo, por razões históricas, como se passava a oferenda e a oblação do cavaleiro, como ele deitava seu esforço para vencer, e como quando ele ia ao encontro da morte dizia: “Tu me encontras, eu te encontro! Tu me vences e eu morro, mas sobretudo eu te venço!” Isso tem algo da beleza da Santa Igreja Católica Apostólica Romana com a doutrina que ensina, com as virtudes que comunica, com a orientação que dá e com os ideais que acende na vida do homem.

À maneira de uma pedra preciosa posta em confronto com a luz e emitindo diferentes reflexos, cada um mais belo que o outro e todos diferentes, assim é a Doutrina Católica, assim é a Igreja Católica.

Existe uma pedra que sempre me encantou: a opala. Esta pedra leitosa possui dentro de si umas substâncias misturadas, cada uma de uma cor. Mexendo a pedra, várias cores brilham, mas mescladas umas nas outras, sem formar uma cor só. Isso se chama irisação. Uma opala iridescente é uma beleza!

Entretanto, a mais bela das opalas não é feita de pedra, ela é feita de gotas de sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo! No momento em que do Corpo Sagrado e já morto d’Aquele que é a vida eterna escapava a linfa misturada com sangue, nascia esta obra-prima da criação: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana!

Fotos: Flávio Lourenço

Como se faz com a opala à luz do Sol, vendo essa variedade de aspectos à luz da Fé – mais bela ainda do que a luz do Sol –, vê-se essa iridescência, a beleza daquilo que é um ato verdadeiramente católico por excelência: o ato do martírio, que de muitos até lava os pecados. E é certo que muitos daqueles cavaleiros morreram verdadeiros mártires.

Por trás da viseira, a alma do cavaleiro que reza e luta

Esse é um bonito elmo cheio de feiura. Pode-se imaginar um cavaleiro metido dentro dele e, através dessas frestas, verdadeiras seteiras, estarem dois olhos que olham fixo, firmes e para frente. O cavaleiro exclama: “Montjoie, Saint-Denis!”, grito de guerra dos cavaleiros franceses, por exemplo, e avança rumo ao adversário que ele fitou. Ele tem clara visão dos outros adversários que podem cercá-lo, abatê-lo, mas ele vê, vê largo, e sobretudo vê longe.

O elmo é construído de modo estritamente funcional. O problema da respiração foi cuidadosamente estudado. Além de entrar ar por círculos pequenos que se encontram logo abaixo do capacete, em cima encontram-se uns círculos, parecidos vagamente com rosáceas de catedral, e também por elas entra o ar. Na viseira há vários desenhos, aliás bonitos e dispostos com arte, de maneira a também facilitar a entrada do ar, indispensável para o cavaleiro poder avançar e rezar.

Fotos: Flávio Lourenço

Atrás da viseira está a alma do cavaleiro que reza ou que espera começar o ataque ou, já estando em pleno ataque, de vez em quando faz subir ao Céu uma jaculatória: “São Miguel, modelo dos cavaleiros, dai-me mais coragem, dai-me mais força! São Miguel, eu quero libertar o Santo Sepulcro! São Miguel, desembaraçai de mouros e de turcos o meu caminho, para que eu possa chegar lá com meus companheiros de armas! Rainha dos Anjos, calcai aos pés satanás que me tenta! E para dar resposta a esse medo que sobe dentro de mim: para frente!”

Vê-se uma certa preocupação de arte que, no todo, faz o objeto ter certa beleza. No entanto, se fosse usado, por exemplo, por tropas soviéticas e não tivesse adorno nenhum, seria uma monstruosidade. Mas, sendo católico, é uma beleza! Sobretudo pela beleza da alma que ali dentro lutou.

Firme e indomável deliberação de lutar

Nesse elmo de cavaleiro da Ordem Teutônica, com a cruz vazada, nota-se na parte debaixo uma pequena cruz vermelha. O resto é deliberação de lutar, firme e indomável: “Eu resolvi, está feito! Agora eu vou para frente. E não há consideração sentimental, não há moleza de alma nenhuma que possa perturbar a força de meu ímpeto. Minha missão é ir para frente? Vou!”

E avança com um desses atos de vontade fortes e definitivos, no qual joga a sua vida inteira: “Eu amei e amo o meu Salvador com toda a alma, eu sou cavaleiro da Ordem Teutônica e vejo as populações católicas do Mar Báltico perseguidas por bárbaros que lhe querem tirar a coisa mais preciosa do mundo: a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Perfurá-los-ei, miseráveis, com meu gládio ou minha lança!”

O rosto do cavaleiro está protegido pelo capacete, dir-se-ia ser um escudo no qual abriram duas seteiras para olhos que valem por flechas, e um protege-nariz sem nenhuma beleza, como quem afirma: “O homem que está aqui não procura outra coisa na vida, senão matar ou morrer por amor de Deus!”

É bonito? Sim, porque é lindo pelo estado de alma que ele reflete. Num concurso de belas artes, entretanto, não ganharia o prêmio…

Bom gosto e coragem

O elmo dos cavaleiros de elite francesa, forjado no ferro em brasa, com abertura em “T” para proteger as faces, é terrível. Ele todo está protegido de ferro, exceto a parte em que os olhos e nariz devem aparecer. Mas não me surpreenderia que tivesse ainda uma peça complementar para proteger melhor o rosto. O elmo vai tomando forma, vai se tornando mais pontudo e se cobrindo mais de enfeites. Vê-se nele uma majestade, que é o aspecto civilizado do elmo anterior. O bom gosto nasce da fé, como também a coragem. O bom gosto e a coragem são amigos, e ambas as coisas procuram manifestar-se aí.

Leveza, força e eficácia

Com o passar do tempo, o elmo procura tornar-se ao mesmo tempo forte e leve. É o que se vê no elmo de cavaleiro inglês de século XVI. A arte de temperar melhor os metais, de fazer melhores ligas, permite tornar as chapas mais esguias, sem serem mais frágeis, e proteger o rosto e, com ele, a vida do cavaleiro.

São notáveis as preocupações de fé e de bom gosto. As cruzes que estão na primeira fileira da viseira chamam a atenção logo de início, mostrando ser um cruzado que está combatendo. Em cima, as mesmas rosetas para a respiração existentes em alguns elmos que já vimos, mas esse é mais bem polido. Há uma espécie de cordão de metal no centro e em cima da viseira. Esse detalhe no elmo indica a crescente preocupação de fazê-lo mais belo, mais leve, mais eficaz portanto, e de, ao mesmo tempo, resguardar a força a fim de ser ainda mais forte.

Aparece uma novidade: uma abertura para a boca, que o elmo anterior não tinha. Porque muitas vezes, durante a batalha, os combatentes cantavam. Antes da batalha começar, os guerreiros se formavam em fila e, do outro lado, o adversário também, apenas separados por um regato ou por uma depressão de terreno. De um lado avança um menestrel ou um bardo, um arauto, e proclama as razões pelas quais seu exército vai lutar, incitando os guerreiros à valentia. Em seguida, diz as verdades para o exército do outro campo.

Do outro lado vem a réplica. E depois disso começa a batalha, em fila, dos dois lados. Em francês chama-se la bataille rangée. Rang, é a fila que representa categoria, portanto, a batalha ordenada em fileira. Bataille rangée é quando as duas filas se entrechocam.

No entrechoque, obviamente, as filas se quebram. Uns guerreiros vão mais para frente, outros mais para trás, eles se misturam. Essa mistura é la bataille mêlée. Bataille, quer dizer batalha, mêlée é misturada.

Porém, de vez em quando, os guerreiros não cantavam, porque não tinham mais fôlego, a não ser para matar; davam, então, um brado! Por exemplo, se no meio da batalha o guerreiro católico ouve o maometano gritar alguma palavra parecida com “Maomé”, o católico respondia: “Maldito teu Maomé! Louvado seja Cristo! Rachar-te-ei a cabeça!”

A época dos cavaleiros cede lugar à dos artistas

Vê-se aqui uma armadura de cerimônias, italiana, com flores de lis estilizadas sobre um fundo violeta escuro. O caráter militar continua. Aqui não se vê somente o elmo, mas também uma espécie de collier, essa peça que protege o pescoço, composta de articulações, podendo ser até achatada para assim facilitar a respiração.

A proteção dos braços está distante da proteção do corpo, para poder entrar um pouco de ar. A preocupação do arejamento é contínua e totalmente explicável. O resto é apenas o elmo, o qual vai cada vez mais se parecendo com a anatomia e a fisionomia humana.

Mas há um detalhe que, apesar da persistência da louvável impressão de heroísmo cavalheiresco, entristece: não se nota mais o símbolo religioso. Nos desenhos magníficos que recobrem a couraça e o elmo, não se veem mais as formas sacralizantes da Idade Média, mas começa a Renascença e, com ela, a decadência da Civilização Cristã.

Fotos: Flávio Lourenço

Ao mesmo tempo isso indica o declínio das armas de metal e a era das armas de fogo. É o momento em que os museus vão engolir os elmos.

Nesse elmo alemão de 1550, com viseira de ponta e parte superior ornada como se fosse uma iluminura, aberto e visto por detrás, nota-se um forte revestimento de veludo e no pescoço os elementos de respiração. Mas, no capacete e em todas as partes exteriores, tudo está finamente trabalhado. É a época dos artistas. À medida que o elmo vai sendo da época dos artistas, vai deixando de ser dos cavaleiros.

Uma obra de arte, sem símbolo religioso

Na época do morrião espanhol, as armas de fogo já estavam francamente introduzidas, entretanto ainda permitiam o combate corpo a corpo, o qual aliás, até a Segunda Guerra Mundial se prolongou. Dessa maneira, convinha sempre ter elmos que protegessem a cabeça. Os holandeses invasores do Brasil ainda usavam elmos desse estilo. São bonitos, são sérios, são muito bem trabalhados. Vê-se, em alguns deles, algo como um vasinho. Ali punham a pluma. Em expressão mais apropriada: le panache.

À primeira vista, fica-se na dúvida se o elmo alemão, usado pela cavalaria ligeira, inteiramente recoberto de arabescos e troféus que se cruzam, formando relevos, é um mero objeto decorativo ou, de fato, um objeto de batalha. Somente depois de analisar a fotografia, pode-se interpretar o sentido dele, e é notável que o elmo floriu, floresceu numa grande crista, a qual lembra vagamente a crista e a dignidade do galo.

Esse elmo não deve ter pertencido a um soldado qualquer, mas a um alto nobre, um príncipe ou rei. Ele é uma verdadeira obra de arte.

No entanto, nenhum símbolo religioso se divisa nele… Infelizmente o mundo está se paganizando. As guerras deixam de ser guerras por razões religiosas para se tornarem guerras pelo poder político. Com o tempo, o fator político desaparecerá e elas serão feitas pelo novo deus: Mamón, o deus do dinheiro.

(Extraído de conferência de 21/6/1986)

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