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Servir-Te, ó Maria, é reinar!

Ao iniciar o ano, em vez de olhar para o dia de hoje tentando desvendar, com os dados que ele nos apresenta, o dia de amanhã, seria mais interessante colocarmo-nos na perspectiva grandiosa revelada nas palavras dirigidas pelo Santo Padre Pio XII aos homens da Ação Católica italiana, a 12 de outubro de 1952.

Remontemos com o Papa até o século XVI. Desse distante ponto de mira veremos melhor o futuro que nos aguarda, talvez em data não muito remota, se não tomarmos o caminho de uma verdadeira emenda.

Fala-nos o Papa de três revoluções religiosas sucessivas. A primeira teve como brado de guerra: “Jesus Cristo sim, a Igreja não”. Clara alusão ao protestantismo que irrompeu no século XVI. A segunda lançou um brado de guerra mais audacioso: “Deus sim, Jesus Cristo não”. O Sumo Pontífice se refere evidentemente ao deísmo do século XVIII, que culminou com a festa do Ser Supremo durante a Revolução Francesa. Por fim veio uma terceira revolução, tendo por lema: “Deus morreu, ou antes Deus nunca existiu”. É uma indiscutível alusão ao ateísmo do século XIX. Como fato mais recente, o Papa indica uma consequência imensa no campo político, econômico e social: “Eis agora a tentativa de construir o mundo sobre bases que não hesitamos em apontar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma Economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma Política sem Deus”.

Onde há uma Política, uma Economia e um Direito sem Deus? Praticamente, no mundo inteiro. É este mundo, do qual se expulsou Deus, que se trata agora de organizar em bases novas.

Com efeito, nos Tempos Modernos o regime de união entre a Igreja e o Estado, que tem como corolário lógico a soberania da Lei de Deus no Direito, na Política e na Economia, começou a ser falseado. Conservando embora as aparências da união, o Estado laicizou gradualmente esferas cada vez mais vastas da vida temporal, e interveio abusivamente no domínio espiritual. Aquilo que antes da Revolução Francesa era uma simples situação de fato, depois dela passou a ser também uma situação de direito. Em outros termos, a vida temporal se foi tornando cada vez mais leiga e ao mesmo tempo o laicismo passou a ser oficialmente proclamado como o próprio fundamento da organização política, econômica e social. Em consequência, quase por toda a parte a Igreja foi sendo separada do Estado, e se tornou oficial que Deus nada mais tem que ver com a existência terrena dos homens.

Tal é o golpe tremendo, a chaga profunda de que padece o mundo contemporâneo. O mais – guerras, crises, confusão – não passa de consequência. E como não se faz cessar uma moléstia sem atacar as suas causas, enquanto não abandonarmos o laicismo e não voltarmos para uma sociedade que seja autenticamente católica de direito e de fato, estaremos caminhando de catástrofe em catástrofe até a crise que ponha fim a esta civilização.

Não é em vão que o Sumo Pontífice, falando do “inimigo” misterioso, autor de todas as desgraças de nossos dias, o compara a Átila. Com efeito, a figura do famoso chefe huno passou para a História e para a lenda como a personificação da força destruidora no auge de seu ímpeto, de sua universalidade, de sua invencibilidade. Ao que se conta, ele mesmo se intitulava “flagelo de Deus” e se jactava de uma tal força de destruição que nem a erva renascia sob as patas de seu cavalo.

Invadindo a Europa, já destroçara todas as linhas de defesa do Império Romano cristianizado. A conquista de Roma representava para ele a derrota do mundo civilizado. A capital da Cristandade estava sem soldados, sem armas, sem defesa. Nessa situação trágica, o Papa São Leão I saiu ao encontro do rei huno, seguido apenas de pequena comitiva e confiando unicamente na Providência Divina. Segundo documentos antigos, Átila, ao se acercar do Santo Pontífice, percebeu no céu os vultos de São Pedro e São Paulo que, com expressão terrível, ordenaram-lhe que retrocedesse.

Obedeceu-lhes o “flagelo de Deus”. Roma estava salva. Em face de Átila São Leão I passou a encarnar para todos os séculos vindouros a virtude da confiança, pela qual o fiel, mesmo nas situações mais extremas, não perde o alento e continua a lutar, esperando tranquilamente em Deus.

Caminhemos com ânimo calmo, vontade resoluta, sobranceria inalterável, nestes primeiros dias de um novo ano, olhando menos para Átila e seu poderio tremendo do que para o Papa São Leão e seu admirável exemplo.

Nós vivemos dias de confusão, cheios de incógnitas pesadas e terríveis; dias em que só uma coisa deve ser certa: é a deliberação de sermos cada vez mais de Nossa Senhora, mais unidos a Ela e dispostos a lutar por Ela.

Confiantes na intercessão onipotente de Nossa Senhora, continuaremos a lutar, certos de que a vitória será nossa.

Há uma frase latina que pode ser aplicada a Nossa Senhora: “Tibi servire, regnare est – servir-Te, ó Maria, é reinar”. Nós queremos para nós esta forma de realeza: servir a Maria ilimitadamente, até a hora em que Ela nos acolha no Céu.*

* Cf. Catolicismo n. 25, janeiro de 1953 e conferência de 26/12/1989.

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