Cada sofrimento bem aceito nesta Terra é como um cálice de luz sorvido para toda a eternidade, luz que se refletirá nos corpos ressurrectos. Essa claridade, dentre outros predicados, é um dos atributos do corpo glorioso. Quanto maior tenha sido em vida a força contra o que afasta da virtude, tanto mais completa será a glória da alma sobre o corpo.
Vamos falar a respeito das propriedades dos corpos ressurrectos. O que tenho a tratar tem relação com um problema muito bonito e para o qual não encontrei ainda uma solução que vá até o fundo.
Para além das palavras, um universo de matizes
Qual é, inteiramente, até o fim, em todas as suas manifestações possíveis, o pulchrum de uma bela frase, de um texto literário? Esse pulchrum, bem entendido, está antes de tudo na substância do texto. Se ele exprime algo de pulchrum, ele tem o seu principal elemento de beleza; se o que ele exprime é feio, não terá expressão de beleza. Tudo isso considerado em tese é simples. Um texto exprimir! Como um texto exprime? Uma palavra analisada no seu sentido próprio sempre exprime um pensamento, um conceito, dá uma ideia, a qual pode ter pulchrum ou não.
Quando, às vezes, vemos uma descrição atrozmente verdadeira de uma coisa muito feia, o fato de ela nos tornar a realidade presente – seja por via imponderável, seja por via ponderável – isso nos satisfaz, porque a verdade, ainda quando horrenda, está expressa de uma maneira tal que, por assim dizer, a tocamos com a mão, tem o seu quê de pulchrum.
Imaginem, por exemplo, alguém que fizesse uma descrição de uma agonia horrorosa, de um moribundo que está se desfazendo, se arrebentando aos pedaços e, ao mesmo tempo, blasfema… Eu encontro o meu exemplo: a agonia de Voltaire.

Já que pronunciei o nome dele, todos os outros inconvenientes são admissíveis; atrás do nome Voltaire qualquer coisa pode se dizer. Ele, antes de morrer, passou a mão num vaso de imundícies e o bebeu; pouco depois caiu morto. E sua criada de quarto comentou: “Se um demônio morresse, morreria como ele!”
Essa frase final da criada –, que era uma pessoa que não tinha educação, cultura, literatura – se fosse de um membro da Academia Francesa, diríamos: “Ele sabia que assistiria à morte de Voltaire e preparou uma palavra histórica para a ocasião. Como esse comentário está enfeitadinho”. Não, foi uma criada! Horrorizada – tinha fé, ou pelo menos um resto de fé – teve esse pensamento, o qual retrata tão bem a realidade horrenda, que há nele um certo mérito e valor. E nesse valor se pode dizer que há uma razão de pulchrum, uma certa conexão com ele, de tal maneira o conceito de pulchrum se alarga e se abre.
De outro lado, há palavras simples, mas que dizem algo de extraordinário; há palavras complicadas, que às vezes não dizem nada.
Não sei porque me ocorrem exemplos horrorosos, mas Juliano, o imperador apóstata, na hora de morrer, ferido durante a batalha, exclamou: “Vincisti tandem, Galilæum, vincisti! –Tu venceste, afinal, Galileu, Tu venceste!” E entregou sua alma ao demônio.
Essa é uma exclamação simples, mas tem algo da ênfase, do tom de voz, que quase se ouve através dos séculos. E aquela inferioridade infinita dele em relação a Nosso Senhor aparece. “Tu, ó Galileu, venceste, finalmente venceste!” Como a dizer: “Eu estou estraçalhado!” O estraçalhamento aflora aí de um modo magnífico. A palavra é uma constatação: “Quem venceu foste Tu”. Mas, no jogar a palavra, vincisti… e no texto latino: “Vincisti tandem, Galilæum, vincisti!”, isso tem repercussão; são os imponderáveis…
Ora, isso também se passa no que diz respeito à definição de São Tomás sobre os corpos gloriosos.
Quatro conceitos na linguagem corrente
Quatro são as suas qualidades dominantes: impassibilidade, subtileza, agilidade e claridade.1 Cada uma dessas propriedades tem tal luminosidade, se aliam de tal modo entre si, independente do sentido que têm, formam um tal conjunto, que a meu ver é uma coroa de pulcros.
São Tomás analisa a fundo cada uma delas. Consideremos a impassibilidade.2
Para a linguagem corrente, é impassível aquele que não sente e não está em condições de sentir o que os outros queiram fazê-lo perceber, razão pela qual ele também não se move. Por causa disso se diz: “Fulano permaneceu impassível”, equivalente a “permaneceu imóvel”.
De outro lado, São Tomás atribui a esses mesmos corpos uma qualidade bem diversa: a subtileza. Ora, a subtileza é a finura, a sensação do que é delicado, matizado, do que é diferente, a percepção exata. Parece o contrário da impassibilidade. Então temos uma impassibilidade majestosa e uma subtileza vivaz.

A isso se acrescenta uma agilidade surpreendente. Agilidade e subtileza se encaixam muito bem, embora pareçam protestar contra a impassibilidade.
E por fim, a claridade, que aparenta, por sua vez, ser oposta à impassibilidade, já que quem emite luz se comunica. Quem se comunica, evidentemente sabe que há outrem e, se sabe, é porque sentiu, conheceu. Como é tudo isso junto? As palavras soam muito bem como introdução. Mas, afinal de contas, o que cada um desses atributos pode significar?
Um dom para a alma batalhadora, perseverante e perfeita
São Tomás de Aquino entende como impassibilidade o privilégio que têm os corpos ressurrectos: eles conhecem pelos sentidos o que existe fora deles. Ele refuta muito bem a objeção de que os sentidos dos corpos ressurrectos não terão exercício. Ele diz: isso seria imagem mais do sono que da vigília, e não convém a quem está vendo Deus face a face ter atitude de quem dorme.
E explica no que consiste essa impassibilidade: no domínio total da alma que se salvou sobre o corpo ressurrecto. A alma, confirmada em graça, está num estado de perfeição e manterá nesse estado seu corpo ressurrecto. Ele, por toda a eternidade, estará com as perfeições magníficas com as quais ressuscitou, porque a alma posta em Deus não consente que nem o tempo, nem o lugar, nem os demônios, nem alguma outra coisa que houvesse possa diminuir em nada a perfeição do corpo ressurrecto.
E São Tomás, afeito a toda a forma de pormenor enriquecedor, que não seja bagatela, explica: como no Céu todos estão confirmados em graça, não existe nenhuma possibilidade de a alma pecar, e nenhum corpo, portanto, consentir no pecado ou perder qualquer de suas perfeições, sob qualquer ponto de vista.
Apesar disso, como prêmio da virtude, essa firmeza, para todos inabalável, ainda é maior para aqueles que praticaram maior virtude. De maneira que quanto maior tenha sido em vida a força contra os obstáculos, tanto mais completo será o domínio da alma sobre o corpo. Essa impassibilidade para o mal e para qualquer forma de diminuição, é tanto mais total quanto mais a alma tenha sido excelente, batalhadora, perseverante e perfeita.
Nós podemos nos elevar desde já e, genuflexos, pensar na impassibilidade de Nossa Senhora. Aquela que praticou a virtude de um modo perfeitíssimo, no ápice da perfeição que em todos os instantes da vida Deus d’Ela quis. Nós podemos imaginar o domínio da alma santíssima d’Ela sobre o seu corpo santíssimo, é a impassibilidade celeste d’Ela.
O demônio, que gostaria de atacar todos os bem-aventurados e não se atreve a se acercar de nenhum, quando qualquer coisa toca n’Ela, se afunda com desespero em suas dores, em seus tormentos mais lancinantes. Porque faz parte da impassibilidade d’Ela causar nele um verdadeiro terror, e ele se afundar.
Impassibilidade de corpo e de alma
Há exemplos dessa impassibilidade nesta Terra? Nós a encontramos na arquitetura do Escorial. Ele tem a forma de uma grelha e foi construído assim por desígnios do Rei Filipe II da Espanha,3 para comemorar a Batalha de Saint-Quentin,4 na França, na qual as tropas espanholas venceram, em aliança com os franceses católicos, contra os huguenotes, os protestantes franceses, aliados a tropas mercenárias ou não, de países protestantes da Europa. Essa batalha foi muito decisiva e deu-se no dia de São Lourenço, cujo instrumento de martírio foi uma grelha.
São Lourenço foi deitado sobre uma grelha e acenderam fogo embaixo. Ele, calmo e sereno, ali em cima, quando estava inteiramente queimado, disse: “Já estou queimado atrás até o fim; virem-me de bruços”. Viraram-no e ele foi queimado. Ele morreu impassível, no sentido relativo da palavra, porque seu corpo sofreu destruição, mas sua alma era tal, que seu corpo não teve uma contração, um movimento de fugir do martírio; ele não pediu para ser virado do outro lado a não ser quando já havia sofrido na parte do seu corpo que estava sobre a grelha toda a destruição possível. E foi um desafio aos que o matavam: “Agora, virem-me de frente!”
Pode-se imaginar as labaredas que começam a queimar-lhe o rosto, os olhos, a língua, os lábios, o queixo, o esôfago, a laringe, os pulmões, tudo; e o mártir confessando a sua fé em Nosso Senhor Jesus Cristo até o fim. Quando ele ressuscitar, vai gozar de um domínio sobre o seu próprio corpo, todo ele glorioso, do qual nem sequer podemos fazer uma ideia.

É uma imagem de impassibilidade que na Terra podemos ter. É uma impassibilidade de alma, mas que exerce seu reflexo sobre o corpo, quanto ao modo firme pelo qual este recebe um tormento de espantar.
Mais impassível ainda é Aquela a Quem temos de nos voltar sempre que falamos de virtude, porque é o píncaro da virtude, Nossa Senhora. Ela conservar-Se de pé junto à Cruz até no momento em que Nosso Senhor expirou é algo que não tem qualificativos como domínio completo sobre seu corpo virginal e santíssimo. Dava para desmaiar! Não. A Igreja canta: “Iuxta crucem lacrimosa, stabat Mater dolorosa”.5 Stabat é estar de pé. A Mãe, lacrimejando, estava de pé junto à Cruz, ereta como a própria Cruz.
Subtileza e agilidade sublimam o corpo ressurrecto
Podemos falar algo a respeito da subtileza.6
Nós mais nos referimos a um espírito subtil, uma linguagem, uma diplomacia ou uma obra de arte subtil do que a um corpo subtil. Ora, o corpo glorioso estará tão penetrado pela alma, que ele adquire qualidades que têm um quê de espiritual e o tornam capaz de movimentações, de inserções e de percursos extraordinários. É o corpo subtil.
Por causa do grande domínio que a alma tem sobre seu corpo, ele se torna capaz de penetrar, atravessar, cortar, de estar em todos os lugares, de dominar, portanto, a matéria.
E o que é a agilidade? É, por sua vez, dentro da subtileza, um modo de ser. É a alma tomada como motor primeiro, imediato do corpo; a alma gloriosa comunica ao corpo uma movimentação magnífica. E o corpo sem nenhuma resistência – mais submisso à alma do que o corpo de Adão lhe era dócil no Paraíso –, em qualquer lugar e de qualquer modo, se move absolutamente como a alma deseja e, por causa disso, com uma velocidade e prontidão que nos deixam desconcertados.
São Tomás explica que, terminada a História da humanidade, os justos contemplarão sempre a Deus face a face e, ao mesmo tempo, conhecerão o universo inteiro. Eles, em corpo e alma, poderão transpor as maiores distâncias de um momento para outro, com toda rapidez e facilidade.
Pode acontecer de, ao olharmos a cúpula celeste, nos perguntarmos: “Onde o universo acaba?” Está bem, poderá ser que percorramos com nossos corpos todas essas distâncias para, de algum modo, conhecer melhor a Deus e louvá-Lo ainda mais. Isso faremos com a maior facilidade, sem esforço nenhum e com rapidez.
A vontade de conhecer o mundo inteiro, a aflição do turismo, de viajar, viajar, viajar, ver isto, aquilo, aquilo outro… muito frequentemente as pessoas se entregam a isso de um modo desordenado, por agitação de alma, por não serem capazes de pensar estável e continuamente nas coisas sobre as quais devem refletir. Há, portanto, muito erro dentro disso.
Em si, o espírito humano deseja conhecer tudo quanto sabe existir. E no Céu, em seu estado de felicidade celeste, essa vontade lhe será saciada. Sobretudo os que tenham a alma mais movediça, certamente mais do que a minha, que sou sedentário por definição. Eu me tenho tornado um pouco menos sedentário, mas houve tempo em que para mim ir de São Paulo a Santos ou a Jundiaí era uma viagem, e eu não gostava.

Ora, há almas que Deus fez de outro modo, são alígeras, ligeiras, gostam de estar em todos os cantos. Está bem, elas receberão esse prêmio na eternidade, sendo particularmente rápidas em percorrer imensidades, em ir por todos os lados, sem nunca perderem a majestosa presença de Deus diante de si. Uma eternidade uniforme e ao mesmo tempo variadíssima. Não só variada – sobretudo porque em Deus elas verão sempre algo de infinitamente novo –, como também para regalo do seu ser total e de seus corpos, portanto; todas verão aspectos diferentes.
Elementos que manifestam a infinita grandeza de Deus
São Tomás7 estuda o assunto com tanto afinco e seriedade, que refuta até a objeção de alguns que, querendo hipertrofiar essa noção da agilidade, dizem que os corpos dos ressurrectos são tão ágeis que nem atravessarão os espaços intermediários.
A meu ver é um sonho medíocre. Porque, por exemplo, a ir à Lua, é agradável percorrer os espaços intermediários. Já que se vai, é ou não é deleitável percorrer esses vazios que o luar enche? É claro! Dizia-se no meu tempo que além do ar há o éter, e digamos que alguém esteja viajando no éter e, de repente, bate de cheio em raios da Lua que descem; sobe à lua pela avenida de seus raios. A mim, isso dá alegria. Por que eliminar esse espaço intermediário?
São Tomás diz ser inteiramente impossível irmos de um corpo físico a outro sem passar por esses espaços. Quando vemos as estrelas no céu, temos muita vontade de conhecê-las, é bem verdade. Quem foi pequeno e não pensou em conhecer as estrelas? Quem, debaixo do regime ou da formação revolucionária foi adolescente e não ouviu alguma voz física ou psicológica que lhe dizia: “Deixe dessa cogitação, porque é tolice. Preocupe-se com o turismo, em ganhar dinheiro ou em assegurar saúde, porque disso é que o homem cuida. Estrela está para lá, não é cogitação do homem”.
É o contrário. Deveria se formar a pessoa assim: a criança olha para as estrelas e diz para a mãe: “Mamãe, quando nós vamos para lá?” E a mãe responde: “Meu filho, um dia iremos juntos, quando ressuscitarmos!” Que jato de seriedade por cima da bobice da criança! Que jato de esperança, desde que a criança começa a formar-se! “Então, se eu levar a minha vida reta, um dia eu irei para lá”.
Por assim dizer, Deus não criou esses seres com espaços intermediários – não quero dizer fisicamente intermediários – entre Ele e nós para nos dar vontade de chegar até Ele e para nos dar a entender quanto Ele é alto, infinito?

É uma ideia da grandeza d’Ele e a promessa: “Meu filho, tu tens corpo. No teu corpo há essa vontade que Eu implantei e um dia exuberantemente atenderei, se tu fielmente Me servires”.
Eu considero uma meditação própria a dar vontade da outra vida e das coisas celestes. Daí vem o que diz respeito à agilidade.
A claridade da bem- -aventurança refletida no corpo glorioso
São Tomás8 explica que a alma do bem-aventurado domina tão completamente o corpo, que a claridade transparece através do corpo.
A alma está num estado de glória, ela vê Deus face a face, vê Nossa Senhora, contempla os mais altos Serafins. Ela, portanto, está colocada numa posição onde tudo quanto há de mais esplêndido, de Deus, – não é preciso dizer mais nada – ela vê, contempla; isso enche, naturalmente, a alma de claridade, e essa se difunde pelo corpo. De maneira tal que o corpo é todo reluzente das claridades da alma.
Quem vê o corpo de um ressuscitado lhe vê as virtudes, a santidade; vê o gênero de virtude que praticou, quais as modalidades, os matizes, qual a intensidade. E, diz São Tomás, que a claridade não é igual para todos: é maior ou menor, conforme o grau de virtude.
Quando Nossa Senhora se move no Céu, que claridade! Para não dizer a de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quando se pensa na Humanidade Santíssima d’Ele, as palavras faltam, os conceitos estalam e as comparações se evanescem, porque ninguém pode ser comparado a Ele. Não podemos ter uma ideia do que será.
Cálice da dor, o cálice da luz beatífica
E, apenas para colocar nossa alma no estado de espírito em que deve estar, lembro que essa claridade não será obtida por nossas almas no Céu, nem transparecerá em nossos corpos, se nós, nesta Terra, não tivermos passado por muita penumbra, ou seja, por muita perplexidade, desconcerto, aflição, por muito sofrimento. Se passarmos por todas essas trevas, nelas nossa alma vai se iluminando, para um dia marcar os nossos corpos.
São Tomás afirma que nos corpos as cicatrizes dos sofrimentos, das feridas, das doenças recebidas por amor de Deus, brilharão com um esplendor especial.9 Eu quero pensar nos corpos dos mártires, dos cruzados.
Que elogio se deve tributar a um São Lourenço, a uma Santa Joana d’Arc, a um Padre Damião,10 sacerdote da Congregação do Sagrado Coração de Jesus que viveu em meados do século passado, quando a Europa ainda estadeava todas as pompas da Belle Époque. Ele morreu na ilha de Molokai, onde se internou para tratar de leprosos, numa época em que não havia remédio para a lepra e num clima onde a lepra era positivamente contagiosa. Tendo deixado tudo, ele tratou dos leprosos por muitos anos.
Certo dia, fazendo conferência para os leprosos, como fazia assiduamente, ele disse: “Meus caros enfermos, hoje tenho a alegria de vos dizer que sou dos vossos; na hora de tomar banho, a água estava quentíssima e eu não senti a temperatura no pé”. A moléstia terrível o havia atacado. E ele tomava essa atitude de alma de irmão em Nosso Senhor Jesus Cristo, em Nossa Senhora, para anunciar dessa forma que ele, por amor àqueles outros, tinha se precipitado num abismo de dores. E, para consolá-los por serem leprosos, ele queria dar o espetáculo da serenidade de alma e do espírito de renúncia com que um homem sai da saúde e entra na lepra.
Tudo leva a crer que esse sacerdote tenha morrido em odor de santidade. Pode-se imaginar na lepra que corrói o corpo inteiro, o brilho e esplendor desse corpo ressurrecto?
Está bem, mas os tormentos da alma doem mais do que os do corpo. Não parece, mas é. E quem acha o contrário, é porque teve poucos tormentos do corpo e quase nenhum da alma. Os tormentos da alma são terríveis.

Nossas almas parecerão particularmente gloriosas no que mais tenham sofrido. E muitas vezes vêm sobre nós nesta terra sofrimentos que trituram a alma. Quando a alma diz “sim” e bebe o cálice, ela não sabe, mas ela está bebendo um cálice de luz para toda a eternidade.
Alegrias irradiantes da Ressurreição do Senhor
Assim temos uma ideia do que foi a glória da Ressurreição e compreendemos a alegria cristã da Páscoa: com todos os sinos bimbalhando, com o Judas sendo malhado e com as crianças se preparando para os piqueniques; e nas casas de família, as mães acendendo velas bentas diante das imagens de Nossa Senhora e de Nosso Senhor para celebrá-Los, reunir as crianças para rezarem. Enfim, tinha-se a impressão que até a natureza se rejubilava quando dava o meio-dia e soava a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
E terminemos com a seguinte consideração: Nosso Senhor Jesus Cristo, logo depois de ressurrecto, transpondo com o seu Corpo glorioso as paredes do Cenáculo, onde presumivelmente Nossa Senhora estava e aparecendo a Ela no esplendor! E Ela passando do profundo da dor em que Se encontrava para a alegria irradiante. Podemos imaginar o que terá sido. Comparável só, não idêntico, à ressurreição d’Ela.
Nosso Senhor ressuscitou por sua própria vontade, sua própria força, Ele era Deus. Podemos imaginar que para a ressurreição d’Ela, operada por Ele, com quanta reverência e afeto Ele terá vindo, acompanhado por não sei quantos Anjos, por todos os que com a Ascensão d’Ele já tinham subido, estavam na Corte Celeste; todos rodeando Nossa Senhora, a alma d’Ela entrando no corpo ressuscitado por Ele. Glória!
Quando Ele nasceu, o primeiro que viu foi Ela. Quando Ela ressuscitou, a primeira pessoa que Ela viu foi Ele! Tudo estava pronto para a Assunção.
Considerações para encorajar na hora suprema da morte
Sobre os corpos ressurrectos foi dito tudo. Eu terei alcançado o resultado que desejava, se essas meditações sobre a felicidade e a alegria dos corpos ressurrectos tiverem dado a todos uma ideia muito depreciativa das alegrias da Terra. O que é tudo da Terra comparado com isso? E como, por uma alegria de um minuto, expomos tudo isso? Lembrem-se do que já foi falado sobre o Inferno. Perde-se tudo por uma alegria de um minuto: um mau olhar… Como se faz uma coisa dessas?
Outra intenção era fazer com que nossas almas estejam muito mais prontas para o sacrifício, compreendendo quanto é proporcionado que o homem sofra nesta Terra, uma vez que terá essa eternidade de gáudios a receber no Céu, já a começar pelo primeiro momento de ressurrecto, no fato da ressurreição.
Terceiro lugar: dar coragem para a morte. Quando chegar a hora da morte… A morte é algo tão tremendo! Há um certo momento em que cai como que um peso, e aquela pessoa que era familiar nossa e há um segundo estava no convívio conosco, fazia parte de nosso mundo, de repente lhe cai um peso e ela é projetada para toda a eternidade. “Aurum eorum et argentum eorum non valebit eos” (Ez 7,19).11 O dinheiro, o ouro e a prata deles não lhes adiantaram de nada. Há um momento de um valor profundo.
Eu li a história de um Santo – não me lembro do nome, infelizmente – que tinha verdadeiro terror de morrer. Mas era um tal pavor que, quando falava da morte, ele se punha a tremer. E eu pensava com os meus botões quando lia isso: “Que Santo clarividente! E como ele compreendia bem o que é esse passo. Que coisa terrível é a morte!” Ele rezava para ter uma boa morte. Morreu aos poucos, caso se possa dizer assim, numa tranquilidade, numa serenidade, vendo chegar aquela morte da qual toda a vida ele tivera horror. Algo extraordinário!

“No momento decisivo em que a alma sai do corpo – o meu velho professor jesuíta Pe. Costa dizia – tem que haver uma dilaceração tremenda!” Agora, um exemplo dado por mim, não por ele. Havia um tormento que se aplicava antigamente: inclinavam duas árvores por meio de máquinas, e amarravam a pessoa entre elas; tiravam as máquinas, elas voltavam à posição normal e rasgavam o indivíduo, como outrem pode rasgar uma folha de papel. Essa sensação de dilaceração do corpo provavelmente é menos terrível do que a sensação da alma que se separa do corpo.
E esse mesmo padre dizia: “Desde que a criança nasce, ela começa a carregar seu caixão rumo à sepultura”. Verdade é! Quando ele disse, eu, habituado às infâncias Belle Époque, tendo um quarto com papel de parede de fitinhas azul-claras, do qual ainda me lembro, pensei: “Que brutalidade diz esse homem!” Mas logo depois refleti: “Mas como é verdade! Como ele tem razão!”
Para além da morte, esperança na ressurreição
Muitos anos depois, folheando uma revistinha francesa, nessas seçõezinhas que têm frases soltas, sem autor definido li: “On entre on crie, c’est la vie; on crie on sort, c’est la mort!” Entra-se e solta-se um grito: é a vida; grita-se e sai-se: é a morte. Entre dois brados está a vida de um homem.
Está bem, nós devemos nos lembrar que para além da morte existe a ressurreição. E devemos afundar no vale da morte com a esperança, com o gáudio da ressurreição, confiando-nos a uma invocação de Nossa Senhora que li outro dia de passagem, e me pareceu muito bonita: Nossa Senhora do Trânsito. Trans ire, ire trans: atravessar. Provavelmente é isto que queria dizer a invocação: Nossa Senhora da travessia tremenda, que quis morrer e nos ajudará a morrer. Nossa Senhora do Trânsito. Sirva-nos para esse trânsito essa esperança.
Ora, no momento, não é esse o trânsito que temos diante de nós. Nós temos diante de nós a vida, com tudo o que ela deve carregar. “Talis vita, finis ita”.12 Se quisermos ter uma morte corajosa, tenhamos uma vida corajosa. Vivamo-la com coragem, com força, energia, ênfase e resolução!
(Extraído de conferência de 26/12/1980)
1) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Sent., IV d. 44, q. 2, prol.
2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 1.
3) Felipe Carlos Maria e Francisco (*1527 – †1598).
4) Ocorrida em 10 de agosto de 1557.
5) Do latim: Em prantos, de pé junto à Cruz, estava a Mãe dolorosa.
6) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 2.
7) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 3.
8) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 4.
9) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q. 54, a. 4.
10) Jozef de Veuster, Pe. Damião de Molokai SS.CC (*1840 – †1889). Foi canonizado pelo Papa Bento XVI, em 11 de outubro de 2009.
11) “Sua prata e seu ouro não poderão salvá-los”.
12) Do latim: “Tal vida, tal morte”.



