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Miserere – O cântico da alma arrependida – I

Os Salmos Penitenciais exprimem um ato de contrição perfeito. Eles realçam a suprema grandeza e dignidade de Deus, ao mesmo tempo que apresentam uma profunda noção da gravidade do pecado e do estado miserável do pecador que reconhece o mal que fez. Eles consideram também a misericórdia, a bondade suprema e infinita de Deus.

São sete os Salmos Penitenciais inspirados pelo Espírito Santo. Eles cantam o estado de uma alma que se sente imersa no mal e, depois de se ter arrependido, considera a gravidade do pecado cometido, resultando numa profunda tristeza interior. Para enfatizar esse sentimento de ofensa à majestade divina, os Salmos realçam a suprema grandeza e a dignidade de Deus, o que faz sentir mais a torpeza da ação praticada pelo pecador.

Eles trazem um pedido de perdão – porque todas essas considerações fundamentam, dão motivo a isso –, e esse pedido é feito com gemidos, com expressão de dor, de consideração da justiça de Deus e de como Ele seria justo se punisse o pecado de acordo com sua gravidade.

Flávio Lourenço
Cristo Rei – Catedral de Aachen, Alemanha

Noção da bondade divina e agradecimento

Qual é o valor universal desses Salmos? O conjunto deles possui um ponto característico: eles são inspirados por uma profunda noção da gravidade do pecado e do estado miserável do pecador. Eles passaram a ser a própria expressão da alma pecadora que reconhece o mal que fez e se dá conta do quanto Deus é justo em castigar.

Mas, ao mesmo tempo que afirma toda a justiça de Deus e o merecido da punição, o pecador tem uma profunda noção do mal que cometeu e considera também a misericórdia, a bondade suprema e infinita de Deus e, por causa disso, tem uma entranhada confiança em que Deus há de purificá-lo de seu pecado e restituir-lhe o estado de virtude que tinha outrora.

A misericórdia existe em função de um mal autêntico. Uma misericórdia em função de um pecado inautêntico é uma quimera! Ela existe em consequência de um mal grave efetivamente cometido, reconhecido com uma dor que envolve uma humilhação pessoal.

O pecador não se lamenta apenas de ter praticado o mal, como poderia lamentar de ter matado, sem culpa alguma, uma pessoa. Ele lamenta a culpa, reconhece-a admitindo que a raiz do pecado está nele, e tem tristeza de que nele haja essa raiz de pecado. Então confessa isso a Deus com humildade.

Tendo confessado, nasce a esperança da misericórdia. Deus, entretanto, tem uma misericórdia maior do que a maldade do pecador, maior do que o castigo merecido. Pede-se a Ele que atue na alma, corrija o pecado, perdoe e, em atenção a essa fraqueza, que Ele atenue o castigo. Enfim, que Ele seja o Pai infinitamente bom, embora o pecador não mereça de nenhum modo aquilo que implora.

O culpado pede misericórdia, sabendo que não merece. Por isso a confiança é admirável. Tem certeza de que obterá pela bondade d’Ele, é um ato de amor e de reconhecimento da bondade divina. A Deus o pecador se dirige cheio de certeza.

Luis C. R. Abreu

Depois de esboçar uma pintura negra a respeito da situação do pecador, os Salmos terminam com um ato de confiança. E vem então um agradecimento a Deus, porque o salmista reconhece, ele sente em si ou ele tem, por outra forma qualquer, a noção de que Deus ouviu a súplica de seu coração contrito e humilhado: “Eu sou ruim mesmo, fiz mal, a raiz de pecado está em mim, não foi um acidente, mas este sou eu”. Deus o perdoa e restabelece com ele – punindo ou não – a amizade de outrora.

Estes Salmos exprimem tudo o que a alma do pecador deve exprimir como conteúdo de um ato de contrição perfeito.

Linguagem tocante, tom grandioso

Os Salmos têm isso de muito bonito: são tocantes. Cada um desses sentimentos que o salmista expõe, ele o faz numa linguagem magnífica que, sem ter nada de exagerado, é o contrário daquilo de que o homem moderno gosta. Ou seja, eles são muito radicais, exprimem o mal que há no mal com uma energia e com um arrependimento! Enfim, tudo quanto o salmista deve manifestar, ele o faz com uma intensidade que indica a ótima qualidade da contrição em que ele está, porque está tocado pela graça de Deus e por isso ele se arrepende.

Há ademais nesses Salmos um tom grandioso. Esse tom vem, em parte, de um Deus magnífico, enormemente distante, e de uma criatura que se arrasta pelo chão, mas cuja voz se eleva numa varonilidade magnífica, cheia de tristeza e de dor; mas que são dor de varão e tristeza de varão que, de algum modo, transpõe essas distâncias.

Esse tom grandioso tem uma característica própria: é uma coisinha pequena que faz algo enorme. É a grandeza do pequeno realizando mais do que pode.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em junho de 1994

Eles têm também um tom profundamente católico, apesar de não serem inteiramente católicos, neste sentido especial da palavra, pois o Verbo não Se tinha encarnado, não havia habitado entre os homens, não tinha dito ainda que as delícias d’Ele consistem em viver entre os filhos dos homens (cf. Pr 8, 31).

Em função do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria esse tom muda. É como quem se dirige a um Deus exorável, é mais como quem fala com uma mãe.

De maneira que essa prece, ao passar por nossa mente e por nossos lábios, precisa ter um pouco dessa adaptação a um horizonte de misericórdia mais rico e mais definidamente misericordioso do que era no Antigo Testamento.

A mediação de Nossa Senhora

E, por fim, há outro detalhe: a mediação de Nossa Senhora nesse tempo não era conhecida. De maneira que não há a certeza da Medianeira Onipotente que nos acompanha o tempo inteiro e que está rezando por nós com uma misericórdia como a da mãe que pega o filho pródigo imundo, o abraça e o leva abraçado até o pai para pedir-lhe perdão.

Na parábola, o filho pródigo se apresenta sozinho (cf. Lc 11, 15-32). Depois de Nossa Senhora ter nascido, todos os filhos pródigos se apresentam ao pai junto com a mãe, e com a mãe abraçada ao filho asqueroso, porco, errado, arrependido; e ela o cobre com o seu manto e encaminha-o, dando-lhe coragem junto ao pai.

Há, portanto, uma retificação a fazer nesse registro de órgão cheio de esplendor dos Salmos que, entretanto, não deixam de ser a oração própria da alma penitente.

Estes Salmos passaram a ser aproveitados pela Igreja como os que traduzem a dor do penitente em todos os tempos, em todos os lugares, e exprimem de um modo arquetípico, de um lado, o remorso e, de outro a confiança na Providência divina.

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