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Europa sacrossanta, gerada pelo Sangue de Cristo e pelas lágrimas de Maria

A Europa é uma espécie de mito maravilhoso que se realizou porque ali houve almas santas, as quais, pela correspondência à graça, conceberam a Religião como algo ligado à visão beatífica. Excelente é meditar sobre a Igreja em função de um continente trabalhado por ela, cujas obras constituem um verdadeiro seminário do Céu.

Ao tratar dos frutos da Civilização Cristã na Europa é preciso considerar que monumentos como o castelo de Chenonceaux, Versailles ou os existentes ao longo do Reno, além de tantos outros castelos menores, muito bonitos, e até casas antigas senhoriais, populares, aldeias etc. foram construídos não à maneira daquelas montanhas no caminho de Teresópolis – que, geograficamente falando, são únicas – como cones que saem diretamente do chão. A Europa era como uma cordilheira altíssima que, para ter esses picos, deveria ter também uma série de outras elevações na vida cotidiana, mais ou menos proporcionadas a essa altura, e que constituiriam todo um ambiente, um estilo e teor de vida, que abarcariam todo o continente.

Flávio Lourenço
Palácio de Versailles

O desejo de realizar a maravilha nesta Terra e de unir-se a Nosso Senhor

Tempo houve em que todo esse teor da vida era diferente nesse continente, no qual muito disso resta e onde foi possível ao homem realizar na Terra não propriamente um mundo de gostosuras, mas de maravilhas, de coisas ultra-arquitetônicas, ultrassapienciais, ultracapazes de nos falar do Céu e que, por ricochete, também eram agradáveis.

O gostoso entrava acidentalmente, assim como a vontade de ir para o Céu para ser feliz; a razão principal era a de unir-se a Deus Nosso Senhor e à ordem de coisas criada por Ele.

Trata-se, portanto, de valores religiosos por causa do aspecto simbólico que essas construções têm. O Paraíso celeste, considerado na sua realidade material, é um lugar onde Deus fez coisas magníficas, para o homem viver imerso num mundo da matéria que lhe falava de Deus. Isso enquanto o próprio homem gozava da visão beatífica! Tão necessário é ao homem alimentar seu espírito não só na consideração das realidades diretas da Religião, mas a propósito da esfera temporal e do mundo da matéria, que até no Céu isso vai ser assim.

Deve-se, pois, compreender que houve uma virtude que o europeu medieval levou a um grau inimaginável: o desejo de realizar a maravilha na Terra.

O espírito europeu, muito mais maravilhoso do que qualquer de seus efeitos

Os templos gregos tinham de interessante o desejo de fazer um Olimpo na Terra. Os edifícios gregos são mais feitos para serem habitados por semideuses do que por homens. Não se imaginam gregos vendendo couve, passarinhos e a vida vulgar correndo no meio daquilo. Imaginamos, isto sim, semideuses passando por ali: Atena, Artemis, Zeus saindo dos templos construídos para eles mesmos. Ou seja, havia uma certa ideia, que os romanos tiveram também, de fazer um mundo de maravilha.

De sorte que a Europa é uma espécie de mito que se realizou e que a Religião Católica elevou a um seminário do Céu.

É preciso compreender que a maior maravilha da Europa, e por onde ela propriamente era maravilhosa, era o espírito europeu, o contato com as almas sedentas do maravilhoso e nas quais se sentia muito mais isso do que naquilo que elas faziam, porque o efeito é sempre menor do que a causa e nunca dá tudo quanto está dentro da causa. Logo, os homens e a sociedade que elaboraram essas maravilhas possuíam isso em quantidade enormemente maior do que as coisas que eles deixaram.

Assim, a corte de Luís XIV era muito mais fina do que Versailles; São Luís IX era enormemente mais a Sainte-Chapelle do que a própria Sainte-Chapelle o era; como São Francisco de Assis era incomparavelmente mais o Eremo delle Carceri do que o próprio Eremo, porque aquilo é o efeito, não a causa. E na causa isso existia de um modo inebriante. Trata-se, pois, de imaginar as virtudes, as qualidades de alma, o ambiente moral que havia nisso.

BrunoCruz (CC3.0)
Montanhas em Teresópolis

Procurar conhecer os predicados de alma que geraram a civilização cristã

Os historiadores costumam apresentar os defeitos. Eles contam que, por exemplo, Madame de Montespan fez tal imoralidade na corte de Luís XIV. Entretanto, não contam tudo quanto havia que não eram defeitos e que tornou possível Versailles e todos aqueles valores que duraram séculos, e ainda se encontram no mundo de hoje, pois é claro que havia uma estrutura moral, virtudes, capacidades, sem as quais aquilo não seria possível.

Não se concebe um rei, ainda que fosse um nababo, fazendo hoje um palácio como o grande Trianon de Luís XIV. Embora, em nossos dias, aquela construção custe incomparavelmente mais barato do que um arranha-céu, é impossível, não se construiria. Por quê? Porque havia outrora qualidades de alma que hoje não há.

Procurar conhecer esses predicados de alma como fator de santidade, como atmosfera do Reino de Maria e imergir no lado religioso dessa realidade é por onde toca a luz primordial do nosso Movimento. E, graças a Deus, toca porque é o mais profundo do assunto, isto é, ver como, do Sangue infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Nossa Senhora, se gerou, pela correspondência à graça, um mundo inteiro apetente do maravilhoso.

É preciso considerar a vida dos santos, dos guerreiros e dos heróis se entrecruzando para dar a visão de conjunto.

Por exemplo, ver o Escorial é uma coisa muito bonita, mas pensar num de seus salões, ou na salinha de Filipe II, ele lendo uma carta de Santa Teresa, desfazendo as manobras de um núncio gordalhão, bonachão, renascentista e contrário à reforma do Carmelo, aí está o clou, porque Filipe II era mais o Escorial do que todo o Escorial.

Santa Teresa e Filipe II, a junção dessas duas almas – porque Santa Teresa ainda era muito mais o Escorial do que Filipe II, porque ela era do Escorial do Céu e Filipe II era de um Escorial de segunda, da Terra olhando para o Céu – nos dá a visualização inteira.

Só é autêntico o que brota da verdadeira visão da Religião Católica

Eis o aspecto mais profundo de nosso Movimento, o mais completo, religioso, sacral, pelo qual reconhecemos e afirmamos que nada é bom, nada é válido, nada é autêntico que não brote de uma verdadeira visão da Religião Católica que os santos tiveram nos seus conventos, nas suas ordens religiosas, enfim, nas instituições da Igreja Católica.

O que implica numa visão mais ampla das instituições da Santa Igreja, compreendendo como nascida delas toda a maravilha da civilização; e esta, por sua vez, presente nessas instituições como o efeito está presente na causa. Ou seja, não teria sido possível esses Santos gerarem uma civilização que produziu tais maravilhas, se o espírito daquilo não estivesse presente na alma desses Santos.

Assim, Versailles estava presente, em alguns de seus aspectos, na alma de São Luís IX, de São Vicente de Paulo, que viveu no tempo de Luís XIII, dos Santos que viveram no tempo de Luís XIV. Essa junção é indispensável para compreender a história da Igreja.

Aqui nós temos uma visão católica da Europa, uma meditação sobre a Igreja em função da obra dela e um alargamento da própria visão da Igreja.

Sobretudo, o que me fala fundo à alma é essa junção entre a Europa e a Igreja. Com efeito, no Céu nós teremos a visão beatífica e o Paraíso celeste. O erro de quem não quer dar essa visão como estou dando, é querer para esta Terra uma espécie de “visão beatífica”, que é o contato com a Igreja, mas sem essa espécie de “paraíso celeste” que é a Civilização Cristã. Então, a coisa fica desencantada e morta. Há um erro fundamental em conceber a Religião desligada dessa modelação celeste da Terra, quando no próprio Céu nós vamos ter um quadro material que sustentará isso, por causa da psicologia do homem, da estrutura do homem. Por isso eu me empenho em restaurar essa junção.

Flávio Lourenço
Escorial

A própria Idade Média, que viveu isso, não explicitou essa realidade. Coube a nós formulá-la após vinte séculos. Mais ou menos como quando se contempla uma bela casa que, vista do jardim, fica muito mais bonita do que quando se está dentro.

Nós somos os miseráveis expulsos desse palácio e que de fora percebemos melhor as harmonias dele. Daí o fato de, em vinte séculos, não se ter formulado. Foi preciso ter a fidelidade suficiente ao que estava dentro para, na miséria, ser capaz de fazer uma teorização e um cântico do que já se foi, que é o suco do que foi. Porque o suco de todo aquele passado e onde ele chega até a sua sublimidade é o momento em que isso se explicita. E é na maior desgraça dele que do peito daqueles que o amam rompe o cântico dessa junção.

Alguém poderia objetar: “Mas o que é puramente celeste não é mais alto do que o terreno?” Eu digo: É evidente, basta falar em celeste para o terrestre ficar como que pulverizado, não precisa dizer mais nada. “Então, por que o senhor se inebria com essa junção?” Porque é por meio dela que eu tenho a inteira perspectiva do celeste. Aí está a questão. Inclusive no Céu, porque sem a junção entre os dados do Paraíso celeste e a visão beatífica nós não teríamos tudo o que nossa natureza pede para a contemplação de Deus. Em última análise, o Paraíso celeste é necessário, e é preciso aprender a amá-lo na Terra.

Donde minha meditação versar sobre a Europa sacrossanta, da qual me daria vontade de beijar o solo do cais do primeiro porto onde meu navio parasse, porque, seja como for, é a única parte do mundo onde o Sangue de Cristo e as lágrimas de Nossa Senhora geraram uma civilização.

Sailko (CC3.0)
Retábulo de Fiesole, por Fra Angélico – Galeria Nacional de Londres

E aqui entra a consideração da cruz.

Duas formas de felicidade

O defeito de hoje é o modo pelo qual as pessoas veem a cruz, tendo a ideia de que este mundo existe para ser um lugar de fruição.

Contra isso encontramos a resposta sacrossanta e inteiramente verdadeira no imenso caudal de coisas admiráveis que a Igreja disse a respeito da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A nós competiria dizer uma palavra a mais? Haveria, na mesma linha, um acréscimo, a dar, de nossa parte?

Certa vez, quando eu era menino, um padre jesuíta pôs o seguinte problema durante uma aula de Religião no Colégio São Luís: imagine que uma galinha fosse capaz de pensar e alguém lhe dissesse: “Você foi criada para ser comida e, portanto, o seu dono vai te matar e você será comida por ele”.

Então o jesuíta punha a pergunta: “A galinha deveria ter um movimento de horror porque iria morrer ou de entusiasmo porque a finalidade dela, que é a de alimentar um ser tão superior como é o homem, iria se realizar?”

O problema estava muito bem apresentado e me impressionou profundamente, a ponto de, durante anos, eu refletir sobre ele, não para responder à questão da galinha, mas ao problema muito maior que está por detrás, e que é o seguinte.

A galinha sentiria necessariamente a dor horrorosa de sua própria imolação. Contudo, ela não podia deixar de sentir a felicidade inerente àquilo que chega a seu termo, a seu fim, e que é uma felicidade muito maior do que a grande infelicidade da imolação.

O padre apresentava a alternativa: ou sente uma coisa ou sente outra. Mas as duas deveriam se juntar de tal maneira que a galinha amaria o fato de chegar a seu fim, embora o amasse com dor.

Ora, também na vida humana existem duas formas de felicidade: uma é a da galinha no galinheiro, e outra é a da galinha ao ser imolada, isto é, a alegria de estar servindo ao seu fim, de praticar ações que encontram o seu termo, o qual se junta a outros termos para fazer uma arquitetura que é o sentido daquela vida.

Então, qual é o homem feliz? Não é aquele que vive muito, nem o que vive gostosamente. É feliz quem vive segundo a sua natureza e o seu fim. Isso causa uma alegria que não é a mesma de alguém que tirou o prêmio na loteria. É a alegria – tão elevada que quase não faz parte do mesmo gênero da outra – de quem está sendo e fazendo o que deveria.

Flávio Lourenço
Sala de Armas – Castelo de Cheverny

A serenidade e a grandeza de alma diante da dor

Sendo assim, para aguentar a presença nesta Terra devemos ir lenindo, adoçando as agruras da vida com a consideração do que há de celeste na obra da Civilização Cristã e com a consideração do Paraíso celeste e da visão beatífica, tomando, em face da dor, a atitude que Nosso Senhor tomou no Horto das Oliveiras.

Encontramos na era da Europa maravilhosa a dor instalada no meio das maravilhas da vida com toda a amplitude possível. A morte era uma grande solenidade, a respeito da qual a etiqueta tinha disposto todas as suas exigências.

Quando um arquiduque d’Áustria agonizava, por exemplo, ainda que fosse de um ramo muito afastado da Casa Imperial, todos os arquiduques e arquiduquesas d’Áustria colocavam-se em torno do moribundo, formando uma coroa de velas carregadas só por mãos de príncipes. Então entrava o Santíssimo Sacramento conduzido por todos os personagens da corte, o moribundo era ungido e recebia o Viático no meio de todo mundo. Ele morria com todo o aparato da corte, com todo o cenário da morte esplendidamente realizado até com as pompas da vida. O funeral era uma pompa enorme!

Mas havia também a dor na véspera da batalha, a agonia da luta. Imaginem, por exemplo, um nobre de Versailles que sabia que mais ou menos toda primavera, verão e um pouco do outono, havia guerra. Então, enquanto dançavam aqueles minuetos, sabiam que dali a alguns meses aqueles homens cairiam na sepultura, aquelas senhoras estariam na viuvez, aquelas mães estariam sem filhos, aquelas filhas estariam na orfandade… E entre isso se dançava. Isso era Versailles.

Eles sabiam disso e aceitavam por inteiro. Na hora de partir para a guerra, iam com decisão para o sofrimento, como quem vai para uma festa, tendo a dor em vista por inteiro e sorrindo para ela por uma superior razão.

Myrabella (CC3.0)
Galeria dos Espelhos – Palácio de Versailles

E qual é essa superior razão? Entra aqui a galinha. É que vou realizar meu fim, farei aquilo para o qual existo e, por causa disso, apesar de todo o sofrimento, estou alegre.

Daí vem também a alegria e a pompa das festas com que a Igreja revestia a entrada de alguém para uma Ordem Religiosa. Uma carmelita, por exemplo. Entrará para uma vida de sofrimento, vai vestida de noiva, em meio a cantos e acordes de órgão.

Outro exemplo é a sala de armas de um castelo medieval. No tempo em que aquelas eram armas que os homens portavam e com as quais morriam, ali passava-se horas conversando. Era a serenidade e a grandeza de alma diante da dor.

(Extraído de conferência de 1969)

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