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O embate entre a Revolução e a Contra-Revolução – II

Numa sociedade católica, há uma harmônica proporção entre as classes sociais. Uma civilização assim constituída proporciona ao homem estar sempre à procura dos valores supremos e da face de Deus que se reflete nas leis de estética do universo, dando-lhe sede de tudo quanto é excelente, nobre e sagrado. A Revolução procura eliminar isso. Eis porque a luta entre a Revolução e a Contra-Revolução é essencialmente religiosa.

A unidade supõe uma ausência de interrupção, que se pode verificar de duas maneiras: pela continuidade ou pela coesão.

Continuidade e coesão existentes nas classes sociais de uma civilização cristã

A continuidade é a simples ausência de vazios, para que, no ser uno, não haja hiatos.

Muito mais profunda é a unidade que se verifica pela coesão: neste caso há uma articulação interna entre os elementos, de modo que eles ficam presos uns aos outros por vínculos íntimos e poderosos.

Flávio Lourenço
Sagrada Família – Igreja de São Luís, Grenoble, França

Entre as classes sociais numa civilização cristã, deve haver continuidade e coesão. Embora numerosas e profundamente diferentes entre si, o todo que elas constituem é contínuo e coeso. É contínuo porque umas se explicam pelas outras, auxiliam-se mutuamente e formam um conjunto sem os hiatos que caracterizam a sociedade revolucionária. E é coeso porque as classes, embora distintas, estimam-se, defendem-se umas às outras, não se consideram estranhas ou inimigas entre si, mas se amam com o verdadeiro espírito de Nosso Senhor, que foi príncipe e, ao mesmo tempo, artesão. Como tudo isso é diferente da luta de classes do mundo moderno!

Ao tratarmos das leis da variedade e ao examinarmos a lei da gradação, vimos que deve haver hierarquia na Criação. Estudando agora as leis da unidade, veremos que essa hierarquia, para ser autêntica, deve compor-se de graus que se sobreponham uns aos outros harmonicamente, e não de qualquer modo.

Perfeita escada hierárquica

Na hierarquia, a variedade se assegura pela multiplicidade dos graus intermediários, ao passo que a unidade se assegura pela suavidade da transição entre esses graus.

É o que acontece com o arco-íris: as cores que o compõem se ordenam em uma transição suave. Vemos nisto a sabedoria de Deus, que criou o universo com uma magnífica unidade, expressão de uma grande força e, ao mesmo tempo, com uma magnífica variedade, expressão de um grande poder.

Pensemos na coroação de um imperador do Sacro Império Romano-Germânico. No momento em que o imperador recebia a coroa, bimbalhavam os sinos da capital do Império. Logo repicavam os sinos das cidades mais próximas; a seguir, os das cidades mais longínquas; e, por fim, os de todas as igrejas da Alemanha. Durante dias e dias os sinos repicavam, anunciando, de campanário em campanário, que o imperador havia sido coroado.

Davidg221 (CC3.0)

Consideremos esse tocar de sinos que se estendia por todas as Alemanhas: a Alemanha da Baviera, da Saxônia, de Dresden, de todos os tipos de alemães, desde o tipicamente militar, até o burguês bonachão da Baviera. Essa amplitude de repercussões da notícia da coroação do imperador por vários “mundos” dá a impressão de algo forte e suave ao mesmo tempo. Que poder imenso é o do imperador! Mas, ao mesmo tempo, quanta doçura há nesse império! Como a força e a suavidade nele coexistem harmonicamente!

São bem esses os valores que devemos amar do fundo de nossa alma, pois se relacionam com uma perfeição – a perfeição da hierarquia – na qual a variedade e a unidade se encontram num grau excelente.

Proporções belas, leves e suaves

A Sagrada Escritura nos narra que todas as coisas foram criadas por Deus com número, peso e medida (cf. Gn 1-2). Vemos, com efeito, que, em todos os corpos, a natureza, o movimento e a massa são proporcionais.

Temos um expressivo exemplo dessa proporção na Igreja Católica. Sendo uma organização imensa, riquíssima e belíssima, Ela se personifica, por excelência, na pessoa do Papa. A pompa e a dignidade papais, a beleza de sua corte, enchem a todos de admiração. Mas, ao mesmo tempo, achamos tocante que a Igreja Católica também se personifique num pequeno cura de aldeia, que é mais proporcionado aos camponeses, está bem ao nível das suas almas, não os intimida nem os constrange. A representação do sacerdócio de Nosso Senhor tem, nesses padres de aldeia, como que uma condição pequena, proporcionada àquela gente também pequena.

Suponhamos um estadista coberto de glórias que chega à sua velhice, e a Igreja delegue um monsenhor para cuidar de sua alma. É algo que, aliás, tem se dado na História. Imaginemos o velho estadista e o monsenhor conversando de forma amena e respeitosa. Não agiu bem a Igreja Católica reconhecendo e honrando a dignidade desse homem ao enviar-lhe alguém à sua proporção? É que a Igreja procura proporcionalizar a sua hierarquia à hierarquia civil. Seu amor é semelhante ao materno, pois uma mãe sabe dosar como ninguém a energia e a suavidade.

A proporção existia em grau excelente na hierarquia feudal. A nação, que se personificava no rei, também se personificava no pequeno senhor feudal, colocado junto ao povinho miúdo. Ele, o menor grau da aristocracia, iluminando com a transcendentalidade da nobreza o último grau da escala social.

Até com relação às bebidas podemos contemplar a proporção. Ao lado de vinhos do mais alto requinte, existem boas bebidas populares, feitas exatamente para o pequeno povo.

Essa é a proporcionalidade das coisas boas. Na casa do rei, há móveis dourados; na do camponês, os há de carvalho trabalhado, como em algumas regiões da Europa. Na casa do rei, há ouro e prata; na do camponês, objetos toscos mas que, por serem dignos e artísticos, às vezes valem o ouro e a prata.

Jean Fouquet, Tours(CC3.0)
Coroação de Carlos Magno pelo Papa Leão III, em 25 de dezembro de 800

Essa é a proporção bela, leve, suave, razoável, que devemos, pois, amar com todas as nossas forças.

Beleza da simetria entre iguais

Imaginemos um edifício com uma fachada tão extensa que corra o risco de perder a unidade. Se, entretanto, ele tiver nos dois extremos duas torres iguais, sua unidade estará, pela simetria, reconstituída.

Na História do século XVI vamos encontrar uma cena que ilustra bem isso. Francisco I, rei da França, e Henrique VIII – que ainda não se tinha feito protestante – decidiram encontrar-se. O lugar depois foi chamado Camp du Drap d’Or,1 tal o luxo, tal a magnificência de que se revestiu o fato.2 Basta dizer que, no campo de Francisco I, as tendas eram douradas. O encontro entre os reis realizou-se em uma ponte. Imaginemos a beleza do encontro dos dois soberanos e das duas cortes que chegavam. Na ponte inteiramente coberta de tapetes, um rei se inclina diante do outro, cumprimentando-se assim mutuamente, enquanto as trombetas soam.

Quando os franceses querem descrever a atitude dominadora de um homem, dizem que ele tem o ar de um rei recebendo outro rei “L’air d’un roi recevant un roi”. Em que consiste a beleza de um soberano recebendo outro? É exatamente a beleza da simetria, na qual dois princípios iguais se contemplam um ao outro e, de certo modo, se multiplicam um pelo outro.

Na Cristandade, a existência de muitos reis iguais em força, glória e poder era exatamente uma expressão do princípio de simetria.

Beleza que engloba várias perspectivas

A quinta lei da unidade é a da monarquia. Ela é indispensável para a beleza da vida humana. Todas as coisas, para serem reduzidas à sua unidade, devem tender a se ordenar em torno de um elemento supremo, que será um símbolo, uma como que personificação do conjunto. E é essa personificação que dá perfeição à unidade

A monarquia não é, como poderia talvez parecer, o oposto da hierarquia, mas, pelo contrário, é a sua consumação. Nela, a beleza de todas as diversas perspectivas como que se concentra.

Ao lado da lei da monarquia, há a da sociedade. Ela consiste em que as coisas, postas juntas, se completam e se embelezam mutuamente.

Analisamos, embora de forma muito sucinta, as leis da estética do universo. Trataremos de mais um ponto, muito relacionado com esse assunto.

Só um católico consegue compreender inteiramente o princípio de unidade e de variedade do universo

Tomemos as palavras: decente, excelente, nobre, majestoso, sagrado. Elas constituem uma gradação ascendente.

De um determinado objeto, pode-se dizer primeiro que ele é decente, o que significa que não tem nenhuma nódoa de vergonha. Além de decente, pode-se afirmar ser ótimo, excelente. Excelente já é mais que decente.

Poder-se-ia, prosseguindo, apor o adjetivo nobre, que é especificamente mais do que excelente e decente. Mais do que nobre, poderemos dizer que o objeto é majestoso, adjetivo que, não é, entretanto, especificamente diferente de nobre, pois dele difere somente em grau. Por fim, poderemos acrescentar que o objeto é sagrado quando contém valores que superam a majestade humana.

Nessa gradação de valores, um espírito muito religioso será atraído por aquilo que melhor espelha a perfeição de Deus: o majestoso e o sagrado. Ele procurará, em tudo, esses supremos valores, e terá sede deles.

Tendo esse espírito, o homem desejará uma sociedade em que, ao lado de muitas coisas decentes, haja várias excelentes, nobres, majestosas e sagradas. E então esse homem criará naturalmente uma sociedade que realiza, dentro dessa ordem quase fluida de coisas, uma admirável variedade e uma perfeita unidade

bAFv_RSYuCwJlg (CC3.0)
Camp du Drap d’Or – Royal Collection

Compreendemos pois que, quando uma pessoa conhece e ama os princípios da variedade e da unidade do universo, e quando essa pessoa é católica – pois só o católico pode compreender inteiramente esses princípios – ela é, de fato, profundamente religiosa, no sentido mais verdadeiro da palavra.

Entendemos, então, porque nos exemplos citados do grão-duque Nikolai Nikolaevich e da rainha Maria Antonieta, estava envolta uma questão religiosa.3

Um modo de lutar contra a Revolução

Esse quadro que descrevemos da estética do universo com suas leis, os reflexos divinos colocados pelo Criador em todas as coisas, em última análise, tudo o que os verdadeiros católicos amam, tudo aquilo de que têm sede, tudo isso a Revolução quer destruir, eliminar, apagar.

E é nisso que consiste a questão religiosa, que não se restringe ao problema do laicismo da separação entre a Igreja e o Estado. É uma questão que se resolve fazendo apenas uma concordata e declarando que a Igreja Católica é a oficial no país. Toda uma concepção da vida, todo um modo de ser do pensamento humano estão em cena.

Como contrarrevolucionários, pois, devemos amar profundamente a face de Deus que se reflete na ordem verdadeira das coisas, que a Revolução odeia e quer de todos os modos destruir.

Mas, para que nosso amor chegue até onde deve, é preciso que nos exercitemos em aplicar essas leis da variedade e da unidade. De tal forma que, sempre que algo nos causar admiração e nos deleitar, saibamos perceber qual das leis da estética do universo está aí aplicada.

Fazendo isso continuamente, faremos coisa imensamente agradável a Nossa Senhora, porque atenderemos ao chamado que d’Ela recebemos, de lutar contra a Revolução.

(Extraído de conferência de 1/2/1965)

1) Do francês: Campo do Pano de Ouro.

2) Fato ocorrido no ano de 1520.

3) Ver Revista Dr. Plinio, n. 335, p. 30.

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